Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Furiosa como a água!


As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As mulheres, as minas e as caixas d'água!

As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

O Taj Mahal e os mourões do Cervo!

Sem nível ou prumo consegui “plantar” nove mourões de cimento para apoiar nossa pequena produção de framboesas! Me senti um cro-magnon olhando de longe os mourões tentando ver sua retidão em direção aos céus, lembrando que a terra por aqui é inclinada, irregular e muito ingrata quando se trata de fazer engenharia sem instrumentos. Fiquei pensando em como sou analfabeto em arquitetura, se levarmos em conta quando foi erigido o Parthenon, as pirâmides egípcias, o Taj Mahal... Me acalmei pensando que não tinha pela frente mais que umas pequenas estruturas para fincar no solo, e esticar uns fios de arame para que a framboesa brinque de escala-los e, equilibrada, verta umas flores brancas e brilhantes, com pontos rosas no centro, que depois chamam uns pequenos pomos rubros que disputaremos a tapas com uns pássaros minúsculos, amarelos, que não sabem até hoje quem manda naquelas paragens. Na maior parte dos combates acabamos por ser derrotados. Ao acordarmos vamos correndo para lá só para constatar que já furaram nossas frutinhas com seus pequenos bicos vorazes... Daí que resolvi me render aos fatos. Vamos triplicar o número de framboesas! Assim enchemos o bucho de cada um daqueles monstrinhos com doce polpa vermelha e fazemos com que eles, empanturrados, vão dormir num galhinho de árvore qualquer e nos dêem a vez. Bem, foi assim que pensei, enquanto olhava aqueles nove obeliscos, nem tão retos assim, mas dignos de soerguerem os doces frutos da framboesa, como pedras preciosas incrustadas em um berço espinhento (pensam que é fácil se alimentar delas?!). Elas só se entregam com muita luta; tal como as rosas, podem ser apreciadas depois de algumas espetadas. Com certeza é muito mais fácil para o passarinho!

sábado, 1 de agosto de 2009

O pomar e as chuvas de inverno!

Esses dias tenho feito menos trabalhos rurais que intelectuais. Isso se explica pelo excesso de textos e a aproximação do momento em que tenho que entregar minha pesquisa e fazer meus cursos, mas, sobretudo, pelo fato de que os afazeres no pomar, horta e arredores já tomaram um rumo suficientemente auto-alimentador que já podemos, Vania e eu, nos darmos ao luxo de dirigir horas para outros afazeres. Assim, tenho me dedicado a um projeto de videoclube para o Conselho de Psicologia, a reativar a Associação de Psicólogos de Pouso Alegre, a articular os colegas para atos políticos junto aos órgãos competentes e a melhorar minha visibilidade profissional na cidade. Vania estreita laços com a AAEcominas e advocacia.
Não significa que não tenhamos que usar nosso tempo, com administração e comedimento para nossa vida de moradores nos bosques. Além disso, surgem certas acontescências muito próprias da vida no campo. Como exemplo, as chuvas que não eram previstas para a época, nos farão ter que repassar a roçadeira bem antes do previsto, por volta de fim de setembro. A previsão era para novembro, com as primeiras chuvas fortes. Enfim, ficamos com o dobro do trabalho para o período. Também teremos que fazer certos consertos de telhado só depois de uma estiagem de duas semanas (se ela vier); e fazer em agosto, quando faríamos em setembro.

Ps.: Relendo "A Náusea" no http://www.levileonel.blogspot.com

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Inverno chuvoso em São Paulo!

Chega a ser poético! O frio combinado com chuva dá um ar londrino a São Paulo. Bem, isso tudo olhando pela janela de meu consultório, esperando pelo início do dia de trabalho! Esperem prá ver, quando tiver que entrar e sair em metrô, ir almoçar, ou cumprir uma saga em bancos, pagando contas que brotam feito gotas de vapor nos vidros dos ônibus cheios. Mas, enquanto o encanto não se desfaz, deixe-me curtir o dedilhar dos grossos pingos d'água na janela, o sussurro molhado dos pneus de carros na rua em frente e o trotar de sapatos na calçada. A chuva, aqui em São Paulo, lá em Apucarana - a quarenta anos e tralalá, ou na Serra do Cervo, sempre me pôs lírico e, claro, no mais das vezes, encharcado. Enquanto ela não tem o poder de me irritar, fico aqui grudado na janela, as gotas do outro lado me olhando indiferentes, por mais alguns minutos...

sábado, 25 de julho de 2009

O Teatro Municipal de Pouso Alegre e o pousoalegrense!

Passei a sexta, de cabo a rabo, envolvido com a pesquisa que trata dos processos identitários do sujeito pousoalegrense com seu teatro municipal. Terminei um esboço mais completo já tarde da noite. Por isso Vania foi a PA sozinha para cuidar de problemas corriqueiros de nossa moradia - Cemig, AAEcominas etc. Hoje, sábado, depois de uma reunião com psicólogos do sul de Minas, para assuntos ligados a nossa representividade junto a sindicatos, nas políticas públicas e piso salarial para a categoria, continuo a trabalhar os textos do dia de ontem. Para ler uns fragmentos do raciocínio: http://www.levileonel.blogspot.com

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Bíos e Zoé!

Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós queremos dizer com a palavra vida. Continue a ler em http://www.levileonel.blogspot.com

terça-feira, 21 de julho de 2009

Em São Paulo cada um para seu norte!

Ao chegar em SP tinha conhecido o Fernando, boa conversa, muitos assuntos e aquela sensação indescritível de que uma vida passou por mim e que não sabia ao certo de que/quem se tratava. Nada muito diferente da vida que levamos juntos aos que amamos mais de perto; achamos que conhecemos, compreendemos e o que sobra é a certeza de que nos falta ou não. De resto os conhecemos tão pouco quanto esse parceiro de poltrona por três horas de viagem. Medimos nossas relações, em termos de importância, pelo tamanho do vazio que nos apodera com a distância e o tempo. É diretamente proporcional à angina pectoris que nos sufoca, nos coloca tesos e nos curva a existência. De resto é o silêncio, a massa, o mesmo, e a sensação de alívio por ter passado pela história de alguém sem feri-lo ou sem cravar-lhe as unhas da saudade sem responsabilidade - aquela que não temos quando não amamos bem de perto, quase dentro da pele do outro... Ao desembarcarmos, ele foi para o Tucuruvi e eu para Ana Rosa - sem faltar a respiração pelo amigo que se vai!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Monte Santo de Minas!

Sexta-feira, 17, na parte da manhã fiz trabalhos domésticos e de pomar – poda de caquizeiros e pés de figo. Devido ao clima surpreendentemente úmido deste inverno, eles começaram a brotar antes do tempo; então tive que correr. O pessoal lá da AAEcominas acha que isso já é resultado do sobreaquecimento do planeta!
À tarde, após o almoço, fui ao Museu pesquisar jornais da cidade entre 1967 e 72, onde haviam notícias do dia em que Pouso Alegre se revoltou com o projeto de venda do teatro municipal para um banco. Isso provavelmente fará parte de minha pesquisa sobre aquele patrimônio histórico.
Sábado, foi um dia mergulhado em livros os mais diversos, buscando o melhor jeito de apresentar a importância do teatro para a identidade do sujeito pousoalegrense. De oito da manhã até 22 horas, interrompido apenas pelo almoço frugal e algum alongamento para relaxar as costas e os olhos. De princípio me sinto andando com o texto... mas, não dá para dizer que ele dá conta do projeto. Falta ainda um bom caminho!
Anteontem, domingo, decidimos vir a Monte Santo de Minas para fazer pagamentos de algumas contas relacionadas com o sítio de Dona Vilma e fazer a manutenção geral, usando roçadeira, capina e podas necessárias para que o lugar fique apresentável, já que queremos vendê-lo o mais cedo possível (publiquei fotos do Sítio do Mandú recentemente). É um pequena viagem de 250 quilômetros, e mais algumas horas de trabalho até ontem, por volta das duas da tarde. Depois, foi só voltar, ansiosos por ter deixado nossa trupe de cachorros sozinhos, o que não é hábito. O Chefinho cuidou de tudo na nossa ausência, e que Gabi aguentou bem a ansiedade de ficar longe de nossa proteção! Resumindo, cuidamos do sítio Estância Olhos D'Água que reformamos para venda. Belíssimo, bem localizado no sudoeste de Minas, água pura e abundante, lago de peixes, mata ciliar etc. Terra natal de Vania, lugar que um dia já esteve sob as águas de algum mar ou oceano, a julgar pela geologia característica.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vó Pina e o assento cinza (azul?)!

Vou tentar reproduzir a Vó Pina: "É esquisito, mas nos vagões do metrô, e desconfio que nos ônibus também, existem assentos com cor cinza ou azul. Dizem que é para os velhinhos sentarem! É o fim do mundo! Como sempre, a discriminação - velhinhos tem seu lugar destinado, e não espalhados pelo mundo que é aonde vivem. Mais absurdo ainda é ouvir uma voz eletrônica dizendo: 'Obrigado por respeitar o assento preferencial!' Imagine que eu tenho alguém agradecendo por mim a alguém que me "cedeu" seu lugar nos bancos! E isso já se naturalizou. Ninguém precisa ceder lugar se os bancos diferenciados já estão com sua cota de cambitos. Aí, aqueles jovenzinhos com MP-alguma-coisa nas orelhas, ou fascinado por um celular raio colorido-não-sei-o-quê, nem olham prá gente. Mas não serei parcial... todos, de qualquer idade, fazem cara de paisagem e continuam em seus, como sempre digo, 'imundos íntimos'. Problema do velhinho que não chegou antes e sentou no seu lugar! Este é mais um item no qual regredimos nas últimas décadas: cadê aquele sentimento bom de fazer um carinho, ou no mínimo um pouco de piedade pelo peso do fardo de carregar um corpo septuagenário e não raro octogenário. Cuidados urbanos! Os cidadãos de São Paulo envelhecem drasticamente e loguinho será você reclamando! Aproveito para anunciar que vou criar um movimento contra os bancos preferenciais. De hoje em diante sou monotônica. Só vejo uma cor: a cor da inclusão, a cor da urbe. E isso é só a ponta do iceberg. Levarei um susto monumental (eu gosto de 'monumental'), quando um jovem me ceder seu banco apenas porque é urbano! Mas farei cara de quem viu a coisa mais natural do mundo e só farei um gesto delicado de cabeça, agradecendo. Afinal, é sempre com esforço que fazemos algum carinho àqueles que não frequentam nossa sala e cozinha, não é, bisneto?"
E eu: "É sim, Vó Pina!" Pensando se entro na campanha dela para abolir-se os indefectíveis assentos azuis (cinzas?). Aí tive uma iluminação.., uma fulguração.., como dizia Sartre. Vamos pintar todos os assentos de azul (cinza?)!!!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Casacos e andrajos!

