Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Roçar no carnaval, viver nas nuvens e o sapato preto da Gabi!

Além de roçar com foice, o que exige rudeza, velocidade, direção e ponto de impacto para seus melhores efeitos, pelo menos por três horas no sábado e três no domingo, uso uma roçadeira a gasolina. Bem mais fácil de usar, infelizmente nada pode contra ramos mais troncudos, além de uns arranhões. Então, como de costume no verão, a cada três semanas, faço a pele do imenso quintal onde nossos cães brincam, deixando grama e capim a menos de dois centímetros de altura. Como a terra é feminina (nos meus delírios infantis) imagino que estou sendo usado por ela para depilar, à flor da pele, seus tímidos pelos axilares. Suas dobras pilosas vão aparecendo ao roçar da lâmina afiada - ficando mais e mais sensual - usando como moldura o milharal ao fundo e serra acima.
Nestas alturas, a entrada da propriedade já pede que lá volte para roçar-lhe a pele de entrada, junto ao portão. É sempre assim no verão; quando termino de roçar a volta da casa lá em cima, passando pelo grande pomar, os primeiros metros da via que vai da estrada até a pequena casa, já pede meus cuidados. Isso só será exceção no inverno, quando a terra esfria, a braquiária "morre" e a grama paralisa. Mas, até lá há muito quilômetro quadrado para desenhar com decisão e arrojo. É um ir e vir sem fim!
Então, em pleno carnaval, próximo passado, me diverti nesta, como dizem os adolescentes, ralação com a terra. Além do sábado e domingo trabalhei a segunda e a terça neste flerte. Nada de amor de carnaval! Ela exige amor eterno, pelo menos enquanto eu durar!
Neste quintal roçado com esmero está Gabi com suas orelhas de descontentamento, por causa da meia preta na pata direita traseira, onde uma mosca botou-lhe seu ovo, que nestas alturas, ao curarmos seus dedos, já inchava e supurava. Para que não arrancasse o curativo e lambesse o remédio imposto, cortei uma meia de trabalho e com esparadrapo Vania fixou-a sobre o trato. Virou um sapatinho elegante, que não durou mais que uma noite, tempo suficiente, porém, para que o remédio fizesse seu efeito. Agora já está perfeitamente bem.






sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Experiência, maravilhar-se, viver!


        "Todo discurso sobre a experiência deve partir atualmente da constatação de que ela não é mais algo que ainda nos seja dado fazer. Pois, assim como foi privado da sua biografia, o homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência: aliás, a incapacidade de fazer e transmitir experiências talvez seja um dos poucos dados certos de que disponha de si mesmo". Esta "destruição" da experiência, segundo Agamben, pode ser o resultado da banalização da vivência cotidiana onde o cidadão volta "para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos - divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes - entretanto nenhum deles se tornou experiência".
       É nisso que venho tentando meter a colher já há três décadas, quando insto as pessoas, por meio de técnicas de si advindas do Samkhya, do Zen, do Tao e das artes existenciais de cada uma destas experimentações do mundo. Portanto, se por um lado acho que Agamben cada vez mais tem razão (ele escreveu isso em 1977/8), esclareço que essa foi, e é, a batalha de muitos sistemas filosóficos indianos e orientais para que se mantenha íntegra a capacidade para fazer experiência. Centro a atenção nas práticas chamadas 'sadhana', que surgiram no período matriarcal, pré-védico e algumas técnicas aprendidas nas artes marciais chinesas, as quais ensinei entre o fim dos anos 70 e fim dos 90.
      O homem de que trata o autor é o homem ocidental, e isso nos autoriza, embora não se resolva nisso, a dizer que não é a mesma realidade naquelas sociedades. Não quer dizer que não sejam atacados, neste século, pela mesma 'doença'; a globalização tem tentáculos infernais e de alcance inimaginável! Mas podemos propor, com uma margem de segurança, que seus modos de realizar sua subjetividade ainda inclui a "experiência" e é isso que venho descortinando, embora com as limitações de ser um ocidental, solapado pelo mesmo fenômeno.
      O autor rebusca, de modo primoroso, a perda da autoridade advinda da experiência, uma vez que a verdadeira autoridade prescinde da indústria do comportamento ou dos manuais de auto-ajuda. Na verdade, os manuais e as técnicas de aprendizado, por mais bem intencionados que se coloquem, só fazem destruir a "experiência". No ato mesmo de treinar um comportamento, ou ensinar uma verdade, ou propor um sistema de pensamento positivo, acabam por retirar o sujeito desta incerteza criativa que é o cimento para a experiência; é o fim deste "jogado no mundo" sartriano, onde o homem pode, pelo gratuito da vida compor-se como "clareira" vivencial - experiência, pois.
      Na penúltima postagem do blog http://levileonel.blogspot.com, dia 18 de fevereiro, perguntei, junto com Mathieu, personagem sartriano, como fazer para que minha vida não malogre, ou que faça algum sentido, ou que seja uma vida que faça mais que um breve alarido sobre o mundo. Creio que um bom começo é resgatar, mesmo que sem sendas demarcadas, demarcações que impossibilitam a vivência de uma "experiência". A natureza mesma desse fenômeno é a de que desdiz a aprendizagem, por isso não se dá na presença da simples técnica, embora sem a técnica jamais se dê, paradoxalmente. Uma vez Sartre propôs o termo fulguração para esse sentimento de ser clareira no mundo, ou do mundo; talvez eu devesse seguir minha investigação por aí... pela fulguração do homem como instante vivencial sem eira nem beira, e por isso mesmo, especialmente significativo...

Sobre as vivências que dirijo em SP: http://levileonel.blogspot.com

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A insustentável leveza do ser!

