Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Furiosa como a água!


As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As mulheres, as minas e as caixas d'água!

As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

O Taj Mahal e os mourões do Cervo!

Sem nível ou prumo consegui “plantar” nove mourões de cimento para apoiar nossa pequena produção de framboesas! Me senti um cro-magnon olhando de longe os mourões tentando ver sua retidão em direção aos céus, lembrando que a terra por aqui é inclinada, irregular e muito ingrata quando se trata de fazer engenharia sem instrumentos. Fiquei pensando em como sou analfabeto em arquitetura, se levarmos em conta quando foi erigido o Parthenon, as pirâmides egípcias, o Taj Mahal... Me acalmei pensando que não tinha pela frente mais que umas pequenas estruturas para fincar no solo, e esticar uns fios de arame para que a framboesa brinque de escala-los e, equilibrada, verta umas flores brancas e brilhantes, com pontos rosas no centro, que depois chamam uns pequenos pomos rubros que disputaremos a tapas com uns pássaros minúsculos, amarelos, que não sabem até hoje quem manda naquelas paragens. Na maior parte dos combates acabamos por ser derrotados. Ao acordarmos vamos correndo para lá só para constatar que já furaram nossas frutinhas com seus pequenos bicos vorazes... Daí que resolvi me render aos fatos. Vamos triplicar o número de framboesas! Assim enchemos o bucho de cada um daqueles monstrinhos com doce polpa vermelha e fazemos com que eles, empanturrados, vão dormir num galhinho de árvore qualquer e nos dêem a vez. Bem, foi assim que pensei, enquanto olhava aqueles nove obeliscos, nem tão retos assim, mas dignos de soerguerem os doces frutos da framboesa, como pedras preciosas incrustadas em um berço espinhento (pensam que é fácil se alimentar delas?!). Elas só se entregam com muita luta; tal como as rosas, podem ser apreciadas depois de algumas espetadas. Com certeza é muito mais fácil para o passarinho!

sábado, 1 de agosto de 2009

O pomar e as chuvas de inverno!

Esses dias tenho feito menos trabalhos rurais que intelectuais. Isso se explica pelo excesso de textos e a aproximação do momento em que tenho que entregar minha pesquisa e fazer meus cursos, mas, sobretudo, pelo fato de que os afazeres no pomar, horta e arredores já tomaram um rumo suficientemente auto-alimentador que já podemos, Vania e eu, nos darmos ao luxo de dirigir horas para outros afazeres. Assim, tenho me dedicado a um projeto de videoclube para o Conselho de Psicologia, a reativar a Associação de Psicólogos de Pouso Alegre, a articular os colegas para atos políticos junto aos órgãos competentes e a melhorar minha visibilidade profissional na cidade. Vania estreita laços com a AAEcominas e advocacia.
Não significa que não tenhamos que usar nosso tempo, com administração e comedimento para nossa vida de moradores nos bosques. Além disso, surgem certas acontescências muito próprias da vida no campo. Como exemplo, as chuvas que não eram previstas para a época, nos farão ter que repassar a roçadeira bem antes do previsto, por volta de fim de setembro. A previsão era para novembro, com as primeiras chuvas fortes. Enfim, ficamos com o dobro do trabalho para o período. Também teremos que fazer certos consertos de telhado só depois de uma estiagem de duas semanas (se ela vier); e fazer em agosto, quando faríamos em setembro.

Ps.: Relendo "A Náusea" no http://www.levileonel.blogspot.com

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Inverno chuvoso em São Paulo!

Chega a ser poético! O frio combinado com chuva dá um ar londrino a São Paulo. Bem, isso tudo olhando pela janela de meu consultório, esperando pelo início do dia de trabalho! Esperem prá ver, quando tiver que entrar e sair em metrô, ir almoçar, ou cumprir uma saga em bancos, pagando contas que brotam feito gotas de vapor nos vidros dos ônibus cheios. Mas, enquanto o encanto não se desfaz, deixe-me curtir o dedilhar dos grossos pingos d'água na janela, o sussurro molhado dos pneus de carros na rua em frente e o trotar de sapatos na calçada. A chuva, aqui em São Paulo, lá em Apucarana - a quarenta anos e tralalá, ou na Serra do Cervo, sempre me pôs lírico e, claro, no mais das vezes, encharcado. Enquanto ela não tem o poder de me irritar, fico aqui grudado na janela, as gotas do outro lado me olhando indiferentes, por mais alguns minutos...

sábado, 25 de julho de 2009

O Teatro Municipal de Pouso Alegre e o pousoalegrense!

Passei a sexta, de cabo a rabo, envolvido com a pesquisa que trata dos processos identitários do sujeito pousoalegrense com seu teatro municipal. Terminei um esboço mais completo já tarde da noite. Por isso Vania foi a PA sozinha para cuidar de problemas corriqueiros de nossa moradia - Cemig, AAEcominas etc. Hoje, sábado, depois de uma reunião com psicólogos do sul de Minas, para assuntos ligados a nossa representividade junto a sindicatos, nas políticas públicas e piso salarial para a categoria, continuo a trabalhar os textos do dia de ontem. Para ler uns fragmentos do raciocínio: http://www.levileonel.blogspot.com

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Bíos e Zoé!

Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós queremos dizer com a palavra vida. Continue a ler em http://www.levileonel.blogspot.com

terça-feira, 21 de julho de 2009

Em São Paulo cada um para seu norte!

Ao chegar em SP tinha conhecido o Fernando, boa conversa, muitos assuntos e aquela sensação indescritível de que uma vida passou por mim e que não sabia ao certo de que/quem se tratava. Nada muito diferente da vida que levamos juntos aos que amamos mais de perto; achamos que conhecemos, compreendemos e o que sobra é a certeza de que nos falta ou não. De resto os conhecemos tão pouco quanto esse parceiro de poltrona por três horas de viagem. Medimos nossas relações, em termos de importância, pelo tamanho do vazio que nos apodera com a distância e o tempo. É diretamente proporcional à angina pectoris que nos sufoca, nos coloca tesos e nos curva a existência. De resto é o silêncio, a massa, o mesmo, e a sensação de alívio por ter passado pela história de alguém sem feri-lo ou sem cravar-lhe as unhas da saudade sem responsabilidade - aquela que não temos quando não amamos bem de perto, quase dentro da pele do outro... Ao desembarcarmos, ele foi para o Tucuruvi e eu para Ana Rosa - sem faltar a respiração pelo amigo que se vai!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Monte Santo de Minas!

Sexta-feira, 17, na parte da manhã fiz trabalhos domésticos e de pomar – poda de caquizeiros e pés de figo. Devido ao clima surpreendentemente úmido deste inverno, eles começaram a brotar antes do tempo; então tive que correr. O pessoal lá da AAEcominas acha que isso já é resultado do sobreaquecimento do planeta!
À tarde, após o almoço, fui ao Museu pesquisar jornais da cidade entre 1967 e 72, onde haviam notícias do dia em que Pouso Alegre se revoltou com o projeto de venda do teatro municipal para um banco. Isso provavelmente fará parte de minha pesquisa sobre aquele patrimônio histórico.
Sábado, foi um dia mergulhado em livros os mais diversos, buscando o melhor jeito de apresentar a importância do teatro para a identidade do sujeito pousoalegrense. De oito da manhã até 22 horas, interrompido apenas pelo almoço frugal e algum alongamento para relaxar as costas e os olhos. De princípio me sinto andando com o texto... mas, não dá para dizer que ele dá conta do projeto. Falta ainda um bom caminho!
Anteontem, domingo, decidimos vir a Monte Santo de Minas para fazer pagamentos de algumas contas relacionadas com o sítio de Dona Vilma e fazer a manutenção geral, usando roçadeira, capina e podas necessárias para que o lugar fique apresentável, já que queremos vendê-lo o mais cedo possível (publiquei fotos do Sítio do Mandú recentemente). É um pequena viagem de 250 quilômetros, e mais algumas horas de trabalho até ontem, por volta das duas da tarde. Depois, foi só voltar, ansiosos por ter deixado nossa trupe de cachorros sozinhos, o que não é hábito. O Chefinho cuidou de tudo na nossa ausência, e que Gabi aguentou bem a ansiedade de ficar longe de nossa proteção! Resumindo, cuidamos do sítio Estância Olhos D'Água que reformamos para venda. Belíssimo, bem localizado no sudoeste de Minas, água pura e abundante, lago de peixes, mata ciliar etc. Terra natal de Vania, lugar que um dia já esteve sob as águas de algum mar ou oceano, a julgar pela geologia característica.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vó Pina e o assento cinza (azul?)!

Vou tentar reproduzir a Vó Pina: "É esquisito, mas nos vagões do metrô, e desconfio que nos ônibus também, existem assentos com cor cinza ou azul. Dizem que é para os velhinhos sentarem! É o fim do mundo! Como sempre, a discriminação - velhinhos tem seu lugar destinado, e não espalhados pelo mundo que é aonde vivem. Mais absurdo ainda é ouvir uma voz eletrônica dizendo: 'Obrigado por respeitar o assento preferencial!' Imagine que eu tenho alguém agradecendo por mim a alguém que me "cedeu" seu lugar nos bancos! E isso já se naturalizou. Ninguém precisa ceder lugar se os bancos diferenciados já estão com sua cota de cambitos. Aí, aqueles jovenzinhos com MP-alguma-coisa nas orelhas, ou fascinado por um celular raio colorido-não-sei-o-quê, nem olham prá gente. Mas não serei parcial... todos, de qualquer idade, fazem cara de paisagem e continuam em seus, como sempre digo, 'imundos íntimos'. Problema do velhinho que não chegou antes e sentou no seu lugar! Este é mais um item no qual regredimos nas últimas décadas: cadê aquele sentimento bom de fazer um carinho, ou no mínimo um pouco de piedade pelo peso do fardo de carregar um corpo septuagenário e não raro octogenário. Cuidados urbanos! Os cidadãos de São Paulo envelhecem drasticamente e loguinho será você reclamando! Aproveito para anunciar que vou criar um movimento contra os bancos preferenciais. De hoje em diante sou monotônica. Só vejo uma cor: a cor da inclusão, a cor da urbe. E isso é só a ponta do iceberg. Levarei um susto monumental (eu gosto de 'monumental'), quando um jovem me ceder seu banco apenas porque é urbano! Mas farei cara de quem viu a coisa mais natural do mundo e só farei um gesto delicado de cabeça, agradecendo. Afinal, é sempre com esforço que fazemos algum carinho àqueles que não frequentam nossa sala e cozinha, não é, bisneto?"
E eu: "É sim, Vó Pina!" Pensando se entro na campanha dela para abolir-se os indefectíveis assentos azuis (cinzas?). Aí tive uma iluminação.., uma fulguração.., como dizia Sartre. Vamos pintar todos os assentos de azul (cinza?)!!!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Casacos e andrajos!

