Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Grapefruit! (toranja ou pomelo) E a goiabeira!









Manhã de sexta, 26. Hoje fotografamos o setor das laranjeiras, enquanto cuidávamos de deter as brocas, pela segunda vez desde que começamos a limpeza do pomar. Se não me engano, sob o título “O pomar” descrevi esse nosso afã. Descrevi os braços descarnados, sem cobertura de pele viva, num clamor aos deuses dos cítricos, que ficou sem resposta. Os dedos compridos e tristonhos da laranja grapefruit, lá encima, parecem invejar a amiga logo atrás com grandes frutas ovaladas, de um verde amarelado e cheiro amargo. Se pudessem restituir-lhe o viço certamente ficaria ali parada, movimentada apenas pelos ares e ventos e brisas da serra, exibindo nas pontas de seus dedos uma fruta mais pesada que a outra, para inveja das macieiras, pereiras e marmeleiros que se apressariam em mostrar suas qualidades. Agora, sua amiga grapefruit viverá sozinha, sem poder competir pelos bicos e garras de pássaros, ou pelas abelhas, arapuás e marimbondos pousando em suas grandes flores jasminadas... A não ser que algum humano intervenha e, disfarçado de deus das laranjeiras lhe dê uma companhia! Isso é bem possível. Aí, neste momento mágico, os dedos, mãos, braços, troncos, da malfadada amiga servirão de energia para a nova moradora da serra. Talvez esse humano, tomado pelo delírio da vida, plante as escondidas, a noite talvez, para que de manhã ela leve um susto com a chegada da nova amiga. Ah! Bom! Isso já é demais. Como disse Sartre em algum lugar, entre nós e a natureza não há comunicação. Aliás, ele era urbano até os ossos, não ia tolerar essa conversa sobre bosque, serra, árvore clamando etc! Grapefruit, só no uísque! diria. Minha admiração por ele o perdoaria, certamente. De qualquer modo, essa fruta da Malásia, tanto a de caldo branco, quanto a de caldo roxo, é comestível e sua polpa dulçamara pode ser usada na preparação de um delicioso refrigerante e as cascas servem para doces em calda ou secos. Seu uso medicinal mais acentuado é contra os problemas urinários. De início, antes de qualquer coisa, o que gosto mesmo é do cheiro exuberante das pétalas jasminadas de suas grandes flores. Eu, Vania, as abelhas e concorrentes...

Um melhor destino para a goiabeira!
Enquanto eu estava em São Paulo, Vania cuidou de melhorar a vida de algumas árvores. Das cabeludinhas, amoreiras, anoneiras, tamarindeiros e, claro, de uma goiabeira em particular, que estava condenada a morrer, por ataque das brocas. No ano passado, enquanto estávamos em SC ela deitou-se de lado para descansar da anemia que a acometeu. Por um desses combates entre espécies, as brocas foram derrotadas e bateram em retirada em direção aos limoeiros e laranjeiras. A goiabeira com parte de suas raízes ainda vivas, vinha conseguindo, verdade que a duras penas, brotar umas folhinhas bem verdes, aqui e ali, em seus galhos de mármore róseo. Essa teimosia foi recompensada com a serra de seus galhos já mortos, limpeza do chão e a chega de material orgânico em suas raízes, escondendo-as dentro do chão. “Isso vai virar doce, suco de goiaba e creme para acompanhar os assados no fogão a lenha!” comentou V. apontando para um filhote de goiaba já deslizando pelo vão de um dos brotos. Acho que sua premonição tem toda a chance de acontecer!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Surfando uma onda de ombros!

Fora do metrô e já me deparo com uma parede humana! Centenas de pessoas apinhadas antes das escadas no Jabaquara, descendo lentamente, como se estivessem acompanhando um morto. Isso me lembra as procissões de féretros em Apucarana, eu ainda menino, olhando de soslaio, de canto de olho, o caixão de algum vizinho que desaparecera, sem mais o quê. Podia me aproximar o suficiente para ver algum canto de rosto macerado, mortalmente pálido... E aquele povo andando devagar atrás do morto... E isso me lembra a vó Pina bem acomodada em seu caixão no centro da sala de tia Isaura, e eu mal acomodado na existência, achando que depois não viria mais nada de bom! E não é que veio! E isso me lembra... esquece! Volto ao metrô.

Olho para frente e vejo uma onda de massas arredondadas, formando ombros, encimadas por globos cranianos com uma profusão de cabelos alinhados, desalinhados, crespos, lisos, ondulados. Aquela movimentação para-lá-para-cá, compassada, de acordo com um passo ladeando para a esquerda, de acordo com outro para direita, formando uma onda, mais ou menos organizada. Do alto dos meus cento e sessenta e três centímetros, fora sapatos, posso ver umas caixas cranianas privilegiadas que flutuam a cerca de trinta centímetros da massa, surfando uma onda de cabeças e ombros que deslizam para lá, deslizam para cá, todo mundo tentando ver o que acontece. Algumas bem humoradas cabeças sacam seus celulares e brotam braços que se erguem acima das cabeças flutuantes, até mesmo daqueles que surfam nossas cabeças rentes a seus sovacos, e clicam. Talvez esperem mostrar para sobrinhos, filhos, netos como foi o dia. Um certo clicador me pareceu tentar uma foto artística; outro, uma foto para o patrão!

Uma voz masculina, compassada, clara, timbre audível, estilhaça o relativo silêncio: O SERVIÇO ENTRE LIBERDADE E SÉ FOI NORMALIZADO! AGRADECEMOS SUA COMPREENSÃO! Ninguém parecia ter ouvido! Nenhuma reação. Apenas um sujeito, destes cujo mau-humor é sempre uma lufada de ar fresco: OBRIGADO SENHOR! FICO MUITO TOCADO POR SUA CONSIDERAÇÃO! (olhando o relógio e meneando a cabeça).

A onda continua, as cabeças bem localizadas surfando as nossas. De repente uma cabeça que repousa em uns ombros de metro e meio tenta furar a onda! Um daqueles ombros gigantes, com cabeças grandes, volta-se lentamente, fixa os olhos castanhos nos olhos do pequeno ser lá embaixo, manda-lhe um raio de fúria contida e esfacela as pretensões do baixinho. Tudo volta a normalidade. A onda continuou sem surpresas e passou pelas catracas deslizando para baixo da terra...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Indo e vindo!


