Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

domingo, 10 de janeiro de 2010

Guaxinins, sujeito de mercado e lixo na estrada!



É triste ver um guaxinim - dito camambeva na região - ainda filhote, sem ter trocado os pelos iniciais, estirado no asfalto, atropelado por algum carro; morto. É assim que encontrei, um deles (pois se deslocam em bando) na beira da via que dá para Espírito Santo do Dourado, aquela mesma na qual corro de manhã com a Kelly Lulu. Com a chegada de mais pessoas na região, o trânsito aumentou - nada que se compare sequer ao entorno de Pouso Alegre, mas que já se faz perceptível aos moradores antigos, que como eu, já estão por aqui há quase quinze anos ou mais. Por outro lado, é uma região que de rural vai se tornando de preservação ambiental; algo irregular e instável, porém bem mais consciente do que nas décadas anteriores.
Vania e eu fazemos parte desse contingente de interessados no ambiente - em deixar matas crescerem nas proporções necessárias, plantar bosques com árvores nativas e frutíferas, reservando o entorno de minas e regatos. Percebemos que há uma surda e muda diferença entre nossa atitude e a daqueles que são nascidos por aqui e que insistem em manter pastagem em encostas e beiras de rios e regatos, bem como no uso descabido de agrotóxicos, herbicidas e adubos químicos, sob o argumento míope de que só assim podem conviver com a natureza. Para se ter uma idéia do absurdo desta posição, nossas terras, que, repito, são bem recuperadas (não ainda como sonhamos, é verdade), anos após chegarmos aqui, ainda não podem produzir e manter os nutrientes suficientes para dar frutas como caquis, peras, maçãs e outras mais comuns. O que dizer de terras que são aradas por trator, atacadas por herbicidas, fogo e adubos? São terras imprestáveis, sugadas até a exaustão, que sozinhas mal produzem capim para o gado. É por isso que vejo os pastos como desertos verdes!!
Uma respiração para me justificar. Não esqueço nunca de que esse sujeito do campo é antes de tudo, e principalmente, sujeito de mercado, como eu e você - e por isso vive na contigência de explorar sem piedade a terra, para que esta lhe provenha de meios para que possa frequentar a vida civil. Esse é um ponto cego eternamente presente em nosso campo de visão. Afinal, argumentamos todos, como fará para sobreviver, senão corroendo a crosta terrestre onde vive? Boa pergunta.
Voltemos ao Guaxinim. Esse sujeito do campo, não quer o Guaxinim por aqui; alie-se a isso um tipo de gente que passa fins de semana em seus sítios nas redondezas, vindos de Pouso Alegre e mesmo de São Paulo. São deseducados, inconsequentes, cuja virulência do comportamento destrutivo inocula até o chão em que pisam. Falo disso, pensando nas dezenas de latas de cerveja e sacos de lixo que arremessam na beira das estrada, e que recolho com raiva, tentando manter a beleza deslumbrante do lugar. Esse tipo de frequentador eventual passa por aqui em alta velocidade atropelando tudo que supreende atravessando a bucólica via. Já vi de cães a cobras, de aruás (caramujo gigante) a guaxinins, destroçados por carros dirigidos loucamente. Me pergunto por que alguém dirige naquelas estradas a mais de quarenta quilômetros por hora? Onde estará indo? Relaxar nas montanhas da região? Mas por que a pressa?
Sem ingenuidade, é óbvio que acidentes acontecem e é óbvio que alguns dias estamos atrasados por acidentes vários. Mas pergunto por que o atropelamento de bichos está tão frequente?

Lembrando que quem dirige por aqui é o homem do campo e os visitantes para divertir-se e relaxar, faço um apelo às autoridades para que criem um projeto de educaçao ambiental, sugerindo muito baixas velocidades nas vias de acesso à cidade e sacos de lixo que levem consigo para depositar em locais apropriados, que, por sua vez podem ser ampliados, já que alguns realmente estão a disposição.
Bolas! Que saiam mais cedo de suas casas (aqueles que trabalham) e que olhem com atenção as maravilhas deste lugar (aqueles que visitam Espírito Santo do Dourado). Para isso precisam dirigir bem devagar, senão perdem lances como os Jacus que estavam na beira da pista, tratando de seu filhote, hoje de manhã, enquanto eu corria (a pé, claro).
Para aqueles que achavam que só falo do bom e melhor, por que vivo em um paraíso, sinto desaponta-los.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bom ano novo!

