Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

terça-feira, 14 de julho de 2009

As costas da serpente e o ventre do ônibus!


Manhã gelada na serra! Daqui de cima posso ver a calha do rio do Cervo sob uma massa compacta de vapor, agora que o Sol já aquece a geada. A estrada que vai a Espírito Santo do Dourado, como uma cobra grande e cinza, com uma faixa amarela no dorso, se esconde nessa brancura de doer os olhos, como se fosse seu ninho de algodão. O que fará lá embaixo, cinco quilômetros depois, no bairro do Cervo e suas poucas casas aglomeradas em torno do bar do Marquinho e da igrejinha? Os moradores, nesse momento envoltos na cerração, bem no meio do ninho dela. Dez para a sete, o dia começando, e o ônibus já desceu a encosta, como um bichinho marrom e branco, deslizando pelas costas da serpente, levando trabalhadores cujos empregos se distribuem pela cidade. Depois vai desovando gente desde o São Geraldo até o ponto final. Mais tarde, entre onze e quarenta e meio dia, serei eu um dos últimos a ser vertido do ventre do ônibus no átrio da rodoviária; lá comprarei a passagem a São Paulo e no meio da tarde estarei sentado em minha poltrona permitindo que a primeira história de vida verta do ventre de alguém, com suas contrações e relaxamentos, pedindo que acolha seus restos e com eles possamos vislumbrar uma nova vida...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Inverno úmido e quente! Que surpresa!



Sábado, comecei o dia mais tarde, aqueci o corpo, me alonguei e ergui pesos para começar a correr... Para ir até a estrada lá embaixo, prefiro tomar uma atalho por dentro da propriedade, rente a cerca que faz divisa com “Seu” Antônio, nosso vizinho ao sul, cuja casa se pode ver lá de cima, por entre a cerca viva de Sansão-do-Campo que nos separa e que plantamos para evitar o uso de mourões e cercas – no projeto de simplicidade, sustentabilidade e ecologia. Isso evitará por três décadas, ou mais, o uso de arames, madeira e mão de obra. É uma cerca eficientíssima contra a força do gado. Enquanto vou descendo presto bastante atenção no meu pequeno talhão de café plantado na encosta da serra, ao lado de outro talhão de banana prata. O café vai bem, mas poderia ir melhor não fosse o péssimo clima para colheita e secagem; como dizem os vizinhos, o clima ficou louco; estamos no primeiro terço de julho e a seca não aconteceu. Assim, também, o feijão plantado no meio do cafezal que não pode ser colhido e secado. São aquelas ironias da vida campesina. As chuvas não deixam vir a seca e isso é muito bom para uma série gigantesca de plantas e para o gado que fica no pasto com capim verde por mais tempo, gerando peso e o peso dando lucro ao criador. Enquanto isso as maritacas, os jacus e outros animais que apreciam o café maduro, quando está no ponto de rubi, ou como é mais comum dizer, café em ponto de cereja, têm mais tempo para mastigar seus grãos. Os prejuízos são incalculáveis! Com estes pensamentos corri o percurso costumeiro, com Kely Lulu Star, e voltamos pelo meio da cafezal para inspecionar as palmeiras reais que plantei para proteger o café do vento forte e, de sobra, produzir nosso próprio palmito. O sucesso, pelo menos quanto ao vento foi total! Hoje já estão com três a cinco metros de altura! Quanto a colher o palmito foi um fracasso; ficamos com dó de cortar as palmeiras e lá ficarão. Prometemos para nós mesmos que elas servirão de mães para dar sementes que serão plantadas em local apropriado e aí, então, colheremos seu palmito. Aproveitei o resto da manhã para aparar grama e capim à volta da casa, entre trinta e quarenta metros de raio. Almoçamos o melhor macarrão estilo Vania e depois leitura e escrita até acharmos a hora certa para sonhar.

Domingo, depois da corrida, plantamos dois pés de jabuticabas, colhi uma jaca (nas fotos), um cacho de banana ouro, terminei a arrumação hidráulica da horta, transpus cavalinhas de um lugar inóspito para a horta; Vania podou uma buganvile que nos impedia de passar em direção ao pomar, carpiu o entorno das roseiras, cuidou de dar formato aos canteiros. Depois afiei as foices, enxadas e facões que serão usados na roçada da semana. Pus a arder a lenha do fogão e com a trempe quente coloquei a assar cinco jogos de coxa e sobrecoxa de frango. Trata-se de colocar algumas peças de tijolo que criam um vão de um palmo acima da trempe aquecida pelas achas. É uma maneira improvisada de assar sem ser direto no calor da brasa; o calor, deste modo, se distribui uniformemente e a carne termina de assar simultaneamente. Fazemos isso um ou dois finais de semana por mês, comendo um jogo cada um no almoço de sábado ou domingo e depois guardamos na geladeira os outros. Nos dois ou três dias seguintes aquecemos um jogo cada e só cuidamos do acompanhamento a base de caldos de legumes, saladas com itens diversos – todos da horta - e arroz integral, sementes de linhaça, especiarias etc. Não devo esquecer os dois coffee-breaks que se tornaram a especialidade da casa, ou de Vania, o que dá na mesmo: no meio da manhã ela prepara um creme a base de suco de laranja pera, bahia, nativa ou tipo pingo de mel, com duas ameixas, linhaça; o segundo, no meio da tarde, com suco de laranjas de vários sabores com mexericas variadas e algo para comer. Ao anoitecer, quase sempre, faço um café com queijos, goiabada cascão e biscoitos. Mais tarde comemos um mini-lanche com chás aromáticos. De fato só fazemos uma refeição, o almoço, ao estilo mediterrâneo, quase sempre acompanhado de uma pequenina dose de bebida alcoólica de boa procedência, vinho preferencialmente. Mas pode ser cachaça, conhaque etc.Bem, terminamos o dia lendo e escrevendo...




Hoje de manhã, sob sol frio e céu de azul claro (azul-bebê?), temperatura ainda aos cinco graus (depois de geada forte em certas partes da serra), fui correr com Kelly Lulu. Nariz ardendo, mãos e pés duros de frio, subi e desci a serra lentamente, para não forçar os pulmões. Depois me adapatei à temperatura - o corpo aqueceu, as luvas foram dispensadas e os pés relaxaram. Ao voltar, mais trabalho braçal; com a roçadeira aparei toda agrama da entrada da propriedade junto a estrada que dá para o Catiguá enquanto Vania rastelava e juntava tudo na beira da estrada. Almocei e aqui estou eu na lan, depois de ir ao museu. V. não pode vir comigo... Daqui vou à companhia de ballet do Luiz Henrique (veja postagem sobre o Teatro). Também farei as compras semanais... Antes de ir para casa passarei na Universidade para assuntos da pesquisa. É isso!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Abelha e o Dentista!