Aí estou eu, hoje, 23 de junho, na entrada da rodoviária de PA, esperando meu ônibus de cada semana! O alarido comum a estas situações, com todos falando suas aventuras e desventuras ao mesmo tempo, já se foi... hoje cheguei mais tarde e posso ter a rodoviária neste clima agradável de um ou outro som distintos entre si. No fundo uma tevê, com aqueles taxistas de sempre; já velhos conhecidos com seus modos previsíveis, olhando com olho comprido seu possível cliente. Então Vamos!


Dia comum, se não fosse o ballet no Teatro de PA!
No sábado, depois de nossos trabalhos usuais, no pomar principalmente, nossos amigos Amanda e Zé Maria nos visitaram trazendo uma antena de celular que poderá melhorar nosso sinal. Não sei se poderemos usá-la para internet, mas é o que perguntarei hoje em PA. Presenteamo-los com um generoso saco de laranjas, mexericas, bananas e anonas... Não puderam aceitar o convite para ir ao teatro assistir o espetáculo “Ballet Luiz Henrique Dança Grandes Compositores”.
A “Ária” de Richard Vagner e Luiz Henrique e Kerly Nami no elenco, abrem o espetáculo! Local: Teatro Municipal de Pouso Alegre. Dia 20 de junho. No programa veríamos ainda danças com as músicas de Camille Dalmais, Antonio Vivaldi, Sergey Rachmaninov, Adolphe Adam, Cesare Pugini, Tom Zé, Caetano Veloso; para bordar o espetáculo com um humor fino, bem costurado, pontual, no tempo tempo certo, lá estavam o ator Luiz Fernando – que nos apresentou a impagável “Irmã Selma” e noutro quadro o “Alberto” (marido da gozadíssima “Giuvanelle”, encarnada por Charles Pierre). Foi uma noite emocionante. Particularmente quando Luiz Henrique apresenta as pequenas bailarinas de seu projeto de dança e um pequeno bailarino, cuja graça encantou todo mundo!
Há anos V. e eu conhecemos Luiz quando fomos aprender danças de salão, quando sua academia se localizava no P.A. Shopping; aprendemos os rudimentos de várias danças e V. fez ballet com ele; mas em certo momento tivemos que ir, de mudança, a SC, interrompendo os treinos. Agora estamos voltando e para reinaugurar nossas relações, quisemos que fosse de modo marcante. Não deu outra! Ao sairmos do teatro encontramos um Luiz untado pelas palmas e elogios! Seu semblante era dos que acabara ali um longo processo de criação, edificação, adaptação e apoteose do trabalho de dançar. Todo seu trabalho e de uma equipe de colaboradores e bailarinos atingira seu clímax! Agora é esperar sua nova aparição pública! Depois quero falar de seu projeto de dança para crianças...


Domingo, um dia normal ou extraordinário?!
Uma coisa que muda muito no mundo rural é a relação com o tempo; quero dizer, o tempo que se conta em dias da semana e o imaginário que fazemos deles. Por exemplo, no domingo levantamos mais cedo que o usual, demos de comer aos nossos amigos peludos e fomos cuidar das uvas japonesas, caçar formigas saúvas e em seguida, com a roçadeira eu, e V. na enxada, fomos roçar e limpar o pomar no setor das laranjeiras. Isso até metade da tarde, quando almoçamos, descansamos e assistimos o jogo do Brasil contra a Itália. Depois lemos...
Pensando melhor, vejo que nossos vizinhos, lá do pé da serra, Zé Luiz e família, Ademir e família, Antônio e família, têm sim um sentido de sábado a tarde e domingo, que não parece com o nosso. Eu diria que eles descansam nestas horas; seus dias são organizados de modo que no fim de semana nada fazem, como se tivessem cumprido suas tarefas. Não é o nosso caso; nossas tarefas não se especializam em dias ou horários. Eles encerram o trabalho às 16:00h; nós só ao escurecer. Eles começam antes de clarear; nós já com o dia começado. Parece que nossas vidas anteriores de gente que viveu em São Paulo por décadas, desconstruiu o imaginário da roça, para o bem e para o mal, suponho, embora a parte má ainda não conheci! Não temos obrigações marcadas, mas temos as responsabilidades sazonais, quero dizer, se não limparmos, por exemplo, o pomar até a chegada das águas, teremos falta de frutas. Bem, não sei como enunciar, mas de fato, nossa semana não é a mesma de alguém da cidade, mas também não funciona como funciona para o homem do campo!


Em tempo:


Emocionada com o espetáculo de ballet do nosso amigo Luiz, Vania pediu que eu colocasse nos blogs a poesia que fiz para finalizar a fita de vídeo e o espetáculo teatral “Nájua e os elementos da natureza” que patrocinamos e produzimos com a mitológica coreógrafa e bailarina. Isso foi nos tempos em que criáramos o “Ashram-Centro de Estudos da Medicina, Arte e Filosofia da Índia antiga” (1990-2000) e resolvemos homenageá-la. Então, aí está...
Na semana que vem coloco um pedaço do espetáculo aqui.

Mãe Natureza - III


Há muito tempo,
na madrugada desta era,
a Senhora dos Elementos empunhou
a sagrada espada da virtude
e dançou sobre as areias da Mãe Terra.
Bebeu das nascentes míticas
da Deusa Montanha
deixou seu âmago ser lavado
pelo fluido telúrico
do ventre da rocha.
Forjou o áurico peito
em chamas ardentes
e neste fogo alquimizou
suas paixões mais recônditas,
Deixou-se transportar
para etéreos rincões do elemento ar,
pairou por sobre todas as criaturas,
alentou todos seus conheceres.
E por fim descansou entre os homens
embalando-os ao som da música
de seu sagrado corpo,
Instalou-se no mais íntimo de cada ser.
e pelos eons vai
apaixonando amantes,
inspirando poetas,
extasiando filósofos,
ou simplesmente
soprando alento em cada ser.


Poesia realizada para verbalizar a arte de
dançar da grande bailarina Nájua.
1998

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O som e a fúria!