Último dia do ano! A chuva arrefeceu...
A fazer, nada de especial. Acordamos cedo, uma vez que ontem dormimos cedo. Café da manhã usual; alguns exercícios físicos; Vania começou a preparar uma petição inicial com pedidos de ressarcimento por dano moral a sua cliente.
Eu e Kelly Lulu Star fomos correr lá em baixo na rodovia, como de costume. Na ida passamos por uns casais de bugios com seus filhotes enroscados no peito, nas costas e nos galhos das árvores. Fico em silêncio, enquanto eles reclamam muito, talvez dos latidos de Kelly. Ato contínuo, se escondem como manda o figurino dos macacos. Fazia tempo que não via bugios tão próximos da estrada e das casas! Talvez o feriado e a região em silêncio ajude a explicar o fato. Além de um bananal bastante fértil, é claro!
Mais algumas passadas e uma dupla de pica-paus de cabeça alaranjada, parecidos com o chen-chen, porém menores, comem formiga-da-umbaúba. É uma batida ritmada e seca no tronco da Umbaúba, talvez para eriçar os ânimos da pequena formiga, considerada uma das mais violentas e venenosas da mata atlântica. Já fui pego por uma dúzia delas! Como se diz por aqui, meu couro ardeu por horas, inchado e dolorido. É um perfeito consórcio entre a Umbaúba e a formiga, que protege a planta e mora em seu interior sem destruí-la; é maravilhoso!
Continuamos a corrida... Passei por um caramujo que desliza silenciosamente pela brita do asfalto. Pego-o para evitar que termine como um outro que há dias vira esmagado pelos pneus de algum carro. Me chama atenção que, em quinze anos somente tenha visto estes dois caramujos dos grandes (em geral os que vivem na serra tem pouco mais de um centímetro de diâmetro – sua casca – e três centímetros o corpo vivo). Este, pelo contrário, a parte viva tem 20 centímetros! E sua casca enche minhas mãos em concha!
Tomei a decisão de deixá-lo em em lugar estratégico para depois da corrida levá-lo para minha casa e deixá-lo bem seguro perto das minas de água.
Continuamos...
Passei por sobre uma cobra verde morta no asfalto e pensei que fiz bem em livrar o caramujo deste destino. Olhei-a penalizado. Chegara a adultice, com pelo menos quarenta centímetros de cabeça a cauda; cabeça inocente, sem aquelas formas das temíveis jararaca e cascavel. Resolvera se aventurar do outro lado da rodovia! Talvez tenha feito isso por toda uma vida antes desta manhã fatídica.
Subimos a serra até próximo do bar do Ademir, alguns quilômetros depois e serra acima... Voltamos correndo devagar para eu achar o caramujo. Peguei-o na mão e o virei de “pernas” para o ar facilitando seu transporte. Encolheu suas antenas e o farto “bigode”, limbentos. Ao subir por um atalho que ladeia o cafezal fui seguido por umas gralhas de rabo branco desconfiadas que fossemos mexer com seus filhotes escondidos nas amoreiras.
Chegamos, mostrei para Vania meu achado, interrompendo sua petição, e fui deixar o caramujo em lugar seguro. Antes disso, Gabi, Rabicho e Soneca foram verificar de que se tratava; cheiraram longamente o bicho e desistiram de considera-lo uma caça. Assisti tudo um pouco tenso, mas como Kelly não tinha tido nenhum interesse, presumi que assim seria com os outros. Mas Gabi ainda é uma filhote e bem poderia se empolgar.
Quando disse a Vania que descreveria a manhã deste último dia, como um dia comum, por aqui, fiquei com a sensação de que poderia ser considerado não tão comum assim. Mas é a pura verdade! Essas coisas acontecem por aqui e não são extraordinárias.
Espero que o ano de 2010 continue assim: comum, sem grandes surpresas; Vania com muitas petições e eu podendo correr serra acima na manhã de cada dia que se apresentar.
Para os que me lêem um grande e extraordinariamente bom ano novo!


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

As chuvas de Natal e os novos ventos da serra!

Chove! Como sempre choveu por aqui nos dias próximos do Natal! Época boa para descanso, terapia do sono e retiro do azáfama das cidades, seja São Paulo ou Pouso Alegre. E para ouvir o som do vento! Pois é! Dias atrás me dei conta de que estava ouvindo um susurro diferente vindo do cimo da serra. Era coisa nova! Nada de abelhas fazendo enxameação ou algum avião distante com seu ronco surdo. Tratava-se do som das árvores da serra! Foi emocionante, tocante mesmo. Para um desavisado isso parece meio sem cabimento, mas deixe-me explicar.
Há anos espero por esse acontecimento, coisa que ocorre apenas e tão somente se as árvores tem um tamanho adequado - grande o suficiente para ter copas folhosas e de bom diâmetro, além de canelas compridas sustentando suas saias verdes. Quando aqui desembarcamos, em 1993, podia se ver, de longe o tapete aveludado das pastagens; bonito, mas desértico. Apenas alqueires de capim para o gado pastando silentes e calmos. Nestes anos a vida floresceu por aqui. Plantamos milhares de árvores e deixamos alqueires de mata nativa e ciliar, bem como plantamos fruteiras por todo o terreno - para nós e os bichos que a cada dia migram para cá.
Agora, depois de uma espera longa e ansiosa, já podemos ouvir o roçar poderoso do vento nas longas pernas das árvores! Só os deuses podem saber com que intenções! Suponho que boas, mas posso mesmo garantir que de minha parte a coisa vai bem.
O Natal se foi, a chuva deu uma pausa e agora é continuar a obra da natureza, melhor dito, deixarmos que ela erga mais e mais suas grandes guardiãs verdes ao sopro do vento.
Aos amigos daqui e de lá, muitas paisagens bonitas! Encher os olhos do belo é o que desejo a todos!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Elmo e as Armas de Joaquim Tobias!