Tomo emprestado o nome do filme e livro para tratar de um tema singelo, de minha perspectiva, e trágico, da perspectiva do marimbondo. É! Não enlouqueço ainda! Trata-se da longa contemplação de uma caixa de marimbondos de bunda branca que escolheram o teto de minha pequena área para construir sua descendência. Atarefados e até certo ponto meio estabanados ao aterrissar sobre sua "casa", não raro pousavam sobre as costas rajadas de seus colegas, provocando um certo agito de asas em cadeia, que acabava por afetar a todos. Esse ir e vir de cada um deles, marcado por um voo que me pareceu também, em certa medida, meio alheado, me fazia meditar se era uma estratégia qualquer, que, lamento, não pude decifrar. No meio desta meditação tenho a surpresa desagradável de ver um dos inusitados vizinhos se enroscar nas teias de uma aranha que, e isso posso assegurar, a tecera como estratégia para pegar insetos e, quem sabe, seus vizinhos belicosos. Tive ímpetos de libertá-lo, argumentando que a aranha teria outras oportunidades para seu almoço. Vacilei um pouco, pensando que não deveria me meter em assuntos de terceiros, mas decidi entrar e pegar uma cadeira para com um varinha, delicadamente, desemaranhá-lo. Sabia que não podia demorar; as aranhas que "cultivo" ali, assim como os marimbondos, são seres determinados! E não deu outra! Ao voltar lá estava a aranha a poucos milímetros de sua presa, que nestas alturas, por desespero de causa, mais se enrolara. Por instantes me vi ali pensando o que fazer. Pela segunda vez decido que salvarei o marimbondo! Mas, era tarde. A aranha, num golpe certeiro, já o aferroara (ou o enredara, não sei) e seus movimentos já eram estertores de morte. Alguns instantes menos e teria salvo sua vida. Era sua única chance e falhei enquanto pensava nos direitos da aranha, que ela também é filha-de-deus, que é gente como a gente etc. Essa é a insustentável leveza do ser, a inefável seidade da existência! E mais! Eu posso ser a próxima vítima, não da aranha, que não ousaria enrolar um almoço tão volumoso, mas das teias do acaso, que alguns chamam "sorte", "fortuna" ou "Deus".

domingo, 24 de janeiro de 2010

A estrada do tempo do onça!

Passamos, Vania e eu, o sábado e domingo entre podas de hibiscos e arrumações da estrada que se estende do portão de entrada à velha casa que moramos. Podar as flores é um trabalho até bastante fácil. Quanto a aplainar a estrada a base de enxada e enxadão, trata-se de serviço que moe os músculos, endurece dolorosamente os punhos, lancina as costas e lombares, lateja os dedos dos pés e pinça os ombros. Isso tudo com muita sede e fraqueza que exige alimento calórico várias vezes no período. Não exagero. O chão está encharcado por chuvas de trinta dias quase ininterruptas, formando uma lama pegajosa e pesada, que gruda na lâmina das ferramentas e colam nossas botas ao chão. O cheiro de folhas podres nauseiam pelo tempo que estão deteriorando na chuva e a camada de pedriscos colocados no correr de décadas vai desaparecendo, tornando a tarefa de conduzir o carro serra acima uma aventura fora-de-estrada, literalmente.
Esse caminho tem mais de uma centena de anos e já foi uma via pela qual já passaram pessoas que buscavam novas fontes de ouro para garimpo; depois virou "rodovia" por meio da qual trafegavam carros de boi, caminhões e veículos de transporte de gente até as regiões vizinhas. Há pouco mais de vinte anos, construíram a estrada asfaltada para Espírito Santo do Dourado (aquela que corro a pé lá embaixo) e a que passa em frente de minha casa foi abandonada. Quando comprei este sítio, em 1994, o caminho, embora precário, estava preservado apenas até a entrada da velha casa. Daquele ano até agora venho tentando manter suas condições de rolagem a duras penas. E é disso que estou falando. De limpar a capa de terra arrastada sobre a base de pedregulho, para que os pneus se agarrem suficientemente, não nos deixando a meio caminho, no barro e na chuva.
Na noite passada mal pude dormir com dores nos ombros; Vania com dores nas costas. É claro que esta que se aproxima não será diferente. Mas valeu a pena! A estrada velha e rústica está mais transitável e nós um pouco menos ameaçados de atolar tendo que amassar barro até em casa. Afinal, as chuvas continuarão por pelo menos mais três meses...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Para não dizerem que exagero!

Hoje resolvi correr a tarde, e lá fomos eu e Kelly. Eu a levo comigo, porque ela já conhecia esse rito de correr a pé, desde que morava em São Paulo, junto com dona Vilma, o menino Vitor e meu cunhado Valdir. Como vivi uns bons dois anos em sua casa, Kelly habituou-se a me observar na preparação para ir a rua. Mal via eu colocar sapato de corrida e calção e pronto! Começava a latir e dar pulos de alegria. Não se acalmava enquanto eu não a levava a duas praças do Jabaquara e lá corria com os outros cães, um olho neles e outro em mim. Eu corria em círculos e ela me interceptando, em linha reta. Isso criou uma paixão mútua - nós adoramos correr juntos.
Há, contudo um motivo suplementar para não levar os outros. Kelly sempre passeou em calçadas de São Paulo, por isso tem um hábito muito bem enraizado de respeitar o asfalto. Por exemplo, na estrada onde corremos, anda próximo da linha branca que divide asfalto e o meio-fio, já que não há acostamento. Já o Rabicho, o Soneca e a Gabi, são quase bichos do mato; jamais andariam na linha, sem metáfora. Isso evita acontecer o que venho vendo sistematicamente - atropelamentos dos mais variados bichos em certo trecho da estrada. Exatamente naquele que uso para correr.
Então, hoje, de novo, passei pelos sentimentos que descrevi duas postagens abaixo. Encontrei um saguí atropelado quase no mesmo lugar que encontrara o sauá. Voltou-me a indignação! Veja a delicadeza de suas formas e linhas; e também seu delicado modo de viver. Desanimado, publico as fotos de seus delicados restos... nas delicadas mãos de Vania.
Assim como a Kelly, quando vê um bichinho morto na estrada, Gabi e Rabicho traduzem nos olhares essa trágica acontescência. Posso jurar que vejo tristeza em seus olhares, tal como no meu e de Vania





sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Errata, Ovídio e o Sauá!