Há certo gozo com a agressividade de se viver em São Paulo, ou nas cidades, ou aqui no Cervo; de ordens diferentes, é verdade. Há certa fúria surda na defesa comezinha de ser cidadão e ter direito a ir e vir, fazer e desfazer, viver no espaço citadino... Penso nisso, quando, ao andar pela Domingos de Morais, próximo ao consultório em São Paulo, fui ouvindo uma música que tocava no carro de um jovem. Nada que eu ouvisse no fone de ouvido ou num fundo musical para uma tarde de leitura nos meus sábados no Cervo. Sequer ouviria aquela música para me divertir ou esquecer que estou no ruído da cidade; prefiro o rugir dos carros! Mas lá estava eu ouvindo-a! O jovem talvez já estivesse com os tímpanos rompidos, por isso nada sabia da vizinhança!? Eu não queria ouvir aquilo..., mas ouviria até virar a esquina, e cem metros depois ainda podia ouvi-la, nitidamente. Depois, só o troar dos carros...
Como saber que se está invadindo os limites do outro, numa cidade em que se consegue o milagre de colocar dois corpos em um mesmo espaço físico? Bem, para que a fúria não me surgisse em algum escaninho do corpo, pensei em delícias que posso criar, no meio da fúria do som! Que William Faulkner não me leia do seu túmulo quase centenário, fazendo jogos com seu título de livro...

terça-feira, 16 de junho de 2009

De PA a SP - II!

Pois é! Já em SP! Moleza! O frio menos intenso; a correria distrai; o jogo de ombros no metrô para encontrar um lugar ao sol, isto é, no vagão. Céu cinza, mala na mão; celular na mão, um olho no céu (será que chove?); a vida contada em minutos (segundos?), os minutos contados como a razão da vida; nada a reclamar - pois tudo parece natural, como se não fosse um jogo de forças entre os estratos sociais! Então vamos...! Daqui a pouco ouvirei outras versões de São Paulo...

De PA a SP!

De domingo passado, até hoje de manhã; frio intenso, ardente nas mãos, mesmo por debaixo das luvas; ar agudo entrando pelas narinas! E o prazer de fazer algo que faz parte de mim desde os nove anos de idade...!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Segunda em Pouso Alegre!


Dia de começarmos a aguar a horta e flores recém-plantadas! Quando percebemos, já são três dias sem chuva! Apesar do frio manter úmido embaixo da terra, de fato poderemos ter prejuízos se não aguarmos todas com generosidade. Apesar da baixa temperatura nossa horta está em uma situação no terreno que não permite cair até zero e “queimar” nossas verduras. Sua textura delicada e crocante não resistiria a uma camada de gelo, por mais fina que fosse. Ainda assim, prevenidos, ficamos prontos para aguar também durante a geada. Se ligarmos os aspersores de água o gelo não se forma e salvamos a horta! Nada fácil suportar a temperatura e lidar com água!
Agora estou em PA para contatos com o Conselho de Psicologia, o museu, a UNIVÁS. Os dois últimos em função do artigo sobre o teatro municipal. Ah! E também para comprar provisões! Só para me lembrar: abaixo deixei escrito o sábado e o domingo. Sobre aquelas perguntas de V. a partir do livro Tratado de ateologia fiz um resumo no http://www.levileonel.blogspot.com

Sábado, 13/06 – Surpreendentemente o dia amanheceu azul claro e limpo, apesar de gelado (quatro graus às sete e trinta e com sol). Os três dias anteriores foram chuvosos! De manhã fiz os buracos onde colocarei o varal de roupas; o anterior está de tal modo localizado que a sombra da serra o atinge por volta das três e meia da tarde. Com isso perdemos pelo menso mais uma hora de sol nas roupas. Localizado entre a tulha e o setor das nespereiras (na foto está do meu lado direito), ele será perfeito também no verão. Estamos a poucos dias da estação de inverno e os dias estão cada vez mais curtos, particularmente aqui nos bosques que estão na face sul da serra. Isso diminui bastante nossa exposição a luz; às dezesseis horas já sentimos a temperatura despencar, por causa da sombra gigante da serra. Seus ombros ondulados tem seu ponto mais alto justamente atrás de nossa casa.
Ainda antes do almoço fomos para o pomar para dessa vez livrar os cambucizeiros, pitangueiras, cerejeiras, bem como mais alguns pés de limão galego, rosa e o pé de jaracatiá. O trabalho é pesado! Parte é feito por mim na roçadeira, baixando a braquiária e ramos finos; na foice cortando assa-peixes e alecrins; no enxadão, arrancando tocos que deixarão livre a terra, para que na estação das águas eu não tenha tanto prejuízo com peças sobressalentes da roçadeira (os tocos destroem com as laminas e cardãs, principalmente). V. carrega os ramos cortados e os deposita em uma vaga deixada por um limoeiro morto por brocas, onde, depois de secos virarão matéria orgânica (daqui a dois anos) e as sobras irão para o fogão a lenha. Usa a enxada para juntar o capim em voltas das árvores e carpir algumas touceiras que não foram tosadas pela roçadeira.
Almoçamos legumes, verduras, pimenta biquinho, ervas da horta e uma porção de carne. Descansamos e voltamos para o pomar. V. continuou o que fazia de manhã e eu passei a podar as árvores, para retirar galhos secos e abrir a copa para entrada de ar e luz. Prestei atenção particular as pitangueiras e cerejeiras que são mais delicadas. No último terço da tarde saímos pela propriedade verificando se havia formigas e colocando iscas; se não fizermos isso agora no outono/inverno nada colheremos especialmente dos caquizeiros, que são os preferidos das saúvas e quenquens. O dia esfriou drasticamente, sem aviso; de repente a pele enrijece, as narinas ardem e camiseta suada por baixo de um grossa camisa de trabalho, já não dão conta do ar frio. Ajeitamos o canil para resistir à baixa temperatura, com vários panos dentro das tocas de cada um de nossos amigos, cortinas para cortar o vento e bastante ração reforçada com carne e legumes para que façam bastante calor corporal. Seus olhares apaixonados parecem confirmar que tivemos sucesso no empreendimento! A noite foi realmente a mais fria desde que o outono se instalou...