Anteontem, 8 de julho, feriado só em São Paulo saí mais cedo e cheguei ao anoitecer em PA. Já relatei aqui o ritual do Rabicho, pois foi o que logo vi no estacionamento da rodoviária. Vania e seus olhos verde-broto-de-mato-novo me recebeu com seu sorriso acolhedor. Recolhemos o Rabicho e fomos ao Baronesa para comprar algo especial para o fim de semana. Dormimos tarde por causa da excitação de nos revermos depois de algum tempo longe um do outro... Ontem, 9, me dediquei a roçar com Zé Ovídio, um talhão que lhe emprestei para plantar milho e feijão. Um hectare e meio de assapeixes e alecrins do mato que foi pastagem de abelhas tipo apis mellifera scutellata (abelhas africanas), mas que controlaremos e levaremos, no início das águas, para mais longe, para podermos manejar as européias e indígenas, bem como manejar o solo, em novas culturas e pomar. Depois do almoço rearrumei alguns itens domésticos, principalmente uma antena improvisada e eficiente para o rádio e tevê. Sem parabólica, esperando um solução tripla – telefonia, internet e tevê – para um local inóspito em termos de sinais de antenas, pelo menos por hora, vamos assistindo quatro ou cinco canais abertos. A tardezinha, leituras variadas: Continuei Winnicott, em seu artigo “As Raízes da Agressão” (Privação e Delinquência); Lacan (Parte do Seminário 23 – Capítulo A escrita do ego); A cidade antiga de Fustel de Coulanges (pensando em Eni Orlandi quando esta pensa a cidade por meio do discurso); Cidade dos sentidos, de E. Orlandi (pensando a questão do teatro de PA e sua arquitetura como memória histórica). Para ler por prazer, não apenas por compromisso: Situações I de Sartre.

Hoje, em PA, comecei pelo dentista, e todo aquele confortável sentimento de que estou cuidando da saúde e o desconforto de picadas para anestesia, forçamento da boca para que satisfaça as necessidades dos procedimentos etc etc. Felizmente o primeiro é bem mais duradouro do que o segundo! Depois, uma série de problemas a resolver: internet que funcione na serra; algumas emendas com rosca de três quartos para mangueiras de irrigação da horta; encomendar mudas de uvas e jaracatiás; gasolina para a roçadeira; cortar cabelo; biblioteca da Universidade do Vale do Sapucaí; Museu Municipal, Conselho de Psicologia, Atendimentos... Depois, numa lan house, verifiquei e-mails, orkut e coloquei algumas frases que me interessaram na leitura da semana, no blog http://www.levileonel.blogspot.com/

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ônibus e leitura combinam!

As desvantagens de não vir de carro a SP são várias; mas as vantagens são consideráveis! Por exemplo, posso refletir longamente sobre o dia anterior, particularmente o final da tarde de segunda e a noite. Como exemplo, pensei longamente sobre uma reunião da AAEcoMinas, associação que reúne produtores rurais de agricultura familiar e concede um selo do IBD como garantia da procedência e idoneidade dos produtos oferecidos. São ecologicamente produzidos, manuseados, com sementes e processamento que minimizam o desgaste da natureza - e até em certos casos a recuperam, como é o nosso caso no Sítio Serra do Cervo. Juntos, Vania e eu, fizemos um balanço das necessidades de se ter o selo de orgânicos e também o quanto teremos que esperar para essa validação. Pareceu uma boa decisão!
Também gravo ou escrevo um ou outro pensamento sobre textos, sessões de terapia, cuidados com o sítio, a quem devo ligar, mensagens a algumas pessoas que o solicitam etc. Sem esquecer, é claro, que são pelo menos duas horas de leitura sem interrupções (a viagem acontece em três horas de rodoviária a rodoviária). Ao chegar em SP, tinha lido a primeira parte de Privação e delinquência, de D. W. Winnicott, sobre as motivações inconscientes da violência, do roubo e outras atitudes anti-sociais. São leituras que já fiz em 1995, num curso de psicologia e, depois, durante uma longa supervisão de Rahel Boraks. Agora que estou para realizar um curso sobre as tendências anti-sociais, me vi na obrigação de rever cada um dos pontos onde o autor finca sua teoria. A obrigação se revelou, mais uma vez, uma grata satisfação! Resumo, até o final de semana, suas principais elocubrações no blog http://www.levileonel.blogspot.com/ conforme combinado com quem tem interesse em acompanhar minha leitura.
Hoje, ante-véspera de feriado em São Paulo, me fez chegar um pouco antes para compensar as horas da quinta que não trabalharei.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

AAEcoMinas e o Recanto das Orquídeas!

Ontem, domingo, pela manhã lemos – V. continuou o Tratado de ateologia e eu dividi entre textos para minha pesquisa sobre o teatro de PA, um resumo da dissertação para o III Encontro de Estudos da Linguagem, algo de Winnicott, sobre a tendência anti-social; para me distrair li alguns capítulos do livro Vida e criação de abelhas indígenas sem ferrão (Paulo Nogueira-Neto), pois tenho uma criação de jataís e gostaria de reproduzi-las sem as agredir. A tarde fomos ao restaurante Recanto das Orquídeas, nas cercanias de Pouso Alegre, cujos donos, Dito e Lia, foram apresentados a Vania em uma reunião da AAEcoMinas, associação que visa criar condições para que algumas propriedades rurais familiares se certifiquem como produtores de alimentos ecologicamente corretos. O restaurante se localiza ao lado de sua horta orgânica, espalhado pelo quintal de sua ecológica propriedade. Foi, como se diz, uma viagem! O Dito, presidente da associação, homem daqueles localizados no chão do mundo, vive da terra e tem aquela simplicidade que conheci na meninice, olhando para os pais e tios, roceiros e trabalhadores no café do norte do Paraná. Enquanto almoçava conheci seus filhos e ouvi um tanto de seus sonhos de anos, tentando criar uma associação que agora está no rumo final para a certificação. Senti seu orgulho de fazer parte de algo tão dignificante. Como não conhecia Lia fui até a cozinha para ser apresentado a ela, a cozinheira – cálida e aconchegante, sorriso pleno.
Para finalizar o domingo, li um pouco mais de “Vida e Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão” e V. foi controlar formigas saúva e quenquen, um combate diário e paciencioso, pois vencê-las jamais. Estamos providenciando gergelim para espantá-las; segundo algumas pesquisas elas odeiam o fungo que produzem. Estamos pagando para ver...

Hoje podei as videiras de mesa, Itália rosa e branca, Moscatel e outras, Retirei do chão mourões já apodrecidos, aplanei o chão e retirei, a base de enxadão, tocos de assapeixes, que roçamos a foice no começo do ano, no final das águas. Exaustos, almoçamos e fomos a PA para uma reunião da AAEcoMinas, à biblioteca da UNIVÁS e ao supermercado para comprar as provisões da semana.

sábado, 4 de julho de 2009

O Rabicho e a dissertação!

Ontem e hoje passei escrevendo um resumo de minha tese para o III Encontro de Estudos da Linguagem da UNIVÁS, a acontecer em 14 e 15 de agosto. Então tudo que vi da serra foi através de uma janela que emoldura lindas paisagens no horizonte. Por exemplo uma serra denteada na direção dos Fernandes. É show e peço bis toda hora...! Isso vai acabar me atrasando!

Anteontem, quinta, saí de São Paulo com o tempo mudando; uma cálida manhã passou a uma tarde fria e úmida; ao chegar em Espírito Santo do Dourado a temperatura estava ainda mais baixa! Já sei que sempre se conta menos quatro graus que São Paulo, mas desta vez o contraste passou dos dez. Ao chegar em PA, como de costume, fui até o estacionamento da rodoviária, por volta das vinte e duas horas, e lá encontro Vania com o Rabicho, o único dos cães que se atreve a entrar no carro. Na verdade, ele sente grande prazer nisso! Já conhece todas as palmeiras, postes, lixeiras e alambrados disponíveis para uma mijadinha de demarcação de seu território. V. fica ali, pacienciosamente esperando que ele entre no carro (eu idem), para que voltemos todos para casa. Mas o cãozinho tem todo um ritual que inclui ir e vir, girar sobre os calcanhares e erguer uma perna na ida e depois a outra na volta. Uma gotícula de líquido molha um capim mais saliente, depois uma casca rústica de uma árvore.