Outro dia (10/01/10), falei apaixonadamente do guaxinim atropelado na estrada em que faço minha corrida a pé, acompanhado da fiel escudeira Kelly. De uma hora para outra, após a visita do Ovídio José, há dois dias, me vi sem o objeto da paixão! Nem acreditei quando ele, do alto de sua sabedoria escupida a ferro e fogo - ferro dos instrumentos de carpição, e fogo celeste aparado por um boné já esgarçado - me diz que o bicho morto era um Sauá! Um macaco, portanto! Fiquei ali abilolado, pensando (agora que ele dera o nome ao bicho) que só podia ser um... um... guaxinim, bolas! Puxei pela memória e vi sua cor avermelhada. Pensei: "Ah, é um filhote de guaxinim, só por isso!" Bicho sem manchas escuras aneladas no rabo e "óculos" nos olhos. Argumentei com meu umbigo: "Ah, mas a cabeça estava destruída pelas rodas de um carro e a cor não seria por que tratava-se, justamente, de um filhote?!" E o que dizer dele ser atropelado, andando na pista; macacos trafegam pelas árvores!!  Bem, neste caso ali não há árvores que cubram a pista. É verdade, capitulei, o guaxinim e o macaco  teriam, necessariamente, que usar o chão pra atravessar seus domínios! Aí me rendi, as evidências. O bicho era de fato um sauá, um macaco de pelo acobreado, que divide o lugar com os bugios e os macacos comuns, que o Ovídio chama por "macaco".
Mas, quanto ao resto não retiro uma vírgula! Até pelo contrário. Ao ouvir o Ovídio José, que tomou a decisão de removê-lo de lá, porque outros sauás estavam olhando-o, como se o velassem de cima das árvores, me voltou a indignação. Eu o deixara à vista para que os urubus pudessem se alimentar dele. O coração do Ovídio - não confundamos com o poeta que fez "A Arte de Amar" as mulheres - não suportou a cena - pois além de amar as mulheres, este Ovídio que vos apresento, ama a natureza..
Como já adiantava, o resto do texto não desdigo...  

domingo, 10 de janeiro de 2010

O debut de Gabi Blue na vida sexual!



Estas fotos foram clicadas hoje, há pouco, depois do banho semanal da trupe. Dia ensolarado, tarde brilhante e quente! O milharal que se vê ao fundo, de repente torna-se ruidoso ao vento e verdejante como um tapete felpudo; alegre por ter arrefecida a chuva. O gramado em volta da pequena casa está aparado e as flores tipo chapéu-mexicano, são visitadas por borboletas grandes, rajadas de amarelo e preto, como se vê em uma das fotos. Tudo borbulha vida e não poderia ser diferente com nossos cães que acabaram de passar por uma experiência inédita.
Trata-se do primeiro cio de Gabi! Pois é! Aquela filhotinha cuja foto eu aparecia com ela nos braços há seis meses. Resolvemos deixar todo mundo passar por este drama - inclusive para nós, que dormimos mal com os uivos e latidos do Soneca Golden Boss e Rabicho Bicho interessados em um breve namoro. Fizemos uma grande confusão com nossas vidas nos últimos nove dias. Era um tal de prende um na tulha e outro no canil enquanto ela passeava breve (por receio de aparecesse algum vizinho inaudito), fazia seu cocô e voltava. Aí fazíamos tudo ao contrário. A noite os machos e Kelly Lulú, que nada entendia do acontecido, porque foi castrada ainda antes de sair de São Paulo, dormiam dentro de casa. Cheiro forte de cão, acordar madrugando por causa de seus hábitos caninos etc etc.
Tudo isso para que Gabi possa desenvolver-se fisicamente até uma idade o suficiente para que a castremos. Queremos evitar que aconteça de ter filhotes e termos um verdadeiro caos em nossas vidas (ainda maior que cuidar desses quatros - todos adotados em condições precárias). Imagine-se termos que achar um dono para seus filhotes! Além de doer a beça nos nossos peitos ainda há a possibilidade de serem abandonados como fora Gabi - na beira da rodovia como já bloguei em maio passado. O resultado dessa dedicação aparece neste "ensaio" fotográfico...

Guaxinins, sujeito de mercado e lixo na estrada!



