Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Maritacas, máscaras de papelão e Winnicott!

Aqui Dino está exausto de um dia de trabalho voando
pelos bosques. Note o papelão como máscara na
entrada de sua casinha!
Já falei do Dino por aqui. Ser misterioso, que vive numa fímbria entre humano e bicho, usando o melhor de dois mundos - a comida e casa humana, bem como árvores plantadas há duas décadas para fazer um grande bosque. Nas horas do café da manhã, do almoço e do jantar, Dino usa pratos, talheres, xícaras e panelas, para fincar seus pés cheios de dedos e unhas finas e afiadas, enquanto devora biscoitos maria e pedaços de sanduíche de cereais integrais com um pouco de queijo imersos em café orgânico.
Ao fundo parte do bosque plantado para nossos prazeres
e agora tomado pelo Dino e seus asseclas (um monte de
amiguinhos e amiguinhas aparecem, diariamente,
para lanchar o conteúdo de seus comedouros)!
Dino é um destes seres que tiveram o destino atravessado por humanos e que daí em diante só fazem sentido misturados com eles.
Esse serzinho verde foi criado em caixas de papelão em seus primeiros dias, e depois, se negava terminantemente a se mudar para essa de madeira. Não conseguia reconhecer a portinhola que tanto amava! Daí, Vania lembrou e bateu para o psicanalista aqui, Winnicott, com sua teoria dos "objetos transicionais" - aquelas chupetas, paninhos, bichinhos de pelúcia e outros objetos que representam a mãe para os bebês humanos. Porque não fazer uma máscara de papelão e colar na entrada da casinha de madeira? Fizemos e funcionou imediatamente! Dino olhou para a máscara de papelão, emitiu alguns pios muito diferentes, gargalhou, como só as maritacas fazem e, entrou, bamboleando sobre as perninhas cor grafite, em sua amada caixa de "papelão". A aplicação da teoria ficou meio estapafúrdia, mas o que importa é que o Dino aprovou!
O bichinho descansando à sombra da área coberta numa
tarde sol de inverno!

sábado, 30 de junho de 2012

Ainda o outono!

O outono oficial já terminou há alguns dias. É uma meia estação, dizem. Mas entre outono e inverno creio que há uma estação que medeia, que fica entre uma e outra; uma estaçãozinha em que reconhecemos os olhos de uma e o nariz da outra. Bem, o que quero dizer é que atrasei em blogar o texto abaixo e estou justificando-me. Acho que ainda há algo de outono neste inverno e isso me dá a deixa... pois,

"Penso as chuvas de outono como aquelas últimas águas que ficaram atrasadas para um encontro com suas parceiras em outras terras do mundo. São irmãs, primas, sobrinhas e filhas nascidas daquelas chuvas grandes, adultas, que passaram por aqui entre novembro e fevereiro. Essas mães das chuvas de março e abril, começaram densas e cálidas, nas festas de fim de ano, apresentando-se familiares em dezembro e fazendo carnaval no início de março. Seu humor variava extraordinariamente; ia do complacente à fúria em poucos minutos, deixando confusa a platéia - por acaso eu e Vania, mas que bem poderia ser um sabiá, uma gralha ou um cervo; as saúvas, os cães ou as siriemas; ou ainda vacas, urubus e tizius. Agora a calma das manhãs e tardes outonais são menos sistematicamente interrompidas pelas chuvas. O sol fulgurando no céu azulado é esfriado por uma brisa seca que facilmente se transforma em vento cortante - mais pelo frio do que pela velocidade.  
Tentando não assustar o chen-chen que pousou na cumeeira da casa, interrompo a leitura e vou buscar descanso para os olhos na paisagem ao longe. A tarde chega e ainda posso ver casinhas banhadas pelas últimas luzes solares, encravadas em vãos de vales ao longo do Rio do Cervo. Não posso controlar a sensação de que estou morando em um ninho da mãe-terra, tal qual qualquer outro ser vivo no dorso desta serra. Um sentimento inominável corre por dentro. Solenidade, sacralidade, medo mítico, amor filial?
Bom, meus olhos pesam e começo a desejar o conforto do sono. Daqui em diante fica por conta dos lobos, corujas, curiangos, morcegos e grilos vigiarem para que tudo aconteça como ontem e o sol possa ser ajudado em seu levante preguiçoso daqui a horas. Eu já fiz minha parte". (Escrito em 2003)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Outono, Dino e outros bichos!