Como o Rabicho é dirigido principalmente pelo nariz, ao chegar perto do carro o chamo e ele vai na direção das mais diversas pessoas, olhando atentamente no rosto, pra identificar o amigo que tanto adora. Às vezes quase me ofendo com sua incapacidade para me identificar de longe! Não raro, com aquela carinha boba, aquele nariz preto e fino, fica olhando uma mulher tentando ver se não sou eu. Nem mesmo meu sexo ele sabe! Me justifico, já que com ele este argumento seria inútil, que os seres humanos mudam tanto de uma hora para outra, usando roupa, óculos, penduricalhos nas orelhas, cobertura na cabeça, que só resta-lhe confiar em algum traço do nariz, um naco da boca, uns fios de barba e cabelo, um jeito de andar, para se convencer de que conhece quem lhe chama. Então o perdôo por quase nunca saber quem sou eu no meio de outras pessoas. Quando ele se convence de que eu sou eu mesmo, aí é uma festa! Abana o rabo... não, chicoteia o rabo com tal vigor que o corpo todo é usado nesse movimento! Depois se distrai mais um pouco com os postes e flores.

Me esqueci do tempo! Enfim, acho que falava do tempo porque neste momento chove forte e é algo que jamais aconteceu em julho desde que aqui chegamos, quinze anos atrás. É aconchegante, mas um pouco estranho. V. também acha, mas não perdeu tempo e plantou alguns caroços, já brotados, de abacate, nos limites da propriedade, mais precisamente nas terras do vizinho sul, que, aconselhado por nós, deixou uma pequena reserva à volta de suas nascentes. É justamente nesta reserva que V. colocou as sementes em berço esplêndido “para tratar dos bichos que são tímidos demais para virem comer perto de casa!” A chuva aguou o suficiente para os próximos dez dias... (Na foto, a esquerda, nosso heroizinho preto com Vania fazendo suas inspeções diárias no corpinho de Gabi; atrás, partes do Soneca Golden Boss)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Deus x EUA!

Não sou torcedor de um time do coração, como se diz, mas daqueles que só vêem jogos da seleção! Portanto, sou dos que torcem uma ou outra vez, frente a tela de tevê, e isso “coincide” com jogos de copas mundiais ou, como nesse caso, grandes jogos internacionais. Isso produz desvantagens óbvias nas conversas com meus amigos, tal como a da tarde de domingo, em casa de Zé Maria, onde nada sabia sobre seus times de origem, onde jogam, na Europa, no Barein, etc etc. Não tenho hábito de acompanhar time do estado ou da cidade onde moro, mas prometi a mim mesmo que vou fazer progressos nesse sentido, começando por assistir jogos do time de Pouso Alegre! Espero ficar tão ansioso quanto nas partidas da seleção. Brincadeira! Nada pode produzir o efeito futebol em mim, exceto os canarinhos (fora de moda dizer canarinho? Agora já escrevi!).
Mas tem algo que me incomoda profundamente, cada vez mais se repetindo, nestas tentativas de me divertir com o time brasileiro. É que não mais tenho certeza de que estou torcendo por um time de futebol, ou por uma seita cristã em cruzada contra outras seitas cristãs. Desta feita, quando um tal de Lucio marcou seu gol eu não soube se devia admirar sua arte, seu talento no esporte, ou devia desconsiderar o show de controle, a técnica admirável, a precisão absurda, o senso de oportunidade, e cair de joelhos pelo talento de um certo Cristo ou Deus que dirigiram sua cabeça para o feito. Fiquei sem saber se os americanos tiveram menos fé em Deus e por isso foram castigados pela insolência perdendo a partida, no último dia do certame (xi! Isso também está fora de moda; é do tempo do Silvio Luiz!). Ou talvez não soubessem que Deus estava do lado dos brasileiros e seu único destino era o fracasso. Quase me senti ofendido por não me avisarem que competição se tratava. Fiquei longamente em silêncio, olhando aquela manifestação midiática, de uma convicção íntima imposta ao mundo todo; mesmo quem não é cristão ou é ateu, teve que engolir aquela grosseria se quisesse se divertir com sua seleção. Como os não-cristãos ou os cristãos de outras seitas, poderão assistir um jogo laico, pela bandeira do país, e demonstrar seu apreço pelos seus heróis? Afinal, eu assisti uma partida de futebol entre duas seleções de países diferentes se digladiando desportivamente ou dois partidos religiosos provando sua fé à base de chutes na rede do time ímpio? É, no mínimo uma competição de mau gosto, desrespeitosa e deselegante. Gostaria de ser poupado do engôdo de estar torcendo por uma cruzada cristã ao invés de me emocionar com a competição esportiva entre dois times. Me sinto ridículo no final do jogo, sem saber qual era o fim do jogo; qual era o gozo a que devia meu alívio final; a quem deveria brindar?
Fico me perguntando se aquelas camisas com palavras de ordem apareceriam se o time brasileiro tivesse perdido. Um tal de Kaká não agradeceria a Deus por ter perdido a partida? Teria o topete de não mostrar a camisa escrita, desobedecendo seu Deus, achando que o resultado não seria digno de ser inscrito no corpo. Vou dizer! Não sei de que matéria é feita essa turma dos escritos religiosos no corpo; desconfio que desrespeito e deselegância para com o país, trocando uma competição por outra – a esportiva pela religiosa. Bem, como sou torcedor de copa, só daqui doze meses terei que passar por essa bizarrice para ver um bom espetáculo de futebol. Até lá terei esquecido, creio. Neste quesito os americanos deram um show de respeito esportivo! Nenhuma inscrição, que eu tenha visto, que enganasse o telespectador (se bem que perderam, nunca saberemos que inscrições escondiam na manga!).
Ah! Antes de encerrar... Claro que os kakás, lucios, robinhos e outros tem o direito de agradecer a um deus etc, mas eles devem admitir que fica muito difícil imaginar o outro time agradecendo a Deus por ter perdido. Quem perde faz o que com essa informação: “Graças a Deus vencemos!” Devo entender que graças a Deus o outro perdeu? Pelo ridículo da situação preferiria que os jogadores agradecessem em suas igrejas. No campo, só homenagens a sua nação. Por favor, dediquem suas vitórias à nós os brasileiros! O deus de vocês não representa toda a diversidade de crenças do Brasil.

domingo, 28 de junho de 2009

O dia em que Gabi chegou em nossas vidas!