Hoje amanheceu garoando e o frio tomou conta devagarinho. No metrô a densidade humana por metro quadrado havia aumentado devido aos agasalhos acolchoados e malhas grossas sobre camisas e camisetas. Gorros, bonés e cachecóis coloridos fizeram a festa dos olhares, assim como o andar característico dos dias gelados voltou - um certo encurvamento do último terço da espinha, a cabeça meio pendida para os pés, o olhar esbarrando no cenho e o pescoço afundado nas roupas. É um modo bastante esclarecedor de como vai o frio - quanto mais curvado para frente, quanto mais um ombro chega perto do outro na forma de um arco, sufocando as carnes do peito, mais frio está. As mãos enterradas nos bolsos, e vale qualquer bolso - das calças, do casaco, ou mesmo em um ninho improvisado com as mãos enfiadas nas dobras da malha. Elas ficam lá tentando angariar calor da pele, feito pássaros encorujados se esfregando para sobreviver ao sopro do vento. A garoa molha uma cabeça incauta, uma mão que insiste em manter-se ao relento; mas umedece mesmo os ossos de uns homens e mulheres em andrajos, deitados em trapos, embaixo da marquise do bradesco, junto a dois cães tiritando...

terça-feira, 14 de julho de 2009

As costas da serpente e o ventre do ônibus!


Manhã gelada na serra! Daqui de cima posso ver a calha do rio do Cervo sob uma massa compacta de vapor, agora que o Sol já aquece a geada. A estrada que vai a Espírito Santo do Dourado, como uma cobra grande e cinza, com uma faixa amarela no dorso, se esconde nessa brancura de doer os olhos, como se fosse seu ninho de algodão. O que fará lá embaixo, cinco quilômetros depois, no bairro do Cervo e suas poucas casas aglomeradas em torno do bar do Marquinho e da igrejinha? Os moradores, nesse momento envoltos na cerração, bem no meio do ninho dela. Dez para a sete, o dia começando, e o ônibus já desceu a encosta, como um bichinho marrom e branco, deslizando pelas costas da serpente, levando trabalhadores cujos empregos se distribuem pela cidade. Depois vai desovando gente desde o São Geraldo até o ponto final. Mais tarde, entre onze e quarenta e meio dia, serei eu um dos últimos a ser vertido do ventre do ônibus no átrio da rodoviária; lá comprarei a passagem a São Paulo e no meio da tarde estarei sentado em minha poltrona permitindo que a primeira história de vida verta do ventre de alguém, com suas contrações e relaxamentos, pedindo que acolha seus restos e com eles possamos vislumbrar uma nova vida...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Inverno úmido e quente! Que surpresa!



Sábado, comecei o dia mais tarde, aqueci o corpo, me alonguei e ergui pesos para começar a correr... Para ir até a estrada lá embaixo, prefiro tomar uma atalho por dentro da propriedade, rente a cerca que faz divisa com “Seu” Antônio, nosso vizinho ao sul, cuja casa se pode ver lá de cima, por entre a cerca viva de Sansão-do-Campo que nos separa e que plantamos para evitar o uso de mourões e cercas – no projeto de simplicidade, sustentabilidade e ecologia. Isso evitará por três décadas, ou mais, o uso de arames, madeira e mão de obra. É uma cerca eficientíssima contra a força do gado. Enquanto vou descendo presto bastante atenção no meu pequeno talhão de café plantado na encosta da serra, ao lado de outro talhão de banana prata. O café vai bem, mas poderia ir melhor não fosse o péssimo clima para colheita e secagem; como dizem os vizinhos, o clima ficou louco; estamos no primeiro terço de julho e a seca não aconteceu. Assim, também, o feijão plantado no meio do cafezal que não pode ser colhido e secado. São aquelas ironias da vida campesina. As chuvas não deixam vir a seca e isso é muito bom para uma série gigantesca de plantas e para o gado que fica no pasto com capim verde por mais tempo, gerando peso e o peso dando lucro ao criador. Enquanto isso as maritacas, os jacus e outros animais que apreciam o café maduro, quando está no ponto de rubi, ou como é mais comum dizer, café em ponto de cereja, têm mais tempo para mastigar seus grãos. Os prejuízos são incalculáveis! Com estes pensamentos corri o percurso costumeiro, com Kely Lulu Star, e voltamos pelo meio da cafezal para inspecionar as palmeiras reais que plantei para proteger o café do vento forte e, de sobra, produzir nosso próprio palmito. O sucesso, pelo menos quanto ao vento foi total! Hoje já estão com três a cinco metros de altura! Quanto a colher o palmito foi um fracasso; ficamos com dó de cortar as palmeiras e lá ficarão. Prometemos para nós mesmos que elas servirão de mães para dar sementes que serão plantadas em local apropriado e aí, então, colheremos seu palmito. Aproveitei o resto da manhã para aparar grama e capim à volta da casa, entre trinta e quarenta metros de raio. Almoçamos o melhor macarrão estilo Vania e depois leitura e escrita até acharmos a hora certa para sonhar.

Domingo, depois da corrida, plantamos dois pés de jabuticabas, colhi uma jaca (nas fotos), um cacho de banana ouro, terminei a arrumação hidráulica da horta, transpus cavalinhas de um lugar inóspito para a horta; Vania podou uma buganvile que nos impedia de passar em direção ao pomar, carpiu o entorno das roseiras, cuidou de dar formato aos canteiros. Depois afiei as foices, enxadas e facões que serão usados na roçada da semana. Pus a arder a lenha do fogão e com a trempe quente coloquei a assar cinco jogos de coxa e sobrecoxa de frango. Trata-se de colocar algumas peças de tijolo que criam um vão de um palmo acima da trempe aquecida pelas achas. É uma maneira improvisada de assar sem ser direto no calor da brasa; o calor, deste modo, se distribui uniformemente e a carne termina de assar simultaneamente. Fazemos isso um ou dois finais de semana por mês, comendo um jogo cada um no almoço de sábado ou domingo e depois guardamos na geladeira os outros. Nos dois ou três dias seguintes aquecemos um jogo cada e só cuidamos do acompanhamento a base de caldos de legumes, saladas com itens diversos – todos da horta - e arroz integral, sementes de linhaça, especiarias etc. Não devo esquecer os dois coffee-breaks que se tornaram a especialidade da casa, ou de Vania, o que dá na mesmo: no meio da manhã ela prepara um creme a base de suco de laranja pera, bahia, nativa ou tipo pingo de mel, com duas ameixas, linhaça; o segundo, no meio da tarde, com suco de laranjas de vários sabores com mexericas variadas e algo para comer. Ao anoitecer, quase sempre, faço um café com queijos, goiabada cascão e biscoitos. Mais tarde comemos um mini-lanche com chás aromáticos. De fato só fazemos uma refeição, o almoço, ao estilo mediterrâneo, quase sempre acompanhado de uma pequenina dose de bebida alcoólica de boa procedência, vinho preferencialmente. Mas pode ser cachaça, conhaque etc.Bem, terminamos o dia lendo e escrevendo...




Hoje de manhã, sob sol frio e céu de azul claro (azul-bebê?), temperatura ainda aos cinco graus (depois de geada forte em certas partes da serra), fui correr com Kelly Lulu. Nariz ardendo, mãos e pés duros de frio, subi e desci a serra lentamente, para não forçar os pulmões. Depois me adapatei à temperatura - o corpo aqueceu, as luvas foram dispensadas e os pés relaxaram. Ao voltar, mais trabalho braçal; com a roçadeira aparei toda agrama da entrada da propriedade junto a estrada que dá para o Catiguá enquanto Vania rastelava e juntava tudo na beira da estrada. Almocei e aqui estou eu na lan, depois de ir ao museu. V. não pode vir comigo... Daqui vou à companhia de ballet do Luiz Henrique (veja postagem sobre o Teatro). Também farei as compras semanais... Antes de ir para casa passarei na Universidade para assuntos da pesquisa. É isso!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Abelha e o Dentista!

Anteontem, 8 de julho, feriado só em São Paulo saí mais cedo e cheguei ao anoitecer em PA. Já relatei aqui o ritual do Rabicho, pois foi o que logo vi no estacionamento da rodoviária. Vania e seus olhos verde-broto-de-mato-novo me recebeu com seu sorriso acolhedor. Recolhemos o Rabicho e fomos ao Baronesa para comprar algo especial para o fim de semana. Dormimos tarde por causa da excitação de nos revermos depois de algum tempo longe um do outro... Ontem, 9, me dediquei a roçar com Zé Ovídio, um talhão que lhe emprestei para plantar milho e feijão. Um hectare e meio de assapeixes e alecrins do mato que foi pastagem de abelhas tipo apis mellifera scutellata (abelhas africanas), mas que controlaremos e levaremos, no início das águas, para mais longe, para podermos manejar as européias e indígenas, bem como manejar o solo, em novas culturas e pomar. Depois do almoço rearrumei alguns itens domésticos, principalmente uma antena improvisada e eficiente para o rádio e tevê. Sem parabólica, esperando um solução tripla – telefonia, internet e tevê – para um local inóspito em termos de sinais de antenas, pelo menos por hora, vamos assistindo quatro ou cinco canais abertos. A tardezinha, leituras variadas: Continuei Winnicott, em seu artigo “As Raízes da Agressão” (Privação e Delinquência); Lacan (Parte do Seminário 23 – Capítulo A escrita do ego); A cidade antiga de Fustel de Coulanges (pensando em Eni Orlandi quando esta pensa a cidade por meio do discurso); Cidade dos sentidos, de E. Orlandi (pensando a questão do teatro de PA e sua arquitetura como memória histórica). Para ler por prazer, não apenas por compromisso: Situações I de Sartre.

Hoje, em PA, comecei pelo dentista, e todo aquele confortável sentimento de que estou cuidando da saúde e o desconforto de picadas para anestesia, forçamento da boca para que satisfaça as necessidades dos procedimentos etc etc. Felizmente o primeiro é bem mais duradouro do que o segundo! Depois, uma série de problemas a resolver: internet que funcione na serra; algumas emendas com rosca de três quartos para mangueiras de irrigação da horta; encomendar mudas de uvas e jaracatiás; gasolina para a roçadeira; cortar cabelo; biblioteca da Universidade do Vale do Sapucaí; Museu Municipal, Conselho de Psicologia, Atendimentos... Depois, numa lan house, verifiquei e-mails, orkut e coloquei algumas frases que me interessaram na leitura da semana, no blog http://www.levileonel.blogspot.com/

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ônibus e leitura combinam!

As desvantagens de não vir de carro a SP são várias; mas as vantagens são consideráveis! Por exemplo, posso refletir longamente sobre o dia anterior, particularmente o final da tarde de segunda e a noite. Como exemplo, pensei longamente sobre uma reunião da AAEcoMinas, associação que reúne produtores rurais de agricultura familiar e concede um selo do IBD como garantia da procedência e idoneidade dos produtos oferecidos. São ecologicamente produzidos, manuseados, com sementes e processamento que minimizam o desgaste da natureza - e até em certos casos a recuperam, como é o nosso caso no Sítio Serra do Cervo. Juntos, Vania e eu, fizemos um balanço das necessidades de se ter o selo de orgânicos e também o quanto teremos que esperar para essa validação. Pareceu uma boa decisão!
Também gravo ou escrevo um ou outro pensamento sobre textos, sessões de terapia, cuidados com o sítio, a quem devo ligar, mensagens a algumas pessoas que o solicitam etc. Sem esquecer, é claro, que são pelo menos duas horas de leitura sem interrupções (a viagem acontece em três horas de rodoviária a rodoviária). Ao chegar em SP, tinha lido a primeira parte de Privação e delinquência, de D. W. Winnicott, sobre as motivações inconscientes da violência, do roubo e outras atitudes anti-sociais. São leituras que já fiz em 1995, num curso de psicologia e, depois, durante uma longa supervisão de Rahel Boraks. Agora que estou para realizar um curso sobre as tendências anti-sociais, me vi na obrigação de rever cada um dos pontos onde o autor finca sua teoria. A obrigação se revelou, mais uma vez, uma grata satisfação! Resumo, até o final de semana, suas principais elocubrações no blog http://www.levileonel.blogspot.com/ conforme combinado com quem tem interesse em acompanhar minha leitura.
Hoje, ante-véspera de feriado em São Paulo, me fez chegar um pouco antes para compensar as horas da quinta que não trabalharei.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

AAEcoMinas e o Recanto das Orquídeas!