O Outono já vai limpando com sua vassoura de vento os vestígios do verão e ouço na serra o ronronar das árvores farfalhando, eriçadas pelas mãos insinuantes do vento sul à tarde e noite. De madrugada o sopro vem do norte e passa por sobre nossas cabeças indo ter com o vale lá embaixo. Os ciprestes já mostram seu amarelecimento feito de milhões de pequenas sementes que vão secando e lhe dando o tom dourado ao Sol. Dependuradas de cabeça para baixo, presas por garras finas e fortes aos galhos rústicos, vejo maritacas, periquitos e tirivas quebrando-as, uma a uma, num trabalho paciente que não sei dizer se se trata de comê-las ou apenas um exercício do bico.
Talvez apenas brinquem com as sementes dos ciprestes! A prova pode ser as gargalhadas que dão zombando de minha ignorância. Olham para mim com seus olhinhos negros, torcem a cabecinha verde e falam num idioma que não conheço, mas que, certamente, estão me colocando na pauta de gozação do dia...
Depois voam brilhando seu verde azulado com matizes de amarelo e vermelho sob os raios solares que incidem sobre sua penugem bem penteada.
Às vezes ouço uma vozinha esganiçada vinda do milharal e tenho certeza de que se trata do Dino, que apresentei na última blogagem... Bem, Vania  e eu chamávamos aquela maritaca por "Dino", para nos referir ao Dino da Silva Sauro, da tevê. Entretanto, para nosso constrangimento, um especialista nos disse que se trata de uma "Dina", pois suas penas não são tão coloridas quanto as dos machos. O que será dela que tratamos como macho?! Acabará tendo que conversar com um especialista para encontrar sua verdadeira identidade? Só o deus das maritacas para interceder por ela...
Sim! O Dino, quero dizer, a Dina, já escapuliu e voou de casa, ganhando mundo. De vez em quando, assustado (desculpe! assustada) aparece para comer umas guloseimas humanas, como pão integral e queijo, voando para seu destino em seguida. Bem, às vezes dorme em casa, pois a Dina experimentou esta loucura que é a casa humana e os afagos de Vania em seu redondo bico e macias penas... E adorou!
Enquanto isso, lá fora, nos ciprestes, o mundo das maritacas anda no ritmo de sua religião, fruindo das benesses de mais um outono ofertado por seus deuses. E eu aqui, invejado de suas certezas...

Pos scriptum: Esses prazeres de conhecer o Dino só foram possíveis pelo carinho do Gideon, aquele do Posto Bambuí, que teve o desprendimento de nos trazer a maritaquinha que embevece Vania na foto acima. A história é a seguinte: o Dino caiu da caixa d'água sobre sua tevê; por um dia e meio ele cuidou do filhotinho e depois trouxe a nós para que cuidássemos dele. Nada sabemos dos pais de Dino, um órfão que seu deu muito bem! A começar pelo próprio Gideon que permitiu que o bichinho podia ficar conosco... O Gideon é aquele mesmo que um dia nos trouxera a Gigi, que contei a história mais abaixo. Grande sujeito...
      


terça-feira, 15 de maio de 2012

Chegou a hora de dar mais um passo e...

...investir mais energia na construção final do Centro Vivencial Rural (o Ashram Rural, para os conhecidos), herdeiro do "ashram" de São Paulo.Venderei uma parte da serra que cuidei nos últimos 18 anos, plantando em grande parte e outra deixando-a por conta de si mesma virando mata e tornando-a ecologicamente sustentável.  Gostaria de ter vizinhos que se afinam com esses pensamentos; por isso, deixo aqui o link para maiores informações. De vez em quando colocarei mais imagens do local. Se não lhe interessa, por favor envie a alguém que possa gostar da ideia.
http://vende-sechacaras.blogspot.com.br/2012/05/construa-seu-refugio-no-alto-da-serra.html

domingo, 11 de março de 2012

Gigi e Dino, mais duas histórias de pássaros!


Dezessete anos depois de incluirmos em nossas vidas as preocupações usuais com um sítio, ou, como se diz por aqui, a roça, nossas histórias com a turma alada já se tornou uma lista infindável. Assim, Gigi, uma pomba e Dino uma maritaca, são apenas mais dois exemplos de relações assimétricas, quero dizer, nós cuidamos e eles são cuidados - simples assim. O que primeiro chama a atenção é o desamparo inicial desses pequenos seres que nada deve ao bebê humano. Ambos só podem existir na máxima dependência, alimentados com diligência, por uma mãe (às vezes por um casal que se forma para esse fim) que deposita ou oferece alimento fomentador de energia com a qual um industria penas à espera do florescimento dos instintos, o outro cria uma mente, um corpo expressivo e outros prodígios da espécie humana. 
O primeiro fará do voo talvez sua característica fundamental, o segundo terá no desejo um voo com poucas penas e, com isso, voa feio, inseguro e sem direção precisa. O primeiro funda-se em si mesmo, sem diferença entre o que necessita e o que obtém. O segundo funda-se no outro e deseja o que não pode obter.
A Gigi, uma esbelta pomba citadina - na foto olhando com muita curiosidade o que se passa fora dos poucos metros do consultório, sua moradia provisória - tornou-se uma presença inolvidável, com seus arrulhos e sisudez. Suas penas ainda estão se fortalecendo, mas já arrisca um voo circular que vai até a cabeça de algum transeunte e de volta à janela segura, onde Vania a espera com papinhas e outros acepipes. À noite dorme sobre um pequeno baú de madeira que escolheu entre muitos outros lugares para pouso. De vez em quando, pousa sobre meus ombros para descansar de seu curto passeio pelas redondezas, enquanto digito qualquer coisa.
Já nos preocupa o que será de uma pombinha que não tem a vivência daquelas criadas por mães nos telhados das casas e iniciadas na malícia de fugir dos carros, gatos e cachorros - além de uns meninos e adultos que atiram-lhes o que tem à mão para causar-lhes dor. Preocupações de pais, embora postiços. Entre muitas aflições, questionamos se a soltaremos no horto, na cidade, ou no campo. No campo encontrará as majestosas pombas do ar, que não terão nenhum prurido em a expulsar das redondezas (especialmente se a Gigi for "o" Gigi!). No horto e na cidade parece que ela vai enfrentar relações com gente, que pode não achar nenhuma graça num pássaro descendo do céu sobre sua cabeça... além disso,  não teme seus predadores!
Anteontem um vizinho nos trouxe o Dino um filhote de maritaca, que tudo indica deverá nos dar as mesmas dores de cabeça. Vania decidiu que é macho, porque, como diz ela, são todos carentes, folgados e exigentes. Creio que ela tem razão sobre os machos; e o Dino só pode ser um deles! Note-se que a pomba Gigi chegou até nós depois de ter sido abandonada numa caixa com outro filhote já morto, numa tarde de sábado, anunciando uma tempestade. Naquele momento estava nas condições do Dino no filme acima; sem penas, com o bico mal formado e com uma fome de doer.
Ps.: A propósito da última blogagem "Ninho Vazio", agora nós estamos passando pela esquisita sensação de esperar a Gigi, que não volta para casa faz vinte e quatro horas. Dizem os vizinhos que a viram com outros três pombos em cima de nosso prédio. Conservamos o pequeno baú que lhe serviu de poleiro lá no lugar que escolheu e deixamos a janela aberta, na eventualidade de querer nos visitar e comer queijos, que tanto adora. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