Domingo, 14/06 – Correr hoje de manhã foi mais sacrificado. Pela primeira vez desde que o outono se fixou tive que usar luvas para correr às oito e pouco da manhã! Resolvi correr um pouco mais tarde para evitar muita diferença de temperatura (zero grau de madrugada e quatro às sete). O ar entra cortante pelas narinas e esta, por sua vez, se defende produzindo líquidos que tem a função de manter a temperatura minimamente equilibrada preparando para que não entre tão fria nos pulmões. Em compensação a neblina e o sol brilhante deram show! Cada metro da estrada foi uma experiência sem preço! V., desanimada por um resfriado mais forte, teve que andar apenas. Aproveitou para fotografar a paisagem e mostrar o itinerário que fazemos na corrida diária.
Ao voltarmos retomamos o pomar, onde usei a roçadeira para fazer um novo pedaço. Pelo fato de ter ido para Santa Catarina, por dois anos, e ele ficar sem cuidados, isso fez com se tornasse bastante “sujo”, o que exige, pelo menos por mais um ano, esforço de recuperação. É um pomar bastante variado e grande, com mais de trezentas fruteiras! Hoje só roçamos e carregamos os ramos grandes para o local em que será transformado em matéria orgânica. Almoçamos e procuramos por formigas. Decidimos descansar no final de domingo lendo. Eu: um capítulo de História e memória (Jacques Le Goff); o artigo Arte como produtora de memória social: uma discussão a partir da
obra de Vitor Meirelles (Roberto Heiden); 3 capítulos De Cidade antiga (Fustel de Coulanges); primeiro capítulo de Cidade dos sentidos (Eni Orlandi) e Terra à vista! (idem). A idéia é preparar um sub-capítulo de meu artigo sobre o teatro de PA – para isso tenho que ler sobre teatro, patrimônio histórico, sentido discursivo de memória etc. Encerrei parte dos estudos as vinte e uma horas.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Feriado vai feriado vem...

Anteontem, numa viagem que normalmente se dá em três horas, meu ônibus gastou cinco horas e meia; Não por causa do excesso de veículos (que de fato havia!), mas por causa de um engavetamento com com vários carros, sendo o meu ônibus um dos responsáveis! Ficamos horas na Fernão Dias, entediados, impacientes, sob chuva milimétrica e fria, parecendo mais molhada que as chuvas de verão. Os pingos, no outono e inverno, não desabam. Eles deslizam uns apoiando-se noutros, mas sem juntarem-se. Ficam de ombros próximos, por causa de sua debilidade de tamanho. São fiapos de pingos; qualquer brisa e descem meio de resvalo, de lado, encharcando antes de molhar. Para usar a situação a meu favor, li alguns capítulos de “A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott” de Elsa Dias e o capítulo XXV de “Da pediatria à psicanálise” do próprio W. (para um curso de extensão que darei sobre delinquência – a tendência anti-social) e revi meu artigo sobre o Teatro Municipal de PA. Conversei com os vizinhos de poltrona: um deles veio de Marabá no Amapá (viajava desde o início da madrugada migrando de aeroporto a aeroporto até que embarcara naquele ônibus em direção a Boa Esperança. Noutra conversa fico sabendo que uma garota de dezessete anos aproximados estudava em SP para os vestibulares de medicina. Com seu boné estiloso, xadrez de branco e preto, manipulando concentradamente os apontamentos de matemática, que era seu “grande problema com os vestibulares”. Boa de papo, sorrindo acolhedora com seus grandes dentes alinhados, brancos e limpos, com o anoitecer ela foi arrefecendo de cansaço. Escureceu umidamente. O ônibus finalmente arrancou e ela puxou o boné sobre os olhos. Um a um, praticamente todos mergulhamos em nossos mundos feitos um tanto de sonolência, outro tanto de pensamentos, reminiscências e esperas. Ontem, depois de ficar afundado, por horas, no mundo lacunar do sono e dos sonhos, acordei restaurado. Pela janela que dá para os pinheiros, azeitonas do ceilão, roseiras e mangueiras, vi espessa cerração que dava a cada árvore aspecto espectral; mais se via seus contornos, que detalhes. Mas, como as conheço de nascimento, sei que uma é roseira amarela, outra é uma agave verde acinzentado, outra ainda, uma mangueira espada. Fiz o café da manhã, simples e eficiente; Vania levanta-se; Rabicho, Soneca, Kelly e Gabi são convidados a entrar. Eles também são alimentados; já calmos nas entranhas cada um procura seu lugar na casa para a dormitação que se anuncia. Lá fora começa aquela chuva fina, cujo ofício é encharcar o mundo... Sem condições para trabalhar a terra, fizemos nossas leituras da vez – eu li um capítulo do “Tratado da Eficácia” e outro de “O ser e o nada”. Para treinar o francês, “Madame Bovary”. Vania leu mais um pouco do “Tratado de ateologia” e em certo momento quer saber porque Michel Onfray diferenciou “teístas”, “deístas” (menos cegos) e “ateístas” (mais lúcidos). Veja na terça que vem http://www.levileonel.blogspot.com).

Mais tarde descemos a serra até a casa de Zé Maria e Amanda para um almoço aconchegante. Conversas mais ou menos esparsas com novos conhecidos e outros já conhecidos de um bingo no Clube Literário; tratamos um futebol para qualquer dias desses – o ridículo é que não jogo desde os treze anos de idade. Será um desastre que só dará video-cacetada e bola-murcha para apresentação em tevê para divertimentos dos espectadores. Pelo menos de minha parte a diversão estará garantida. É mais que certo que riremos a beça!
E depois, como continuou chovendo, escrevi e li. Além, é claro, de alguns cuidados domésticos, sem os quais fica impraticável morar... A noite um pouco de tevê assistindo um seriado brasileiro.

Hoje, 12, o dia amanheceu plúmbeo, como diziam os clássicos, frio, úmido; nenhuma brisa, o que mantem a temperatura razoavelmente mais alta que a de ontem. Daqui a pouco vamos a PA para a compra de provisões e ir à biblioteca da UNIVÁS. Neste momento, escrevendo estas linhas, chego a conclusão de que devo comprar um dicionário com a renovação ortográfica, para praticar e não passar apuros quando terminar o prazo para que todos a adotem. Já uso um pouco de memória, por ter lido um ou outro livro e artigo que já usam a nova ortografia, mas não é o suficiente. Tenho que aprender as regras gerais, senão terei que usar o dicionário muitas vezes por dia...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Véspera de feriado!