Ontem, domingo, pela manhã lemos – V. continuou o Tratado de ateologia e eu dividi entre textos para minha pesquisa sobre o teatro de PA, um resumo da dissertação para o III Encontro de Estudos da Linguagem, algo de Winnicott, sobre a tendência anti-social; para me distrair li alguns capítulos do livro Vida e criação de abelhas indígenas sem ferrão (Paulo Nogueira-Neto), pois tenho uma criação de jataís e gostaria de reproduzi-las sem as agredir. A tarde fomos ao restaurante Recanto das Orquídeas, nas cercanias de Pouso Alegre, cujos donos, Dito e Lia, foram apresentados a Vania em uma reunião da AAEcoMinas, associação que visa criar condições para que algumas propriedades rurais familiares se certifiquem como produtores de alimentos ecologicamente corretos. O restaurante se localiza ao lado de sua horta orgânica, espalhado pelo quintal de sua ecológica propriedade. Foi, como se diz, uma viagem! O Dito, presidente da associação, homem daqueles localizados no chão do mundo, vive da terra e tem aquela simplicidade que conheci na meninice, olhando para os pais e tios, roceiros e trabalhadores no café do norte do Paraná. Enquanto almoçava conheci seus filhos e ouvi um tanto de seus sonhos de anos, tentando criar uma associação que agora está no rumo final para a certificação. Senti seu orgulho de fazer parte de algo tão dignificante. Como não conhecia Lia fui até a cozinha para ser apresentado a ela, a cozinheira – cálida e aconchegante, sorriso pleno.
Para finalizar o domingo, li um pouco mais de “Vida e Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão” e V. foi controlar formigas saúva e quenquen, um combate diário e paciencioso, pois vencê-las jamais. Estamos providenciando gergelim para espantá-las; segundo algumas pesquisas elas odeiam o fungo que produzem. Estamos pagando para ver...

Hoje podei as videiras de mesa, Itália rosa e branca, Moscatel e outras, Retirei do chão mourões já apodrecidos, aplanei o chão e retirei, a base de enxadão, tocos de assapeixes, que roçamos a foice no começo do ano, no final das águas. Exaustos, almoçamos e fomos a PA para uma reunião da AAEcoMinas, à biblioteca da UNIVÁS e ao supermercado para comprar as provisões da semana.

sábado, 4 de julho de 2009

O Rabicho e a dissertação!

Ontem e hoje passei escrevendo um resumo de minha tese para o III Encontro de Estudos da Linguagem da UNIVÁS, a acontecer em 14 e 15 de agosto. Então tudo que vi da serra foi através de uma janela que emoldura lindas paisagens no horizonte. Por exemplo uma serra denteada na direção dos Fernandes. É show e peço bis toda hora...! Isso vai acabar me atrasando!

Anteontem, quinta, saí de São Paulo com o tempo mudando; uma cálida manhã passou a uma tarde fria e úmida; ao chegar em Espírito Santo do Dourado a temperatura estava ainda mais baixa! Já sei que sempre se conta menos quatro graus que São Paulo, mas desta vez o contraste passou dos dez. Ao chegar em PA, como de costume, fui até o estacionamento da rodoviária, por volta das vinte e duas horas, e lá encontro Vania com o Rabicho, o único dos cães que se atreve a entrar no carro. Na verdade, ele sente grande prazer nisso! Já conhece todas as palmeiras, postes, lixeiras e alambrados disponíveis para uma mijadinha de demarcação de seu território. V. fica ali, pacienciosamente esperando que ele entre no carro (eu idem), para que voltemos todos para casa. Mas o cãozinho tem todo um ritual que inclui ir e vir, girar sobre os calcanhares e erguer uma perna na ida e depois a outra na volta. Uma gotícula de líquido molha um capim mais saliente, depois uma casca rústica de uma árvore.

Como o Rabicho é dirigido principalmente pelo nariz, ao chegar perto do carro o chamo e ele vai na direção das mais diversas pessoas, olhando atentamente no rosto, pra identificar o amigo que tanto adora. Às vezes quase me ofendo com sua incapacidade para me identificar de longe! Não raro, com aquela carinha boba, aquele nariz preto e fino, fica olhando uma mulher tentando ver se não sou eu. Nem mesmo meu sexo ele sabe! Me justifico, já que com ele este argumento seria inútil, que os seres humanos mudam tanto de uma hora para outra, usando roupa, óculos, penduricalhos nas orelhas, cobertura na cabeça, que só resta-lhe confiar em algum traço do nariz, um naco da boca, uns fios de barba e cabelo, um jeito de andar, para se convencer de que conhece quem lhe chama. Então o perdôo por quase nunca saber quem sou eu no meio de outras pessoas. Quando ele se convence de que eu sou eu mesmo, aí é uma festa! Abana o rabo... não, chicoteia o rabo com tal vigor que o corpo todo é usado nesse movimento! Depois se distrai mais um pouco com os postes e flores.

Me esqueci do tempo! Enfim, acho que falava do tempo porque neste momento chove forte e é algo que jamais aconteceu em julho desde que aqui chegamos, quinze anos atrás. É aconchegante, mas um pouco estranho. V. também acha, mas não perdeu tempo e plantou alguns caroços, já brotados, de abacate, nos limites da propriedade, mais precisamente nas terras do vizinho sul, que, aconselhado por nós, deixou uma pequena reserva à volta de suas nascentes. É justamente nesta reserva que V. colocou as sementes em berço esplêndido “para tratar dos bichos que são tímidos demais para virem comer perto de casa!” A chuva aguou o suficiente para os próximos dez dias... (Na foto, a esquerda, nosso heroizinho preto com Vania fazendo suas inspeções diárias no corpinho de Gabi; atrás, partes do Soneca Golden Boss)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Deus x EUA!

Não sou torcedor de um time do coração, como se diz, mas daqueles que só vêem jogos da seleção! Portanto, sou dos que torcem uma ou outra vez, frente a tela de tevê, e isso “coincide” com jogos de copas mundiais ou, como nesse caso, grandes jogos internacionais. Isso produz desvantagens óbvias nas conversas com meus amigos, tal como a da tarde de domingo, em casa de Zé Maria, onde nada sabia sobre seus times de origem, onde jogam, na Europa, no Barein, etc etc. Não tenho hábito de acompanhar time do estado ou da cidade onde moro, mas prometi a mim mesmo que vou fazer progressos nesse sentido, começando por assistir jogos do time de Pouso Alegre! Espero ficar tão ansioso quanto nas partidas da seleção. Brincadeira! Nada pode produzir o efeito futebol em mim, exceto os canarinhos (fora de moda dizer canarinho? Agora já escrevi!).
Mas tem algo que me incomoda profundamente, cada vez mais se repetindo, nestas tentativas de me divertir com o time brasileiro. É que não mais tenho certeza de que estou torcendo por um time de futebol, ou por uma seita cristã em cruzada contra outras seitas cristãs. Desta feita, quando um tal de Lucio marcou seu gol eu não soube se devia admirar sua arte, seu talento no esporte, ou devia desconsiderar o show de controle, a técnica admirável, a precisão absurda, o senso de oportunidade, e cair de joelhos pelo talento de um certo Cristo ou Deus que dirigiram sua cabeça para o feito. Fiquei sem saber se os americanos tiveram menos fé em Deus e por isso foram castigados pela insolência perdendo a partida, no último dia do certame (xi! Isso também está fora de moda; é do tempo do Silvio Luiz!). Ou talvez não soubessem que Deus estava do lado dos brasileiros e seu único destino era o fracasso. Quase me senti ofendido por não me avisarem que competição se tratava. Fiquei longamente em silêncio, olhando aquela manifestação midiática, de uma convicção íntima imposta ao mundo todo; mesmo quem não é cristão ou é ateu, teve que engolir aquela grosseria se quisesse se divertir com sua seleção. Como os não-cristãos ou os cristãos de outras seitas, poderão assistir um jogo laico, pela bandeira do país, e demonstrar seu apreço pelos seus heróis? Afinal, eu assisti uma partida de futebol entre duas seleções de países diferentes se digladiando desportivamente ou dois partidos religiosos provando sua fé à base de chutes na rede do time ímpio? É, no mínimo uma competição de mau gosto, desrespeitosa e deselegante. Gostaria de ser poupado do engôdo de estar torcendo por uma cruzada cristã ao invés de me emocionar com a competição esportiva entre dois times. Me sinto ridículo no final do jogo, sem saber qual era o fim do jogo; qual era o gozo a que devia meu alívio final; a quem deveria brindar?
Fico me perguntando se aquelas camisas com palavras de ordem apareceriam se o time brasileiro tivesse perdido. Um tal de Kaká não agradeceria a Deus por ter perdido a partida? Teria o topete de não mostrar a camisa escrita, desobedecendo seu Deus, achando que o resultado não seria digno de ser inscrito no corpo. Vou dizer! Não sei de que matéria é feita essa turma dos escritos religiosos no corpo; desconfio que desrespeito e deselegância para com o país, trocando uma competição por outra – a esportiva pela religiosa. Bem, como sou torcedor de copa, só daqui doze meses terei que passar por essa bizarrice para ver um bom espetáculo de futebol. Até lá terei esquecido, creio. Neste quesito os americanos deram um show de respeito esportivo! Nenhuma inscrição, que eu tenha visto, que enganasse o telespectador (se bem que perderam, nunca saberemos que inscrições escondiam na manga!).
Ah! Antes de encerrar... Claro que os kakás, lucios, robinhos e outros tem o direito de agradecer a um deus etc, mas eles devem admitir que fica muito difícil imaginar o outro time agradecendo a Deus por ter perdido. Quem perde faz o que com essa informação: “Graças a Deus vencemos!” Devo entender que graças a Deus o outro perdeu? Pelo ridículo da situação preferiria que os jogadores agradecessem em suas igrejas. No campo, só homenagens a sua nação. Por favor, dediquem suas vitórias à nós os brasileiros! O deus de vocês não representa toda a diversidade de crenças do Brasil.

domingo, 28 de junho de 2009

O dia em que Gabi chegou em nossas vidas!