E os filhotes se foram! E agora?

A singeleza de dois pássaros cuidando de seus filhotes e a cena final são tocantes. Escolhi voltar à blogagem no "A vida na Serra do Cervo" com esta "historinha" filmada com paciência e mixada com sensibilidade, justificando minha adição pela escrita. Volto a escrever, sem muita convicção de que poderei ser regular... mas, não dá para ficar olhando para as janelas do trem que é a vida sem tentar narrá-la, isto é, reinventá-la. Há de se imaginar, com alguma razão, tal como nos disse Sartre, que ao narrar a vida começa seu começo, evita seu fim e consegue mais alguma respiração. Então, bom filme. Ninho Vazio

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Até algum dia desses!!

Já com saudades, vou me despedindo por aqui! Deixo as páginas abaixo como pegadas de minhas passadas por algures e alhures. Não tenho mais o que dizer. Se um dia tiver algo que acredite valer a pena, retomo de onde estiver. Por ora ficarei perdido entre estudos e trabalho no espaço que vai de Minas a São Paulo. Para não ficar fora da rede manterei o blog que falo de minhas leituras, uma vez que será inevitável ler para trabalhar (http://levileonel.blogspot.com) e outro sobre a psicanálise que aplico em meu trabalho clínico (http://psicologoempousoalegre.blogspot.com).
O que descrevi até aqui estará lá borbulhando de acontecimentos, mas numa série que a natureza, e os trabalhos nela, devem ser repetidos segundo uma onda que tem a ver com clima - e clima é bom que se repita. Daí que repetir aqui seria enfadonho! Estarei por lá fazendo as já agora velhas cenas, nos mesmos velhos cenários, com gestos que são perfeitamente adivinháveis. Então, está na hora de ir. Até mais ver!    

sábado, 5 de março de 2011

Águas de março, carnaval na serra e cães!

Chove numa cadência monótona, numa morosidade de fazer dormir. Só carnaval na tevê, com suas escolas de samba podem produzir mais sono. Olho a janela e já não se vê pinheiros há 30 metros ou mesmo a jabuticabeira bem mais perto. É a noite que chegou um pouco mais cedo.
Chove desde anteontem. Tudo encharcado, pau, pedra, os caminhos que nos trazem até aqui, me perdôe o poeta, a vacilada com seu texto, pois é como se aqui fosse o fim do caminho. Ouço a batida cadenciada dos pingos espessos, tilintando nas folhas grossas da cana-da-Índia plantada embaixo da janela. Esbatem, escorregam até o chão e encharcam a grama. Parece que o verão vende caro seus últimos suspiros antes do outono - suspiros que molham, sem consideração, até os ossos. Acho que estou com saudade do outono, para mim, a estação mais bela de todas. Só há um problema. Haverá toneladas de folhas secas para retirar do quintal. Ah, humanos que nunca estão satisfeitos!
Bem, lá longe, na cidade, é carnaval. Nunca pulei carnaval, e não vai ser enrugando a pele na chuva, que vou começar. Deixo para o ano que vem!
Os cães dormiram o dia todo. Comem, bebem, dormem, cuidam das urgências corporais, balançam o couro e pelos para retirar o excesso de água, entram em sua casa e começam tudo de novo. Olho pela janela e vejo Gabi começando este ritual. Pela décima vez?
Cuido de algumas coisas domésticas, faço e refaço uns fragmentos de texto que servirão para uma aula, começo um artigo encomendado sobre os discursos do corpo...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O psicanalista, a advogada e o silêncio!