É triste ver um guaxinim - dito camambeva na região - ainda filhote, sem ter trocado os pelos iniciais, estirado no asfalto, atropelado por algum carro; morto. É assim que encontrei, um deles (pois se deslocam em bando) na beira da via que dá para Espírito Santo do Dourado, aquela mesma na qual corro de manhã com a Kelly Lulu. Com a chegada de mais pessoas na região, o trânsito aumentou - nada que se compare sequer ao entorno de Pouso Alegre, mas que já se faz perceptível aos moradores antigos, que como eu, já estão por aqui há quase quinze anos ou mais. Por outro lado, é uma região que de rural vai se tornando de preservação ambiental; algo irregular e instável, porém bem mais consciente do que nas décadas anteriores.
Vania e eu fazemos parte desse contingente de interessados no ambiente - em deixar matas crescerem nas proporções necessárias, plantar bosques com árvores nativas e frutíferas, reservando o entorno de minas e regatos. Percebemos que há uma surda e muda diferença entre nossa atitude e a daqueles que são nascidos por aqui e que insistem em manter pastagem em encostas e beiras de rios e regatos, bem como no uso descabido de agrotóxicos, herbicidas e adubos químicos, sob o argumento míope de que só assim podem conviver com a natureza. Para se ter uma idéia do absurdo desta posição, nossas terras, que, repito, são bem recuperadas (não ainda como sonhamos, é verdade), anos após chegarmos aqui, ainda não podem produzir e manter os nutrientes suficientes para dar frutas como caquis, peras, maçãs e outras mais comuns. O que dizer de terras que são aradas por trator, atacadas por herbicidas, fogo e adubos? São terras imprestáveis, sugadas até a exaustão, que sozinhas mal produzem capim para o gado. É por isso que vejo os pastos como desertos verdes!!
Uma respiração para me justificar. Não esqueço nunca de que esse sujeito do campo é antes de tudo, e principalmente, sujeito de mercado, como eu e você - e por isso vive na contigência de explorar sem piedade a terra, para que esta lhe provenha de meios para que possa frequentar a vida civil. Esse é um ponto cego eternamente presente em nosso campo de visão. Afinal, argumentamos todos, como fará para sobreviver, senão corroendo a crosta terrestre onde vive? Boa pergunta.
Voltemos ao Guaxinim. Esse sujeito do campo, não quer o Guaxinim por aqui; alie-se a isso um tipo de gente que passa fins de semana em seus sítios nas redondezas, vindos de Pouso Alegre e mesmo de São Paulo. São deseducados, inconsequentes, cuja virulência do comportamento destrutivo inocula até o chão em que pisam. Falo disso, pensando nas dezenas de latas de cerveja e sacos de lixo que arremessam na beira das estrada, e que recolho com raiva, tentando manter a beleza deslumbrante do lugar. Esse tipo de frequentador eventual passa por aqui em alta velocidade atropelando tudo que supreende atravessando a bucólica via. Já vi de cães a cobras, de aruás (caramujo gigante) a guaxinins, destroçados por carros dirigidos loucamente. Me pergunto por que alguém dirige naquelas estradas a mais de quarenta quilômetros por hora? Onde estará indo? Relaxar nas montanhas da região? Mas por que a pressa?
Sem ingenuidade, é óbvio que acidentes acontecem e é óbvio que alguns dias estamos atrasados por acidentes vários. Mas pergunto por que o atropelamento de bichos está tão frequente?

Lembrando que quem dirige por aqui é o homem do campo e os visitantes para divertir-se e relaxar, faço um apelo às autoridades para que criem um projeto de educaçao ambiental, sugerindo muito baixas velocidades nas vias de acesso à cidade e sacos de lixo que levem consigo para depositar em locais apropriados, que, por sua vez podem ser ampliados, já que alguns realmente estão a disposição.
Bolas! Que saiam mais cedo de suas casas (aqueles que trabalham) e que olhem com atenção as maravilhas deste lugar (aqueles que visitam Espírito Santo do Dourado). Para isso precisam dirigir bem devagar, senão perdem lances como os Jacus que estavam na beira da pista, tratando de seu filhote, hoje de manhã, enquanto eu corria (a pé, claro).
Para aqueles que achavam que só falo do bom e melhor, por que vivo em um paraíso, sinto desaponta-los.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bom ano novo!

Último dia do ano! A chuva arrefeceu...
A fazer, nada de especial. Acordamos cedo, uma vez que ontem dormimos cedo. Café da manhã usual; alguns exercícios físicos; Vania começou a preparar uma petição inicial com pedidos de ressarcimento por dano moral a sua cliente.
Eu e Kelly Lulu Star fomos correr lá em baixo na rodovia, como de costume. Na ida passamos por uns casais de bugios com seus filhotes enroscados no peito, nas costas e nos galhos das árvores. Fico em silêncio, enquanto eles reclamam muito, talvez dos latidos de Kelly. Ato contínuo, se escondem como manda o figurino dos macacos. Fazia tempo que não via bugios tão próximos da estrada e das casas! Talvez o feriado e a região em silêncio ajude a explicar o fato. Além de um bananal bastante fértil, é claro!
Mais algumas passadas e uma dupla de pica-paus de cabeça alaranjada, parecidos com o chen-chen, porém menores, comem formiga-da-umbaúba. É uma batida ritmada e seca no tronco da Umbaúba, talvez para eriçar os ânimos da pequena formiga, considerada uma das mais violentas e venenosas da mata atlântica. Já fui pego por uma dúzia delas! Como se diz por aqui, meu couro ardeu por horas, inchado e dolorido. É um perfeito consórcio entre a Umbaúba e a formiga, que protege a planta e mora em seu interior sem destruí-la; é maravilhoso!
Continuamos a corrida... Passei por um caramujo que desliza silenciosamente pela brita do asfalto. Pego-o para evitar que termine como um outro que há dias vira esmagado pelos pneus de algum carro. Me chama atenção que, em quinze anos somente tenha visto estes dois caramujos dos grandes (em geral os que vivem na serra tem pouco mais de um centímetro de diâmetro – sua casca – e três centímetros o corpo vivo). Este, pelo contrário, a parte viva tem 20 centímetros! E sua casca enche minhas mãos em concha!
Tomei a decisão de deixá-lo em em lugar estratégico para depois da corrida levá-lo para minha casa e deixá-lo bem seguro perto das minas de água.
Continuamos...
Passei por sobre uma cobra verde morta no asfalto e pensei que fiz bem em livrar o caramujo deste destino. Olhei-a penalizado. Chegara a adultice, com pelo menos quarenta centímetros de cabeça a cauda; cabeça inocente, sem aquelas formas das temíveis jararaca e cascavel. Resolvera se aventurar do outro lado da rodovia! Talvez tenha feito isso por toda uma vida antes desta manhã fatídica.
Subimos a serra até próximo do bar do Ademir, alguns quilômetros depois e serra acima... Voltamos correndo devagar para eu achar o caramujo. Peguei-o na mão e o virei de “pernas” para o ar facilitando seu transporte. Encolheu suas antenas e o farto “bigode”, limbentos. Ao subir por um atalho que ladeia o cafezal fui seguido por umas gralhas de rabo branco desconfiadas que fossemos mexer com seus filhotes escondidos nas amoreiras.
Chegamos, mostrei para Vania meu achado, interrompendo sua petição, e fui deixar o caramujo em lugar seguro. Antes disso, Gabi, Rabicho e Soneca foram verificar de que se tratava; cheiraram longamente o bicho e desistiram de considera-lo uma caça. Assisti tudo um pouco tenso, mas como Kelly não tinha tido nenhum interesse, presumi que assim seria com os outros. Mas Gabi ainda é uma filhote e bem poderia se empolgar.
Quando disse a Vania que descreveria a manhã deste último dia, como um dia comum, por aqui, fiquei com a sensação de que poderia ser considerado não tão comum assim. Mas é a pura verdade! Essas coisas acontecem por aqui e não são extraordinárias.
Espero que o ano de 2010 continue assim: comum, sem grandes surpresas; Vania com muitas petições e eu podendo correr serra acima na manhã de cada dia que se apresentar.
Para os que me lêem um grande e extraordinariamente bom ano novo!