Sexta pegamos o carro e fomos a Espírito Santo do Dourado, onze quilômetros distante de casa. Uma viagem curta e rápida por estradas poeticamente sinuosas, belas como uma pintura de Duchamp. Anoitecia. Os paralelepípedos da cidadezinha já se umedeciam de calmo sereno. As cores tendiam ao pastel. Estávamos em silêncio; sem saber exatamente o que se passava conosco. Que sentimentos tínhamos, vagando por nossos espíritos?

Chegamos em uma esquina; estacionamos perto de uma casa azul. Quatro ou cinco homens sentados na calçada, em frente a casa, nos olharam longamente, a mim e Vania, enquanto nos dirigíamos até lá. Olhavam sem ansiedade ou constrangimento; sabiam porque estávamos lá. Não havia mistério, talvez alguma dor em certo canto de nossos rostos, uma certa rigidez nas faces, mas nada muito vincado. Nos olhos certo aquecimento do espírito, nos gestos um comedimento que eu já experimentara três ou quatro vezes na vida. Tinha a ver – eu o sabia muito bem – com os ritos da morte. Daqueles homens conhecíamos o João. A fala calma, e de certo modo espremida, sai do peito de Vania: O Zé ligou falando do seu Joaquim; que caíra nas pedras...

O João: Não, Vania, foi entre o primeiro e o segundo portão lá da casa de vocês.

O outro: Falei para o Zé que não podia ficar daquele jeito, que a vida é assim mesmo, que tem que erguer a cabeça, que...

O João: Ele teve dores há uma semana, mas não quis ao médico...

Vania: Eram amiguinhos, dividiam tudo entre si, eram sócios em tudo que trabalhavam,  todas as rocinhas, do milho do feijão...

O outro: Eram...

João: Eram mesmo...

Eu: Tenho pena do Zé, que ficará sozinho...

Vania: Como deve ser difícil para o Zé, vê-lo ali naquela situação...

João: Encontrei ele lá no Ademir, cabeça baixa chorando, andando devagar...

O outro: Falei para o Zé que não podia ficar daquele jeito, que a vida é assim mesmo, que tem que erguer a cabeça, que...

Vania: O que será de seu cão e seus gatos e galinhas e vaquinhas e cavalinho...
Entramos na casa, sorumbáticos, silenciosos. Olhamos seu rosto sereno, quase tão sereno quanto quando andava lá em nosso bosque trabalhando sua roça de milho em sociedade com o Zé; Joaquim estava de camisa nova, uma daquelas que jamais usou no dia a dia; o caixão não lhe caía bem, não sei porque. Digo: Prefiro ficar com a imagem dele na serra. Vania desvia duas lágrimas com as costas das mãos.
Embaixo do caixão, colocados lado a lado, seu chapéu de palha amassado, suas botinas rijas e desgastadas e uma sacola com pertences. Penso - é incorrigível em mim - que faltava sua enxada amolada e um machado; tal como se enterravam os guerreiros em certas culturas, com seus pertences de combate. Do Joaquim vi seu elmo usado contra o sol, as botinas que lhes protegeram os pés da rudeza do chão. Mentalmente coloquei ali sua enxada e machado - as armas de um quixote lutador contra ervas daninhas e na faina de corrigir o chão para ali enfiar sementes. Também como Dom Quixote, Joaquim lutava contra alguns mal-feitos e desrazões - só não sei quais.
Adeus Joaquim Tobias! É melancólico que seus pés nunca mais amassem os torrões carpidos nas bordas da serra do Cervo!

domingo, 15 de novembro de 2009

O diário de Roquentin e o boato de si mesmo!

“É isso que tem que ser evitado; é preciso não colocar estranheza onde não existe nada. Creio que é este o perigo. Quando se faz um diário: exagera-se tudo, vive-se à espreita, deforma-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, de um momento para outro – e precisamente em relação a esta caixa ou a qualquer outro objeto – experimentar novamente a impressão de anteontem. Tenho que estar sempre preparado; do contrário, ela mais uma vez me escaparia. [...] Naturalmente, já não posso escrever nada de preciso sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou muto distanciado delas; só posso dizer que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que se chama comumente um acontecimento. Sábado, os meninos brincavam com pedras, fazendo-as ricochetear, e quis imitá-los e jogar uma no mar. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui embora. Eu devia ter um ar perdido, provavelmente, já que os meninos riram quando lhes dei as costas”. (Roquentin, escrevendo seu diário, em A Náusea).

Estou com Roquentin. Ao escrever diários deformamos a verdade, mas não mentimos; fabricamos a verdade, a partir desse não-acontecimento – esse cotidiano insosso, sem consistência e sem beleza especial; o fazemos se tornar bordado, retinente, luzidio. Não é que inventamos uma verdade; é que omitimos o geral em prol do detalhe; colocamos uma lente nele e o expomos aos olhos, enquadrado e emoldurado. Carregamos nas tintas aquilo que parece apenas entrevisto, difuso, mal delineado. Fazemos um conto da realidade; uma ficção com a vida. O diário não torna a realidade, por isso, artificial, mas sim, um boato de nossa própria vida. E onde há fumaça, há fogo, dizem. Assim, da fumaça da realidade que é o diário, podemos entrever algum fogo de acontecimento, de realidade – algo que talvez valha a pena contar para algum “querido diário”. Nossas vidas são tão desinteressantes, tão comezinhas, que um diário pode salvá-la da mediocridade; basta reinventá-la, sem mentir, imitando, talvez um humorista que diz: "Eu aumento, mas não invento!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A pastoral do poder e o poder pastoral!