Primeira foto a chuva que se aproximava; segunda Gabi, no dia em que chegou em casa; e as seguintes Gabi hoje.
A tarde de chuva de ontem convidava a algumas horas de leitura; foi o que fizemos. Eu, às voltas com a pesquisa sobre o teatro de Pouso Alegre, lendo sobre Memória (Memória da Língua de Maria Onice Payer), só sendo interrompido pelo prazer de ouvir ao longe o ribombar dos trovões que deslizavam pelas serras do outro lado do vale do Cervo. Ao longe a claridade azul-chumbo das nuvens se confundia com o mesmo azul-chumbo das colinas que nos separam de Santa Rita do Sapucaí. A chuva pesada e reta, sem um toque sequer de vento, molha com sua frialdade todas as milhares de árvores que plantamos no dorso da serra, para que servisse de moradia decente para nós e eventuais animais selvagens. Também para nossos amiguinhos caninos – Rabicho-bicho-nice, Soneca golden boss (o chefinho), a Kelly-lulu-star (estrela que se faz fotografar em todas as ocasiões) e a nova moradora da serra, Gabi-blue (o blue vem dos olhos azuis de uma amiga querida de V). Ficaram a tarde toda em seu confortável canil. Só para constar: canil aberto, sem restrições; apenas nosso comando firme e tranquilo – “todo mundo para casa”. E só. Inclusive Gabi, que sai com suas orelhas desalinhadas, uma para o centro, outra para a lateral, a língua molhada pendente para o outro e vai pelo trilho marcado na grama pelas patinhas macias de todos.
Há mês e pouco, já o disse aqui, V. e eu, num domingo de manhã, fomos fazer uma visita ao Zé Luiz e Vanderléia, no sopé da serra. Ao voltarmos catei alguns lixos entre latas de cerveja, sacos e garrafas plásticas, que “enfeitavam” a estrada que liga E. S. do Dourado ao Cervo e me dirigi para uma lixeira que nós mesmos colocamos ao chegar na região, quinze anos atrás. Trata-se de um latão de duzentos litros, preso a uma viga enterrada no solo, que fica bem na esquina formada pela estrada asfaltada e a estradinha de terra que vai dar em nossa propriedade. Ainda reclamava da insanidade das pessoas que sujam sua própria casa, rabugento por alguém fazer do mundo um grande aterro sanitário a céu aberto, quando ouvi um grito de Vania, já meu conhecido. É um daqueles sons que, no modo dela dizer, saem de seu corpo sem nenhum aviso – uma mistura de espanto, surpresa, prazer, dúvida; às vezes mais um que outro. Olhei e a vi com um cachorrinho nas mãos, de cores e aspecto que bem podia ser confundido, a certa distância, com um ouriço, um gambá, uma raposa, um gato; mas não, se tratava de um cãozinho; um filhotinho mortalmente assustado. Certamente lá estava quando descemos a serra, mas sua localização, bem atrás do latão de lixo, entremeio ao capim da mesma cor de sua pelagem, bem como sua obstinação em não se mexer, fez com que não o víssemos.
Por alguns segundos V. aninhou o bichinho no colo, pois estava frio e sua malha lhe pareceu quente e acolhedora. Imediatamente, sem refletir, decidimos que ele iria conosco. Mas havia um problema a enfrentar com delicadeza. Ele estava definido a esperar ali por seus antigos donos. Por uma lógica muito própria sabia que devia ficar ali por que fora naquele lugar que tivera a última visão de seus donos amados. V. chamou-o com sua mais doce voz, para que pudesse dar-se a desistir daquela espera infrutífera. E ele ali parado, tentando se esconder mais ainda. Tentou uma segunda vez levando-o mais alguns passos estrada acima; mesmo resultado. O filhotinho voltava amedrontado para seu nicho improvisado, deitando-se exatamente onde o deixaram na noite anterior. Víamos seu desespero, a fome na barriga encurvada, aquele nariz comprido e olhos meigos e entristecidos, olhando para nós e dizendo: “Não, não devo, ainda há esperança!”. Mas não havia... Quem o deixou fez uma delicada coleira de capim e uma pequena corda, também de capim, que fora presa por uma pedra. O intuito era óbvio; não deixar que fosse atropelado até que uma gente qualquer por ali passasse e o resgatasse. Fora o último ato de amor de seus donos. E o cãozinho ali, obstinado em esperar, com seu nariz longo e triste; as últimas esperanças por se esvair. Cedemos as evidências – o cãozinho não iria conosco espontaneamente; peguei-o no colo e descobri, erguendo seu corpinho peludo com delicadeza, que era “ela”. Ele era ela e nos pareceu mais aflitivo ainda que uma cachorrinha passasse por drama tão radical. Talvez por acharmos, com ou sem razão, que as fêmeas são mais apegadas ainda que os machos ao seu território, à casa, sabe-se lá. Depois de algum tempo, coração apertado, sem sucesso com nossos incentivos, com meus melhores gestos, retirei-lhe devagar a coleira improvisada – o último carinho, a última onda de cheiros de seu dono. Mijou de medo, olhando para o latão de lixo e o matinho tão seguro, embora pouco promissor. Acho que me odiou, naquele momento. Eu era a pior coisa que podia lhe acontecer... Resolutamente, ainda que pesando seu desespero, decidimos ir embora, e ela encolhendo as orelhas, revoluteando em meu colo, tímida, triste, triste, sabendo que não podia sair dali... Se esforça por descer e voltar ao matinho que era sua referência de vida. E eu, vem com a gente, que temos comidinha!, passando muito devagar as mãos sobre sua lanugem para não assusta-la ainda mais. Disse, filhotinho, você deve preparar-se para uma nova vida, por que a que teve até agora nunca mais viverá. Mais para mim mesmo do que para ela. Sabia que não alcançava nada do que dizia. Sabia que fora amada, cuidada, mas agora chegara a hora de tomar outros destinos. Esperei, naquele momento, que pudéssemos dar uma vida que fosse condizente com ela. Talvez a Serra do Cervo viesse a se tornar um lugar onde pudesse edificar seu corpinho e desvelar todos seus potenciais...
No mesmo instante, antecipando todas as horas de preocupações, cuidados e prazeres, que a filhotinha nos daria, Vania inspecionou-lhe as orelhas e pelagem e chegou a conclusão de que não havia doenças, pulgas ou sujeiras. Seus antigos donos banharam-na, pentearam-na e a alimentaram, como um meio de garantir que alguém se seduzisse por ela!
De jeito nenhum aprovamos que se soltem filhotinhos, nas estradas e ruas de cidades; até mesmo achamos que se deve punir a irresponsabilidade dessa prática-crime, prevista na lei. Achamos, por uma lógica nossa, que os mesmos que jogam lixo na rua emporcalhando o mundo, são os que descuidam dos bichos que dizem amar. Pode não ser uma lógica rigorosa, mas, futuramente, ao contar a saga do Rabicho e do Soneca, espero demonstrar uma das maneiras mais comuns de como isso se dá.

Bem, e foi assim que começou nossa história com Gabi, de Gabiroba, não de Gabriela, por favor!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Grapefruit! (toranja ou pomelo) E a goiabeira!