Primeira foto a chuva que se aproximava; segunda Gabi, no dia em que chegou em casa; e as seguintes Gabi hoje.
A tarde de chuva de ontem convidava a algumas horas de leitura; foi o que fizemos. Eu, às voltas com a pesquisa sobre o teatro de Pouso Alegre, lendo sobre Memória (Memória da Língua de Maria Onice Payer), só sendo interrompido pelo prazer de ouvir ao longe o ribombar dos trovões que deslizavam pelas serras do outro lado do vale do Cervo. Ao longe a claridade azul-chumbo das nuvens se confundia com o mesmo azul-chumbo das colinas que nos separam de Santa Rita do Sapucaí. A chuva pesada e reta, sem um toque sequer de vento, molha com sua frialdade todas as milhares de árvores que plantamos no dorso da serra, para que servisse de moradia decente para nós e eventuais animais selvagens. Também para nossos amiguinhos caninos – Rabicho-bicho-nice, Soneca golden boss (o chefinho), a Kelly-lulu-star (estrela que se faz fotografar em todas as ocasiões) e a nova moradora da serra, Gabi-blue (o blue vem dos olhos azuis de uma amiga querida de V). Ficaram a tarde toda em seu confortável canil. Só para constar: canil aberto, sem restrições; apenas nosso comando firme e tranquilo – “todo mundo para casa”. E só. Inclusive Gabi, que sai com suas orelhas desalinhadas, uma para o centro, outra para a lateral, a língua molhada pendente para o outro e vai pelo trilho marcado na grama pelas patinhas macias de todos.
Há mês e pouco, já o disse aqui, V. e eu, num domingo de manhã, fomos fazer uma visita ao Zé Luiz e Vanderléia, no sopé da serra. Ao voltarmos catei alguns lixos entre latas de cerveja, sacos e garrafas plásticas, que “enfeitavam” a estrada que liga E. S. do Dourado ao Cervo e me dirigi para uma lixeira que nós mesmos colocamos ao chegar na região, quinze anos atrás. Trata-se de um latão de duzentos litros, preso a uma viga enterrada no solo, que fica bem na esquina formada pela estrada asfaltada e a estradinha de terra que vai dar em nossa propriedade. Ainda reclamava da insanidade das pessoas que sujam sua própria casa, rabugento por alguém fazer do mundo um grande aterro sanitário a céu aberto, quando ouvi um grito de Vania, já meu conhecido. É um daqueles sons que, no modo dela dizer, saem de seu corpo sem nenhum aviso – uma mistura de espanto, surpresa, prazer, dúvida; às vezes mais um que outro. Olhei e a vi com um cachorrinho nas mãos, de cores e aspecto que bem podia ser confundido, a certa distância, com um ouriço, um gambá, uma raposa, um gato; mas não, se tratava de um cãozinho; um filhotinho mortalmente assustado. Certamente lá estava quando descemos a serra, mas sua localização, bem atrás do latão de lixo, entremeio ao capim da mesma cor de sua pelagem, bem como sua obstinação em não se mexer, fez com que não o víssemos.
Por alguns segundos V. aninhou o bichinho no colo, pois estava frio e sua malha lhe pareceu quente e acolhedora. Imediatamente, sem refletir, decidimos que ele iria conosco. Mas havia um problema a enfrentar com delicadeza. Ele estava definido a esperar ali por seus antigos donos. Por uma lógica muito própria sabia que devia ficar ali por que fora naquele lugar que tivera a última visão de seus donos amados. V. chamou-o com sua mais doce voz, para que pudesse dar-se a desistir daquela espera infrutífera. E ele ali parado, tentando se esconder mais ainda. Tentou uma segunda vez levando-o mais alguns passos estrada acima; mesmo resultado. O filhotinho voltava amedrontado para seu nicho improvisado, deitando-se exatamente onde o deixaram na noite anterior. Víamos seu desespero, a fome na barriga encurvada, aquele nariz comprido e olhos meigos e entristecidos, olhando para nós e dizendo: “Não, não devo, ainda há esperança!”. Mas não havia... Quem o deixou fez uma delicada coleira de capim e uma pequena corda, também de capim, que fora presa por uma pedra. O intuito era óbvio; não deixar que fosse atropelado até que uma gente qualquer por ali passasse e o resgatasse. Fora o último ato de amor de seus donos. E o cãozinho ali, obstinado em esperar, com seu nariz longo e triste; as últimas esperanças por se esvair. Cedemos as evidências – o cãozinho não iria conosco espontaneamente; peguei-o no colo e descobri, erguendo seu corpinho peludo com delicadeza, que era “ela”. Ele era ela e nos pareceu mais aflitivo ainda que uma cachorrinha passasse por drama tão radical. Talvez por acharmos, com ou sem razão, que as fêmeas são mais apegadas ainda que os machos ao seu território, à casa, sabe-se lá. Depois de algum tempo, coração apertado, sem sucesso com nossos incentivos, com meus melhores gestos, retirei-lhe devagar a coleira improvisada – o último carinho, a última onda de cheiros de seu dono. Mijou de medo, olhando para o latão de lixo e o matinho tão seguro, embora pouco promissor. Acho que me odiou, naquele momento. Eu era a pior coisa que podia lhe acontecer... Resolutamente, ainda que pesando seu desespero, decidimos ir embora, e ela encolhendo as orelhas, revoluteando em meu colo, tímida, triste, triste, sabendo que não podia sair dali... Se esforça por descer e voltar ao matinho que era sua referência de vida. E eu, vem com a gente, que temos comidinha!, passando muito devagar as mãos sobre sua lanugem para não assusta-la ainda mais. Disse, filhotinho, você deve preparar-se para uma nova vida, por que a que teve até agora nunca mais viverá. Mais para mim mesmo do que para ela. Sabia que não alcançava nada do que dizia. Sabia que fora amada, cuidada, mas agora chegara a hora de tomar outros destinos. Esperei, naquele momento, que pudéssemos dar uma vida que fosse condizente com ela. Talvez a Serra do Cervo viesse a se tornar um lugar onde pudesse edificar seu corpinho e desvelar todos seus potenciais...
No mesmo instante, antecipando todas as horas de preocupações, cuidados e prazeres, que a filhotinha nos daria, Vania inspecionou-lhe as orelhas e pelagem e chegou a conclusão de que não havia doenças, pulgas ou sujeiras. Seus antigos donos banharam-na, pentearam-na e a alimentaram, como um meio de garantir que alguém se seduzisse por ela!
De jeito nenhum aprovamos que se soltem filhotinhos, nas estradas e ruas de cidades; até mesmo achamos que se deve punir a irresponsabilidade dessa prática-crime, prevista na lei. Achamos, por uma lógica nossa, que os mesmos que jogam lixo na rua emporcalhando o mundo, são os que descuidam dos bichos que dizem amar. Pode não ser uma lógica rigorosa, mas, futuramente, ao contar a saga do Rabicho e do Soneca, espero demonstrar uma das maneiras mais comuns de como isso se dá.

Bem, e foi assim que começou nossa história com Gabi, de Gabiroba, não de Gabriela, por favor!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Grapefruit! (toranja ou pomelo) E a goiabeira!









Manhã de sexta, 26. Hoje fotografamos o setor das laranjeiras, enquanto cuidávamos de deter as brocas, pela segunda vez desde que começamos a limpeza do pomar. Se não me engano, sob o título “O pomar” descrevi esse nosso afã. Descrevi os braços descarnados, sem cobertura de pele viva, num clamor aos deuses dos cítricos, que ficou sem resposta. Os dedos compridos e tristonhos da laranja grapefruit, lá encima, parecem invejar a amiga logo atrás com grandes frutas ovaladas, de um verde amarelado e cheiro amargo. Se pudessem restituir-lhe o viço certamente ficaria ali parada, movimentada apenas pelos ares e ventos e brisas da serra, exibindo nas pontas de seus dedos uma fruta mais pesada que a outra, para inveja das macieiras, pereiras e marmeleiros que se apressariam em mostrar suas qualidades. Agora, sua amiga grapefruit viverá sozinha, sem poder competir pelos bicos e garras de pássaros, ou pelas abelhas, arapuás e marimbondos pousando em suas grandes flores jasminadas... A não ser que algum humano intervenha e, disfarçado de deus das laranjeiras lhe dê uma companhia! Isso é bem possível. Aí, neste momento mágico, os dedos, mãos, braços, troncos, da malfadada amiga servirão de energia para a nova moradora da serra. Talvez esse humano, tomado pelo delírio da vida, plante as escondidas, a noite talvez, para que de manhã ela leve um susto com a chegada da nova amiga. Ah! Bom! Isso já é demais. Como disse Sartre em algum lugar, entre nós e a natureza não há comunicação. Aliás, ele era urbano até os ossos, não ia tolerar essa conversa sobre bosque, serra, árvore clamando etc! Grapefruit, só no uísque! diria. Minha admiração por ele o perdoaria, certamente. De qualquer modo, essa fruta da Malásia, tanto a de caldo branco, quanto a de caldo roxo, é comestível e sua polpa dulçamara pode ser usada na preparação de um delicioso refrigerante e as cascas servem para doces em calda ou secos. Seu uso medicinal mais acentuado é contra os problemas urinários. De início, antes de qualquer coisa, o que gosto mesmo é do cheiro exuberante das pétalas jasminadas de suas grandes flores. Eu, Vania, as abelhas e concorrentes...

Um melhor destino para a goiabeira!
Enquanto eu estava em São Paulo, Vania cuidou de melhorar a vida de algumas árvores. Das cabeludinhas, amoreiras, anoneiras, tamarindeiros e, claro, de uma goiabeira em particular, que estava condenada a morrer, por ataque das brocas. No ano passado, enquanto estávamos em SC ela deitou-se de lado para descansar da anemia que a acometeu. Por um desses combates entre espécies, as brocas foram derrotadas e bateram em retirada em direção aos limoeiros e laranjeiras. A goiabeira com parte de suas raízes ainda vivas, vinha conseguindo, verdade que a duras penas, brotar umas folhinhas bem verdes, aqui e ali, em seus galhos de mármore róseo. Essa teimosia foi recompensada com a serra de seus galhos já mortos, limpeza do chão e a chega de material orgânico em suas raízes, escondendo-as dentro do chão. “Isso vai virar doce, suco de goiaba e creme para acompanhar os assados no fogão a lenha!” comentou V. apontando para um filhote de goiaba já deslizando pelo vão de um dos brotos. Acho que sua premonição tem toda a chance de acontecer!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Surfando uma onda de ombros!

Fora do metrô e já me deparo com uma parede humana! Centenas de pessoas apinhadas antes das escadas no Jabaquara, descendo lentamente, como se estivessem acompanhando um morto. Isso me lembra as procissões de féretros em Apucarana, eu ainda menino, olhando de soslaio, de canto de olho, o caixão de algum vizinho que desaparecera, sem mais o quê. Podia me aproximar o suficiente para ver algum canto de rosto macerado, mortalmente pálido... E aquele povo andando devagar atrás do morto... E isso me lembra a vó Pina bem acomodada em seu caixão no centro da sala de tia Isaura, e eu mal acomodado na existência, achando que depois não viria mais nada de bom! E não é que veio! E isso me lembra... esquece! Volto ao metrô.