Sábado trabalhamos até metade da tarde. Vania em seu escritório e eu em meu consultório, cada com suas angústias peculiares. A minha, do psicanalista, salvo engano e opiniões contrárias, uma vez que há muitas psicanálises e psicanalistas, é poder ir para casa sem levar o sofrimento humano que acolhi e sustentei entre quatro paredes (nada a ver com a peça de Sartre, a não ser por um outro drama), mas sendo tocado suficiente para que a história ouvida não desapareça impiedosamente na massa de meus pensamentos cotidianos. Esse mesmo cotidiano que deverá se impor até que eu esteja suficientemente rejuntado para que, quase esquecido de minhas sessões, as novas histórias da vida de cada paciente possam de fato fazer efeito.  É uma tarefa das mais extenuantes que realizei na vida. E olha que fui, em ordem mais ou menos cronológica, desenhista de jornal pelas madrugadas paulistas, aluno e professor de artes marciais, ultramaratonista (correndo 87 kilômetros semanais para corridas de 10 a 11 horas ininterruptas), terapeuta corporal (muita força e por horas a fio)...
A da advogada, creio adivinhar, seria o alívio de ter dado condições para que se faça uma justiça suficiente? O que será que Vania faz para deixar o descanso semanal de fato ser um descanso? Embora a lide que seu cliente lhe traz seja da existência, poderia eu dizer que não se trata da mesma existência que o analisando me confia no consultório? Ou uma parte da lide poderá ser analisada, mas não há o que o psicanalista pode fazer para seus direitos; ou que ajude na melhor justiça. Uma análise poderia conduzir à justiça? Não quereria responder; muitas vezes gosto de apenas perguntar...
Há um silêncio entre nós, que não tem tanto a ver com as palavras. Trata-se de deixar o doméstico ir tomando-nos no que resta de horas dos nossos dias, principalmente nos fins de semana, incluindo dormir e sonhar. São práticas mais que conhecidas nossas e que podem bem ser feitas sem muita comunicação. Me perguntam se falamos do trabalho. Não fosse pelos motivos de que cada um de nós precisamos deixar espaço mental para as segundas-feiras, o silêncio que nossos códigos de ética nos impõem seria o suficiente para nos impor falar de outras coisas que não dos nossos clientes/pacientes.
É um silêncio insuportável para muitos, mas nós estamos na Serra do Cervo, onde o silêncio é cheio de sons. Barulhinhos de muitos seres que formam um pano de fundo denso e calmo. De quando em vez interrompemos e falamos alguma coisa sobre cães, notícias do jornal, horta, pomar, casa, amor, sexo (que é mistura de silêncio e sons guturais)...
Convivemos com o mais comum em nós que às vezes liga a tevê ou rádio; telefona para um parente; manda e-mails; escreve na rede. Não muito mais que isso, pois uma vida muito cheia é barulhenta demais... e de ruídos já me bastam o alarido dos pensamentos. Quanto a Vania, parece apostar no silêncio da noite suavemente interrompido por uma coruja que resolveu usar um barranco perto da casa para edificar sua morada e produzir descendência. E também de latidos longínquos de um cão que vive do outro lado da serra. Eventualmente um dos nossos reclama, se lhe parece que alguém lhe ameaça o território. Fora isso, é um profundo silêncio e negrume da noite.
Esta noite, por acaso, ouve-se o ribombar de trovões distantes como se fosse um ronronado; no máximo um engasgo de gigante adormecido num colchão de nuvens nas encostas das serras que rodeiam Santa Rita do Sapucaí, do outro lado do vale, lá pelos lados da nascente do Cervo.   

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A matilha aumentou!

Essa é a Meg! A menor das moradoras da Serra do Cervo, adotada há poucos dias; não tem cinco quilos. Foi abandonada cerrada em um saco de aniagem com quase duas centenas de carrapatos, à beira da rodovia que vai para Machado. Ficou dois ou três dias esperando o dono e acabou, para diminuir seu sofrimento, fazendo uma toca no capim, onde foi encontrada por Vania que havia ido a Alfenas para uma audiência e já havia visto dois dias atrás. Seu olhar tristinho nada tem a ver com sua nova vida. Trata-se de uma vermifugação que ela certamente não estava habituada! Tem muito bom humor, com exceção na presença da Kelly, que sem mais nem por quê a irrita profundamente. Ciúmes, claro! Afinal a Kelly era a lulú da casa, até sua chegada. Adora caçar ratos ao redor do pomar e da casa e não abre mão da companhia de humanos, apesar da decepção que lhe impuseram deixando-a ao relento.
Atualmente acredita piamente que é a dona do pedaço, a menina do bloco, eixo no qual gira o mundo, enfim, a própria majestade da floresta! Mas, neste seu humor de soberana sabemos ver, possivelmente, uma reação ao abandono, pelo menos é o que dizem os psicólogos caninos. De nossa parte parece que ela nem passou pelo que eventualmente passou. Nem podemos imagina-la noutro lugar...!
E esta é Bianca! Sua história é a mais sofrida de todos que por aqui estão. Pelo menos do nosso ponto de vista, uma vez que não sabemos que critério usar para comparar! Então, arriscamos nossos critérios subjetivos, ou seja, excluindo o dela. Ela bem poderia confirmar nossas suspeitas, não fosse a dificuldade de comunicação entre cão e gente. Encontramo-la às beiras do Ribeirão das Mortes, grávida e doente, aparecendo costelas aos montes. Quando a trouxemos para cá, habilmente fugiu por uma ranhura da cerca, e ficou desaparecida por 16 dias. Reapareceu na casa da Léia, vizinha a quase quilômetro de nossa casa, a meio caminho abaixo, perto do sopé da serra na beira da estrada. O que vimos, ao corrermos até lá, foi de cortar coração; ela havia perdido seus filhotes que tentou cuidar no meio da torrencial chuva que durou quinze dias e inundou toda a várzea em que se instalou. Fracassou. Estava em pele e osso, há poucas horas de morrer, sem forças sequer para reagir a alguns gatos que a encurralaram na porta da casa. Cheirava indescritivelmente, atacada por trinta e cinco bernes, uma bicheira gigantesca na vagina e uma menor num dos olhos. Foram quinze dias de internação, com todos os itens que podiam leva-la à morte. 
Hoje, ainda em recuperação, os sinais de sua fuga já se desvanecem numa pelagem nova, brilhante e forte. Contudo, os efeitos psicológicos de meses de maus tratos dos antigos donos, particularmente de um homem, são dominantes no seu comportamento; comigo só balança o rabo quando numa distância segura. Com Vania chega se deixar pegar no colo e fotografar. Esperamos que um dia ela possa ter o sentimento de que aqui é seu lugar; que confie, pois confiar é quase tudo numa matilha, ainda que essa matilha misture humanos com cachorros! E humanos, frequentemente, traem a confiança de seus pares; o que dirá desses bichos desprovidos de malícia! 




segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Nietzsche e o chuvisco na serra!

Dezoito e cinquenta e oito; os pingos d'água vão engordando, inflando e, de repente, despencam lá do beiral das telhas. Às vezes dois, três ou quatro, simultaneamente, em várias calhas diferentes. Às vezes um solitário, brilhante, qual pedra preciosa líquida saltando contra o azul escuro do céu que posso ver entre o abacateiro, as jabuticabeiras, e os pés de figo carregados.
Um chuvisco fraco, lento, meditativo, molhando devagar o cimento da pequena área que se estende para o gramado. Nada lembra o dia anterior; a esta hora eu voltava da corrida ao topo da serra e, suando em bicas, ainda podia ser lambido pelos últimos raios de sol. Dezenove e cinco; vou desligar e tomar o lanche que antecipa mais um turno de leitura de "Assim falava zaratustra"... 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A inocência da chuva e os meninos ciganos!

Outro dia falei sobre a enchente de 1999/2000 momento em que o Cervo excedeu seu leito e quis irrigar sua várzea, como nos bons velhos tempos onde nós, os homens, nada havíamos feito contra sua natureza. Naquele fim de ano/começo de ano, ficamos isolados por alguns dias até que consertassem a Ponte do Cervo e pudéssemos ir até Pouso Alegre, ou mesmo, como no meu caso, voltar a São Paulo, a trabalho.
Pois as coisas estão se complicando por aqui! Hoje, quando voltávamos, Vania e eu, para casa, demos uma espiadinha lá para baixo da ponte. Da janela do carro vimos um rio até bem calmo, mas para nossa apreensão, cheio até as braquiárias que enfeiam suas margens. Ele está ao nível do chão de sua calha e isso num dia que choveu pouco, no entanto, com promessa de chuva na sua cabeceira até domingo que vem - ou seja, mais três dias! Amanhã, como plano de evacuação, vou comprar suprimentos para suportar um eventual isolamento!
Em Pouso Alegre bairros inteiros, tal como o São Geraldo, lá no Aterrado, estão alagados, sujos de barro, entulhados de lixo trazido das casas das regiões mais altas, somados ao lixo dos próprios moradores. No meio dessa insanidade do clima, chegando de ônibus, vi uma cena singela, descontado o trágico: dois meninos ciganos mergulham nas águas paradas do lado da Perimetral, enquanto um homem lavava suas roupas sobre um pedaço de cimento arrastado pela chuva, a poucos metros de suas barracas...
O que faz com que sobrevivamos a tamanhas desditas da sorte, como diria Vó Pina? Com que serenidade vamos entrando no rolo compressor da existência! Às vezes com a mesma inocência daqueles meninos mergulhando nas águas excedentes de uma noite trágica...
Mas, a inocência não salva; no máximo nos desculpa. A inocência é tocante; por isso nosso sofrimento é maior ao vê-la derreter na chuva sem trégua.

sábado, 8 de janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

Sobre chuva, pontes e corridas a pé !