Amanhã, feriado! Hoje a tarde a loucura da saída de São Paulo; mais de milhão de carros espremidos nas avenidas e superavenidas paulistas em direção a praia, interior, outros estados. Todos tentando descansar um pouco, divertir-se um tanto, esquecer um algo. Mas não é simples assim, divertir, descansar, esquecer custam caro ao sistema nervoso, ao bolso, a existência... Mas, como esquecer as agruras faz parte da arte de continuar tentando ser feliz, lá vão todos passar por novos aborrecimentos para tentarem a felicidade... Deve ser porque a felicidade mora na praia, no campo ou na casa do vizinho! Roquentin, em A náusea, disse que narrar é melhor que viver. Talvez as pessoas sofram tanto para divertir-se, na obrigação de ter algo a narrar na segunda, a alguém, nem que seja para ele mesmo ou para os netinhos. Quem sabe a melhor parte dos feriados é olhar as fotografias e fabular...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Diferença de temperatura!

Ao embarcar em PA para minha vinda semanal a SP, eu estava com bastante roupa! Agora, em meu consultório, depois de passar por um calor danado, metrô incluso, já instalado, me sinto bem, com um terço delas. É claro que alguém que mora a duzentos e trinta e quatro quilômetros do trabalho, passa por vicissitudes incomuns, dessa relação tempo-espaço-clima-clima-existencial, mas também usufrui de um olhar bastante diferenciado. Estou falando da diferença de temperatura existencial -ritmo emocional, angústia crônica, fadiga, desilusão, próprios de uma megacidade, versus ritmo sazonal - ligado ao clima, angústia da facticidade, cansaço físico, ilusão, próprios da vida enraizada no campo. Aqui não é o lugar de me explicar quanto ao que observo; sugiro ler de vez em quando o http://www.levileonel.blogspot.com onde repasso o assunto semanalmente. Meus pacientes me esperam...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Hoje, nespereiras, amanhã geléias de seus frutos adocicados!

Pouso Alegre: 17:34, segunda. Pois é, não dei sorte com a única lan aberta! Não postei ontem porque estava com problemas que nos impediam de entrar na rede; demoraria muito tempo e decidi postar hoje. Como já havia previsto, neste regime onde não tenho internet na serra as postagens sofrerão certa defasagem... Hoje, amanheceu e permanece um dia cinzento, com temperaturas baixas, cuja sensação térmica é ainda mais baixa por causa de um vento intermitente, cortante. De manhã, bem agasalhados, nos dirigimos, V. na enxada e eu na foice, para nosso pomar de nespereiras. Podamos, limpamos seu entorno e lhe demos o formato de taça, que facilita a entrada de ar e luz na copa. Isso nos renderá, para o verão, frutas naturais e geléias que comeremos no outono que vem. Agora vamos fazer a rotina de cuidados das nossas relações com a cidade: banco, uma visita rápida ao Luiz Henrique e sua escola, onde aprendemos dança de salão; irei ao museu para a continuidade do projeto de pesquisa e ao próprio teatro municipal.

Pouso Alegre: 11:00h, domingo. Passeio pela cidade que está cheia; ao passar pela praça central, ao irmos ao açougue do Roberto pegar ossos para nossos pupilos, nos deparamos com um conhecido movimento de fim de missa na catedral – pessoas aliviadas de seus pecados, de seus compromissos aos olhos da sociedade. Dá para adivinhar seu prazer antecipando almoços familiares e uma tarde em paz. Famílias inteiras – de netos a avós – concernidos, escusados pelo que passaram durante a semana de lida, preparando-se para a próxima, entremeio o alarido das crianças, a dormitação dos adultos e os sonhos dos jovens...

Na última sexta a serra amanheceu de ar limpo e a pouco mais de 4 graus de temperatura; na madrugada chegou a zero! Faz tempo que não sentia por aqui um frio desta ordem em maio. E veja que já estamos aqui há quinze anos, e morando regularmente a seis. No caminho para PA, onde faria consulta de rotina ao dentista, o para-brisa congelou e foi difícil fazê-lo transparente só com a água do limpador. Quando voltei – depois de ir ao conselho de psicologia para apresentar um projeto de cine-clube e plantão psicológico; de visitar o museu para o trabalho sobre o teatro; de tentar resolver (sem sucesso) a recepção de sinal de internet em casa – de longe vi a serra coberta por denso nevoeiro. A temperatura já subira o suficiente e agora seriam horas cobertos por úmido vapor que sobe do bosque. Uma vez em casa, enquanto ia estacionando em frente o Gravetos, barracão onde fica um fogão a lenha, o divisei atravessado por uns poucos raios solares vindos por entre uma moita de eucaliptos, marcados pelo desenho feito na cerração. Foi um espetáculo digno de efeito especial cinematográfico; alias o dia estava para efeitos especiais, o que se comprovou depois com revoadas de maritacas tipo maracanã, os ritos sexuais feitos de voos rasantes e sons roucos dos urubus, que há anos fazem seus ninhos em uma pedra acima de nossa morada, numa das dobras da serra.

Hoje, sábado, arrumamos a tulha, para que sobre espaço para as novas ferramentas que chegaram de Monte Santo, dia 18 passado. Fizemos a faxina geral da casa e colocamos ordem em dezenas de objetos que estavam mais ou menos sem lugar certo. Cansativo, mas extremamente útil, para quem necessita fazer as tarefas diárias no pomar, horta, plantações de subsistência e ainda dar conta da moradia. Quase sem móveis ou objetos supérfluos, é uma casa fácil de cuidar; ainda assim, precisa de uma arrumação mínima...Assistimos duas horas de tevê e fomos, ao final do dia, quase escurecendo, verificar se as saúvas e quenquens estavam atacando marias-sem-vergonhas, roseiras, espirradeiras, jabuticabeiras... E estavam! Deixamos nos buracos de suas entradas um produto granulado que tem a função de criar fungos em sua comida (as folhas sofrem uma oxidação dentro do ninho delas) e isso as desestimulam de procura comida naquela região. Foi o que fizemos...!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

São Paulo! São Paulo!