Olho para frente e vejo uma onda de massas arredondadas, formando ombros, encimadas por globos cranianos com uma profusão de cabelos alinhados, desalinhados, crespos, lisos, ondulados. Aquela movimentação para-lá-para-cá, compassada, de acordo com um passo ladeando para a esquerda, de acordo com outro para direita, formando uma onda, mais ou menos organizada. Do alto dos meus cento e sessenta e três centímetros, fora sapatos, posso ver umas caixas cranianas privilegiadas que flutuam a cerca de trinta centímetros da massa, surfando uma onda de cabeças e ombros que deslizam para lá, deslizam para cá, todo mundo tentando ver o que acontece. Algumas bem humoradas cabeças sacam seus celulares e brotam braços que se erguem acima das cabeças flutuantes, até mesmo daqueles que surfam nossas cabeças rentes a seus sovacos, e clicam. Talvez esperem mostrar para sobrinhos, filhos, netos como foi o dia. Um certo clicador me pareceu tentar uma foto artística; outro, uma foto para o patrão!

Uma voz masculina, compassada, clara, timbre audível, estilhaça o relativo silêncio: O SERVIÇO ENTRE LIBERDADE E SÉ FOI NORMALIZADO! AGRADECEMOS SUA COMPREENSÃO! Ninguém parecia ter ouvido! Nenhuma reação. Apenas um sujeito, destes cujo mau-humor é sempre uma lufada de ar fresco: OBRIGADO SENHOR! FICO MUITO TOCADO POR SUA CONSIDERAÇÃO! (olhando o relógio e meneando a cabeça).

A onda continua, as cabeças bem localizadas surfando as nossas. De repente uma cabeça que repousa em uns ombros de metro e meio tenta furar a onda! Um daqueles ombros gigantes, com cabeças grandes, volta-se lentamente, fixa os olhos castanhos nos olhos do pequeno ser lá embaixo, manda-lhe um raio de fúria contida e esfacela as pretensões do baixinho. Tudo volta a normalidade. A onda continuou sem surpresas e passou pelas catracas deslizando para baixo da terra...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Indo e vindo!


Aí estou eu, hoje, 23 de junho, na entrada da rodoviária de PA, esperando meu ônibus de cada semana! O alarido comum a estas situações, com todos falando suas aventuras e desventuras ao mesmo tempo, já se foi... hoje cheguei mais tarde e posso ter a rodoviária neste clima agradável de um ou outro som distintos entre si. No fundo uma tevê, com aqueles taxistas de sempre; já velhos conhecidos com seus modos previsíveis, olhando com olho comprido seu possível cliente. Então Vamos!


Dia comum, se não fosse o ballet no Teatro de PA!
No sábado, depois de nossos trabalhos usuais, no pomar principalmente, nossos amigos Amanda e Zé Maria nos visitaram trazendo uma antena de celular que poderá melhorar nosso sinal. Não sei se poderemos usá-la para internet, mas é o que perguntarei hoje em PA. Presenteamo-los com um generoso saco de laranjas, mexericas, bananas e anonas... Não puderam aceitar o convite para ir ao teatro assistir o espetáculo “Ballet Luiz Henrique Dança Grandes Compositores”.
A “Ária” de Richard Vagner e Luiz Henrique e Kerly Nami no elenco, abrem o espetáculo! Local: Teatro Municipal de Pouso Alegre. Dia 20 de junho. No programa veríamos ainda danças com as músicas de Camille Dalmais, Antonio Vivaldi, Sergey Rachmaninov, Adolphe Adam, Cesare Pugini, Tom Zé, Caetano Veloso; para bordar o espetáculo com um humor fino, bem costurado, pontual, no tempo tempo certo, lá estavam o ator Luiz Fernando – que nos apresentou a impagável “Irmã Selma” e noutro quadro o “Alberto” (marido da gozadíssima “Giuvanelle”, encarnada por Charles Pierre). Foi uma noite emocionante. Particularmente quando Luiz Henrique apresenta as pequenas bailarinas de seu projeto de dança e um pequeno bailarino, cuja graça encantou todo mundo!
Há anos V. e eu conhecemos Luiz quando fomos aprender danças de salão, quando sua academia se localizava no P.A. Shopping; aprendemos os rudimentos de várias danças e V. fez ballet com ele; mas em certo momento tivemos que ir, de mudança, a SC, interrompendo os treinos. Agora estamos voltando e para reinaugurar nossas relações, quisemos que fosse de modo marcante. Não deu outra! Ao sairmos do teatro encontramos um Luiz untado pelas palmas e elogios! Seu semblante era dos que acabara ali um longo processo de criação, edificação, adaptação e apoteose do trabalho de dançar. Todo seu trabalho e de uma equipe de colaboradores e bailarinos atingira seu clímax! Agora é esperar sua nova aparição pública! Depois quero falar de seu projeto de dança para crianças...


Domingo, um dia normal ou extraordinário?!
Uma coisa que muda muito no mundo rural é a relação com o tempo; quero dizer, o tempo que se conta em dias da semana e o imaginário que fazemos deles. Por exemplo, no domingo levantamos mais cedo que o usual, demos de comer aos nossos amigos peludos e fomos cuidar das uvas japonesas, caçar formigas saúvas e em seguida, com a roçadeira eu, e V. na enxada, fomos roçar e limpar o pomar no setor das laranjeiras. Isso até metade da tarde, quando almoçamos, descansamos e assistimos o jogo do Brasil contra a Itália. Depois lemos...
Pensando melhor, vejo que nossos vizinhos, lá do pé da serra, Zé Luiz e família, Ademir e família, Antônio e família, têm sim um sentido de sábado a tarde e domingo, que não parece com o nosso. Eu diria que eles descansam nestas horas; seus dias são organizados de modo que no fim de semana nada fazem, como se tivessem cumprido suas tarefas. Não é o nosso caso; nossas tarefas não se especializam em dias ou horários. Eles encerram o trabalho às 16:00h; nós só ao escurecer. Eles começam antes de clarear; nós já com o dia começado. Parece que nossas vidas anteriores de gente que viveu em São Paulo por décadas, desconstruiu o imaginário da roça, para o bem e para o mal, suponho, embora a parte má ainda não conheci! Não temos obrigações marcadas, mas temos as responsabilidades sazonais, quero dizer, se não limparmos, por exemplo, o pomar até a chegada das águas, teremos falta de frutas. Bem, não sei como enunciar, mas de fato, nossa semana não é a mesma de alguém da cidade, mas também não funciona como funciona para o homem do campo!


Em tempo:


Emocionada com o espetáculo de ballet do nosso amigo Luiz, Vania pediu que eu colocasse nos blogs a poesia que fiz para finalizar a fita de vídeo e o espetáculo teatral “Nájua e os elementos da natureza” que patrocinamos e produzimos com a mitológica coreógrafa e bailarina. Isso foi nos tempos em que criáramos o “Ashram-Centro de Estudos da Medicina, Arte e Filosofia da Índia antiga” (1990-2000) e resolvemos homenageá-la. Então, aí está...
Na semana que vem coloco um pedaço do espetáculo aqui.

Mãe Natureza - III


Há muito tempo,
na madrugada desta era,
a Senhora dos Elementos empunhou
a sagrada espada da virtude
e dançou sobre as areias da Mãe Terra.
Bebeu das nascentes míticas
da Deusa Montanha
deixou seu âmago ser lavado
pelo fluido telúrico
do ventre da rocha.
Forjou o áurico peito
em chamas ardentes
e neste fogo alquimizou
suas paixões mais recônditas,
Deixou-se transportar
para etéreos rincões do elemento ar,
pairou por sobre todas as criaturas,
alentou todos seus conheceres.
E por fim descansou entre os homens
embalando-os ao som da música
de seu sagrado corpo,
Instalou-se no mais íntimo de cada ser.
e pelos eons vai
apaixonando amantes,
inspirando poetas,
extasiando filósofos,
ou simplesmente
soprando alento em cada ser.


Poesia realizada para verbalizar a arte de
dançar da grande bailarina Nájua.
1998

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O som e a fúria!

Há certo gozo com a agressividade de se viver em São Paulo, ou nas cidades, ou aqui no Cervo; de ordens diferentes, é verdade. Há certa fúria surda na defesa comezinha de ser cidadão e ter direito a ir e vir, fazer e desfazer, viver no espaço citadino... Penso nisso, quando, ao andar pela Domingos de Morais, próximo ao consultório em São Paulo, fui ouvindo uma música que tocava no carro de um jovem. Nada que eu ouvisse no fone de ouvido ou num fundo musical para uma tarde de leitura nos meus sábados no Cervo. Sequer ouviria aquela música para me divertir ou esquecer que estou no ruído da cidade; prefiro o rugir dos carros! Mas lá estava eu ouvindo-a! O jovem talvez já estivesse com os tímpanos rompidos, por isso nada sabia da vizinhança!? Eu não queria ouvir aquilo..., mas ouviria até virar a esquina, e cem metros depois ainda podia ouvi-la, nitidamente. Depois, só o troar dos carros...
Como saber que se está invadindo os limites do outro, numa cidade em que se consegue o milagre de colocar dois corpos em um mesmo espaço físico? Bem, para que a fúria não me surgisse em algum escaninho do corpo, pensei em delícias que posso criar, no meio da fúria do som! Que William Faulkner não me leia do seu túmulo quase centenário, fazendo jogos com seu título de livro...

terça-feira, 16 de junho de 2009

De PA a SP - II!

Pois é! Já em SP! Moleza! O frio menos intenso; a correria distrai; o jogo de ombros no metrô para encontrar um lugar ao sol, isto é, no vagão. Céu cinza, mala na mão; celular na mão, um olho no céu (será que chove?); a vida contada em minutos (segundos?), os minutos contados como a razão da vida; nada a reclamar - pois tudo parece natural, como se não fosse um jogo de forças entre os estratos sociais! Então vamos...! Daqui a pouco ouvirei outras versões de São Paulo...

De PA a SP!

De domingo passado, até hoje de manhã; frio intenso, ardente nas mãos, mesmo por debaixo das luvas; ar agudo entrando pelas narinas! E o prazer de fazer algo que faz parte de mim desde os nove anos de idade...!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Segunda em Pouso Alegre!


