O Outono já vai limpando com sua vassoura de vento os vestígios do verão e ouço na serra o ronronar das árvores farfalhando, eriçadas pelas mãos insinuantes do vento sul à tarde e noite. De madrugada o sopro vem do norte e passa por sobre nossas cabeças indo ter com o vale lá embaixo. Os ciprestes já mostram seu amarelecimento feito de milhões de pequenas sementes que vão secando e lhe dando o tom dourado ao Sol. Dependuradas de cabeça para baixo, presas por garras finas e fortes aos galhos rústicos, vejo maritacas, periquitos e tirivas quebrando-as, uma a uma, num trabalho paciente que não sei dizer se se trata de comê-las ou apenas um exercício do bico.
Talvez apenas brinquem com as sementes dos ciprestes! A prova pode ser as gargalhadas que dão zombando de minha ignorância. Olham para mim com seus olhinhos negros, torcem a cabecinha verde e falam num idioma que não conheço, mas que, certamente, estão me colocando na pauta de gozação do dia...
Depois voam brilhando seu verde azulado com matizes de amarelo e vermelho sob os raios solares que incidem sobre sua penugem bem penteada.
Enquanto isso, lá fora, nos ciprestes, o mundo das maritacas anda no ritmo de sua religião, fruindo das benesses de mais um outono ofertado por seus deuses. E eu aqui, invejado de suas certezas...
Pos scriptum: Esses prazeres de conhecer o Dino só foram possíveis pelo carinho do Gideon, aquele do Posto Bambuí, que teve o desprendimento de nos trazer a maritaquinha que embevece Vania na foto acima. A história é a seguinte: o Dino caiu da caixa d'água sobre sua tevê; por um dia e meio ele cuidou do filhotinho e depois trouxe a nós para que cuidássemos dele. Nada sabemos dos pais de Dino, um órfão que seu deu muito bem! A começar pelo próprio Gideon que permitiu que o bichinho podia ficar conosco... O Gideon é aquele mesmo que um dia nos trouxera a Gigi, que contei a história mais abaixo. Grande sujeito...