Gigante eternamente semi-adormecida à noite, semi-acordada durante o dia, por suas artérias correm veículos metálicos que carregam microrganismos grudados em volantes, tentando dar conta da própria vida ocupando-se das dos outros. Que fazer se esta é a condição do citadino? Bem, não tenho resposta! De minha parte vou me deslocando, vagarosa e decididamente, para uma vida fora deste centro, cujas inervações alcançam até Espírito Santo do Dourado. É dificil e complicado para quem viveu por trinta anos em SP - mas não impraticável - viver de/numa cidade pequena. Mas, se minhas pretensões forem outras que as do sujeito de mercado usual... quem sabe? Já estamos, V. e eu, nesse longo processo e até agora - seis anos depois - nada nos indica que não seja uma alternativa muito crível, exequível... digna. Não que não seja digno viver em SP, mas que custa-se acreditar que a dignidade não será soterrada pelo mau estado simbólico-histórico da cidadania paulistana, isso custa! Não falo, certamente, de certos nichos politizados, abastados ou de resistência civil/simbólica/política. Estes últimos me agradam profundamente, mas não me seduzem o suficiente para que eu queira, por exemplo, descansar, dormir ou me divertir em São Paulo. Qualquer dia volto a falar deles...
Daqui a pouco embarco para o Cervo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Quarta gelada!

Daqui a instantes atenderei meus últimos pacientes; já marca no termômetro do metrô Ana Rosa 12 graus e são 18:40; imagino que descerá ainda mais... Em São Paulo se dorme melhor no frio ou com chuva. Até os cães se calam enrolados sobre si mesmos, quero dizer, ensimesmados. Hoje pensei melhor como quero começar meu trabalho de vivências cujo nome será Experiências de Si, envolvendo minha bagagem de conhecimento como professor de arte medicinal indiana que retrabalhei como o nome TS, as artes marciais chinesas, o cura-sui grego e estudos como psicólogo, terapeuta corporal e mestre em Análise do Discurso. Esta semana publicarei em meu site www.levileonel.com.br e disponibilizarei para sites de clínicas escolas. Parece que estou pronto para retomar o trabalho que parei ao ir para o sul...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Culinária ou gastronomia?


31/05/2009
Domingo grisalho, não de velho, mas de falta de luz. Manhã perfeita para plantar o restante da horta, não sem antes tomar o café da manhã – pão integral, queijo das redondezas e suco de laranjas com vários sabores do pomar e fazermos ginástica numa “academia” improvisada num dos quartos da casa. Levamos para lá pequenos halteres de um quilo, além de anilhas e barras mais pesadas para exercitar o tronco, uma dedaleira para fortalecer os punhos, um aparelho que imita remo e outro que imita subir escadas (como se não subíssemos inúmeras vezes a serra em diversas direções! – resquícios de um tempo em que vivemos em SP). Depois de nos alongarmos, a corrida a pé. De alguns dias para cá V. está correndo junto comigo e surpreendendo pelo quanto progride de um dia para o outro. No sopé da serra encontramos macacos dos grandes (sei lá a espécie! Bugio não descem até aquelas alturas, ficam no topo); depois uma dezena de canários da terra! Na volta demos de cara com o Rabicho, que não se deixou prender no canil, escondido no cafezal. Veio rabeando como se não nos visse por dias. Digredi! Volto à horta! Plantamos com muito cuidado algumas dezenas de mudas muito frágeis de catalonhas, beterrabas, um pé de manjericão, uma sálvia, um alecrim, um orégano, um poejo, jilós, brócolis, couve-flor, repolho, aipo. Isso tudo para complementar a outra horta que há três dias, fora plantada por V., enquanto eu estava em SP – pimentas cambuci e biquinho, salsa, coentro, cebolinha, alface, rúcula, almeirão, espinafre e uma erva japonesa presenteada há anos por Vilma, que resistiu a nossa ausência. Foi remudada com louvores!Depois, V. preparou arroz integral com quiabos e queijos derretidos, para serem servidos com uma farofa de amendoins, torrados, triturados e temperados com páprica, curry e açafrão; cozinhou feijão azuki e refogou a couve, que cortei milimetricamente formando fios finos e longos, profundamente verdes. O azeite e um dente de alho deram-lhe o toque da deusa. Os tomates foram temperados com azeite e ervas frescas. Enquanto isso, eu assava no fogão a lenha do Gravetos – o local em que ele está – várias coxas e sobrecoxas de frango; guardados no congelador e reaquecidos serão consumidos pelo correr dos dias! Desde adolescente leio notícias de Findhorn, na Escócia, lugar em que as pessoas criaram uma comunidade naturalista que conversa com as plantas, fazem-nas ouvir música clássica etc, para que suas especiarias sejam grandes, saudáveis e mais vivas que as demais. Sempre invejei suas histórias de couves enormes e sem pragas! Bem, não creio que nossas couves, brócolis e manjericões tenham qualquer gosto musical clássico ou compreendam português, ou um dialeto qualquer; mas tenho certeza que compreendem a linguagem do trabalho cioso, da preparação da terra, dos balaios de folhas velhas e já podres colhidas por V. embaixo das jabuticabeiras e abacateiros – matéria orgânica explodindo de microorganismos loucos para passar vida adiante. Sem essa matéria borbulhante de vida nem Beethoven ou Mozart, mesmo Vila-Lobos, ou minha mais sedutora conversa ou ardente ladainha poderia erguer um centímetro sequer do caule de um alecrim de horta. Não invejo mais John Seymour e seu livro que por inúmeras vezes li sonhando um dia viver do chão!Agora, vamos fazer um passeio a pé, até a raiz da serra, como diz o Eulálio, no “Leite Derramado”, na casa de nossos amigos fraternos, Amanda e Zé, para postarmos essas impressões do dia; serão dois quilômetros e meio de uma bucólica estrada serpenteante, como manda o figurino das estradas de serras, bordada por pinheiros e batida por lufadas de vento frio. PS.: Acabou chovendo fora de época e hora. Tenho que postar amanhã segunda

01/06/2009. Segunda – A lan de Silvianópolis estava fechada; nada estranho para uma cidadezinha de poucos habitantes e numa tarde de segunda! Amanhã em SP, no consultório, faço a postagem. Já era previsto problemas deste tipo...