Manhã de sexta, 26. Hoje fotografamos o setor das laranjeiras, enquanto cuidávamos de deter as brocas, pela segunda vez desde que começamos a limpeza do pomar. Se não me engano, sob o título “O pomar” descrevi esse nosso afã. Descrevi os braços descarnados, sem cobertura de pele viva, num clamor aos deuses dos cítricos, que ficou sem resposta. Os dedos compridos e tristonhos da laranja grapefruit, lá encima, parecem invejar a amiga logo atrás com grandes frutas ovaladas, de um verde amarelado e cheiro amargo. Se pudessem restituir-lhe o viço certamente ficaria ali parada, movimentada apenas pelos ares e ventos e brisas da serra, exibindo nas pontas de seus dedos uma fruta mais pesada que a outra, para inveja das macieiras, pereiras e marmeleiros que se apressariam em mostrar suas qualidades. Agora, sua amiga grapefruit viverá sozinha, sem poder competir pelos bicos e garras de pássaros, ou pelas abelhas, arapuás e marimbondos pousando em suas grandes flores jasminadas... A não ser que algum humano intervenha e, disfarçado de deus das laranjeiras lhe dê uma companhia! Isso é bem possível. Aí, neste momento mágico, os dedos, mãos, braços, troncos, da malfadada amiga servirão de energia para a nova moradora da serra. Talvez esse humano, tomado pelo delírio da vida, plante as escondidas, a noite talvez, para que de manhã ela leve um susto com a chegada da nova amiga. Ah! Bom! Isso já é demais. Como disse Sartre em algum lugar, entre nós e a natureza não há comunicação. Aliás, ele era urbano até os ossos, não ia tolerar essa conversa sobre bosque, serra, árvore clamando etc! Grapefruit, só no uísque! diria. Minha admiração por ele o perdoaria, certamente. De qualquer modo, essa fruta da Malásia, tanto a de caldo branco, quanto a de caldo roxo, é comestível e sua polpa dulçamara pode ser usada na preparação de um delicioso refrigerante e as cascas servem para doces em calda ou secos. Seu uso medicinal mais acentuado é contra os problemas urinários. De início, antes de qualquer coisa, o que gosto mesmo é do cheiro exuberante das pétalas jasminadas de suas grandes flores. Eu, Vania, as abelhas e concorrentes...

Um melhor destino para a goiabeira!
Enquanto eu estava em São Paulo, Vania cuidou de melhorar a vida de algumas árvores. Das cabeludinhas, amoreiras, anoneiras, tamarindeiros e, claro, de uma goiabeira em particular, que estava condenada a morrer, por ataque das brocas. No ano passado, enquanto estávamos em SC ela deitou-se de lado para descansar da anemia que a acometeu. Por um desses combates entre espécies, as brocas foram derrotadas e bateram em retirada em direção aos limoeiros e laranjeiras. A goiabeira com parte de suas raízes ainda vivas, vinha conseguindo, verdade que a duras penas, brotar umas folhinhas bem verdes, aqui e ali, em seus galhos de mármore róseo. Essa teimosia foi recompensada com a serra de seus galhos já mortos, limpeza do chão e a chega de material orgânico em suas raízes, escondendo-as dentro do chão. “Isso vai virar doce, suco de goiaba e creme para acompanhar os assados no fogão a lenha!” comentou V. apontando para um filhote de goiaba já deslizando pelo vão de um dos brotos. Acho que sua premonição tem toda a chance de acontecer!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Surfando uma onda de ombros!

Fora do metrô e já me deparo com uma parede humana! Centenas de pessoas apinhadas antes das escadas no Jabaquara, descendo lentamente, como se estivessem acompanhando um morto. Isso me lembra as procissões de féretros em Apucarana, eu ainda menino, olhando de soslaio, de canto de olho, o caixão de algum vizinho que desaparecera, sem mais o quê. Podia me aproximar o suficiente para ver algum canto de rosto macerado, mortalmente pálido... E aquele povo andando devagar atrás do morto... E isso me lembra a vó Pina bem acomodada em seu caixão no centro da sala de tia Isaura, e eu mal acomodado na existência, achando que depois não viria mais nada de bom! E não é que veio! E isso me lembra... esquece! Volto ao metrô.

Olho para frente e vejo uma onda de massas arredondadas, formando ombros, encimadas por globos cranianos com uma profusão de cabelos alinhados, desalinhados, crespos, lisos, ondulados. Aquela movimentação para-lá-para-cá, compassada, de acordo com um passo ladeando para a esquerda, de acordo com outro para direita, formando uma onda, mais ou menos organizada. Do alto dos meus cento e sessenta e três centímetros, fora sapatos, posso ver umas caixas cranianas privilegiadas que flutuam a cerca de trinta centímetros da massa, surfando uma onda de cabeças e ombros que deslizam para lá, deslizam para cá, todo mundo tentando ver o que acontece. Algumas bem humoradas cabeças sacam seus celulares e brotam braços que se erguem acima das cabeças flutuantes, até mesmo daqueles que surfam nossas cabeças rentes a seus sovacos, e clicam. Talvez esperem mostrar para sobrinhos, filhos, netos como foi o dia. Um certo clicador me pareceu tentar uma foto artística; outro, uma foto para o patrão!

Uma voz masculina, compassada, clara, timbre audível, estilhaça o relativo silêncio: O SERVIÇO ENTRE LIBERDADE E SÉ FOI NORMALIZADO! AGRADECEMOS SUA COMPREENSÃO! Ninguém parecia ter ouvido! Nenhuma reação. Apenas um sujeito, destes cujo mau-humor é sempre uma lufada de ar fresco: OBRIGADO SENHOR! FICO MUITO TOCADO POR SUA CONSIDERAÇÃO! (olhando o relógio e meneando a cabeça).

A onda continua, as cabeças bem localizadas surfando as nossas. De repente uma cabeça que repousa em uns ombros de metro e meio tenta furar a onda! Um daqueles ombros gigantes, com cabeças grandes, volta-se lentamente, fixa os olhos castanhos nos olhos do pequeno ser lá embaixo, manda-lhe um raio de fúria contida e esfacela as pretensões do baixinho. Tudo volta a normalidade. A onda continuou sem surpresas e passou pelas catracas deslizando para baixo da terra...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Indo e vindo!


Aí estou eu, hoje, 23 de junho, na entrada da rodoviária de PA, esperando meu ônibus de cada semana! O alarido comum a estas situações, com todos falando suas aventuras e desventuras ao mesmo tempo, já se foi... hoje cheguei mais tarde e posso ter a rodoviária neste clima agradável de um ou outro som distintos entre si. No fundo uma tevê, com aqueles taxistas de sempre; já velhos conhecidos com seus modos previsíveis, olhando com olho comprido seu possível cliente. Então Vamos!


Dia comum, se não fosse o ballet no Teatro de PA!
No sábado, depois de nossos trabalhos usuais, no pomar principalmente, nossos amigos Amanda e Zé Maria nos visitaram trazendo uma antena de celular que poderá melhorar nosso sinal. Não sei se poderemos usá-la para internet, mas é o que perguntarei hoje em PA. Presenteamo-los com um generoso saco de laranjas, mexericas, bananas e anonas... Não puderam aceitar o convite para ir ao teatro assistir o espetáculo “Ballet Luiz Henrique Dança Grandes Compositores”.
A “Ária” de Richard Vagner e Luiz Henrique e Kerly Nami no elenco, abrem o espetáculo! Local: Teatro Municipal de Pouso Alegre. Dia 20 de junho. No programa veríamos ainda danças com as músicas de Camille Dalmais, Antonio Vivaldi, Sergey Rachmaninov, Adolphe Adam, Cesare Pugini, Tom Zé, Caetano Veloso; para bordar o espetáculo com um humor fino, bem costurado, pontual, no tempo tempo certo, lá estavam o ator Luiz Fernando – que nos apresentou a impagável “Irmã Selma” e noutro quadro o “Alberto” (marido da gozadíssima “Giuvanelle”, encarnada por Charles Pierre). Foi uma noite emocionante. Particularmente quando Luiz Henrique apresenta as pequenas bailarinas de seu projeto de dança e um pequeno bailarino, cuja graça encantou todo mundo!
Há anos V. e eu conhecemos Luiz quando fomos aprender danças de salão, quando sua academia se localizava no P.A. Shopping; aprendemos os rudimentos de várias danças e V. fez ballet com ele; mas em certo momento tivemos que ir, de mudança, a SC, interrompendo os treinos. Agora estamos voltando e para reinaugurar nossas relações, quisemos que fosse de modo marcante. Não deu outra! Ao sairmos do teatro encontramos um Luiz untado pelas palmas e elogios! Seu semblante era dos que acabara ali um longo processo de criação, edificação, adaptação e apoteose do trabalho de dançar. Todo seu trabalho e de uma equipe de colaboradores e bailarinos atingira seu clímax! Agora é esperar sua nova aparição pública! Depois quero falar de seu projeto de dança para crianças...