Tenho falado de chuva por aqui, algumas vezes este ano, de modo repetitivo até. Mas justifico dizendo que desde criança, ou melhor, para não exagerar, desde menino, isto é, ao redor de oito anos, curto uma paixão desmedida por estes úmidos pontos que enfeitam o mundo. Já corri riscos consideráveis na chuva, como, por exemplo, aos vinte e seis anos, quando caí num bueiro, cujas águas sujas e enfurecidas teimavam em me sugar para as profundezas do chão, o que consegui evitar com o custo de muita pele rasgada nas pernas, peitos e braços. Estava sozinho, fazendo minha corrida de toda tarde, lá pelos lados da Penha, Zona Leste de São Paulo. Tudo porque queria fazer meu treino para a São Silvestre na subida da Rua Gabriela Mistral, que tinha a inclinação da Consolação e quase seu tamanho. Naquela época a gente subia, já no final da corrida, a Consolação e não a Brigadeiro, como se consagrou atualmente. Saudosismo meu, mas gostava mais; achava mais glamurosa.
        Bem, como já se sabe, se estou vivo aqui, acabei saindo da boca de lobo pelas próprias forças. Mas não aprendi nada com o acidente. Continuei correndo na chuva como se nada tivesse acontecido. Por fim, jamais passei outro apuro como aquele. Fora as bolhas d'água nos pés numa maratona no Rio, embaixo de chuva. Não sei por que, mas o atrito de sapatos de corrida na pele enrugada pela umidade se torna um suplício. Ali aprendi a passar vaselina nos pés e dedos e a andar com uma pequena porção num plástico que guardava amarrado à cintura. Nunca precisei parar para besuntar de novo os pés, mas jamais me arrisquei a passar pelo flagelo do Rio, mantendo comigo a pequena porção daquele líquido pastoso e salvador.
       Bem, agora corro nas curvas maravilhosas da Serra do Cervo e, creio, acidentes como tais, ficam minimizados. A grande quantidade de água que despenca do firmamento já encharcou a terra e estamos nos aproximando de seu pico máximo, onde o Rio do Cervo poderá, como em fins de 1999 e começo de 2000, avançar sobre sua calha e até mesmo por sobre a ponte do Cervo. Naquele verão ficamos isolados por dias, com sua ponte interditada por abalos nas pernas. Neste verão de 2010 estamos fazendo compras sempre pensando que poderemos ficar presos do lado de cá do rio. Na verdade, acho isso romântico e nem me passa pela cabeça prescindir dessa fantasia na vida que levo por aqui. No entanto, talvez pela idade, minha paixão pela chuva ficou mais contemplativa; já não saio tanto por aí, correndo embaixo dela, como se estivesse num rito iniciático.
       Nas vezes em que passar da contemplação para um corpo a corpo com ela, prestarei atenção redobrada para não ser pego por uma tromba d'água lá no vale e encerrar a carreira de pedestrianista apaixonado por correr na chuva. Pretendo correr muita serra acima e abaixo antes de sucumbir a ela... ou à chuva que rola nela! Neste corpo a corpo, quando ela está zangada, sabe deus por quê, quase sempre levamos a pior!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Bom ano novo a todos! E para a Pretinha também!

Todo final de ano é  a mesma coisa! Rever os acontecidos e planejar o que fazer para o próximo ano. A frase certa seria rever o que conseguimos cumprir e refazer os votos para o próximo ano. Porque acontecimentos são um tanto quanto imprevisíveis e prever acontecimentos é da ordem das mancias. Não que isso não seja prática muito comum, com leitores de cartas, mapas astrais, da mão e outras adivinhações, se esmerando em traduzir sinais secretos que nos possam guiar pelo ano que começa.
Bem, como não tenho a menor disposição para adivinhações e leituras de sinais esotéricos, fico a mercê do intangível, sem nenhum controle sobre essas cartas secretas, onde o futuro é escrito. Vou caminhando às escuras, tateando as paredes da existência, para ver se encontro uma porta ou janela por meio das quais possa eu ver a paisagem ou um caminho.
Tudo isso, para dizer que desejo a todos, que por aqui passam, um grande ano novo, mesmo que não possam dominar todos os acontecimento que virão. Talvez meus votos valham pelo que de humano possuem: o honesto desejo de causar conforto aos que dividem esse planeta e esse tempo. Então, que tenham vocês um ano repleto de bons pensamentos, de estratégias funcionais para vencer as vicissitudes diárias e que possam amar e serem amados por alguém que respeitam e sentem a falta. 
Por fim, que o ano de 2011 seja um ano que consolide seus desejos mais prementes.
Até mais!

Ps.: Creio que a cadelinha da foto, nossa mais nova convidada a viver na Serra do Cervo, que estava perdida por estas bandas, bem poderia esticar os votos e desejar que nós todos sejamos generosos com nossos pequenos grandes amigos, senão porque são cães, apenas por que são seres vivos. As pessoas que de fato, uma vez apenas, olharam no fundo dos olhos de um bichinho vivo, aqui representado por um cão, nunca mais serão os mesmos. Sofrerão profunda transformação na visão que tem da vida. São os votos da Pretinha...!
(não confundir com a foto de outra cadelinha, blogada há alguns meses; aquela era a Pepita, lembram?, encontrada num supermercado).

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Celulares e rabanetes!