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

As chuvas de Natal e os novos ventos da serra!

Chove! Como sempre choveu por aqui nos dias próximos do Natal! Época boa para descanso, terapia do sono e retiro do azáfama das cidades, seja São Paulo ou Pouso Alegre. E para ouvir o som do vento! Pois é! Dias atrás me dei conta de que estava ouvindo um susurro diferente vindo do cimo da serra. Era coisa nova! Nada de abelhas fazendo enxameação ou algum avião distante com seu ronco surdo. Tratava-se do som das árvores da serra! Foi emocionante, tocante mesmo. Para um desavisado isso parece meio sem cabimento, mas deixe-me explicar.
Há anos espero por esse acontecimento, coisa que ocorre apenas e tão somente se as árvores tem um tamanho adequado - grande o suficiente para ter copas folhosas e de bom diâmetro, além de canelas compridas sustentando suas saias verdes. Quando aqui desembarcamos, em 1993, podia se ver, de longe o tapete aveludado das pastagens; bonito, mas desértico. Apenas alqueires de capim para o gado pastando silentes e calmos. Nestes anos a vida floresceu por aqui. Plantamos milhares de árvores e deixamos alqueires de mata nativa e ciliar, bem como plantamos fruteiras por todo o terreno - para nós e os bichos que a cada dia migram para cá.
Agora, depois de uma espera longa e ansiosa, já podemos ouvir o roçar poderoso do vento nas longas pernas das árvores! Só os deuses podem saber com que intenções! Suponho que boas, mas posso mesmo garantir que de minha parte a coisa vai bem.
O Natal se foi, a chuva deu uma pausa e agora é continuar a obra da natureza, melhor dito, deixarmos que ela erga mais e mais suas grandes guardiãs verdes ao sopro do vento.
Aos amigos daqui e de lá, muitas paisagens bonitas! Encher os olhos do belo é o que desejo a todos!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Elmo e as Armas de Joaquim Tobias!

Sexta pegamos o carro e fomos a Espírito Santo do Dourado, onze quilômetros distante de casa. Uma viagem curta e rápida por estradas poeticamente sinuosas, belas como uma pintura de Duchamp. Anoitecia. Os paralelepípedos da cidadezinha já se umedeciam de calmo sereno. As cores tendiam ao pastel. Estávamos em silêncio; sem saber exatamente o que se passava conosco. Que sentimentos tínhamos, vagando por nossos espíritos?

Chegamos em uma esquina; estacionamos perto de uma casa azul. Quatro ou cinco homens sentados na calçada, em frente a casa, nos olharam longamente, a mim e Vania, enquanto nos dirigíamos até lá. Olhavam sem ansiedade ou constrangimento; sabiam porque estávamos lá. Não havia mistério, talvez alguma dor em certo canto de nossos rostos, uma certa rigidez nas faces, mas nada muito vincado. Nos olhos certo aquecimento do espírito, nos gestos um comedimento que eu já experimentara três ou quatro vezes na vida. Tinha a ver – eu o sabia muito bem – com os ritos da morte. Daqueles homens conhecíamos o João. A fala calma, e de certo modo espremida, sai do peito de Vania: O Zé ligou falando do seu Joaquim; que caíra nas pedras...

O João: Não, Vania, foi entre o primeiro e o segundo portão lá da casa de vocês.

O outro: Falei para o Zé que não podia ficar daquele jeito, que a vida é assim mesmo, que tem que erguer a cabeça, que...

O João: Ele teve dores há uma semana, mas não quis ao médico...

Vania: Eram amiguinhos, dividiam tudo entre si, eram sócios em tudo que trabalhavam,  todas as rocinhas, do milho do feijão...

O outro: Eram...

João: Eram mesmo...

Eu: Tenho pena do Zé, que ficará sozinho...

Vania: Como deve ser difícil para o Zé, vê-lo ali naquela situação...