Hoje amanheceu garoando e o frio tomou conta devagarinho. No metrô a densidade humana por metro quadrado havia aumentado devido aos agasalhos acolchoados e malhas grossas sobre camisas e camisetas. Gorros, bonés e cachecóis coloridos fizeram a festa dos olhares, assim como o andar característico dos dias gelados voltou - um certo encurvamento do último terço da espinha, a cabeça meio pendida para os pés, o olhar esbarrando no cenho e o pescoço afundado nas roupas. É um modo bastante esclarecedor de como vai o frio - quanto mais curvado para frente, quanto mais um ombro chega perto do outro na forma de um arco, sufocando as carnes do peito, mais frio está. As mãos enterradas nos bolsos, e vale qualquer bolso - das calças, do casaco, ou mesmo em um ninho improvisado com as mãos enfiadas nas dobras da malha. Elas ficam lá tentando angariar calor da pele, feito pássaros encorujados se esfregando para sobreviver ao sopro do vento. A garoa molha uma cabeça incauta, uma mão que insiste em manter-se ao relento; mas umedece mesmo os ossos de uns homens e mulheres em andrajos, deitados em trapos, embaixo da marquise do bradesco, junto a dois cães tiritando...

terça-feira, 14 de julho de 2009

As costas da serpente e o ventre do ônibus!


Manhã gelada na serra! Daqui de cima posso ver a calha do rio do Cervo sob uma massa compacta de vapor, agora que o Sol já aquece a geada. A estrada que vai a Espírito Santo do Dourado, como uma cobra grande e cinza, com uma faixa amarela no dorso, se esconde nessa brancura de doer os olhos, como se fosse seu ninho de algodão. O que fará lá embaixo, cinco quilômetros depois, no bairro do Cervo e suas poucas casas aglomeradas em torno do bar do Marquinho e da igrejinha? Os moradores, nesse momento envoltos na cerração, bem no meio do ninho dela. Dez para a sete, o dia começando, e o ônibus já desceu a encosta, como um bichinho marrom e branco, deslizando pelas costas da serpente, levando trabalhadores cujos empregos se distribuem pela cidade. Depois vai desovando gente desde o São Geraldo até o ponto final. Mais tarde, entre onze e quarenta e meio dia, serei eu um dos últimos a ser vertido do ventre do ônibus no átrio da rodoviária; lá comprarei a passagem a São Paulo e no meio da tarde estarei sentado em minha poltrona permitindo que a primeira história de vida verta do ventre de alguém, com suas contrações e relaxamentos, pedindo que acolha seus restos e com eles possamos vislumbrar uma nova vida...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Inverno úmido e quente! Que surpresa!



Sábado, comecei o dia mais tarde, aqueci o corpo, me alonguei e ergui pesos para começar a correr... Para ir até a estrada lá embaixo, prefiro tomar uma atalho por dentro da propriedade, rente a cerca que faz divisa com “Seu” Antônio, nosso vizinho ao sul, cuja casa se pode ver lá de cima, por entre a cerca viva de Sansão-do-Campo que nos separa e que plantamos para evitar o uso de mourões e cercas – no projeto de simplicidade, sustentabilidade e ecologia. Isso evitará por três décadas, ou mais, o uso de arames, madeira e mão de obra. É uma cerca eficientíssima contra a força do gado. Enquanto vou descendo presto bastante atenção no meu pequeno talhão de café plantado na encosta da serra, ao lado de outro talhão de banana prata. O café vai bem, mas poderia ir melhor não fosse o péssimo clima para colheita e secagem; como dizem os vizinhos, o clima ficou louco; estamos no primeiro terço de julho e a seca não aconteceu. Assim, também, o feijão plantado no meio do cafezal que não pode ser colhido e secado. São aquelas ironias da vida campesina. As chuvas não deixam vir a seca e isso é muito bom para uma série gigantesca de plantas e para o gado que fica no pasto com capim verde por mais tempo, gerando peso e o peso dando lucro ao criador. Enquanto isso as maritacas, os jacus e outros animais que apreciam o café maduro, quando está no ponto de rubi, ou como é mais comum dizer, café em ponto de cereja, têm mais tempo para mastigar seus grãos. Os prejuízos são incalculáveis! Com estes pensamentos corri o percurso costumeiro, com Kely Lulu Star, e voltamos pelo meio da cafezal para inspecionar as palmeiras reais que plantei para proteger o café do vento forte e, de sobra, produzir nosso próprio palmito. O sucesso, pelo menos quanto ao vento foi total! Hoje já estão com três a cinco metros de altura! Quanto a colher o palmito foi um fracasso; ficamos com dó de cortar as palmeiras e lá ficarão. Prometemos para nós mesmos que elas servirão de mães para dar sementes que serão plantadas em local apropriado e aí, então, colheremos seu palmito. Aproveitei o resto da manhã para aparar grama e capim à volta da casa, entre trinta e quarenta metros de raio. Almoçamos o melhor macarrão estilo Vania e depois leitura e escrita até acharmos a hora certa para sonhar.

