Hoje, depois de 120 dias sem água do céu, cá estamos recebendo os primeiros pingos na cabeça, nas orelhas e costas. A fumaça do horizonte, queimando por uma semana, já é substituída por uma névoa de gotículas descendo em direção a encosta da Serra do Cervo. Insuficiente, claro, para fazer verdejar a roça, mas umedeceu o ar e já podemos senti-lo entrando com mais facilidade pelas narinas. A mata fumegando, ainda não sentiu nenhum enfraquecimento. Os pássaros-pretos voltaram de sua longa ida para não sei que lugar. De volta, tratam de fazer sua prole aumentar e preparam ninhos nos pinheiros em frente da casa ou nas bouganvilles.
As jabuticabeiras estão carregadas. Algumas são do tipo selvagem e vieram antes das comuns e por isso foram devoradas pelos sabiás, sanhaços, tirivas, maritacas e outros. Até os jacus e tucanos se aproximam no fim do dia para degustar essa iguaria - coisa que não existe na mata, assim de graça.
Durante os últimos 40 dias, Vania irrigou-as, religiosamente; daí que temos estas frutas negras e suculentas antes de todos os outros que deixaram por conta da chuva, que teimou em não vir. Além disso, como escrevi em outro momento, nossa água aumentou muito nos últimos anos, pelo trabalho de conservação da mata, o que nos deixou a vontade para usa-la sem culpa.
Ontem deixei Vania a meio caminho, no sítio do Dito e da Lia, donos do restaurante Recanto das Orquídeas, que já referi no passado, aqui mesmo. Enquanto passei o dia atendendo no consultório, Vania colheu morangos para fazer licor e geléia e fez um doce de Azeitonas do Ceilão (ao lado) que depois progrediu para uma mousse da fruta. Seu sabor, agridoce e adstringente, é sempre uma exótica experiência. Nada se compara a sua agudez entre o meio e final da língua! Vale a pena conferir.
Hoje alguns de seus clientes devem ter tido o raro prazer do doce e mousse feitos com elas.
Dito é o presidente da AAECOMINAS, uma associação de produtores orgânicos, e ele mesmo planta orgânicamente verduras, e agora morangos, que acaba vendendo em feiras na cidade. Homem de convicções fortes, há doze anos vem produzindo orgânicos na tentativa de fazer frente aos produtos de horta e pomar envenenados, oferecidos ao cidadão de Pouso Alegre e região. Seu restaurante é famoso por reunir o cardápio mineiro a alimentos isentos de venenos e insumos. Em ambiente delicado com atendimento preciso de Lia, dos filhos Julio Cesar e Junior e do próprio Dito, cada um que lá passa uma tarde de sábado, domingo ou feriado, sai com a viva impressão de ter feito um saudável retiro das obrigações cotidianas. Já ao passar ao lado de sua plantação, por uma viela tomada de flores, ficamos mais leves.
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