Domingo, um dia normal ou extraordinário?!
Uma coisa que muda muito no mundo rural é a relação com o tempo; quero dizer, o tempo que se conta em dias da semana e o imaginário que fazemos deles. Por exemplo, no domingo levantamos mais cedo que o usual, demos de comer aos nossos amigos peludos e fomos cuidar das uvas japonesas, caçar formigas saúvas e em seguida, com a roçadeira eu, e V. na enxada, fomos roçar e limpar o pomar no setor das laranjeiras. Isso até metade da tarde, quando almoçamos, descansamos e assistimos o jogo do Brasil contra a Itália. Depois lemos...
Pensando melhor, vejo que nossos vizinhos, lá do pé da serra, Zé Luiz e família, Ademir e família, Antônio e família, têm sim um sentido de sábado a tarde e domingo, que não parece com o nosso. Eu diria que eles descansam nestas horas; seus dias são organizados de modo que no fim de semana nada fazem, como se tivessem cumprido suas tarefas. Não é o nosso caso; nossas tarefas não se especializam em dias ou horários. Eles encerram o trabalho às 16:00h; nós só ao escurecer. Eles começam antes de clarear; nós já com o dia começado. Parece que nossas vidas anteriores de gente que viveu em São Paulo por décadas, desconstruiu o imaginário da roça, para o bem e para o mal, suponho, embora a parte má ainda não conheci! Não temos obrigações marcadas, mas temos as responsabilidades sazonais, quero dizer, se não limparmos, por exemplo, o pomar até a chegada das águas, teremos falta de frutas. Bem, não sei como enunciar, mas de fato, nossa semana não é a mesma de alguém da cidade, mas também não funciona como funciona para o homem do campo!


Em tempo:


Emocionada com o espetáculo de ballet do nosso amigo Luiz, Vania pediu que eu colocasse nos blogs a poesia que fiz para finalizar a fita de vídeo e o espetáculo teatral “Nájua e os elementos da natureza” que patrocinamos e produzimos com a mitológica coreógrafa e bailarina. Isso foi nos tempos em que criáramos o “Ashram-Centro de Estudos da Medicina, Arte e Filosofia da Índia antiga” (1990-2000) e resolvemos homenageá-la. Então, aí está...
Na semana que vem coloco um pedaço do espetáculo aqui.

Mãe Natureza - III


Há muito tempo,
na madrugada desta era,
a Senhora dos Elementos empunhou
a sagrada espada da virtude
e dançou sobre as areias da Mãe Terra.
Bebeu das nascentes míticas
da Deusa Montanha
deixou seu âmago ser lavado
pelo fluido telúrico
do ventre da rocha.
Forjou o áurico peito
em chamas ardentes
e neste fogo alquimizou
suas paixões mais recônditas,
Deixou-se transportar
para etéreos rincões do elemento ar,
pairou por sobre todas as criaturas,
alentou todos seus conheceres.
E por fim descansou entre os homens
embalando-os ao som da música
de seu sagrado corpo,
Instalou-se no mais íntimo de cada ser.
e pelos eons vai
apaixonando amantes,
inspirando poetas,
extasiando filósofos,
ou simplesmente
soprando alento em cada ser.


Poesia realizada para verbalizar a arte de
dançar da grande bailarina Nájua.
1998

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O som e a fúria!

Há certo gozo com a agressividade de se viver em São Paulo, ou nas cidades, ou aqui no Cervo; de ordens diferentes, é verdade. Há certa fúria surda na defesa comezinha de ser cidadão e ter direito a ir e vir, fazer e desfazer, viver no espaço citadino... Penso nisso, quando, ao andar pela Domingos de Morais, próximo ao consultório em São Paulo, fui ouvindo uma música que tocava no carro de um jovem. Nada que eu ouvisse no fone de ouvido ou num fundo musical para uma tarde de leitura nos meus sábados no Cervo. Sequer ouviria aquela música para me divertir ou esquecer que estou no ruído da cidade; prefiro o rugir dos carros! Mas lá estava eu ouvindo-a! O jovem talvez já estivesse com os tímpanos rompidos, por isso nada sabia da vizinhança!? Eu não queria ouvir aquilo..., mas ouviria até virar a esquina, e cem metros depois ainda podia ouvi-la, nitidamente. Depois, só o troar dos carros...
Como saber que se está invadindo os limites do outro, numa cidade em que se consegue o milagre de colocar dois corpos em um mesmo espaço físico? Bem, para que a fúria não me surgisse em algum escaninho do corpo, pensei em delícias que posso criar, no meio da fúria do som! Que William Faulkner não me leia do seu túmulo quase centenário, fazendo jogos com seu título de livro...

terça-feira, 16 de junho de 2009

De PA a SP - II!

Pois é! Já em SP! Moleza! O frio menos intenso; a correria distrai; o jogo de ombros no metrô para encontrar um lugar ao sol, isto é, no vagão. Céu cinza, mala na mão; celular na mão, um olho no céu (será que chove?); a vida contada em minutos (segundos?), os minutos contados como a razão da vida; nada a reclamar - pois tudo parece natural, como se não fosse um jogo de forças entre os estratos sociais! Então vamos...! Daqui a pouco ouvirei outras versões de São Paulo...

De PA a SP!

De domingo passado, até hoje de manhã; frio intenso, ardente nas mãos, mesmo por debaixo das luvas; ar agudo entrando pelas narinas! E o prazer de fazer algo que faz parte de mim desde os nove anos de idade...!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Segunda em Pouso Alegre!


Dia de começarmos a aguar a horta e flores recém-plantadas! Quando percebemos, já são três dias sem chuva! Apesar do frio manter úmido embaixo da terra, de fato poderemos ter prejuízos se não aguarmos todas com generosidade. Apesar da baixa temperatura nossa horta está em uma situação no terreno que não permite cair até zero e “queimar” nossas verduras. Sua textura delicada e crocante não resistiria a uma camada de gelo, por mais fina que fosse. Ainda assim, prevenidos, ficamos prontos para aguar também durante a geada. Se ligarmos os aspersores de água o gelo não se forma e salvamos a horta! Nada fácil suportar a temperatura e lidar com água!
Agora estou em PA para contatos com o Conselho de Psicologia, o museu, a UNIVÁS. Os dois últimos em função do artigo sobre o teatro municipal. Ah! E também para comprar provisões! Só para me lembrar: abaixo deixei escrito o sábado e o domingo. Sobre aquelas perguntas de V. a partir do livro Tratado de ateologia fiz um resumo no http://www.levileonel.blogspot.com