Domingo, depois da corrida, plantamos dois pés de jabuticabas, colhi uma jaca (nas fotos), um cacho de banana ouro, terminei a arrumação hidráulica da horta, transpus cavalinhas de um lugar inóspito para a horta; Vania podou uma buganvile que nos impedia de passar em direção ao pomar, carpiu o entorno das roseiras, cuidou de dar formato aos canteiros. Depois afiei as foices, enxadas e facões que serão usados na roçada da semana. Pus a arder a lenha do fogão e com a trempe quente coloquei a assar cinco jogos de coxa e sobrecoxa de frango. Trata-se de colocar algumas peças de tijolo que criam um vão de um palmo acima da trempe aquecida pelas achas. É uma maneira improvisada de assar sem ser direto no calor da brasa; o calor, deste modo, se distribui uniformemente e a carne termina de assar simultaneamente. Fazemos isso um ou dois finais de semana por mês, comendo um jogo cada um no almoço de sábado ou domingo e depois guardamos na geladeira os outros. Nos dois ou três dias seguintes aquecemos um jogo cada e só cuidamos do acompanhamento a base de caldos de legumes, saladas com itens diversos – todos da horta - e arroz integral, sementes de linhaça, especiarias etc. Não devo esquecer os dois coffee-breaks que se tornaram a especialidade da casa, ou de Vania, o que dá na mesmo: no meio da manhã ela prepara um creme a base de suco de laranja pera, bahia, nativa ou tipo pingo de mel, com duas ameixas, linhaça; o segundo, no meio da tarde, com suco de laranjas de vários sabores com mexericas variadas e algo para comer. Ao anoitecer, quase sempre, faço um café com queijos, goiabada cascão e biscoitos. Mais tarde comemos um mini-lanche com chás aromáticos. De fato só fazemos uma refeição, o almoço, ao estilo mediterrâneo, quase sempre acompanhado de uma pequenina dose de bebida alcoólica de boa procedência, vinho preferencialmente. Mas pode ser cachaça, conhaque etc.Bem, terminamos o dia lendo e escrevendo...




Hoje de manhã, sob sol frio e céu de azul claro (azul-bebê?), temperatura ainda aos cinco graus (depois de geada forte em certas partes da serra), fui correr com Kelly Lulu. Nariz ardendo, mãos e pés duros de frio, subi e desci a serra lentamente, para não forçar os pulmões. Depois me adapatei à temperatura - o corpo aqueceu, as luvas foram dispensadas e os pés relaxaram. Ao voltar, mais trabalho braçal; com a roçadeira aparei toda agrama da entrada da propriedade junto a estrada que dá para o Catiguá enquanto Vania rastelava e juntava tudo na beira da estrada. Almocei e aqui estou eu na lan, depois de ir ao museu. V. não pode vir comigo... Daqui vou à companhia de ballet do Luiz Henrique (veja postagem sobre o Teatro). Também farei as compras semanais... Antes de ir para casa passarei na Universidade para assuntos da pesquisa. É isso!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Abelha e o Dentista!

Anteontem, 8 de julho, feriado só em São Paulo saí mais cedo e cheguei ao anoitecer em PA. Já relatei aqui o ritual do Rabicho, pois foi o que logo vi no estacionamento da rodoviária. Vania e seus olhos verde-broto-de-mato-novo me recebeu com seu sorriso acolhedor. Recolhemos o Rabicho e fomos ao Baronesa para comprar algo especial para o fim de semana. Dormimos tarde por causa da excitação de nos revermos depois de algum tempo longe um do outro... Ontem, 9, me dediquei a roçar com Zé Ovídio, um talhão que lhe emprestei para plantar milho e feijão. Um hectare e meio de assapeixes e alecrins do mato que foi pastagem de abelhas tipo apis mellifera scutellata (abelhas africanas), mas que controlaremos e levaremos, no início das águas, para mais longe, para podermos manejar as européias e indígenas, bem como manejar o solo, em novas culturas e pomar. Depois do almoço rearrumei alguns itens domésticos, principalmente uma antena improvisada e eficiente para o rádio e tevê. Sem parabólica, esperando um solução tripla – telefonia, internet e tevê – para um local inóspito em termos de sinais de antenas, pelo menos por hora, vamos assistindo quatro ou cinco canais abertos. A tardezinha, leituras variadas: Continuei Winnicott, em seu artigo “As Raízes da Agressão” (Privação e Delinquência); Lacan (Parte do Seminário 23 – Capítulo A escrita do ego); A cidade antiga de Fustel de Coulanges (pensando em Eni Orlandi quando esta pensa a cidade por meio do discurso); Cidade dos sentidos, de E. Orlandi (pensando a questão do teatro de PA e sua arquitetura como memória histórica). Para ler por prazer, não apenas por compromisso: Situações I de Sartre.