Dia de começarmos a aguar a horta e flores recém-plantadas! Quando percebemos, já são três dias sem chuva! Apesar do frio manter úmido embaixo da terra, de fato poderemos ter prejuízos se não aguarmos todas com generosidade. Apesar da baixa temperatura nossa horta está em uma situação no terreno que não permite cair até zero e “queimar” nossas verduras. Sua textura delicada e crocante não resistiria a uma camada de gelo, por mais fina que fosse. Ainda assim, prevenidos, ficamos prontos para aguar também durante a geada. Se ligarmos os aspersores de água o gelo não se forma e salvamos a horta! Nada fácil suportar a temperatura e lidar com água!
Agora estou em PA para contatos com o Conselho de Psicologia, o museu, a UNIVÁS. Os dois últimos em função do artigo sobre o teatro municipal. Ah! E também para comprar provisões! Só para me lembrar: abaixo deixei escrito o sábado e o domingo. Sobre aquelas perguntas de V. a partir do livro Tratado de ateologia fiz um resumo no http://www.levileonel.blogspot.com

Sábado, 13/06 – Surpreendentemente o dia amanheceu azul claro e limpo, apesar de gelado (quatro graus às sete e trinta e com sol). Os três dias anteriores foram chuvosos! De manhã fiz os buracos onde colocarei o varal de roupas; o anterior está de tal modo localizado que a sombra da serra o atinge por volta das três e meia da tarde. Com isso perdemos pelo menso mais uma hora de sol nas roupas. Localizado entre a tulha e o setor das nespereiras (na foto está do meu lado direito), ele será perfeito também no verão. Estamos a poucos dias da estação de inverno e os dias estão cada vez mais curtos, particularmente aqui nos bosques que estão na face sul da serra. Isso diminui bastante nossa exposição a luz; às dezesseis horas já sentimos a temperatura despencar, por causa da sombra gigante da serra. Seus ombros ondulados tem seu ponto mais alto justamente atrás de nossa casa.
Ainda antes do almoço fomos para o pomar para dessa vez livrar os cambucizeiros, pitangueiras, cerejeiras, bem como mais alguns pés de limão galego, rosa e o pé de jaracatiá. O trabalho é pesado! Parte é feito por mim na roçadeira, baixando a braquiária e ramos finos; na foice cortando assa-peixes e alecrins; no enxadão, arrancando tocos que deixarão livre a terra, para que na estação das águas eu não tenha tanto prejuízo com peças sobressalentes da roçadeira (os tocos destroem com as laminas e cardãs, principalmente). V. carrega os ramos cortados e os deposita em uma vaga deixada por um limoeiro morto por brocas, onde, depois de secos virarão matéria orgânica (daqui a dois anos) e as sobras irão para o fogão a lenha. Usa a enxada para juntar o capim em voltas das árvores e carpir algumas touceiras que não foram tosadas pela roçadeira.
Almoçamos legumes, verduras, pimenta biquinho, ervas da horta e uma porção de carne. Descansamos e voltamos para o pomar. V. continuou o que fazia de manhã e eu passei a podar as árvores, para retirar galhos secos e abrir a copa para entrada de ar e luz. Prestei atenção particular as pitangueiras e cerejeiras que são mais delicadas. No último terço da tarde saímos pela propriedade verificando se havia formigas e colocando iscas; se não fizermos isso agora no outono/inverno nada colheremos especialmente dos caquizeiros, que são os preferidos das saúvas e quenquens. O dia esfriou drasticamente, sem aviso; de repente a pele enrijece, as narinas ardem e camiseta suada por baixo de um grossa camisa de trabalho, já não dão conta do ar frio. Ajeitamos o canil para resistir à baixa temperatura, com vários panos dentro das tocas de cada um de nossos amigos, cortinas para cortar o vento e bastante ração reforçada com carne e legumes para que façam bastante calor corporal. Seus olhares apaixonados parecem confirmar que tivemos sucesso no empreendimento! A noite foi realmente a mais fria desde que o outono se instalou...

Domingo, 14/06 – Correr hoje de manhã foi mais sacrificado. Pela primeira vez desde que o outono se fixou tive que usar luvas para correr às oito e pouco da manhã! Resolvi correr um pouco mais tarde para evitar muita diferença de temperatura (zero grau de madrugada e quatro às sete). O ar entra cortante pelas narinas e esta, por sua vez, se defende produzindo líquidos que tem a função de manter a temperatura minimamente equilibrada preparando para que não entre tão fria nos pulmões. Em compensação a neblina e o sol brilhante deram show! Cada metro da estrada foi uma experiência sem preço! V., desanimada por um resfriado mais forte, teve que andar apenas. Aproveitou para fotografar a paisagem e mostrar o itinerário que fazemos na corrida diária.
Ao voltarmos retomamos o pomar, onde usei a roçadeira para fazer um novo pedaço. Pelo fato de ter ido para Santa Catarina, por dois anos, e ele ficar sem cuidados, isso fez com se tornasse bastante “sujo”, o que exige, pelo menos por mais um ano, esforço de recuperação. É um pomar bastante variado e grande, com mais de trezentas fruteiras! Hoje só roçamos e carregamos os ramos grandes para o local em que será transformado em matéria orgânica. Almoçamos e procuramos por formigas. Decidimos descansar no final de domingo lendo. Eu: um capítulo de História e memória (Jacques Le Goff); o artigo Arte como produtora de memória social: uma discussão a partir da
obra de Vitor Meirelles (Roberto Heiden); 3 capítulos De Cidade antiga (Fustel de Coulanges); primeiro capítulo de Cidade dos sentidos (Eni Orlandi) e Terra à vista! (idem). A idéia é preparar um sub-capítulo de meu artigo sobre o teatro de PA – para isso tenho que ler sobre teatro, patrimônio histórico, sentido discursivo de memória etc. Encerrei parte dos estudos as vinte e uma horas.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Feriado vai feriado vem...

Anteontem, numa viagem que normalmente se dá em três horas, meu ônibus gastou cinco horas e meia; Não por causa do excesso de veículos (que de fato havia!), mas por causa de um engavetamento com com vários carros, sendo o meu ônibus um dos responsáveis! Ficamos horas na Fernão Dias, entediados, impacientes, sob chuva milimétrica e fria, parecendo mais molhada que as chuvas de verão. Os pingos, no outono e inverno, não desabam. Eles deslizam uns apoiando-se noutros, mas sem juntarem-se. Ficam de ombros próximos, por causa de sua debilidade de tamanho. São fiapos de pingos; qualquer brisa e descem meio de resvalo, de lado, encharcando antes de molhar. Para usar a situação a meu favor, li alguns capítulos de “A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott” de Elsa Dias e o capítulo XXV de “Da pediatria à psicanálise” do próprio W. (para um curso de extensão que darei sobre delinquência – a tendência anti-social) e revi meu artigo sobre o Teatro Municipal de PA. Conversei com os vizinhos de poltrona: um deles veio de Marabá no Amapá (viajava desde o início da madrugada migrando de aeroporto a aeroporto até que embarcara naquele ônibus em direção a Boa Esperança. Noutra conversa fico sabendo que uma garota de dezessete anos aproximados estudava em SP para os vestibulares de medicina. Com seu boné estiloso, xadrez de branco e preto, manipulando concentradamente os apontamentos de matemática, que era seu “grande problema com os vestibulares”. Boa de papo, sorrindo acolhedora com seus grandes dentes alinhados, brancos e limpos, com o anoitecer ela foi arrefecendo de cansaço. Escureceu umidamente. O ônibus finalmente arrancou e ela puxou o boné sobre os olhos. Um a um, praticamente todos mergulhamos em nossos mundos feitos um tanto de sonolência, outro tanto de pensamentos, reminiscências e esperas. Ontem, depois de ficar afundado, por horas, no mundo lacunar do sono e dos sonhos, acordei restaurado. Pela janela que dá para os pinheiros, azeitonas do ceilão, roseiras e mangueiras, vi espessa cerração que dava a cada árvore aspecto espectral; mais se via seus contornos, que detalhes. Mas, como as conheço de nascimento, sei que uma é roseira amarela, outra é uma agave verde acinzentado, outra ainda, uma mangueira espada. Fiz o café da manhã, simples e eficiente; Vania levanta-se; Rabicho, Soneca, Kelly e Gabi são convidados a entrar. Eles também são alimentados; já calmos nas entranhas cada um procura seu lugar na casa para a dormitação que se anuncia. Lá fora começa aquela chuva fina, cujo ofício é encharcar o mundo... Sem condições para trabalhar a terra, fizemos nossas leituras da vez – eu li um capítulo do “Tratado da Eficácia” e outro de “O ser e o nada”. Para treinar o francês, “Madame Bovary”. Vania leu mais um pouco do “Tratado de ateologia” e em certo momento quer saber porque Michel Onfray diferenciou “teístas”, “deístas” (menos cegos) e “ateístas” (mais lúcidos). Veja na terça que vem http://www.levileonel.blogspot.com).

Mais tarde descemos a serra até a casa de Zé Maria e Amanda para um almoço aconchegante. Conversas mais ou menos esparsas com novos conhecidos e outros já conhecidos de um bingo no Clube Literário; tratamos um futebol para qualquer dias desses – o ridículo é que não jogo desde os treze anos de idade. Será um desastre que só dará video-cacetada e bola-murcha para apresentação em tevê para divertimentos dos espectadores. Pelo menos de minha parte a diversão estará garantida. É mais que certo que riremos a beça!
E depois, como continuou chovendo, escrevi e li. Além, é claro, de alguns cuidados domésticos, sem os quais fica impraticável morar... A noite um pouco de tevê assistindo um seriado brasileiro.

Hoje, 12, o dia amanheceu plúmbeo, como diziam os clássicos, frio, úmido; nenhuma brisa, o que mantem a temperatura razoavelmente mais alta que a de ontem. Daqui a pouco vamos a PA para a compra de provisões e ir à biblioteca da UNIVÁS. Neste momento, escrevendo estas linhas, chego a conclusão de que devo comprar um dicionário com a renovação ortográfica, para praticar e não passar apuros quando terminar o prazo para que todos a adotem. Já uso um pouco de memória, por ter lido um ou outro livro e artigo que já usam a nova ortografia, mas não é o suficiente. Tenho que aprender as regras gerais, senão terei que usar o dicionário muitas vezes por dia...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Véspera de feriado!

Amanhã, feriado! Hoje a tarde a loucura da saída de São Paulo; mais de milhão de carros espremidos nas avenidas e superavenidas paulistas em direção a praia, interior, outros estados. Todos tentando descansar um pouco, divertir-se um tanto, esquecer um algo. Mas não é simples assim, divertir, descansar, esquecer custam caro ao sistema nervoso, ao bolso, a existência... Mas, como esquecer as agruras faz parte da arte de continuar tentando ser feliz, lá vão todos passar por novos aborrecimentos para tentarem a felicidade... Deve ser porque a felicidade mora na praia, no campo ou na casa do vizinho! Roquentin, em A náusea, disse que narrar é melhor que viver. Talvez as pessoas sofram tanto para divertir-se, na obrigação de ter algo a narrar na segunda, a alguém, nem que seja para ele mesmo ou para os netinhos. Quem sabe a melhor parte dos feriados é olhar as fotografias e fabular...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Diferença de temperatura!

Ao embarcar em PA para minha vinda semanal a SP, eu estava com bastante roupa! Agora, em meu consultório, depois de passar por um calor danado, metrô incluso, já instalado, me sinto bem, com um terço delas. É claro que alguém que mora a duzentos e trinta e quatro quilômetros do trabalho, passa por vicissitudes incomuns, dessa relação tempo-espaço-clima-clima-existencial, mas também usufrui de um olhar bastante diferenciado. Estou falando da diferença de temperatura existencial -ritmo emocional, angústia crônica, fadiga, desilusão, próprios de uma megacidade, versus ritmo sazonal - ligado ao clima, angústia da facticidade, cansaço físico, ilusão, próprios da vida enraizada no campo. Aqui não é o lugar de me explicar quanto ao que observo; sugiro ler de vez em quando o http://www.levileonel.blogspot.com onde repasso o assunto semanalmente. Meus pacientes me esperam...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Hoje, nespereiras, amanhã geléias de seus frutos adocicados!