Há boas razões para que eu invista em minha horta, no pomar e nos cuidados à volta da casa. Cuidar do entorno da singela casa é a forma mais imediata de celebrar a vida junto às árvores, às nascentes e ao chão. Dormir no silêncio denso da serra, não se trata de largar-se numa noite sem sons; pelo contrário, é um silêncio cheio, variado, repleto de pequenos sons. São conversas as mais diferentes entre si: o pipiado de alguns pássaros noturnos, particularmente a coruja e o curiango; os grilos e lufar de mariposas; e um sem-fim de folhas roçando em folhas.
A horta e o pomar, sem dúvida, representam uma fonte de sabores que misturam nutrição com poesia - cores com formatos os mais inusitados, porque orgânicas, sem os brilhantes tons artificiais das hortaliças e frutas mantidas a agrotóxicos.
Tudo isso junto, certamente justifica viver à margem dos limites territoriais da cidade; uma vida sem os sobressaltos dos muros e cercas elétricas - e não estou falando de São Paulo e outras cidades. Nas pequenas também nasceram cercas elétricas qual cipó agressivo contra as quais não há manejo, defesa ou capina. As casas das cidades mineiras pouco a pouco vão se enfeiando com essas muralhas de segregação. Sei que sou um sonhador, mas não estou sozinho nisso - Lenon que me perdoe a má tradução. Pelo menos Vania e alguns vizinhos que jamais estiveram pelos mundos que estivemos, formam um conluio contra esses sintomas sociais que misturam os mais estranhos sintomas da psicanálise: esquizofrenia, perversão e outras figuras freudianas.
Creio que o que vivo não pode ser chamado a compor uma recomendação de como se deve viver. Mas, razoavelmente livre dessas amarras (pois livre nem o santo shivaista que vive nos montes que circundam o Everest de fato está), vou fazendo alguma força contra essa sanha destruidora. Pequena, na verdade ínfima, resistência aos chamados vazios das formas de vida ultramoderna. Para isso, me regozijo, e nisso Vania chega a ser mais gritante que eu, com os rabanetes que se apressaram em inchar com seu picante suco; com as folhas robustas das couves manteigas; com os macios caquis vermelhos - como se isso fosse o suprassumo do viver.
Ok, já sou acusado de alienação, de conservadorismo, de comodismo mesmo. Não me importo. Não saberia viver doutro modo, e não respeito o modo de viver da maioria ofuscada pelos dispositivos modernos, sem ao menos precisar deles. Argumentei com um colega de viagem a São Paulo, que a necessidade me faria mudar de celular. Por enquanto, não sabia de nenhuma necessidade nova que me fizesse mudar de aparelho. Mas o espertinho me disse: E quem está falando de necessidade? Estou falando de ostentar, de não ficar para trás, de seduzir os olhares!
Preciso aprender novos termos para conversar com os usuários de celular, computador, Ipad, Ipod e outros, pois eles não se interessam por rabanetes orgânicos, sustentabilidade ambiental ou reciclagem. Estou me sentindo um pouco fora de moda, apesar destes serem os assuntos mais atuais no mundo!

domingo, 10 de outubro de 2010

Da chuva e suas vicissitudes!

    Hoje de manhã, depois de ralarmos, literalmente, dedos, braços, pernas etc. na limpeza de um bueiro que atravessa a estrada que dá para a entrada do sítio, a exaustão nos solapou. Descansamos enquanto almoçávamos e retomamos de onde paramos. Foi um dia inteiro de um tal de empurra-e-puxa terra, uma vez que o bueiro tem apenas quarenta centímetros de diâmetro, impedindo-nos de entrar nele. As ferramentas não especializadas nos exigiram o dobro do esforço que seria necessário em condições, digamos, profissionais. Enxada pequena, uma mangueira de água, um cano rijo e uma paciência de Jó. E no nosso caso sem as benesses divina, pois não era a alma que estava em jogo.
    Acabamos deixando o serviço por ser terminado noutro dia. E também com a esperança de que ao tiramos por volta de setenta por cento do entulho, a enxurrada que vier pela estrada, complete nosso serviço. Foi o que deu para fazer. Mas, todos sabemos que a natureza não é nossa funcionária; nem é assim tão obediente. É bem capaz de ela fazer o que quiser com nossa estrada. Ninguém mandou fazer ali uma via e atrapalhar a vazão da água. E querer que a natureza trabalhe a nosso favor, a faz rir. Muita água virá até maio e esse bueiro será solicitado em extremo. Precisaremos ficar atentos para que a chuva não leve pelo bueiro todo o cascalho que foi colocado no dorso da estrada para que o carro possa rolar por ela sem nos deixar numa das curvas embarreadas. Valeu o esforço. A vazão da água possivelmente será boa o suficiente, até que encontremos uma solução melhor para sua limpeza.
    Agora no escurecer do dia, depois de espalhar o cascalho coletado, quando lavávamos as ferramentas, vimos uma longa fila de jipeiros subindo pela estrada que vai ao Catiguá e depois Silvianópolis, olhando embevecidos a paisagem. Fiquei pensando que eles se divertiam e quem sabe até fantasiassem com a vida que levamos aqui na Serra do Cervo. Pois não é que eu ando por aquelas estradas, a pé, ladeado pelos nossos pequenos cães, olhando a espinha da cadeia de serras que se espalham pelo horizonte e não estou a passeio! Eu vivo aqui, pensei, tomado por um sentimento gostoso de viver junto a terra, que vem desde o escotismo lá na pequena serra que forma a cidade de Apucarana (não por acaso quer dizer "serra anã"). Depois, me recuperei, e achei que eles não gostariam de limpar tulhas e bueiros de estrada. Acredito que a eles basta a fantasia de nos imaginar aqui na orla da mata, com enxada na mão e barro até nas orelhas. Acabei me conformando que eles têm o que conseguem fazer consigo mesmos. Eu também. É brega dizer, mas digo assim mesmo: "Cada macaco no seu galho"! Não tenho certeza de que gostaria de andar de jipe por aí, sem parar e morar num rincão qualquer das serras que visitarão. Acabaria, é quase certo, trocando o passeio por uma vida rural.
    Falava de exaustão! Agora preciso tomar um banho e dormir. Amanhã trabalho logo cedo em meu consultório e de camisa de manga comprida para esconder as raias de sangue daquela ralação que aludi acima. Dentro de dez dias estarão invisíveis... se é que não acabe ralando tudo de novo! Afinal, este tipo de trabalho não tem fim, lembram?
    E já ia esquecendo! Amanhã à tarde começarei uma segunda horta para descansar a primeira. Significa tirar touceiras de braquiária no enxadão, cavoucar o chão... destorroar... capinar... por Thor, deus do trovão! Será uma ralação só!   