Hoje, em PA, comecei pelo dentista, e todo aquele confortável sentimento de que estou cuidando da saúde e o desconforto de picadas para anestesia, forçamento da boca para que satisfaça as necessidades dos procedimentos etc etc. Felizmente o primeiro é bem mais duradouro do que o segundo! Depois, uma série de problemas a resolver: internet que funcione na serra; algumas emendas com rosca de três quartos para mangueiras de irrigação da horta; encomendar mudas de uvas e jaracatiás; gasolina para a roçadeira; cortar cabelo; biblioteca da Universidade do Vale do Sapucaí; Museu Municipal, Conselho de Psicologia, Atendimentos... Depois, numa lan house, verifiquei e-mails, orkut e coloquei algumas frases que me interessaram na leitura da semana, no blog http://www.levileonel.blogspot.com/

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ônibus e leitura combinam!

As desvantagens de não vir de carro a SP são várias; mas as vantagens são consideráveis! Por exemplo, posso refletir longamente sobre o dia anterior, particularmente o final da tarde de segunda e a noite. Como exemplo, pensei longamente sobre uma reunião da AAEcoMinas, associação que reúne produtores rurais de agricultura familiar e concede um selo do IBD como garantia da procedência e idoneidade dos produtos oferecidos. São ecologicamente produzidos, manuseados, com sementes e processamento que minimizam o desgaste da natureza - e até em certos casos a recuperam, como é o nosso caso no Sítio Serra do Cervo. Juntos, Vania e eu, fizemos um balanço das necessidades de se ter o selo de orgânicos e também o quanto teremos que esperar para essa validação. Pareceu uma boa decisão!
Também gravo ou escrevo um ou outro pensamento sobre textos, sessões de terapia, cuidados com o sítio, a quem devo ligar, mensagens a algumas pessoas que o solicitam etc. Sem esquecer, é claro, que são pelo menos duas horas de leitura sem interrupções (a viagem acontece em três horas de rodoviária a rodoviária). Ao chegar em SP, tinha lido a primeira parte de Privação e delinquência, de D. W. Winnicott, sobre as motivações inconscientes da violência, do roubo e outras atitudes anti-sociais. São leituras que já fiz em 1995, num curso de psicologia e, depois, durante uma longa supervisão de Rahel Boraks. Agora que estou para realizar um curso sobre as tendências anti-sociais, me vi na obrigação de rever cada um dos pontos onde o autor finca sua teoria. A obrigação se revelou, mais uma vez, uma grata satisfação! Resumo, até o final de semana, suas principais elocubrações no blog http://www.levileonel.blogspot.com/ conforme combinado com quem tem interesse em acompanhar minha leitura.
Hoje, ante-véspera de feriado em São Paulo, me fez chegar um pouco antes para compensar as horas da quinta que não trabalharei.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

AAEcoMinas e o Recanto das Orquídeas!

Ontem, domingo, pela manhã lemos – V. continuou o Tratado de ateologia e eu dividi entre textos para minha pesquisa sobre o teatro de PA, um resumo da dissertação para o III Encontro de Estudos da Linguagem, algo de Winnicott, sobre a tendência anti-social; para me distrair li alguns capítulos do livro Vida e criação de abelhas indígenas sem ferrão (Paulo Nogueira-Neto), pois tenho uma criação de jataís e gostaria de reproduzi-las sem as agredir. A tarde fomos ao restaurante Recanto das Orquídeas, nas cercanias de Pouso Alegre, cujos donos, Dito e Lia, foram apresentados a Vania em uma reunião da AAEcoMinas, associação que visa criar condições para que algumas propriedades rurais familiares se certifiquem como produtores de alimentos ecologicamente corretos. O restaurante se localiza ao lado de sua horta orgânica, espalhado pelo quintal de sua ecológica propriedade. Foi, como se diz, uma viagem! O Dito, presidente da associação, homem daqueles localizados no chão do mundo, vive da terra e tem aquela simplicidade que conheci na meninice, olhando para os pais e tios, roceiros e trabalhadores no café do norte do Paraná. Enquanto almoçava conheci seus filhos e ouvi um tanto de seus sonhos de anos, tentando criar uma associação que agora está no rumo final para a certificação. Senti seu orgulho de fazer parte de algo tão dignificante. Como não conhecia Lia fui até a cozinha para ser apresentado a ela, a cozinheira – cálida e aconchegante, sorriso pleno.
Para finalizar o domingo, li um pouco mais de “Vida e Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão” e V. foi controlar formigas saúva e quenquen, um combate diário e paciencioso, pois vencê-las jamais. Estamos providenciando gergelim para espantá-las; segundo algumas pesquisas elas odeiam o fungo que produzem. Estamos pagando para ver...