Pouso Alegre: 17:34, segunda. Pois é, não dei sorte com a única lan aberta! Não postei ontem porque estava com problemas que nos impediam de entrar na rede; demoraria muito tempo e decidi postar hoje. Como já havia previsto, neste regime onde não tenho internet na serra as postagens sofrerão certa defasagem... Hoje, amanheceu e permanece um dia cinzento, com temperaturas baixas, cuja sensação térmica é ainda mais baixa por causa de um vento intermitente, cortante. De manhã, bem agasalhados, nos dirigimos, V. na enxada e eu na foice, para nosso pomar de nespereiras. Podamos, limpamos seu entorno e lhe demos o formato de taça, que facilita a entrada de ar e luz na copa. Isso nos renderá, para o verão, frutas naturais e geléias que comeremos no outono que vem. Agora vamos fazer a rotina de cuidados das nossas relações com a cidade: banco, uma visita rápida ao Luiz Henrique e sua escola, onde aprendemos dança de salão; irei ao museu para a continuidade do projeto de pesquisa e ao próprio teatro municipal.

Pouso Alegre: 11:00h, domingo. Passeio pela cidade que está cheia; ao passar pela praça central, ao irmos ao açougue do Roberto pegar ossos para nossos pupilos, nos deparamos com um conhecido movimento de fim de missa na catedral – pessoas aliviadas de seus pecados, de seus compromissos aos olhos da sociedade. Dá para adivinhar seu prazer antecipando almoços familiares e uma tarde em paz. Famílias inteiras – de netos a avós – concernidos, escusados pelo que passaram durante a semana de lida, preparando-se para a próxima, entremeio o alarido das crianças, a dormitação dos adultos e os sonhos dos jovens...

Na última sexta a serra amanheceu de ar limpo e a pouco mais de 4 graus de temperatura; na madrugada chegou a zero! Faz tempo que não sentia por aqui um frio desta ordem em maio. E veja que já estamos aqui há quinze anos, e morando regularmente a seis. No caminho para PA, onde faria consulta de rotina ao dentista, o para-brisa congelou e foi difícil fazê-lo transparente só com a água do limpador. Quando voltei – depois de ir ao conselho de psicologia para apresentar um projeto de cine-clube e plantão psicológico; de visitar o museu para o trabalho sobre o teatro; de tentar resolver (sem sucesso) a recepção de sinal de internet em casa – de longe vi a serra coberta por denso nevoeiro. A temperatura já subira o suficiente e agora seriam horas cobertos por úmido vapor que sobe do bosque. Uma vez em casa, enquanto ia estacionando em frente o Gravetos, barracão onde fica um fogão a lenha, o divisei atravessado por uns poucos raios solares vindos por entre uma moita de eucaliptos, marcados pelo desenho feito na cerração. Foi um espetáculo digno de efeito especial cinematográfico; alias o dia estava para efeitos especiais, o que se comprovou depois com revoadas de maritacas tipo maracanã, os ritos sexuais feitos de voos rasantes e sons roucos dos urubus, que há anos fazem seus ninhos em uma pedra acima de nossa morada, numa das dobras da serra.

Hoje, sábado, arrumamos a tulha, para que sobre espaço para as novas ferramentas que chegaram de Monte Santo, dia 18 passado. Fizemos a faxina geral da casa e colocamos ordem em dezenas de objetos que estavam mais ou menos sem lugar certo. Cansativo, mas extremamente útil, para quem necessita fazer as tarefas diárias no pomar, horta, plantações de subsistência e ainda dar conta da moradia. Quase sem móveis ou objetos supérfluos, é uma casa fácil de cuidar; ainda assim, precisa de uma arrumação mínima...Assistimos duas horas de tevê e fomos, ao final do dia, quase escurecendo, verificar se as saúvas e quenquens estavam atacando marias-sem-vergonhas, roseiras, espirradeiras, jabuticabeiras... E estavam! Deixamos nos buracos de suas entradas um produto granulado que tem a função de criar fungos em sua comida (as folhas sofrem uma oxidação dentro do ninho delas) e isso as desestimulam de procura comida naquela região. Foi o que fizemos...!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

São Paulo! São Paulo!

Gigante eternamente semi-adormecida à noite, semi-acordada durante o dia, por suas artérias correm veículos metálicos que carregam microrganismos grudados em volantes, tentando dar conta da própria vida ocupando-se das dos outros. Que fazer se esta é a condição do citadino? Bem, não tenho resposta! De minha parte vou me deslocando, vagarosa e decididamente, para uma vida fora deste centro, cujas inervações alcançam até Espírito Santo do Dourado. É dificil e complicado para quem viveu por trinta anos em SP - mas não impraticável - viver de/numa cidade pequena. Mas, se minhas pretensões forem outras que as do sujeito de mercado usual... quem sabe? Já estamos, V. e eu, nesse longo processo e até agora - seis anos depois - nada nos indica que não seja uma alternativa muito crível, exequível... digna. Não que não seja digno viver em SP, mas que custa-se acreditar que a dignidade não será soterrada pelo mau estado simbólico-histórico da cidadania paulistana, isso custa! Não falo, certamente, de certos nichos politizados, abastados ou de resistência civil/simbólica/política. Estes últimos me agradam profundamente, mas não me seduzem o suficiente para que eu queira, por exemplo, descansar, dormir ou me divertir em São Paulo. Qualquer dia volto a falar deles...
Daqui a pouco embarco para o Cervo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Quarta gelada!

Daqui a instantes atenderei meus últimos pacientes; já marca no termômetro do metrô Ana Rosa 12 graus e são 18:40; imagino que descerá ainda mais... Em São Paulo se dorme melhor no frio ou com chuva. Até os cães se calam enrolados sobre si mesmos, quero dizer, ensimesmados. Hoje pensei melhor como quero começar meu trabalho de vivências cujo nome será Experiências de Si, envolvendo minha bagagem de conhecimento como professor de arte medicinal indiana que retrabalhei como o nome TS, as artes marciais chinesas, o cura-sui grego e estudos como psicólogo, terapeuta corporal e mestre em Análise do Discurso. Esta semana publicarei em meu site www.levileonel.com.br e disponibilizarei para sites de clínicas escolas. Parece que estou pronto para retomar o trabalho que parei ao ir para o sul...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Culinária ou gastronomia?


31/05/2009
Domingo grisalho, não de velho, mas de falta de luz. Manhã perfeita para plantar o restante da horta, não sem antes tomar o café da manhã – pão integral, queijo das redondezas e suco de laranjas com vários sabores do pomar e fazermos ginástica numa “academia” improvisada num dos quartos da casa. Levamos para lá pequenos halteres de um quilo, além de anilhas e barras mais pesadas para exercitar o tronco, uma dedaleira para fortalecer os punhos, um aparelho que imita remo e outro que imita subir escadas (como se não subíssemos inúmeras vezes a serra em diversas direções! – resquícios de um tempo em que vivemos em SP). Depois de nos alongarmos, a corrida a pé. De alguns dias para cá V. está correndo junto comigo e surpreendendo pelo quanto progride de um dia para o outro. No sopé da serra encontramos macacos dos grandes (sei lá a espécie! Bugio não descem até aquelas alturas, ficam no topo); depois uma dezena de canários da terra! Na volta demos de cara com o Rabicho, que não se deixou prender no canil, escondido no cafezal. Veio rabeando como se não nos visse por dias. Digredi! Volto à horta! Plantamos com muito cuidado algumas dezenas de mudas muito frágeis de catalonhas, beterrabas, um pé de manjericão, uma sálvia, um alecrim, um orégano, um poejo, jilós, brócolis, couve-flor, repolho, aipo. Isso tudo para complementar a outra horta que há três dias, fora plantada por V., enquanto eu estava em SP – pimentas cambuci e biquinho, salsa, coentro, cebolinha, alface, rúcula, almeirão, espinafre e uma erva japonesa presenteada há anos por Vilma, que resistiu a nossa ausência. Foi remudada com louvores!Depois, V. preparou arroz integral com quiabos e queijos derretidos, para serem servidos com uma farofa de amendoins, torrados, triturados e temperados com páprica, curry e açafrão; cozinhou feijão azuki e refogou a couve, que cortei milimetricamente formando fios finos e longos, profundamente verdes. O azeite e um dente de alho deram-lhe o toque da deusa. Os tomates foram temperados com azeite e ervas frescas. Enquanto isso, eu assava no fogão a lenha do Gravetos – o local em que ele está – várias coxas e sobrecoxas de frango; guardados no congelador e reaquecidos serão consumidos pelo correr dos dias! Desde adolescente leio notícias de Findhorn, na Escócia, lugar em que as pessoas criaram uma comunidade naturalista que conversa com as plantas, fazem-nas ouvir música clássica etc, para que suas especiarias sejam grandes, saudáveis e mais vivas que as demais. Sempre invejei suas histórias de couves enormes e sem pragas! Bem, não creio que nossas couves, brócolis e manjericões tenham qualquer gosto musical clássico ou compreendam português, ou um dialeto qualquer; mas tenho certeza que compreendem a linguagem do trabalho cioso, da preparação da terra, dos balaios de folhas velhas e já podres colhidas por V. embaixo das jabuticabeiras e abacateiros – matéria orgânica explodindo de microorganismos loucos para passar vida adiante. Sem essa matéria borbulhante de vida nem Beethoven ou Mozart, mesmo Vila-Lobos, ou minha mais sedutora conversa ou ardente ladainha poderia erguer um centímetro sequer do caule de um alecrim de horta. Não invejo mais John Seymour e seu livro que por inúmeras vezes li sonhando um dia viver do chão!Agora, vamos fazer um passeio a pé, até a raiz da serra, como diz o Eulálio, no “Leite Derramado”, na casa de nossos amigos fraternos, Amanda e Zé, para postarmos essas impressões do dia; serão dois quilômetros e meio de uma bucólica estrada serpenteante, como manda o figurino das estradas de serras, bordada por pinheiros e batida por lufadas de vento frio. PS.: Acabou chovendo fora de época e hora. Tenho que postar amanhã segunda

01/06/2009. Segunda – A lan de Silvianópolis estava fechada; nada estranho para uma cidadezinha de poucos habitantes e numa tarde de segunda! Amanhã em SP, no consultório, faço a postagem. Já era previsto problemas deste tipo...

Nada de extraordinário...

Me preparo para trabalhar em SP; amanheceu com temperatura de 3 graus; manhã frígida, porém, sem vento na serra, o que ajuda muito. Enquanto V. passa a roçadeira em volta da casa, cuido de alguns detalhes da minha estada semanal por lá – notebook, pendrives, agendas, endereços onde deverei ir para resolver assuntos profissionais, palestra, atendimentos psicológicos etc. Chegarei lá por volta das dezesseis e trabalharei até as vinte e duas. Nada de extraordinário...

sábado, 30 de maio de 2009

Felicidade honesta!