Nada de extraordinário...

Me preparo para trabalhar em SP; amanheceu com temperatura de 3 graus; manhã frígida, porém, sem vento na serra, o que ajuda muito. Enquanto V. passa a roçadeira em volta da casa, cuido de alguns detalhes da minha estada semanal por lá – notebook, pendrives, agendas, endereços onde deverei ir para resolver assuntos profissionais, palestra, atendimentos psicológicos etc. Chegarei lá por volta das dezesseis e trabalharei até as vinte e duas. Nada de extraordinário...

sábado, 30 de maio de 2009

Felicidade honesta!

“Felicidade honesta” é o que minha paciente acreditava ter conseguido ao final da análise de sua existência. Por minha vez acredito poder falar de alegria honesta – estes contentamentos que de quando em vez rutilam na clareira de nosso existir. Um deles bem pode ser o que Vania sentiu ao surpreender uma lebre silvestre andando pela estradinha de terra, ladeada de lichias, bouganvilles, eucaliptos e o milharal – que vai de nossa morada ao local em que realizarei as “Experiências de Ser”. Quase posso ver aquele serzinho solitário, andando desconfiado, estalando os cotovelos das patas traseiras ao andar; a cada pulinho um balanço mais ou menos desarvorado das longas orelhas cinzas; e, finalmente, assustado, batendo as patas traseiras no chão e desaparecendo no milharal em zigue-zague – que por sinal, é seu restaurante de forças diárias. Esse pequeno vivente, ocupado com sua tarefa de viver, sob o sol frio do outono só pode, ao olhar do humano que o vê, representar uma pitada de contentamento existencial – mais uma dose de combustão afetiva no correr de mais uns dias na serra.

Quase acabei “Leite Derramado”! Chico usa uma técnica já bem conhecida de sobrepor memória, por conseguinte, tempo, e consegue nos carregar até quase o final, é o momento em que estou, interessado na vida do Eulálio, sujeito já centenário, cuja memória falha constantemente em nos apresentar sua vida. O tempo – memória – é a substância que o estilo de um romancista modela e nos apresenta. No “Leite Derramado” o efeito é pungente, comovente, mas frustrante – talvez seja o objetivo de Chico. Frustrante, porque não podemos nos fiar em nada, não podemos acreditar no romance... Talvez o livro de Chico Buarque não seja um romance! Uma saga familiar é um épico e não um romance.

Ode ao Rio do Cervo!


ODE AO CERVO
Escrito em 18/01/2005 para a extinta ONG “KUMARI”,
que tinha se imposto como missão, entre muitas outras,
cuidar dos ribeiros e rios de Espírito Santo do Dourado.
As forças ideológicas da cidade não acolheram-na.

Da crista da serra pode-se divisar o Rio do Cervo gingando sobre o próprio dorso, na intenção de sobrepujar os obstáculos que o terreno lhe impõe. Para adivinhar-lhe o leito basta seguir com os olhos umas escassas árvores que o ladeiam, como se fossem sentinelas mais que ciosas de seu dever. Tais poucas árvores vão fraquejando em sua missão de evitar a morte do rio por asfixia, fazendo força hercúlea para sombrear alguns ralos metros de margem. É quase certeza que o Cervo não se dá conta de que seu maior obstáculo, a maior de todas as provas por que vem passando, está também às suas margens – a presença de homens de bem que nada mais desejam além de um bem viver. Pessoas que estão na lida por seu quinhão de alegria e de pão; pessoas que se esfalfam de sol a sol buscando ganhar a vida e sair-se bem com a criação dos filhos. Por isso, conquistam palmo a palmo a terra no entorno do rio, até que possam levar seu gado a beber de suas águas ou plantam em todo espaço possível. Talvez o Rio do Cervo compreenda e justifique a atitude do morador ribeirinho em seu dever de dar sustento à família, mesmo que isso signifique abrir chagas em seu dorso, inflamar seu entorno, desfazer seu leito. E de longe se tem uma vista privilegiada da tragédia anunciada. O Cervo está a céu aberto, intoxicado pelos dejetos de gados e trabalhadores, com problemas de circulação de seu precioso líquido, e sem poder reclamar, tenta dar conta de sua natureza – arejar a terra, escoar o fluído que desce dos montes, reciclar a vida.

Em outros tempos o Cervo conseguiu dar conta de si e dos que se alimentavam dele. Ainda se ouve falar dos dias em que famílias inteiras podiam variar fartamente seu cardápio, pescando às suas margens. O Cervo já foi orgulhoso dessa proeza, apesar de suas singelas proporções; grande o suficiente para impor pontes, pequeno o bastante para despertar poesia. Mas, hoje em dia, cruzamos suas águas, sobre a Ponte do Cervo, teimando, insensíveis à sua dor, em não lançar um olhar, ainda que de esgueira, para suas águas enfraquecidas. Quem sabe porque achemos que é obrigação do pequeno Cervo sobreviver, sem ajuda, sem um olhar de piedade. Um olhar de poesia já seria alguma coisa, afinal de contas os poetas têm o poder de dizer os sentimentos de um rio. E os rios agradecem. Não nos enganemos com o que vemos. O Cervo é um ser vivo como qualquer outro, e como qualquer ser vivo acaba doente se não for amado, cuidado, estimulado. Se o Cervo pudesse olhar para seu futuro, na perspectiva atual, poderia divisar sua sina: um rio morto, putrefato, como seus parentes que tiveram o azar de banhar cidades. O Rio do Cervo já foi um jovem rio, seminal, em sua juventude florida, encapelado por morros cobertos por árvores nativas. Suas margens em áureos tempos já foi visitada por animais que hoje são conhecidos apenas em fotos, filmes ou de ouvir dizer – um sinal inequívoco de seu adoecimento.