João: Encontrei ele lá no Ademir, cabeça baixa chorando, andando devagar...

O outro: Falei para o Zé que não podia ficar daquele jeito, que a vida é assim mesmo, que tem que erguer a cabeça, que...

Vania: O que será de seu cão e seus gatos e galinhas e vaquinhas e cavalinho...
Entramos na casa, sorumbáticos, silenciosos. Olhamos seu rosto sereno, quase tão sereno quanto quando andava lá em nosso bosque trabalhando sua roça de milho em sociedade com o Zé; Joaquim estava de camisa nova, uma daquelas que jamais usou no dia a dia; o caixão não lhe caía bem, não sei porque. Digo: Prefiro ficar com a imagem dele na serra. Vania desvia duas lágrimas com as costas das mãos.
Embaixo do caixão, colocados lado a lado, seu chapéu de palha amassado, suas botinas rijas e desgastadas e uma sacola com pertences. Penso - é incorrigível em mim - que faltava sua enxada amolada e um machado; tal como se enterravam os guerreiros em certas culturas, com seus pertences de combate. Do Joaquim vi seu elmo usado contra o sol, as botinas que lhes protegeram os pés da rudeza do chão. Mentalmente coloquei ali sua enxada e machado - as armas de um quixote lutador contra ervas daninhas e na faina de corrigir o chão para ali enfiar sementes. Também como Dom Quixote, Joaquim lutava contra alguns mal-feitos e desrazões - só não sei quais.
Adeus Joaquim Tobias! É melancólico que seus pés nunca mais amassem os torrões carpidos nas bordas da serra do Cervo!

domingo, 15 de novembro de 2009

O diário de Roquentin e o boato de si mesmo!

“É isso que tem que ser evitado; é preciso não colocar estranheza onde não existe nada. Creio que é este o perigo. Quando se faz um diário: exagera-se tudo, vive-se à espreita, deforma-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, de um momento para outro – e precisamente em relação a esta caixa ou a qualquer outro objeto – experimentar novamente a impressão de anteontem. Tenho que estar sempre preparado; do contrário, ela mais uma vez me escaparia. [...] Naturalmente, já não posso escrever nada de preciso sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou muto distanciado delas; só posso dizer que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que se chama comumente um acontecimento. Sábado, os meninos brincavam com pedras, fazendo-as ricochetear, e quis imitá-los e jogar uma no mar. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui embora. Eu devia ter um ar perdido, provavelmente, já que os meninos riram quando lhes dei as costas”. (Roquentin, escrevendo seu diário, em A Náusea).

Estou com Roquentin. Ao escrever diários deformamos a verdade, mas não mentimos; fabricamos a verdade, a partir desse não-acontecimento – esse cotidiano insosso, sem consistência e sem beleza especial; o fazemos se tornar bordado, retinente, luzidio. Não é que inventamos uma verdade; é que omitimos o geral em prol do detalhe; colocamos uma lente nele e o expomos aos olhos, enquadrado e emoldurado. Carregamos nas tintas aquilo que parece apenas entrevisto, difuso, mal delineado. Fazemos um conto da realidade; uma ficção com a vida. O diário não torna a realidade, por isso, artificial, mas sim, um boato de nossa própria vida. E onde há fumaça, há fogo, dizem. Assim, da fumaça da realidade que é o diário, podemos entrever algum fogo de acontecimento, de realidade – algo que talvez valha a pena contar para algum “querido diário”. Nossas vidas são tão desinteressantes, tão comezinhas, que um diário pode salvá-la da mediocridade; basta reinventá-la, sem mentir, imitando, talvez um humorista que diz: "Eu aumento, mas não invento!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A pastoral do poder e o poder pastoral!

Lula e sua pastoral do poder; o poder do condutor de almas; do discurso de eterno comício. Lula faz desbragadamente, de cara lavada, indefenso, aquilo que "nunca antes na história desse país" os políticos fizeram com tanta desfaçatez: ele se mantém no poder pela propaganda, pelo comício por vinte e quatro horas de todos os dias de seu mandato. Nada que seus rivais políticos não sonhassem fazer, sendo impedidos pela população, por meio de um sufrágio não tão exitoso e pela incompetência de não ter vergonha de fazer que cada obra (desde um degrau em uma estação de trem até uma obraPAC), se tornassem palanques, púlpitos ou tribunais. Sim, porque se trata de propaganda sempre, salvar a população sempre e de polícia política sempre. É, como diz Foucault, uma pastoral do poder. Lula reune as faculdades do poder pastor: Trata questões de governo de modo pessoal, pretende conduzir os espíritos e salvar a brasilidade. 
Eu, que sou ateu, espero que um deus qualquer me livre desse poder pastoral!
Sobre o rei que reina mas não governa: http://levileonel.blogspot.com/
  

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As vielas de Pouso Alegre!

Pouso Alegre é daquelas cidades que já cresceram o suficiente para ter nostalgia de suas ruas estreitas. Algumas já viraram - como manda o figurino das cidades cujas populações inflacionaram - calçadões com certo lirismo descansado, um eterno bucolismo de sábado a tarde. Ela já lembra uma São Paulo em miniatura; com pouco esforço encontramos um correlato da Vinte e Cinco de Março, do Largo da Concórdia ou da Rua Santa Efigênia. Contudo, apesar de encontrar uma São Paulo minimalista em certos aspectos, Pouso Alegre se define pelas consideráveis diferenças e não pelas semelhanças com São Paulo. A primeira, fundamental, essencial, é que está em Minas, é constituída predominantemente de mineiros e está numa distância salutar de São Paulo, distância importante, pois aquela tem a capacidade de contagiar, como se fosse uma aura calórica, seu entorno por dezenas de quilômetros. Seus vapores, para o bem e para o mal, alcançam além de seu perímetro urbano, metropolitano e mesmo as cidades da Grande São Paulo, indo tocar, com sua membrana agitada, palpitante, apressada, até cidades vizinhas. Em nossa direção, contando apenas a Fernão Dias, chega a tatear Atibaia e Bragança! Hoje, ao acordar, lá na Serra do Cervo e vir para PA pude avaliar melhor, para meu proveito e responsabilidade, as venturas e desventuras de trabalhar em SP. O lado afortunado: desfruto de uma situação muito confortável de poder degustar várias artes, inclusive a de trabalhar. O lado desafortunado: parece óbvio, dispensando comentários...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Letras engarrafadas nas avenidas da memória!