Hoje podei as videiras de mesa, Itália rosa e branca, Moscatel e outras, Retirei do chão mourões já apodrecidos, aplanei o chão e retirei, a base de enxadão, tocos de assapeixes, que roçamos a foice no começo do ano, no final das águas. Exaustos, almoçamos e fomos a PA para uma reunião da AAEcoMinas, à biblioteca da UNIVÁS e ao supermercado para comprar as provisões da semana.

sábado, 4 de julho de 2009

O Rabicho e a dissertação!

Ontem e hoje passei escrevendo um resumo de minha tese para o III Encontro de Estudos da Linguagem da UNIVÁS, a acontecer em 14 e 15 de agosto. Então tudo que vi da serra foi através de uma janela que emoldura lindas paisagens no horizonte. Por exemplo uma serra denteada na direção dos Fernandes. É show e peço bis toda hora...! Isso vai acabar me atrasando!

Anteontem, quinta, saí de São Paulo com o tempo mudando; uma cálida manhã passou a uma tarde fria e úmida; ao chegar em Espírito Santo do Dourado a temperatura estava ainda mais baixa! Já sei que sempre se conta menos quatro graus que São Paulo, mas desta vez o contraste passou dos dez. Ao chegar em PA, como de costume, fui até o estacionamento da rodoviária, por volta das vinte e duas horas, e lá encontro Vania com o Rabicho, o único dos cães que se atreve a entrar no carro. Na verdade, ele sente grande prazer nisso! Já conhece todas as palmeiras, postes, lixeiras e alambrados disponíveis para uma mijadinha de demarcação de seu território. V. fica ali, pacienciosamente esperando que ele entre no carro (eu idem), para que voltemos todos para casa. Mas o cãozinho tem todo um ritual que inclui ir e vir, girar sobre os calcanhares e erguer uma perna na ida e depois a outra na volta. Uma gotícula de líquido molha um capim mais saliente, depois uma casca rústica de uma árvore.

Como o Rabicho é dirigido principalmente pelo nariz, ao chegar perto do carro o chamo e ele vai na direção das mais diversas pessoas, olhando atentamente no rosto, pra identificar o amigo que tanto adora. Às vezes quase me ofendo com sua incapacidade para me identificar de longe! Não raro, com aquela carinha boba, aquele nariz preto e fino, fica olhando uma mulher tentando ver se não sou eu. Nem mesmo meu sexo ele sabe! Me justifico, já que com ele este argumento seria inútil, que os seres humanos mudam tanto de uma hora para outra, usando roupa, óculos, penduricalhos nas orelhas, cobertura na cabeça, que só resta-lhe confiar em algum traço do nariz, um naco da boca, uns fios de barba e cabelo, um jeito de andar, para se convencer de que conhece quem lhe chama. Então o perdôo por quase nunca saber quem sou eu no meio de outras pessoas. Quando ele se convence de que eu sou eu mesmo, aí é uma festa! Abana o rabo... não, chicoteia o rabo com tal vigor que o corpo todo é usado nesse movimento! Depois se distrai mais um pouco com os postes e flores.

Me esqueci do tempo! Enfim, acho que falava do tempo porque neste momento chove forte e é algo que jamais aconteceu em julho desde que aqui chegamos, quinze anos atrás. É aconchegante, mas um pouco estranho. V. também acha, mas não perdeu tempo e plantou alguns caroços, já brotados, de abacate, nos limites da propriedade, mais precisamente nas terras do vizinho sul, que, aconselhado por nós, deixou uma pequena reserva à volta de suas nascentes. É justamente nesta reserva que V. colocou as sementes em berço esplêndido “para tratar dos bichos que são tímidos demais para virem comer perto de casa!” A chuva aguou o suficiente para os próximos dez dias... (Na foto, a esquerda, nosso heroizinho preto com Vania fazendo suas inspeções diárias no corpinho de Gabi; atrás, partes do Soneca Golden Boss)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Deus x EUA!