Lula e sua pastoral do poder; o poder do condutor de almas; do discurso de eterno comício. Lula faz desbragadamente, de cara lavada, indefenso, aquilo que "nunca antes na história desse país" os políticos fizeram com tanta desfaçatez: ele se mantém no poder pela propaganda, pelo comício por vinte e quatro horas de todos os dias de seu mandato. Nada que seus rivais políticos não sonhassem fazer, sendo impedidos pela população, por meio de um sufrágio não tão exitoso e pela incompetência de não ter vergonha de fazer que cada obra (desde um degrau em uma estação de trem até uma obraPAC), se tornassem palanques, púlpitos ou tribunais. Sim, porque se trata de propaganda sempre, salvar a população sempre e de polícia política sempre. É, como diz Foucault, uma pastoral do poder. Lula reune as faculdades do poder pastor: Trata questões de governo de modo pessoal, pretende conduzir os espíritos e salvar a brasilidade. 
Eu, que sou ateu, espero que um deus qualquer me livre desse poder pastoral!
Sobre o rei que reina mas não governa: http://levileonel.blogspot.com/
  

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As vielas de Pouso Alegre!

Pouso Alegre é daquelas cidades que já cresceram o suficiente para ter nostalgia de suas ruas estreitas. Algumas já viraram - como manda o figurino das cidades cujas populações inflacionaram - calçadões com certo lirismo descansado, um eterno bucolismo de sábado a tarde. Ela já lembra uma São Paulo em miniatura; com pouco esforço encontramos um correlato da Vinte e Cinco de Março, do Largo da Concórdia ou da Rua Santa Efigênia. Contudo, apesar de encontrar uma São Paulo minimalista em certos aspectos, Pouso Alegre se define pelas consideráveis diferenças e não pelas semelhanças com São Paulo. A primeira, fundamental, essencial, é que está em Minas, é constituída predominantemente de mineiros e está numa distância salutar de São Paulo, distância importante, pois aquela tem a capacidade de contagiar, como se fosse uma aura calórica, seu entorno por dezenas de quilômetros. Seus vapores, para o bem e para o mal, alcançam além de seu perímetro urbano, metropolitano e mesmo as cidades da Grande São Paulo, indo tocar, com sua membrana agitada, palpitante, apressada, até cidades vizinhas. Em nossa direção, contando apenas a Fernão Dias, chega a tatear Atibaia e Bragança! Hoje, ao acordar, lá na Serra do Cervo e vir para PA pude avaliar melhor, para meu proveito e responsabilidade, as venturas e desventuras de trabalhar em SP. O lado afortunado: desfruto de uma situação muito confortável de poder degustar várias artes, inclusive a de trabalhar. O lado desafortunado: parece óbvio, dispensando comentários...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Letras engarrafadas nas avenidas da memória!

Faz tempo que não blogo! Dias fáceis, mas cheios de surpresas; muitas e múltiplas atividades, pequenas viagens a cidades pequenas no entorno de Pouso Alegre para fazer diagnósticos psicológicos, textos variados (que vão daquela pesquisa sobre o teatro de PA, a outro sobre o sentido de margens em uma cidade), ler Agamben (Estado de exceção), Lacan (O sinthoma), F. Jullien (Tratado da eficácia), manuais de psiquiatria e de testes psicológicos. É uma massa de letras umas atrás das outras...! Mas até que fazem sentido! É isso! Agora é ir para o Corê, em São Paulo, e realizar uma vivência com elementos da cosmogonia indiana, psicanálise, cura sui e cha'n tao. Mais releitura!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Luzes de minha infância, papai noel e pirilampos!