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Chove chuva, chove sem parar!

Chove como há muito não se via! Quase o tempo todo. É um aguaceiro de encharcar o mundo, pelo menos aquele que meus olhos podem abarcar em uma só olhada. Lá embaixo, o vale do Cervo, particularmente sua cava, desaparece na imensidão de pingos que despencam um do lado do outro, caprichosos e úmidos. Formam uma cortina de delicado brocado prata ou cinza bem claro que me impede de ver o dorso das colinas que ladeiam o rio. O concerto das gotas grossas e miúdas caindo sobre folhas largas, lisas, enrugadas, compridas e camurçadas acabam abafando todos os outros sons do bosque. Disseram, os especialistas em traduzir o que as nuvens dizem, que choverá ainda por mais dez ou doze dias ininterruptamente; é uma festa para as plantas que anseiam por água há meses.
    Mas, como tudo tem seu lado, digamos, menos cor de rosa, e até mesmo escuro, agora vamos passar por meses de vicissitudes com o barro, com a roçada quase que semanal do capim e pequenos ramos que alegremente crescem e nos apavoram com sua invasão. Sem pedir licença. Apesar disso no horizonte, a verdade é que vamos comemorar ainda por um bom tempo a felicidade líquida que jorra dos céus. Respirar esse ar úmido e limpo é tudo de bom. Ver o pomar juntando seus frutos nos ramos é uma epifania. Ver as árvores aproveitando para crescer ainda mais é muito confortante. 
    Chuva?! Quem venha mais!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O cio na terra e nos ares!

     Mesmo com a chuva mirrada (que os vizinhos jocosamente chamaram de sereno) e com a terra rachada e desértica os caquis acabaram verdejando e apresentando as formações florais que depois virarão frutas. Alguns caquizeiros menos felizes despencaram suas próprias flores e frutos na esperança de gastar menos energia e conseguir produzir alguns frutos doces e carnudos. Dá pena ver o chão forrado de suas flores verdes! Mas a chuva só aparece no horizonte e caprichosamente rodeia por Pouso Alegre, Congonhal, Santa Rita do Sapucai e desaparece nos montanhas. Neste momento, o tal do "sereno", umedece discretamente as folhas do abacateiro e jabuticabeiras; do gramado irregular e dos pinheiros do pequenos bosque que ladeia a casa ao norte, antes do pomar.
     Porém, mesmo em tais condições precárias o chão dá mostra de ter entrado no cio. Por mais improvável que seja, as plantas brotam pequenos nós verdes em suas saias e já dançam, ainda que timidamente, ao sopro da primavera, que está ali na esquina do mundo, quase à vista. Prova disto, são os pássaros pretos se acasalando nas nespereiras e após a cópula dando um voo rasante e girando em torno da fêmea. Esta, depois deste sexo bem vindo, penteiam as penas besuntando-as de óleo do seu reservatório no traseiro, escondido pelas penas do rabo. Em seguida, sai como flecha lançada pelo bodoque do instinto que os une, na direção que tomou o macho. Só o deus dos passarinhos sabe o que farão escondidos na mata. Nós, pobre mortais só sabemos o resultado. Uma profusão de pássaros pretos pipiando atrás de seus pais em galhos de amoreiras tentando convencê-los a regurgitar em seus papos o que eles tem nos deles.
     Seu canto nupcial é uma das maravilhas da natureza! Nas tardes de primavera ouviremos por mais ou menos um mês a orquestra destas aves negras como carvão, incansáveis, até que seu negrume as confunda com o escuro da noite.
      Falando em amoreiras... Colhemos bastante amoras para uma geleia. Amoras roxas, pois as pretas e brancas ainda estão industriando os frutos. As roxas são generosas, deitando seus galhos até o chão para que não tenhamos trabalho em colher seus dulcíssimos frutos. As brancas dão em árvores grandes com espinhos terríveis e pontudos nos troncos e galhos; as pretas são arbustivas, com espinhos até no invólucro verde que as sustem. Não são nada generosas; no máximo aceitam que nossos concorrentes - aves em geral - as devorem com sofreguidão. 
      Bem, as roxas não são generosas só conosco; de seus frutos de um roxo profundo, alimenta-se uma multidão de viventes. Desde insetos a corujas, curiangos, morcegos, raposas, até ratos e gambás, só para ficar naqueles que a solicitam à noite. Mas, creio que é durante o dia que a amoreira atinge seu apogeu. Trata-se de uma verdadeira babel de sons dos mais variados tipos de aves a pousar em suas galhadas pontilhadas dos cobiçados frutos. A lista é grande, mas os mais evidentes e coloridos são tucanos, gralhas de rabos brancos e amarelos, canários da terra, jacus e pombas do ar - as populares "fogo-pagou".
      Então, ainda falando de amoras, acabamos de saboreá-las com biscoitos de maizena e queijo! Já tenho saudades dos meses que elas desaparecerão encolhidas em sabe-se-lá que meandros de sua árvore-mãe. Enquanto isso vou me esbaldando com os caquis... 
(a foto mostra o vão na serra onde estão enraizadas as amoreiras)