Sábado, 13/06 – Surpreendentemente o dia amanheceu azul claro e limpo, apesar de gelado (quatro graus às sete e trinta e com sol). Os três dias anteriores foram chuvosos! De manhã fiz os buracos onde colocarei o varal de roupas; o anterior está de tal modo localizado que a sombra da serra o atinge por volta das três e meia da tarde. Com isso perdemos pelo menso mais uma hora de sol nas roupas. Localizado entre a tulha e o setor das nespereiras (na foto está do meu lado direito), ele será perfeito também no verão. Estamos a poucos dias da estação de inverno e os dias estão cada vez mais curtos, particularmente aqui nos bosques que estão na face sul da serra. Isso diminui bastante nossa exposição a luz; às dezesseis horas já sentimos a temperatura despencar, por causa da sombra gigante da serra. Seus ombros ondulados tem seu ponto mais alto justamente atrás de nossa casa.
Ainda antes do almoço fomos para o pomar para dessa vez livrar os cambucizeiros, pitangueiras, cerejeiras, bem como mais alguns pés de limão galego, rosa e o pé de jaracatiá. O trabalho é pesado! Parte é feito por mim na roçadeira, baixando a braquiária e ramos finos; na foice cortando assa-peixes e alecrins; no enxadão, arrancando tocos que deixarão livre a terra, para que na estação das águas eu não tenha tanto prejuízo com peças sobressalentes da roçadeira (os tocos destroem com as laminas e cardãs, principalmente). V. carrega os ramos cortados e os deposita em uma vaga deixada por um limoeiro morto por brocas, onde, depois de secos virarão matéria orgânica (daqui a dois anos) e as sobras irão para o fogão a lenha. Usa a enxada para juntar o capim em voltas das árvores e carpir algumas touceiras que não foram tosadas pela roçadeira.
Almoçamos legumes, verduras, pimenta biquinho, ervas da horta e uma porção de carne. Descansamos e voltamos para o pomar. V. continuou o que fazia de manhã e eu passei a podar as árvores, para retirar galhos secos e abrir a copa para entrada de ar e luz. Prestei atenção particular as pitangueiras e cerejeiras que são mais delicadas. No último terço da tarde saímos pela propriedade verificando se havia formigas e colocando iscas; se não fizermos isso agora no outono/inverno nada colheremos especialmente dos caquizeiros, que são os preferidos das saúvas e quenquens. O dia esfriou drasticamente, sem aviso; de repente a pele enrijece, as narinas ardem e camiseta suada por baixo de um grossa camisa de trabalho, já não dão conta do ar frio. Ajeitamos o canil para resistir à baixa temperatura, com vários panos dentro das tocas de cada um de nossos amigos, cortinas para cortar o vento e bastante ração reforçada com carne e legumes para que façam bastante calor corporal. Seus olhares apaixonados parecem confirmar que tivemos sucesso no empreendimento! A noite foi realmente a mais fria desde que o outono se instalou...

Domingo, 14/06 – Correr hoje de manhã foi mais sacrificado. Pela primeira vez desde que o outono se fixou tive que usar luvas para correr às oito e pouco da manhã! Resolvi correr um pouco mais tarde para evitar muita diferença de temperatura (zero grau de madrugada e quatro às sete). O ar entra cortante pelas narinas e esta, por sua vez, se defende produzindo líquidos que tem a função de manter a temperatura minimamente equilibrada preparando para que não entre tão fria nos pulmões. Em compensação a neblina e o sol brilhante deram show! Cada metro da estrada foi uma experiência sem preço! V., desanimada por um resfriado mais forte, teve que andar apenas. Aproveitou para fotografar a paisagem e mostrar o itinerário que fazemos na corrida diária.
Ao voltarmos retomamos o pomar, onde usei a roçadeira para fazer um novo pedaço. Pelo fato de ter ido para Santa Catarina, por dois anos, e ele ficar sem cuidados, isso fez com se tornasse bastante “sujo”, o que exige, pelo menos por mais um ano, esforço de recuperação. É um pomar bastante variado e grande, com mais de trezentas fruteiras! Hoje só roçamos e carregamos os ramos grandes para o local em que será transformado em matéria orgânica. Almoçamos e procuramos por formigas. Decidimos descansar no final de domingo lendo. Eu: um capítulo de História e memória (Jacques Le Goff); o artigo Arte como produtora de memória social: uma discussão a partir da
obra de Vitor Meirelles (Roberto Heiden); 3 capítulos De Cidade antiga (Fustel de Coulanges); primeiro capítulo de Cidade dos sentidos (Eni Orlandi) e Terra à vista! (idem). A idéia é preparar um sub-capítulo de meu artigo sobre o teatro de PA – para isso tenho que ler sobre teatro, patrimônio histórico, sentido discursivo de memória etc. Encerrei parte dos estudos as vinte e uma horas.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Feriado vai feriado vem...

Anteontem, numa viagem que normalmente se dá em três horas, meu ônibus gastou cinco horas e meia; Não por causa do excesso de veículos (que de fato havia!), mas por causa de um engavetamento com com vários carros, sendo o meu ônibus um dos responsáveis! Ficamos horas na Fernão Dias, entediados, impacientes, sob chuva milimétrica e fria, parecendo mais molhada que as chuvas de verão. Os pingos, no outono e inverno, não desabam. Eles deslizam uns apoiando-se noutros, mas sem juntarem-se. Ficam de ombros próximos, por causa de sua debilidade de tamanho. São fiapos de pingos; qualquer brisa e descem meio de resvalo, de lado, encharcando antes de molhar. Para usar a situação a meu favor, li alguns capítulos de “A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott” de Elsa Dias e o capítulo XXV de “Da pediatria à psicanálise” do próprio W. (para um curso de extensão que darei sobre delinquência – a tendência anti-social) e revi meu artigo sobre o Teatro Municipal de PA. Conversei com os vizinhos de poltrona: um deles veio de Marabá no Amapá (viajava desde o início da madrugada migrando de aeroporto a aeroporto até que embarcara naquele ônibus em direção a Boa Esperança. Noutra conversa fico sabendo que uma garota de dezessete anos aproximados estudava em SP para os vestibulares de medicina. Com seu boné estiloso, xadrez de branco e preto, manipulando concentradamente os apontamentos de matemática, que era seu “grande problema com os vestibulares”. Boa de papo, sorrindo acolhedora com seus grandes dentes alinhados, brancos e limpos, com o anoitecer ela foi arrefecendo de cansaço. Escureceu umidamente. O ônibus finalmente arrancou e ela puxou o boné sobre os olhos. Um a um, praticamente todos mergulhamos em nossos mundos feitos um tanto de sonolência, outro tanto de pensamentos, reminiscências e esperas. Ontem, depois de ficar afundado, por horas, no mundo lacunar do sono e dos sonhos, acordei restaurado. Pela janela que dá para os pinheiros, azeitonas do ceilão, roseiras e mangueiras, vi espessa cerração que dava a cada árvore aspecto espectral; mais se via seus contornos, que detalhes. Mas, como as conheço de nascimento, sei que uma é roseira amarela, outra é uma agave verde acinzentado, outra ainda, uma mangueira espada. Fiz o café da manhã, simples e eficiente; Vania levanta-se; Rabicho, Soneca, Kelly e Gabi são convidados a entrar. Eles também são alimentados; já calmos nas entranhas cada um procura seu lugar na casa para a dormitação que se anuncia. Lá fora começa aquela chuva fina, cujo ofício é encharcar o mundo... Sem condições para trabalhar a terra, fizemos nossas leituras da vez – eu li um capítulo do “Tratado da Eficácia” e outro de “O ser e o nada”. Para treinar o francês, “Madame Bovary”. Vania leu mais um pouco do “Tratado de ateologia” e em certo momento quer saber porque Michel Onfray diferenciou “teístas”, “deístas” (menos cegos) e “ateístas” (mais lúcidos). Veja na terça que vem http://www.levileonel.blogspot.com).