Sou daqueles para quem árvores de natal jamais significaram mais que desperdício. Não me orgulho disso, pois parece que os que se dedicam a essa atividade pueril são mais felizes do que eu! É uma felicidade sem consistência, quase idiota, mas que coisa tocante! Olhinhos de adultos e olhões de crianças fitando fascinadas aquelas árvores piscando... e piscando... e piscando... E aquelas avós, e avôs, e pais, e mães dizendo: “Qual o problema de uma fantasiasinha assim inocente; quem não acreditou nisso um dia; porque fazer as crianças enfrentarem a dura realidade sem papais-noéis, e fadas, e gnomos antes do tempo; depois, como vão se encantar com a vida etc etc?” E eu, esperando que minha mãe não me desminta, afirmo que jamais acreditei no noel. E tenho quase certeza de que sou bem perto de normal! Bem, em certa idade, que não posso precisar, talvez tenha ficado um pouco triunfante, estranhado e frustrado, quando puxei a barba do noel e havia o rosto de minha mãe por trás dela. Mas e daí? Pode ser a prova de que nunca engoli aquela história de “ho-ho-ho” meio desafinado! Por via das dúvidas não direi que postei esta semana! Vai que ela tem a prova irrefutável de que algum dia levei a sério essa bobagem adulta! Mas porque falava disso mesmo...? Ah! Lembrei!
Dias atrás falei que esperava os pirilampos voltarem e agora lá estão eles! Passeiam pela serra escura, acendendo e apagando suas luzinhas, tal como pequenas lâmpadas numa árvore de natal gigante, mas com o dom suplementar de irem e virem, incansavelmente, por toda a noite, cessando com o anunciar do dia. Alguns vagalumes mais afoitos, num esforço inominável, acendem aqui perto, atravessam as copas dos pinheiros e fenecem depois do angico e da árvore de azeitona-do-Ceilão. Imagino o gozo de poder fazer luz própria, uma proeza que religiosos daqui e de acolá sonham: iluminar-se, tornar-se luz. Um dia, na Índia, em Kajuraho, ouvi um religioso dizendo: “I am the sea, I am the sun”. E repetia essa ladainha mântrica por horas. Mas, coitado, por mais que se esforçasse e fosse honesto nos propósitos, não brilhava nem a metade de um vagalume!
Vagando com seus lumes, pequenas lamparinas riscando o quadro negro da noite, escrevem a vida nos morros; daqui alguns dias somem e vão dormitar em alguns nichos do mundo, criar suas crias, e estas tomarão seu lugares e outros olhos olharão seus piscares, pois, tal como vagalumes, o lume de meus olhos não estarão aqui para mirá-los.

Vagalumes!

Ontem choveu daquela maneira densa, calma e pesada, que as chuvas de primavera e verão às vezes podem chover. Ao passar pela entrada do sítio o cheiro de grama molhada me encheu os pulmões e fiquei ali, por alguns segundos, encharcado, pensando nas milhares de pequenas tocas de bichinhos, insetos e outros maiores, tenteando a chuva e esperando a estiagem para fazer suas refeições. Pensei que aquela noite, a tomar pelas noites de sábado e domingo, com os primeiros pirilampos a foguetearem pela serra, que seria a festa que já presenciara em outras primaveras. Mas, com a chuva, acho que adiaram o espetáculo para outro dia mais propício. Aguardarei ansioso... Espero que coincida com minha volta de São Paulo! (escrito em 28/09).

sábado, 19 de setembro de 2009

Os apuros de Vania, a Via Láctea e os vagalumes de amanhã!



(Escrito na noite de 17/09/09) Depois do usual período em São Paulo trabalhando em psicanálise, estou de volta à Serra do Cervo; Vania me aguardava na rodoviária com seus refrescantes olhos verdes, bochechas rosadas e sorriso pleno. Ela diz que está em “apurinhos” (adoro quando diz que está em apurinhos); quando diz assim, significa que não tem domínio dos procedimentos de uma tarefa qualquer que esteja realizando no momento. Mistura um pouco de “arte” no sentido infantil do termo, uma pitada de dificuldades não muito bem explicáveis, um naco de “mico” etc. Aí, depois de falar “apurinho” ri como uma menina pega “de jeito”! Me contou seus apuros e rimos juntos por alguns instantes. Já em casa demos uma pequena volta com nossos amiguinhos ávidos de contato com os humanos que tanto conhecem. Nestas alturas, o céu estrelado já mostra o esfumado da Via Láctea, formando seu caminho sempiterno (pelo menos em comparação a estes fugazes viventes que a espreitam daqui da serra). O céu está mais escuro que o usual e isso ressalta o colar de estrelas no pescoço da abóboda celeste, competindo em número, brilho e mistério com as lâmpadas lá do vale do Cervo. Neste momento, escrevendo minhas impressões, sinto o cansaço chegando como um fantasma amigo me hipnotizando, me convencendo à escuridão da consciência. Não acho ruim de jeito nenhum e até penso com encanto a idéia de desaparecer do mundo por algumas horas, sabendo que lá fora as estrelas, os grilos, as corujas, os curiangos e uma multidão de outros seres vivos começam seu “dia” num azáfama variado e num afã muito conhecido deles. Até amanhã às seis! Descanso agora para amanhã chegar cedo ao Teatro Municipal para sua filmagem e entrevistas que dirigirei com vistas ao projeto da UNIVÁS. Depois virá uma reunião no Depto de Psicologia da universidade, umas anotações no museu e outras na Secretaria de Cultura (todas com o objetivo de estofar minhas idéias no projeto "Discurso, Memória e Processos Identitários do Sujeito Pousoalegrense"). 
Fotos: Chegando em Esp. Sto. do Dourado e Vania na Frente do Faculdade de Direito do Sul de Minas para um curso de Direito do Trabalho)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bolinhas de gude, jabuticabas e o nada!