Não sou torcedor de um time do coração, como se diz, mas daqueles que só vêem jogos da seleção! Portanto, sou dos que torcem uma ou outra vez, frente a tela de tevê, e isso “coincide” com jogos de copas mundiais ou, como nesse caso, grandes jogos internacionais. Isso produz desvantagens óbvias nas conversas com meus amigos, tal como a da tarde de domingo, em casa de Zé Maria, onde nada sabia sobre seus times de origem, onde jogam, na Europa, no Barein, etc etc. Não tenho hábito de acompanhar time do estado ou da cidade onde moro, mas prometi a mim mesmo que vou fazer progressos nesse sentido, começando por assistir jogos do time de Pouso Alegre! Espero ficar tão ansioso quanto nas partidas da seleção. Brincadeira! Nada pode produzir o efeito futebol em mim, exceto os canarinhos (fora de moda dizer canarinho? Agora já escrevi!).
Mas tem algo que me incomoda profundamente, cada vez mais se repetindo, nestas tentativas de me divertir com o time brasileiro. É que não mais tenho certeza de que estou torcendo por um time de futebol, ou por uma seita cristã em cruzada contra outras seitas cristãs. Desta feita, quando um tal de Lucio marcou seu gol eu não soube se devia admirar sua arte, seu talento no esporte, ou devia desconsiderar o show de controle, a técnica admirável, a precisão absurda, o senso de oportunidade, e cair de joelhos pelo talento de um certo Cristo ou Deus que dirigiram sua cabeça para o feito. Fiquei sem saber se os americanos tiveram menos fé em Deus e por isso foram castigados pela insolência perdendo a partida, no último dia do certame (xi! Isso também está fora de moda; é do tempo do Silvio Luiz!). Ou talvez não soubessem que Deus estava do lado dos brasileiros e seu único destino era o fracasso. Quase me senti ofendido por não me avisarem que competição se tratava. Fiquei longamente em silêncio, olhando aquela manifestação midiática, de uma convicção íntima imposta ao mundo todo; mesmo quem não é cristão ou é ateu, teve que engolir aquela grosseria se quisesse se divertir com sua seleção. Como os não-cristãos ou os cristãos de outras seitas, poderão assistir um jogo laico, pela bandeira do país, e demonstrar seu apreço pelos seus heróis? Afinal, eu assisti uma partida de futebol entre duas seleções de países diferentes se digladiando desportivamente ou dois partidos religiosos provando sua fé à base de chutes na rede do time ímpio? É, no mínimo uma competição de mau gosto, desrespeitosa e deselegante. Gostaria de ser poupado do engôdo de estar torcendo por uma cruzada cristã ao invés de me emocionar com a competição esportiva entre dois times. Me sinto ridículo no final do jogo, sem saber qual era o fim do jogo; qual era o gozo a que devia meu alívio final; a quem deveria brindar?
Fico me perguntando se aquelas camisas com palavras de ordem apareceriam se o time brasileiro tivesse perdido. Um tal de Kaká não agradeceria a Deus por ter perdido a partida? Teria o topete de não mostrar a camisa escrita, desobedecendo seu Deus, achando que o resultado não seria digno de ser inscrito no corpo. Vou dizer! Não sei de que matéria é feita essa turma dos escritos religiosos no corpo; desconfio que desrespeito e deselegância para com o país, trocando uma competição por outra – a esportiva pela religiosa. Bem, como sou torcedor de copa, só daqui doze meses terei que passar por essa bizarrice para ver um bom espetáculo de futebol. Até lá terei esquecido, creio. Neste quesito os americanos deram um show de respeito esportivo! Nenhuma inscrição, que eu tenha visto, que enganasse o telespectador (se bem que perderam, nunca saberemos que inscrições escondiam na manga!).
Ah! Antes de encerrar... Claro que os kakás, lucios, robinhos e outros tem o direito de agradecer a um deus etc, mas eles devem admitir que fica muito difícil imaginar o outro time agradecendo a Deus por ter perdido. Quem perde faz o que com essa informação: “Graças a Deus vencemos!” Devo entender que graças a Deus o outro perdeu? Pelo ridículo da situação preferiria que os jogadores agradecessem em suas igrejas. No campo, só homenagens a sua nação. Por favor, dediquem suas vitórias à nós os brasileiros! O deus de vocês não representa toda a diversidade de crenças do Brasil.

domingo, 28 de junho de 2009

O dia em que Gabi chegou em nossas vidas!