Faz tempo que não blogo! Dias fáceis, mas cheios de surpresas; muitas e múltiplas atividades, pequenas viagens a cidades pequenas no entorno de Pouso Alegre para fazer diagnósticos psicológicos, textos variados (que vão daquela pesquisa sobre o teatro de PA, a outro sobre o sentido de margens em uma cidade), ler Agamben (Estado de exceção), Lacan (O sinthoma), F. Jullien (Tratado da eficácia), manuais de psiquiatria e de testes psicológicos. É uma massa de letras umas atrás das outras...! Mas até que fazem sentido! É isso! Agora é ir para o Corê, em São Paulo, e realizar uma vivência com elementos da cosmogonia indiana, psicanálise, cura sui e cha'n tao. Mais releitura!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Luzes de minha infância, papai noel e pirilampos!

Sou daqueles para quem árvores de natal jamais significaram mais que desperdício. Não me orgulho disso, pois parece que os que se dedicam a essa atividade pueril são mais felizes do que eu! É uma felicidade sem consistência, quase idiota, mas que coisa tocante! Olhinhos de adultos e olhões de crianças fitando fascinadas aquelas árvores piscando... e piscando... e piscando... E aquelas avós, e avôs, e pais, e mães dizendo: “Qual o problema de uma fantasiasinha assim inocente; quem não acreditou nisso um dia; porque fazer as crianças enfrentarem a dura realidade sem papais-noéis, e fadas, e gnomos antes do tempo; depois, como vão se encantar com a vida etc etc?” E eu, esperando que minha mãe não me desminta, afirmo que jamais acreditei no noel. E tenho quase certeza de que sou bem perto de normal! Bem, em certa idade, que não posso precisar, talvez tenha ficado um pouco triunfante, estranhado e frustrado, quando puxei a barba do noel e havia o rosto de minha mãe por trás dela. Mas e daí? Pode ser a prova de que nunca engoli aquela história de “ho-ho-ho” meio desafinado! Por via das dúvidas não direi que postei esta semana! Vai que ela tem a prova irrefutável de que algum dia levei a sério essa bobagem adulta! Mas porque falava disso mesmo...? Ah! Lembrei!
Dias atrás falei que esperava os pirilampos voltarem e agora lá estão eles! Passeiam pela serra escura, acendendo e apagando suas luzinhas, tal como pequenas lâmpadas numa árvore de natal gigante, mas com o dom suplementar de irem e virem, incansavelmente, por toda a noite, cessando com o anunciar do dia. Alguns vagalumes mais afoitos, num esforço inominável, acendem aqui perto, atravessam as copas dos pinheiros e fenecem depois do angico e da árvore de azeitona-do-Ceilão. Imagino o gozo de poder fazer luz própria, uma proeza que religiosos daqui e de acolá sonham: iluminar-se, tornar-se luz. Um dia, na Índia, em Kajuraho, ouvi um religioso dizendo: “I am the sea, I am the sun”. E repetia essa ladainha mântrica por horas. Mas, coitado, por mais que se esforçasse e fosse honesto nos propósitos, não brilhava nem a metade de um vagalume!
Vagando com seus lumes, pequenas lamparinas riscando o quadro negro da noite, escrevem a vida nos morros; daqui alguns dias somem e vão dormitar em alguns nichos do mundo, criar suas crias, e estas tomarão seu lugares e outros olhos olharão seus piscares, pois, tal como vagalumes, o lume de meus olhos não estarão aqui para mirá-los.

Vagalumes!

Ontem choveu daquela maneira densa, calma e pesada, que as chuvas de primavera e verão às vezes podem chover. Ao passar pela entrada do sítio o cheiro de grama molhada me encheu os pulmões e fiquei ali, por alguns segundos, encharcado, pensando nas milhares de pequenas tocas de bichinhos, insetos e outros maiores, tenteando a chuva e esperando a estiagem para fazer suas refeições. Pensei que aquela noite, a tomar pelas noites de sábado e domingo, com os primeiros pirilampos a foguetearem pela serra, que seria a festa que já presenciara em outras primaveras. Mas, com a chuva, acho que adiaram o espetáculo para outro dia mais propício. Aguardarei ansioso... Espero que coincida com minha volta de São Paulo! (escrito em 28/09).

sábado, 19 de setembro de 2009

Os apuros de Vania, a Via Láctea e os vagalumes de amanhã!