Nas jabuticabeiras, aqui no Cervo, os frutos redondos como bolinhas de gude, as burquinhas de minha infância, negras e brilhantes, já aparecem aqui e ali. Ao olhá-las, brilhando ao sol, imediatamente me remeto aos sete ou oito anos, lá no Jardim Adriane, quando ia buscar algumas delas, às beiras de um regato caudaloso e limpo. A jabuticaba foi daquelas frutas, entre cinco ou seis das que mais gostava. Facilmente competia com as mangas, mexericas, amoras, gabirobas e abacates. Hoje meu paladar se expandiu; gosto de calaburas, nêsperas, quiwis, pinhas, anonas, cambucis, pitangas, cerejas, figos, cabeludinhas, caquis, jambolão, pêssegos, tamarindos, maracujás, jaracatiás, acerolas, goiabas, cajus, lichias, feijoas e outras menos comuns. Não por acaso plantei-as todas em meu pomar para que possa por todo o ano variar os sabores de sucos, doces, geléias e a fruta natural, comida nas sombras de suas copas.
Bem, como ia dizendo, as jabuticabas com seu brilhante negrume me lembram as bolas de gude, e, como sempre acontecia entre os molequinhos desta idade, algumas, por um mistério qualquer, tornavam-se mais cobiçadas que outras. Guardava-as todas em um vidro de meio quilo, cujo conteúdo havia sido comido, só para apreciar longamente, às vezes por mais de hora, sua rutilância ao sol ou com o brilho das lamparinas escuras de querosene e suas chamas, de amarelo amortecido. Mas as que mais me chamavam a atenção eram duas bolinhas pretas, com um brilho profundo, enfeitiçante, parecendo me atrair para dentro de seu nada interior. Estranhamente eu me afundava naquele mundo pequeno e misterioso e me deixava estar. Era como se estivesse dentro da tenda cônica de índios americanos que vira em uma revista de bang-bang; lá dentro era tudo conforto e segurança. Em minha imaginação defendia a tenda dos bandidos vestidos de farda que a atacavam; eu vencia sempre, porque meus revolveres tinham muitas e muitas balas! Os deles apenas seis! Era uma vitória desproporcional! Aí eu saia galopando pela imensa pradaria que ia da mangueira até a porta de casa e tudo acabava com um banho morno de canequinha e queda livre na cama de palha de milho. O barulho da palha sob meu pequeno corpo ia diminuindo até que a bruma espessa do sono chegava sorrateira tentando me domar os pensamentos. Em geral, antes de cair no abismo órfico, pensava no nada dentro das bolas vítreas e sua negridão, dava uma olhada se tudo corria bem com o Daniel e depois ia perdendo contato com os sons vindos da cozinha, onde o pai, a mãe e a vó Pina falavam cada vez mais longe, até que pareciam falar lá embaixo do abacateiro. Depois era o nada, a escuridão reparadora. O molequinho tinha que descansar para jogar burquinha com o Zé Manquitola, espiar timidamente a menina da casa da esquina, comer gabirobas e jabuticabas, nadar no rio e, de quebra, ir à escola, ver os dentes brancos e os olhos verdes de dona Lurdes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Fim de inverno no asfalto!

Sinto uma mistura viscosa de sono e calor, preguiça e cansaço, nesta transição de estação. É até gostoso! Pena que não possa deitar aqui embaixo desta mini-sibipiruna ou acolá, sob a marquise daquela loja e me deixar amortecer por esse calor esquisito, meio frio, meio quente. Suor sem consistência, como se predizendo um frio fino estrepando a pele, daqui algumas horas, já no escuro das calçadas. Sem estrelas para ver, frio eriçando pelos, exaustão do dia, me dirijo para um certo endereço... espero que o cachorro do vizinho me dê a chance de recuperar as forças para a quinta de manhã! A alternativa será ler "Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua" ou "Estado de Exceção"!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Os senadores, juri popular e Vó Pina!

Para dizer a verdade Vó Pina me pressiona demais para escrever suas memórias, planos e idéias! Tenho preguiça (mas também falta tempo; estou até as orelhas de textos, pesquisas etc), estou com sono, trabalhei dois dias e meio sem tempo para respirar e ela lá: "fala do Sarney! Fala do Lula! Fala daquele dia que eu encontrei o Mercadante fazendo compras na...!" Se eu der ouvidos a ela estou frito! Acho que Vó Pina está meio apressada por causa da idade. Não se é centenária assim sem consequências, não é?
Ultimamente, insiste que eu inicie uma campanha para levar os corruptos do senado a juri popular, deixando-os expostos à justiça "de fato política, da pólis", longe do escudo protetor do estado e mesmo do direito! Ela andou lendo algum livro anarquista, embolorado, secreto, daquela biblioteca do porão de sua velha casa! Só pode ser!
Mas que seria uma experiência inesquecível ver um Sarney tendo que prestar contas frente a um juri popular, seria! Pelos deuses, até eu estou sendo afetado pela insânia que subjaz àqueles cabelos alvísimos...! Preciso ir para a serra, senão ela me coopta para sua causa!

Vó Pina e os assentos azuis (ou cinzas?)!