“Felicidade honesta” é o que minha paciente acreditava ter conseguido ao final da análise de sua existência. Por minha vez acredito poder falar de alegria honesta – estes contentamentos que de quando em vez rutilam na clareira de nosso existir. Um deles bem pode ser o que Vania sentiu ao surpreender uma lebre silvestre andando pela estradinha de terra, ladeada de lichias, bouganvilles, eucaliptos e o milharal – que vai de nossa morada ao local em que realizarei as “Experiências de Ser”. Quase posso ver aquele serzinho solitário, andando desconfiado, estalando os cotovelos das patas traseiras ao andar; a cada pulinho um balanço mais ou menos desarvorado das longas orelhas cinzas; e, finalmente, assustado, batendo as patas traseiras no chão e desaparecendo no milharal em zigue-zague – que por sinal, é seu restaurante de forças diárias. Esse pequeno vivente, ocupado com sua tarefa de viver, sob o sol frio do outono só pode, ao olhar do humano que o vê, representar uma pitada de contentamento existencial – mais uma dose de combustão afetiva no correr de mais uns dias na serra.

Quase acabei “Leite Derramado”! Chico usa uma técnica já bem conhecida de sobrepor memória, por conseguinte, tempo, e consegue nos carregar até quase o final, é o momento em que estou, interessado na vida do Eulálio, sujeito já centenário, cuja memória falha constantemente em nos apresentar sua vida. O tempo – memória – é a substância que o estilo de um romancista modela e nos apresenta. No “Leite Derramado” o efeito é pungente, comovente, mas frustrante – talvez seja o objetivo de Chico. Frustrante, porque não podemos nos fiar em nada, não podemos acreditar no romance... Talvez o livro de Chico Buarque não seja um romance! Uma saga familiar é um épico e não um romance.

Ode ao Rio do Cervo!


ODE AO CERVO
Escrito em 18/01/2005 para a extinta ONG “KUMARI”,
que tinha se imposto como missão, entre muitas outras,
cuidar dos ribeiros e rios de Espírito Santo do Dourado.
As forças ideológicas da cidade não acolheram-na.

Da crista da serra pode-se divisar o Rio do Cervo gingando sobre o próprio dorso, na intenção de sobrepujar os obstáculos que o terreno lhe impõe. Para adivinhar-lhe o leito basta seguir com os olhos umas escassas árvores que o ladeiam, como se fossem sentinelas mais que ciosas de seu dever. Tais poucas árvores vão fraquejando em sua missão de evitar a morte do rio por asfixia, fazendo força hercúlea para sombrear alguns ralos metros de margem. É quase certeza que o Cervo não se dá conta de que seu maior obstáculo, a maior de todas as provas por que vem passando, está também às suas margens – a presença de homens de bem que nada mais desejam além de um bem viver. Pessoas que estão na lida por seu quinhão de alegria e de pão; pessoas que se esfalfam de sol a sol buscando ganhar a vida e sair-se bem com a criação dos filhos. Por isso, conquistam palmo a palmo a terra no entorno do rio, até que possam levar seu gado a beber de suas águas ou plantam em todo espaço possível. Talvez o Rio do Cervo compreenda e justifique a atitude do morador ribeirinho em seu dever de dar sustento à família, mesmo que isso signifique abrir chagas em seu dorso, inflamar seu entorno, desfazer seu leito. E de longe se tem uma vista privilegiada da tragédia anunciada. O Cervo está a céu aberto, intoxicado pelos dejetos de gados e trabalhadores, com problemas de circulação de seu precioso líquido, e sem poder reclamar, tenta dar conta de sua natureza – arejar a terra, escoar o fluído que desce dos montes, reciclar a vida.

Em outros tempos o Cervo conseguiu dar conta de si e dos que se alimentavam dele. Ainda se ouve falar dos dias em que famílias inteiras podiam variar fartamente seu cardápio, pescando às suas margens. O Cervo já foi orgulhoso dessa proeza, apesar de suas singelas proporções; grande o suficiente para impor pontes, pequeno o bastante para despertar poesia. Mas, hoje em dia, cruzamos suas águas, sobre a Ponte do Cervo, teimando, insensíveis à sua dor, em não lançar um olhar, ainda que de esgueira, para suas águas enfraquecidas. Quem sabe porque achemos que é obrigação do pequeno Cervo sobreviver, sem ajuda, sem um olhar de piedade. Um olhar de poesia já seria alguma coisa, afinal de contas os poetas têm o poder de dizer os sentimentos de um rio. E os rios agradecem. Não nos enganemos com o que vemos. O Cervo é um ser vivo como qualquer outro, e como qualquer ser vivo acaba doente se não for amado, cuidado, estimulado. Se o Cervo pudesse olhar para seu futuro, na perspectiva atual, poderia divisar sua sina: um rio morto, putrefato, como seus parentes que tiveram o azar de banhar cidades. O Rio do Cervo já foi um jovem rio, seminal, em sua juventude florida, encapelado por morros cobertos por árvores nativas. Suas margens em áureos tempos já foi visitada por animais que hoje são conhecidos apenas em fotos, filmes ou de ouvir dizer – um sinal inequívoco de seu adoecimento.

Eis que o Cervo nasce nos contrafortes das serras de Ourofino e serpenteia sobre si mesmo lambiscando Senador José Bento onde recebe duro golpe da sorte, enquanto banha a cidade; depois adentra Borda da Mata, Congonhal, onde recebe mais um ferimento; serpenteia por Espírito Santo do Dourado, Pouso Alegre, Silvianópolis, e em seguida abraça o também desafortunado amigo Sapucaí e desaparecem nas águas de Furnas. Nessas suas andanças, nessas idas e vindas, o Cervo vai encontrando aquelas boas pessoas, valentes lutadoras, ajuizadas, cuidando da vida... Aquelas mesmas que são seus algozes, arrancando sua pele, deixando-o ao relento, empobrecido, desalmado, triste. Aquelas mesmas, que ao matarem o rio empobrecem a humanidade, entristecem o mundo, azaram os próprios filhos e netos, legando-lhes uma terra exaurida, um Rio do Cervo cuja fealdade envergonha a espécie humana. Mas, mesmo agonista, o Cervo tem dois sentimentos: perdoa-lhes a insanidade, por que eles não sabem o que fazem; e sorri amargo, conformado, porque ele é só mais um rio no sul das Gerais, sem contar os incontáveis olhos d’águas nascendo débeis e descarnado pelas serras em meio a desertas pastagens, escorregando desmilingüidos pela encostas de montes áridos, evaporando-se ao sol. Em reação se encolhem, escondendo-se dentro da terra, só para desacordarem – alguns para sempre; outros esperando que alguma dessas boas almas se lembrem de onde tiramos a vida, o sustento, a beleza, a poesia. Assim, vão perdendo potência até se tornarem um fio quase invisível de vida. E os homens, aqueles mesmos bons homens, tiram o chapéu, coçam a cabeça, intrigados, e honestamente se perguntam o que fez com que morressem ou batessem em retirada.
Algumas pessoas despertadas dessa dormência por organizações protetoras da natureza e ambientalistas devotados à causa do homem ecológico, vislumbram o que está ocorrendo. Então surgem amigos do rio e olhos d’água, das árvores e ar, dos bichos e pessoas; começam a fornecer sombra aos ribeiros plantando singelos arboredos, afastando as plantações de suas margens, cultivando com o cuidado de fazer curvas de nível, reduzindo ou eliminando o uso de venenos, plantando frutíferas para seduzir bichos do chão e do céu. Outros são amigos das serras, morros e encostas, retirando de suas cristas o gado e deixando crescer a sagrada cobertura arbórea. Outros ainda conversam com adultos e crianças, na esperança de despertarem-lhes o amor à natureza, como uma semente de árvore plantada no coração.

São tantas as missões dentro da grande missão de conscientizar a população para a vida ecológica, que há espaço para se organizar muitos mais movimentos ambientalistas dentro da escola, no lar, nos clubes, nas associações de bairro e principalmente que cada pessoa se veja como uma célula benfeitora do ambiente. A missão dessas instituições, ainda que localmente fundamentadas, se fará sentir em todo o planeta, especialmente nos próximos sombrios anos para o ambiente mundial. É de se esperar que elas não esmoreçam; é de se esperar que pessoas citadinas, alhures, por motivos da vida, mas tocadas pelas necessidades dessas organizações, disponibilizem proventos e materiais variados para que tais projetos floresçam e dêem frutos dos quais a humanidade possa fruir. Homens e mulheres que vivem dessa paixão pela natureza – uns a campo e outros nas cidades – podem formar um solo rico onde todos podem se nutrir. Aí, então, do calor dessa ação conjuminada, vicejarão ricas florestas, rios vivos e pessoas melhores. E nos orgulharemos uma vez mais de cantar...
Nossos bosques têm mais vida, nossa vida em teu seio, mais amores...!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Na saída do metrô!

A mulher, mais de setenta anos, vestida como se fosse ao chá das cinco de uma família inglesa, olha para a outra - mesma idade, negra, vestida de tecidos ricos - e diz: " O que precisamos é que volte a ditadura! Naquela época eu andava sem medo pelas ruas de São Paulo. Nove de Julho, Paulista, centro da cidade...! Hoje é essa esbórnia, políticos corruptos, molequinhos me puxando pela saia para pedir dinheiro!
Não são cinco da tarde. Na verdade são sete e trinta da manhã, na saída do metrô. Elas deixam a escada rolante, eu também. Esqueço o assunto, pois tenho que atender meus pacientes em 20 minutos... Ditadura... Medo de pivetes... É isso... Preciso ir!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Trabalhando dois dias em São Paulo!

Ser psicanalista em São Paulo é a melhor experiência que eu poderia ter da vida megacitadina e, creio, um modo bastante bom de poder tentar entender as novas angústias do cidadão de Pouso Alegre-MG. O cidadão de PA já sente a atmosfera de uma vida em que os espaços são exíguos, os sonhos extensos, as fantasias fragmentárias, as vicissitudes múltiplas...

terça-feira, 26 de maio de 2009

O pomar e o deus dos cítricos!

Os últimos dias têm sido de trabalho no limite de nossas forças. A rotina é levantar cedo, café reforçado, passar a roçadeira em brachiária de um metro de altura, deixando os assa-peixes e alecrins do mato para roçar na foice. Vania junta o capim em volta das fruteiras com uma enxada grande e limpa um círculo à volta delas. Isso se faz lentamente, por mais de um hectare de pomar. Suor em bicas; braços doloridos; punhos dormentes; satisfação plena! Os quatro do apocalipse, nossos amiguinhos, sempre juntos.
Uma macieira, três pés de limão siciliano, três pés de limões do mato, vários pés de laranja, não resistiram ao ataque de brocas. Ficam lá com seus braços secos, esgalhados, desfolhados, pedindo a clemência dos céus... mas nada irá acontecer. Suas preces não surtirão efeito. Nenhum deus dos cítricos intervirá, pois as brocas também são filhas de deus. Resta-lhes o milagre de um humano, por interesse bastante datado e situado, julgar que um deles dele sobreviver... Então, com o heroísmo daqueles que sabem que a vida quer viver, mas que precisam decidir quem sobreviverá, ciosamente matamos as brocas. Ou salvamos as laranjeiras, o que dá no mesmo.
Daqui trinta dias podaremos as uvas, macieiras, pereiras, figos, caquizeiros, quiwizeiros e outros. Hoje à noite, em São Paulo, dormindo ao som do murmúrio das ruas e apartamentos, terei saudade do silêncio e do corpo quente de V. neste outono frio do Cervo... V. para não arriscar a vida (há ainda muita jararaca e cascavel no pomar) roçando sozinha, cuidará de consertos gerais por perto da morada...