Primeira foto a chuva que se aproximava; segunda Gabi, no dia em que chegou em casa; e as seguintes Gabi hoje.
A tarde de chuva de ontem convidava a algumas horas de leitura; foi o que fizemos. Eu, às voltas com a pesquisa sobre o teatro de Pouso Alegre, lendo sobre Memória (Memória da Língua de Maria Onice Payer), só sendo interrompido pelo prazer de ouvir ao longe o ribombar dos trovões que deslizavam pelas serras do outro lado do vale do Cervo. Ao longe a claridade azul-chumbo das nuvens se confundia com o mesmo azul-chumbo das colinas que nos separam de Santa Rita do Sapucaí. A chuva pesada e reta, sem um toque sequer de vento, molha com sua frialdade todas as milhares de árvores que plantamos no dorso da serra, para que servisse de moradia decente para nós e eventuais animais selvagens. Também para nossos amiguinhos caninos – Rabicho-bicho-nice, Soneca golden boss (o chefinho), a Kelly-lulu-star (estrela que se faz fotografar em todas as ocasiões) e a nova moradora da serra, Gabi-blue (o blue vem dos olhos azuis de uma amiga querida de V). Ficaram a tarde toda em seu confortável canil. Só para constar: canil aberto, sem restrições; apenas nosso comando firme e tranquilo – “todo mundo para casa”. E só. Inclusive Gabi, que sai com suas orelhas desalinhadas, uma para o centro, outra para a lateral, a língua molhada pendente para o outro e vai pelo trilho marcado na grama pelas patinhas macias de todos.
Há mês e pouco, já o disse aqui, V. e eu, num domingo de manhã, fomos fazer uma visita ao Zé Luiz e Vanderléia, no sopé da serra. Ao voltarmos catei alguns lixos entre latas de cerveja, sacos e garrafas plásticas, que “enfeitavam” a estrada que liga E. S. do Dourado ao Cervo e me dirigi para uma lixeira que nós mesmos colocamos ao chegar na região, quinze anos atrás. Trata-se de um latão de duzentos litros, preso a uma viga enterrada no solo, que fica bem na esquina formada pela estrada asfaltada e a estradinha de terra que vai dar em nossa propriedade. Ainda reclamava da insanidade das pessoas que sujam sua própria casa, rabugento por alguém fazer do mundo um grande aterro sanitário a céu aberto, quando ouvi um grito de Vania, já meu conhecido. É um daqueles sons que, no modo dela dizer, saem de seu corpo sem nenhum aviso – uma mistura de espanto, surpresa, prazer, dúvida; às vezes mais um que outro. Olhei e a vi com um cachorrinho nas mãos, de cores e aspecto que bem podia ser confundido, a certa distância, com um ouriço, um gambá, uma raposa, um gato; mas não, se tratava de um cãozinho; um filhotinho mortalmente assustado. Certamente lá estava quando descemos a serra, mas sua localização, bem atrás do latão de lixo, entremeio ao capim da mesma cor de sua pelagem, bem como sua obstinação em não se mexer, fez com que não o víssemos.
Por alguns segundos V. aninhou o bichinho no colo, pois estava frio e sua malha lhe pareceu quente e acolhedora. Imediatamente, sem refletir, decidimos que ele iria conosco. Mas havia um problema a enfrentar com delicadeza. Ele estava definido a esperar ali por seus antigos donos. Por uma lógica muito própria sabia que devia ficar ali por que fora naquele lugar que tivera a última visão de seus donos amados. V. chamou-o com sua mais doce voz, para que pudesse dar-se a desistir daquela espera infrutífera. E ele ali parado, tentando se esconder mais ainda. Tentou uma segunda vez levando-o mais alguns passos estrada acima; mesmo resultado. O filhotinho voltava amedrontado para seu nicho improvisado, deitando-se exatamente onde o deixaram na noite anterior. Víamos seu desespero, a fome na barriga encurvada, aquele nariz comprido e olhos meigos e entristecidos, olhando para nós e dizendo: “Não, não devo, ainda há esperança!”. Mas não havia... Quem o deixou fez uma delicada coleira de capim e uma pequena corda, também de capim, que fora presa por uma pedra. O intuito era óbvio; não deixar que fosse atropelado até que uma gente qualquer por ali passasse e o resgatasse. Fora o último ato de amor de seus donos. E o cãozinho ali, obstinado em esperar, com seu nariz longo e triste; as últimas esperanças por se esvair. Cedemos as evidências – o cãozinho não iria conosco espontaneamente; peguei-o no colo e descobri, erguendo seu corpinho peludo com delicadeza, que era “ela”. Ele era ela e nos pareceu mais aflitivo ainda que uma cachorrinha passasse por drama tão radical. Talvez por acharmos, com ou sem razão, que as fêmeas são mais apegadas ainda que os machos ao seu território, à casa, sabe-se lá. Depois de algum tempo, coração apertado, sem sucesso com nossos incentivos, com meus melhores gestos, retirei-lhe devagar a coleira improvisada – o último carinho, a última onda de cheiros de seu dono. Mijou de medo, olhando para o latão de lixo e o matinho tão seguro, embora pouco promissor. Acho que me odiou, naquele momento. Eu era a pior coisa que podia lhe acontecer... Resolutamente, ainda que pesando seu desespero, decidimos ir embora, e ela encolhendo as orelhas, revoluteando em meu colo, tímida, triste, triste, sabendo que não podia sair dali... Se esforça por descer e voltar ao matinho que era sua referência de vida. E eu, vem com a gente, que temos comidinha!, passando muito devagar as mãos sobre sua lanugem para não assusta-la ainda mais. Disse, filhotinho, você deve preparar-se para uma nova vida, por que a que teve até agora nunca mais viverá. Mais para mim mesmo do que para ela. Sabia que não alcançava nada do que dizia. Sabia que fora amada, cuidada, mas agora chegara a hora de tomar outros destinos. Esperei, naquele momento, que pudéssemos dar uma vida que fosse condizente com ela. Talvez a Serra do Cervo viesse a se tornar um lugar onde pudesse edificar seu corpinho e desvelar todos seus potenciais...
No mesmo instante, antecipando todas as horas de preocupações, cuidados e prazeres, que a filhotinha nos daria, Vania inspecionou-lhe as orelhas e pelagem e chegou a conclusão de que não havia doenças, pulgas ou sujeiras. Seus antigos donos banharam-na, pentearam-na e a alimentaram, como um meio de garantir que alguém se seduzisse por ela!
De jeito nenhum aprovamos que se soltem filhotinhos, nas estradas e ruas de cidades; até mesmo achamos que se deve punir a irresponsabilidade dessa prática-crime, prevista na lei. Achamos, por uma lógica nossa, que os mesmos que jogam lixo na rua emporcalhando o mundo, são os que descuidam dos bichos que dizem amar. Pode não ser uma lógica rigorosa, mas, futuramente, ao contar a saga do Rabicho e do Soneca, espero demonstrar uma das maneiras mais comuns de como isso se dá.

Bem, e foi assim que começou nossa história com Gabi, de Gabiroba, não de Gabriela, por favor!