Vou tentar reproduzir a Vó Pina: "É esquisito, mas nos vagões do metrô, e desconfio que nos ônibus também, existem assentos com cor cinza ou azul. Dizem que é para os velhinhos sentarem! É o fim do mundo! Como sempre, a discriminação - velhinhos tem seu lugar destinado, e não espalhados pelo mundo que é aonde vivem. Mais absurdo ainda é ouvir uma voz eletrônica dizendo: 'Obrigado por respeitar o assento preferencial!' Imagine que eu tenho alguém agradecendo por mim a alguém que me "cedeu" seu lugar nos bancos! E isso já se naturalizou. Ninguém precisa ceder lugar se os bancos diferenciados já estão com sua cota de cambitos. Aí, aqueles jovenzinhos com MP-alguma-coisa nas orelhas, ou fascinado por um celular raio colorido-não-sei-o-quê, nem olham prá gente. Mas não serei parcial... todos, de qualquer idade, fazem cara de paisagem e continuam em seus, como sempre digo, 'imundos íntimos'. Problema do velhinho que não chegou antes e sentou no seu lugar! Este é mais um item no qual regredimos nas últimas décadas: cadê aquele sentimento bom de fazer um carinho, ou no mínimo um pouco de piedade pelo peso do fardo de carregar um corpo septuagenário e não raro octogenário. Cuidado urbanos! Os cidadãos de São Paulo envelhecem drasticamente e loguinho será você reclamando! Aproveito para anunciar que vou criar um movimento contra os bancos preferenciais. De hoje em diante sou monotônica. Só vejo uma cor: a cor da inclusão, da urbe. E isso é só a ponta do iceberg. Levarei um susto monumental (eu gosto de 'monumental'), quando um jovem me ceder seu banco apenas porque é urbano! Mas farei cara de quem viu a coisa mais natural do mundo e só farei um gesto delicado de cabeça, agradecendo. Afinal, é sempre com esforço que fazemos algum carinho àqueles que não frequentam nossa sala e cozinha, não é, bisneto?" E eu: "É sim, Vó Pina!" Pensando se entro na campanha dela para abolir-se os indefectíveis assentos azuis (cinzas?). Aí tive uma iluminação.., uma fulguração.., como dizia Sartre. Vamos pintar todos os assentos de azul (cinza?)!!!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Jararacas e a resenha!

Sexta e sábado fiquei envolvido com eventos na Câmara Municipal de PA, sobre Legislação e Ética em Comunicação; também um evento no CRPMG também em PA, sobre políticas públicas, o SUAS, e Mídia e Psicologia.
Ontem, domingo, foi um dia dividido em duas partes bem distintas. De manhã limpamos e roçamos uma capoeira que estava nos incomodando por ser moradia de uma jararaca muito grande; esperamos dissuadi-la de ficar por ali e ir morar em outras paragens. Em geral isso adianta. Contudo, levando-se em conta as diferenças de linguagem, achamos por bem usar um pouco de força, retirando a segurança dela e expondo-a aos possíveis ataques de dois casais de siriemas que passeiam diuturnamente pelas redondezas. O número de cobras aumentou muito porque nas vizinhanças, somos os únicos a ter uma reserva de matas, bem como não criamos gado, galinhas etc. A migração de bichos peçonhentos é lógica - ali se sentem bem protegidos e próximo de ratos e outros pequenos animais. É o paraíso de cascavéis e jararacas! Pensamos em criar galinhas d'Angola, para esse controle ser mais efetivo, mas nos detivemos num problema inusitado: como convencer os cães a adotarem os novos moradores! Enquanto não solucionamos o dilema, contamos com a diligente caçada das siriemas!
Em seguida ensacamos dezenas de cachos de nêsperas, antes que fiquem "de vez", porque aí serão devoradas pelas tirivas, papagaios, sanhaços, sabiás e outros... Fomos interrompidos por uma chuva densa e fria que nos impôs ficar recolhidos. Passamos a tarde e parte da noite lendo. Vania se informando em Direito Processual Civil e eu relendo "A cidade antiga" para uma resenha que publicarei na revista "RUA!" (UNICAMP)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A noite que chega e o ipê amarelo!






















Depois de uma semana de cuidados com textos para a apresentação da obra “O Discurso Encarnado”, que terminou no sábado, lá pelo fim do dia, acordei num domingo de sol brilhante, mas eu exausto. Passei o dia fazendo com vagar algumas atividades fundamentais para que garantamos nossas iguarias e doces para o verão. Ensaquei nêsperas para evitar que sejam devoradas pelos pássaros (continuo a saga contra estes famintos!), pois o truque de deixar as mais altas para que eles não nos subtraiam das mais baixas, simplesmente foi um fiasco! Eles não seguem critérios que eu possa reconhecer e fazem questão de ignorar qualquer regra que tento estabelecer com eles, democraticamente: por exemplo, eu dizendo e eles obedecendo. Ficam lá no alto rindo com suas peninhas coloridas pensando que eu acho alguma graça! Dei o troco! Quero ver algum desses bichos penugentos comendo de minhas preciosas nêsperas! Ensaquei um quinto de uma das seis nespereiras que possuímos. Quero vê-los comer todo o resto e ficarem gordos e sem forças para carregar o peso pelo ar! Serão vítimas fáceis do gato do "seo" Antonio.
Mais tarde Vania e eu colhemos bananas variadas (Nanica, Santomé, Prata, Maçã, Ouro), as ensacamos (dessa vez para que amadureçam mais rapidamente, enganando o clima frio) e já destinamos uma parte das mais maduras aos pássaros que ficam com cara de pidonchos (eu sei, eu sei, isso é paradoxal, mas, como disse Winnicott, em algum lugar, é daqueles paradoxos que não precisam ser explicados, colhemos bananas para aqueles mesmos comilões a quem negamos as nêsperas – da parte baixa das árvores, diga-se!). Em seguida fomos ao pomar principal e continuamos com a poda de formação e de correção das árvores: macieiras, anoneiras, amoreiras, acerolas, feijoas, laranjeiras). Isso, como fica expresso nas fotos, até o cair da tarde – no inverno a tarde despenca e a noite nos pega de surpresa. Ficamos um pouco frustrados com a velocidade do dia. Isso tem uma explicação a mais: além de eu estar mais envolvido com a universidade, Vania inaugurou seu escritório de advocacia lá na frente do conservatório musical, e agora quase tudo que ela poderia fazer durante a semana ficou para o sábado e o domingo. Com isso, teremos que inventar uma nova distribuição dos afazeres domésticos e dos afazeres rurais. Ainda bem que adiantamos muitíssimo o trabalho a fazer na primavera e verão; estamos bem adiantados e podemos encontrar esse novo ritmo com tranquilidade. Nas fotos: pomar, a alegria dos cachorros quando digo que vamos para casa, equilibrando em cima de uma macieira, uma horta orgânica e natural...
PS.: Postarei breve a apresentação d'O discurso Encarnado que fiz no III ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E II ENCONTRO INTERNACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS - Universidade do Vale do Sapucai, no blog http://www.levileonel.blogspot.com/