Eis que o Cervo nasce nos contrafortes das serras de Ourofino e serpenteia sobre si mesmo lambiscando Senador José Bento onde recebe duro golpe da sorte, enquanto banha a cidade; depois adentra Borda da Mata, Congonhal, onde recebe mais um ferimento; serpenteia por Espírito Santo do Dourado, Pouso Alegre, Silvianópolis, e em seguida abraça o também desafortunado amigo Sapucaí e desaparecem nas águas de Furnas. Nessas suas andanças, nessas idas e vindas, o Cervo vai encontrando aquelas boas pessoas, valentes lutadoras, ajuizadas, cuidando da vida... Aquelas mesmas que são seus algozes, arrancando sua pele, deixando-o ao relento, empobrecido, desalmado, triste. Aquelas mesmas, que ao matarem o rio empobrecem a humanidade, entristecem o mundo, azaram os próprios filhos e netos, legando-lhes uma terra exaurida, um Rio do Cervo cuja fealdade envergonha a espécie humana. Mas, mesmo agonista, o Cervo tem dois sentimentos: perdoa-lhes a insanidade, por que eles não sabem o que fazem; e sorri amargo, conformado, porque ele é só mais um rio no sul das Gerais, sem contar os incontáveis olhos d’águas nascendo débeis e descarnado pelas serras em meio a desertas pastagens, escorregando desmilingüidos pela encostas de montes áridos, evaporando-se ao sol. Em reação se encolhem, escondendo-se dentro da terra, só para desacordarem – alguns para sempre; outros esperando que alguma dessas boas almas se lembrem de onde tiramos a vida, o sustento, a beleza, a poesia. Assim, vão perdendo potência até se tornarem um fio quase invisível de vida. E os homens, aqueles mesmos bons homens, tiram o chapéu, coçam a cabeça, intrigados, e honestamente se perguntam o que fez com que morressem ou batessem em retirada.
Algumas pessoas despertadas dessa dormência por organizações protetoras da natureza e ambientalistas devotados à causa do homem ecológico, vislumbram o que está ocorrendo. Então surgem amigos do rio e olhos d’água, das árvores e ar, dos bichos e pessoas; começam a fornecer sombra aos ribeiros plantando singelos arboredos, afastando as plantações de suas margens, cultivando com o cuidado de fazer curvas de nível, reduzindo ou eliminando o uso de venenos, plantando frutíferas para seduzir bichos do chão e do céu. Outros são amigos das serras, morros e encostas, retirando de suas cristas o gado e deixando crescer a sagrada cobertura arbórea. Outros ainda conversam com adultos e crianças, na esperança de despertarem-lhes o amor à natureza, como uma semente de árvore plantada no coração.

São tantas as missões dentro da grande missão de conscientizar a população para a vida ecológica, que há espaço para se organizar muitos mais movimentos ambientalistas dentro da escola, no lar, nos clubes, nas associações de bairro e principalmente que cada pessoa se veja como uma célula benfeitora do ambiente. A missão dessas instituições, ainda que localmente fundamentadas, se fará sentir em todo o planeta, especialmente nos próximos sombrios anos para o ambiente mundial. É de se esperar que elas não esmoreçam; é de se esperar que pessoas citadinas, alhures, por motivos da vida, mas tocadas pelas necessidades dessas organizações, disponibilizem proventos e materiais variados para que tais projetos floresçam e dêem frutos dos quais a humanidade possa fruir. Homens e mulheres que vivem dessa paixão pela natureza – uns a campo e outros nas cidades – podem formar um solo rico onde todos podem se nutrir. Aí, então, do calor dessa ação conjuminada, vicejarão ricas florestas, rios vivos e pessoas melhores. E nos orgulharemos uma vez mais de cantar...
Nossos bosques têm mais vida, nossa vida em teu seio, mais amores...!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Na saída do metrô!

A mulher, mais de setenta anos, vestida como se fosse ao chá das cinco de uma família inglesa, olha para a outra - mesma idade, negra, vestida de tecidos ricos - e diz: " O que precisamos é que volte a ditadura! Naquela época eu andava sem medo pelas ruas de São Paulo. Nove de Julho, Paulista, centro da cidade...! Hoje é essa esbórnia, políticos corruptos, molequinhos me puxando pela saia para pedir dinheiro!
Não são cinco da tarde. Na verdade são sete e trinta da manhã, na saída do metrô. Elas deixam a escada rolante, eu também. Esqueço o assunto, pois tenho que atender meus pacientes em 20 minutos... Ditadura... Medo de pivetes... É isso... Preciso ir!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Trabalhando dois dias em São Paulo!

Ser psicanalista em São Paulo é a melhor experiência que eu poderia ter da vida megacitadina e, creio, um modo bastante bom de poder tentar entender as novas angústias do cidadão de Pouso Alegre-MG. O cidadão de PA já sente a atmosfera de uma vida em que os espaços são exíguos, os sonhos extensos, as fantasias fragmentárias, as vicissitudes múltiplas...

terça-feira, 26 de maio de 2009

O pomar e o deus dos cítricos!

Os últimos dias têm sido de trabalho no limite de nossas forças. A rotina é levantar cedo, café reforçado, passar a roçadeira em brachiária de um metro de altura, deixando os assa-peixes e alecrins do mato para roçar na foice. Vania junta o capim em volta das fruteiras com uma enxada grande e limpa um círculo à volta delas. Isso se faz lentamente, por mais de um hectare de pomar. Suor em bicas; braços doloridos; punhos dormentes; satisfação plena! Os quatro do apocalipse, nossos amiguinhos, sempre juntos.
Uma macieira, três pés de limão siciliano, três pés de limões do mato, vários pés de laranja, não resistiram ao ataque de brocas. Ficam lá com seus braços secos, esgalhados, desfolhados, pedindo a clemência dos céus... mas nada irá acontecer. Suas preces não surtirão efeito. Nenhum deus dos cítricos intervirá, pois as brocas também são filhas de deus. Resta-lhes o milagre de um humano, por interesse bastante datado e situado, julgar que um deles dele sobreviver... Então, com o heroísmo daqueles que sabem que a vida quer viver, mas que precisam decidir quem sobreviverá, ciosamente matamos as brocas. Ou salvamos as laranjeiras, o que dá no mesmo.
Daqui trinta dias podaremos as uvas, macieiras, pereiras, figos, caquizeiros, quiwizeiros e outros. Hoje à noite, em São Paulo, dormindo ao som do murmúrio das ruas e apartamentos, terei saudade do silêncio e do corpo quente de V. neste outono frio do Cervo... V. para não arriscar a vida (há ainda muita jararaca e cascavel no pomar) roçando sozinha, cuidará de consertos gerais por perto da morada...