Mais tarde descemos a serra até a casa de Zé Maria e Amanda para um almoço aconchegante. Conversas mais ou menos esparsas com novos conhecidos e outros já conhecidos de um bingo no Clube Literário; tratamos um futebol para qualquer dias desses – o ridículo é que não jogo desde os treze anos de idade. Será um desastre que só dará video-cacetada e bola-murcha para apresentação em tevê para divertimentos dos espectadores. Pelo menos de minha parte a diversão estará garantida. É mais que certo que riremos a beça!
E depois, como continuou chovendo, escrevi e li. Além, é claro, de alguns cuidados domésticos, sem os quais fica impraticável morar... A noite um pouco de tevê assistindo um seriado brasileiro.

Hoje, 12, o dia amanheceu plúmbeo, como diziam os clássicos, frio, úmido; nenhuma brisa, o que mantem a temperatura razoavelmente mais alta que a de ontem. Daqui a pouco vamos a PA para a compra de provisões e ir à biblioteca da UNIVÁS. Neste momento, escrevendo estas linhas, chego a conclusão de que devo comprar um dicionário com a renovação ortográfica, para praticar e não passar apuros quando terminar o prazo para que todos a adotem. Já uso um pouco de memória, por ter lido um ou outro livro e artigo que já usam a nova ortografia, mas não é o suficiente. Tenho que aprender as regras gerais, senão terei que usar o dicionário muitas vezes por dia...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Véspera de feriado!

Amanhã, feriado! Hoje a tarde a loucura da saída de São Paulo; mais de milhão de carros espremidos nas avenidas e superavenidas paulistas em direção a praia, interior, outros estados. Todos tentando descansar um pouco, divertir-se um tanto, esquecer um algo. Mas não é simples assim, divertir, descansar, esquecer custam caro ao sistema nervoso, ao bolso, a existência... Mas, como esquecer as agruras faz parte da arte de continuar tentando ser feliz, lá vão todos passar por novos aborrecimentos para tentarem a felicidade... Deve ser porque a felicidade mora na praia, no campo ou na casa do vizinho! Roquentin, em A náusea, disse que narrar é melhor que viver. Talvez as pessoas sofram tanto para divertir-se, na obrigação de ter algo a narrar na segunda, a alguém, nem que seja para ele mesmo ou para os netinhos. Quem sabe a melhor parte dos feriados é olhar as fotografias e fabular...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Diferença de temperatura!

Ao embarcar em PA para minha vinda semanal a SP, eu estava com bastante roupa! Agora, em meu consultório, depois de passar por um calor danado, metrô incluso, já instalado, me sinto bem, com um terço delas. É claro que alguém que mora a duzentos e trinta e quatro quilômetros do trabalho, passa por vicissitudes incomuns, dessa relação tempo-espaço-clima-clima-existencial, mas também usufrui de um olhar bastante diferenciado. Estou falando da diferença de temperatura existencial -ritmo emocional, angústia crônica, fadiga, desilusão, próprios de uma megacidade, versus ritmo sazonal - ligado ao clima, angústia da facticidade, cansaço físico, ilusão, próprios da vida enraizada no campo. Aqui não é o lugar de me explicar quanto ao que observo; sugiro ler de vez em quando o http://www.levileonel.blogspot.com onde repasso o assunto semanalmente. Meus pacientes me esperam...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Hoje, nespereiras, amanhã geléias de seus frutos adocicados!

Pouso Alegre: 17:34, segunda. Pois é, não dei sorte com a única lan aberta! Não postei ontem porque estava com problemas que nos impediam de entrar na rede; demoraria muito tempo e decidi postar hoje. Como já havia previsto, neste regime onde não tenho internet na serra as postagens sofrerão certa defasagem... Hoje, amanheceu e permanece um dia cinzento, com temperaturas baixas, cuja sensação térmica é ainda mais baixa por causa de um vento intermitente, cortante. De manhã, bem agasalhados, nos dirigimos, V. na enxada e eu na foice, para nosso pomar de nespereiras. Podamos, limpamos seu entorno e lhe demos o formato de taça, que facilita a entrada de ar e luz na copa. Isso nos renderá, para o verão, frutas naturais e geléias que comeremos no outono que vem. Agora vamos fazer a rotina de cuidados das nossas relações com a cidade: banco, uma visita rápida ao Luiz Henrique e sua escola, onde aprendemos dança de salão; irei ao museu para a continuidade do projeto de pesquisa e ao próprio teatro municipal.

Pouso Alegre: 11:00h, domingo. Passeio pela cidade que está cheia; ao passar pela praça central, ao irmos ao açougue do Roberto pegar ossos para nossos pupilos, nos deparamos com um conhecido movimento de fim de missa na catedral – pessoas aliviadas de seus pecados, de seus compromissos aos olhos da sociedade. Dá para adivinhar seu prazer antecipando almoços familiares e uma tarde em paz. Famílias inteiras – de netos a avós – concernidos, escusados pelo que passaram durante a semana de lida, preparando-se para a próxima, entremeio o alarido das crianças, a dormitação dos adultos e os sonhos dos jovens...

Na última sexta a serra amanheceu de ar limpo e a pouco mais de 4 graus de temperatura; na madrugada chegou a zero! Faz tempo que não sentia por aqui um frio desta ordem em maio. E veja que já estamos aqui há quinze anos, e morando regularmente a seis. No caminho para PA, onde faria consulta de rotina ao dentista, o para-brisa congelou e foi difícil fazê-lo transparente só com a água do limpador. Quando voltei – depois de ir ao conselho de psicologia para apresentar um projeto de cine-clube e plantão psicológico; de visitar o museu para o trabalho sobre o teatro; de tentar resolver (sem sucesso) a recepção de sinal de internet em casa – de longe vi a serra coberta por denso nevoeiro. A temperatura já subira o suficiente e agora seriam horas cobertos por úmido vapor que sobe do bosque. Uma vez em casa, enquanto ia estacionando em frente o Gravetos, barracão onde fica um fogão a lenha, o divisei atravessado por uns poucos raios solares vindos por entre uma moita de eucaliptos, marcados pelo desenho feito na cerração. Foi um espetáculo digno de efeito especial cinematográfico; alias o dia estava para efeitos especiais, o que se comprovou depois com revoadas de maritacas tipo maracanã, os ritos sexuais feitos de voos rasantes e sons roucos dos urubus, que há anos fazem seus ninhos em uma pedra acima de nossa morada, numa das dobras da serra.

Hoje, sábado, arrumamos a tulha, para que sobre espaço para as novas ferramentas que chegaram de Monte Santo, dia 18 passado. Fizemos a faxina geral da casa e colocamos ordem em dezenas de objetos que estavam mais ou menos sem lugar certo. Cansativo, mas extremamente útil, para quem necessita fazer as tarefas diárias no pomar, horta, plantações de subsistência e ainda dar conta da moradia. Quase sem móveis ou objetos supérfluos, é uma casa fácil de cuidar; ainda assim, precisa de uma arrumação mínima...Assistimos duas horas de tevê e fomos, ao final do dia, quase escurecendo, verificar se as saúvas e quenquens estavam atacando marias-sem-vergonhas, roseiras, espirradeiras, jabuticabeiras... E estavam! Deixamos nos buracos de suas entradas um produto granulado que tem a função de criar fungos em sua comida (as folhas sofrem uma oxidação dentro do ninho delas) e isso as desestimulam de procura comida naquela região. Foi o que fizemos...!