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A “neve” da jabuticabeira, as abelhas e o homem da roça!









Chegou a hora do florescimento das jabuticabeiras! O que se vê nas fotos não são flocos de neve e sim suas flores coladas aos galhos, aos milhares. O pistilos brancos, brilhantes, com gotículas minúsculas, doces e cheirosas,atraem as abelhas que zumbem intermitentemente até a colméia que instalamos acima do pomar. Há algumas abelhas que não reconhecemos – as nossas são pequenas, agressivas e bastante trabalhadoras. Junto delas estão algumas gigantes (quase o dobro delas!) outras medianas e dóceis, seis ou sete variedades de marimbondos, jatai, mirins, mandaçaias e irapuás. Há ainda, formigas variadas (entre elas a mais interessada é a formiga-doceira) e, por fim, uma série de pássaros que se alimentam de suas flores (talvez de insetos que ficam nelas), especialmente o tico-tico. Não é privilégio das jabuticabeiras, mas, sem dúvida elas são as mais visitadas do pomar em número e variedade de bichos e insetos, empatando com as pitangueiras, em termos de visitantes. Porém as jabuticabeiras dão flores duas ou três vezes ao ano o que é um verdadeiro milagre na cadeia alimentar.
Não devo esquecer de dizer que elas dão flores mais de uma vez ao ano, porque Vania cuida de regá-las a vontade por todo o outono e inverno; sem isso e nada do que relato aqui aconteceria nesta proporção. Também temos 3 jabuticabeiras-do-mato, mas estas foram visitadas por pombas-do-ar que amam suas flores ainda no início de seu crescimento e o resultado foi trágico! Nenhuma ou muito pouca jabuticaba se salvará! Como disse, em outra ocasião, viver nos bosques requer vigilância, trabalho exaustivo, algumas frustrações, e eventualmente, alguma tragédia. Contudo, no geral, a vida corre solta e a exaustão é compensada com um festival de cores, sabores, aromas, sono reparador, corpo fortalecido pelo farto exercício, pensamentos focados e o sentimento de que se está mais próximo da uma vida de fato viva. Mas é para poucos! A exigência das estações, do crescimento das colheitas, do esforço diário realmente assusta a maioria.
Quando vejo o trabalho duro do homem do campo – eu não vivo do campo e sim no campo – vejo a injustiça cometida contra toda uma população que se esfalfa, à beira do desmaio, para que seus produtos sejam explorados por atravessadores e regateados pelos consumidores. Deveriam todos passar alguns dias tentando retirar alimento do chão para dar o merecido valor ao trabalho do sujeito da roça, muito particularmente aqueles que fazem a agricultura familiar e tentam escoar sua pequena produção nos centros urbanos. Vejo-os à beira da miséria trabalhando todos os dias de sua vida, da infância à velhice e mal conseguem a camisa que vão suar, as botinas que vão desgastar, sendo degradados a viver de aposentadoria do Estado, como sua última e única renda. Não sei que solução poderia haver para tal descalabro, mas sei muito bem – por viver entre eles, participando de uma associação de agricultura orgânica – que trabalham o mesmo tanto que o sujeito das grandes cidades, com as mesmas necessidades e os mesmos sonhos! Qual a diferença entre o sujeito do campo e o da cidade, para que haja tal discrepância de distribuição da renda? Talvez o primeiro item de uma agenda de cuidados com a situação, seja acabar com os atravessadores. Que vão plantar batatas, no asfalto, com enxadão de borracha no décimo terceiro inferno de Dante, eternamente, para pagar pelos males que causaram ao povo do campo! Acho que Dante deve excetuar as classes C e D das urbes, que também têm seus corpos, mentes e tempo da vida usados para enriquecimento imoral de uns quantos... Sobre o inferno leia em: http://www.levileonel.blogspot.com/


Furiosa como a água!


As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As mulheres, as minas e as caixas d'água!

As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.