(Escrito na noite de 17/09/09) Depois do usual período em São Paulo trabalhando em psicanálise, estou de volta à Serra do Cervo; Vania me aguardava na rodoviária com seus refrescantes olhos verdes, bochechas rosadas e sorriso pleno. Ela diz que está em “apurinhos” (adoro quando diz que está em apurinhos); quando diz assim, significa que não tem domínio dos procedimentos de uma tarefa qualquer que esteja realizando no momento. Mistura um pouco de “arte” no sentido infantil do termo, uma pitada de dificuldades não muito bem explicáveis, um naco de “mico” etc. Aí, depois de falar “apurinho” ri como uma menina pega “de jeito”! Me contou seus apuros e rimos juntos por alguns instantes. Já em casa demos uma pequena volta com nossos amiguinhos ávidos de contato com os humanos que tanto conhecem. Nestas alturas, o céu estrelado já mostra o esfumado da Via Láctea, formando seu caminho sempiterno (pelo menos em comparação a estes fugazes viventes que a espreitam daqui da serra). O céu está mais escuro que o usual e isso ressalta o colar de estrelas no pescoço da abóboda celeste, competindo em número, brilho e mistério com as lâmpadas lá do vale do Cervo. Neste momento, escrevendo minhas impressões, sinto o cansaço chegando como um fantasma amigo me hipnotizando, me convencendo à escuridão da consciência. Não acho ruim de jeito nenhum e até penso com encanto a idéia de desaparecer do mundo por algumas horas, sabendo que lá fora as estrelas, os grilos, as corujas, os curiangos e uma multidão de outros seres vivos começam seu “dia” num azáfama variado e num afã muito conhecido deles. Até amanhã às seis! Descanso agora para amanhã chegar cedo ao Teatro Municipal para sua filmagem e entrevistas que dirigirei com vistas ao projeto da UNIVÁS. Depois virá uma reunião no Depto de Psicologia da universidade, umas anotações no museu e outras na Secretaria de Cultura (todas com o objetivo de estofar minhas idéias no projeto "Discurso, Memória e Processos Identitários do Sujeito Pousoalegrense"). 
Fotos: Chegando em Esp. Sto. do Dourado e Vania na Frente do Faculdade de Direito do Sul de Minas para um curso de Direito do Trabalho)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bolinhas de gude, jabuticabas e o nada!

Nas jabuticabeiras, aqui no Cervo, os frutos redondos como bolinhas de gude, as burquinhas de minha infância, negras e brilhantes, já aparecem aqui e ali. Ao olhá-las, brilhando ao sol, imediatamente me remeto aos sete ou oito anos, lá no Jardim Adriane, quando ia buscar algumas delas, às beiras de um regato caudaloso e limpo. A jabuticaba foi daquelas frutas, entre cinco ou seis das que mais gostava. Facilmente competia com as mangas, mexericas, amoras, gabirobas e abacates. Hoje meu paladar se expandiu; gosto de calaburas, nêsperas, quiwis, pinhas, anonas, cambucis, pitangas, cerejas, figos, cabeludinhas, caquis, jambolão, pêssegos, tamarindos, maracujás, jaracatiás, acerolas, goiabas, cajus, lichias, feijoas e outras menos comuns. Não por acaso plantei-as todas em meu pomar para que possa por todo o ano variar os sabores de sucos, doces, geléias e a fruta natural, comida nas sombras de suas copas.
Bem, como ia dizendo, as jabuticabas com seu brilhante negrume me lembram as bolas de gude, e, como sempre acontecia entre os molequinhos desta idade, algumas, por um mistério qualquer, tornavam-se mais cobiçadas que outras. Guardava-as todas em um vidro de meio quilo, cujo conteúdo havia sido comido, só para apreciar longamente, às vezes por mais de hora, sua rutilância ao sol ou com o brilho das lamparinas escuras de querosene e suas chamas, de amarelo amortecido. Mas as que mais me chamavam a atenção eram duas bolinhas pretas, com um brilho profundo, enfeitiçante, parecendo me atrair para dentro de seu nada interior. Estranhamente eu me afundava naquele mundo pequeno e misterioso e me deixava estar. Era como se estivesse dentro da tenda cônica de índios americanos que vira em uma revista de bang-bang; lá dentro era tudo conforto e segurança. Em minha imaginação defendia a tenda dos bandidos vestidos de farda que a atacavam; eu vencia sempre, porque meus revolveres tinham muitas e muitas balas! Os deles apenas seis! Era uma vitória desproporcional! Aí eu saia galopando pela imensa pradaria que ia da mangueira até a porta de casa e tudo acabava com um banho morno de canequinha e queda livre na cama de palha de milho. O barulho da palha sob meu pequeno corpo ia diminuindo até que a bruma espessa do sono chegava sorrateira tentando me domar os pensamentos. Em geral, antes de cair no abismo órfico, pensava no nada dentro das bolas vítreas e sua negridão, dava uma olhada se tudo corria bem com o Daniel e depois ia perdendo contato com os sons vindos da cozinha, onde o pai, a mãe e a vó Pina falavam cada vez mais longe, até que pareciam falar lá embaixo do abacateiro. Depois era o nada, a escuridão reparadora. O molequinho tinha que descansar para jogar burquinha com o Zé Manquitola, espiar timidamente a menina da casa da esquina, comer gabirobas e jabuticabas, nadar no rio e, de quebra, ir à escola, ver os dentes brancos e os olhos verdes de dona Lurdes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Fim de inverno no asfalto!

Sinto uma mistura viscosa de sono e calor, preguiça e cansaço, nesta transição de estação. É até gostoso! Pena que não possa deitar aqui embaixo desta mini-sibipiruna ou acolá, sob a marquise daquela loja e me deixar amortecer por esse calor esquisito, meio frio, meio quente. Suor sem consistência, como se predizendo um frio fino estrepando a pele, daqui algumas horas, já no escuro das calçadas. Sem estrelas para ver, frio eriçando pelos, exaustão do dia, me dirijo para um certo endereço... espero que o cachorro do vizinho me dê a chance de recuperar as forças para a quinta de manhã! A alternativa será ler "Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua" ou "Estado de Exceção"!