Quanto mais conforto exigimos mais violência praticamos.
Entre leituras sobre psicanálise, a leitura de “O muro” e a
preparação do Ateliê do Corpo, me dediquei, neste recesso – que incluiu Natal e
Réveillon – a uma reforma da estrada que liga o portão à minha casa. Num certo
ponto de uma curva, depois de quase duas décadas sem manutenção, a estradinha
estava pior que as ruínas do Coliseu. Foi um teste de paciência, contemplação e
engenho, uma vez que reformar é sempre mais complicado do que construir.

Primeiro, carpi o mato e capim que invadiram o leito dos
bloquetes; a enxada não pode escavar mais que o suficiente para retirar os
bloquetes senão eles ficam ao res do chão e saem flutuando com a primeira chuva
forte, destas que grassam por janeiros e fevereiros. Dois centímetros de
carpida no máximo. Há um outro objetivo menos, digamos, técnico para carpir tão
pouco: muitas minhocas se aproximam das raízes de braquiária e outros capins e
ervas daninhas, por causa do oxigênio e matérias orgânicas em decomposição. Aí
é que mora o perigo. Quase sempre estão à mercê do fio da lâmina, a não ser
que, com muita prática, enfiemos o canto da enxada puxando a planta mais do que
cortando. Com isso salvamos a maioria delas de uma decepa cruel.
Às vezes, enquanto enxugava o suor que encharcava boné, camisas,
calças e sapatos, parava para meditar o quanto viver é mortal. Pense comigo: sem
reassentar os bloquetes no seu lugar original, não consigo subir de carro a
serra até minha casa. Daí que, por causa de minha comodidade, e por mais que
cuide das minhocas, muitas perecem dolorosamente sob a lâmina da enxada. E não
apenas elas, mas também, larvas de besouros, formigas diversas e insetos dos
quais não imagino o nome. Perturbo todo o andamento da vida por onde me meto a
cuidar da minha vida.
Viver mata. Numa das touceiras de braquiária a lâmina cortou
em quatro pedaços um belíssimo espécime de cobra insetívora com pouco mais de
dois palmos de comprimento. Demorou meses e meses a chegar à vida adulta, que
coloquei termo de um golpe. Noutro monturo de folhas um pequeno sapo foi
dilacerado. Uma perda irreparável para a serra, para o mundo, para mim. Na
maioria das vezes gasto mais tempo que o usual, salvando pequenos seres da agressividade
do meu viver. Como exemplo corriqueiro, quando vou colocar as peças de cimento
no seu devido lugar fico esperando as formigas saírem de baixo e mantenho,
seguro pelos dedos e com esforço dobrado na espinha, os pesados bloquetes a
alguns centímetros do solo. O esforço é grande e às vezes, no auge do cansaço,
apoio a peça na perna e com delicadeza empurro, com pequenos piparotes, um ou
mais insetos para fora da cava onde o encaixarei. Isso demanda muito mais
tempo, energia e sofrimento emocional, pois não acho que tenho mais direitos de
viver ali do que eles. Mas, mesmo pesando a nosso (meu e deles) alguns sucessos,
o fato é que as vezes falho fragorosamente esmagando inapelavelmente os pequeninos
seres.
Daí que o mais comezinho ato de existir encerra rivalidade,
competição e letalidade. Ao podar as
árvores que atrapalham a passagem de meu carro, se o faço com pena, ainda
assim, o faço. No meu caso com dupla crueldade, pois não sou daqueles que acham
que um deus criou o mundo para deleite do homem – o rei da criação. Na verdade não
acho que sou mais importante que qualquer grilo ou minhoca, pássaro ou mamífero
que por aqui vicejam. Mas, a sofisticação das técnicas de existir me fazem um
predador cujo status é o pináculo da cadeia alimentar. Isso seria um nadinha de
nada, se eu pudesse seguir existindo sob as leis da natureza, ou seja, com o
mais forte comendo o mais fraco. Mas, com a perversidade de minhas práticas
nada naturais para existir, acabo subvertendo estas leis simples e bem
tramadas. Então, me resta seguir adiante tentando mexer o menos possível com
esse delicado equilíbrio de forças, uma vez que minha prática como a de
qualquer outro humano é cínica; dizemos: eu sei, mas ainda assim...
Sempre que penso na violência de viver acabo me lembrando
dos Jainas – um grupo religioso na Índia, que leva muito a sério a não
violência contra qualquer vida. Eles se dividem em duas seitas – Shvetambara e
Digambara. Os últimos, a meu ver, são mais radicais: andam despidos e não fazem
mal a qualquer vida, estendendo sua atitude até para com os seres vivos
microscópicos. Assim, andam com um lenço de linho cobrindo boca e narinas para
filtrar o ar e poupar os seres que vivem flutuando a nossa volta. Um esforço
supremo que torna suas vidas muito difíceis, uma vez que, ao que me parece,
quanto mais conforto na vida, mais violência é necessária para mantê-lo. Não é
o caso do Jaina, que vive fazendo o menor mal possível ao mundo. Por isso vivem
uma vida impressionantemente ascética e, por isso mesmo, muito, muito precária.
Seu único conforto, e só o que querem para si, é o de respeitar a vida; essa é
sua grande alegria e seu grande objetivo existencial.
Eu, que não sou Jainista, e faço práticas de intervenção na
natureza para satisfazer minhas fantasias de viver próximo a ela, e meus
desejos de viver uma vida mais simples, bebendo de fonte e comendo da horta,
vou levando a vida com essa resignação quase religiosa de ter que matar para
viver. Ainda bem que conto com Vania, que chega a ser ainda mais assombrada que
eu pelas dores dos bichinhos que insistem em viver no mesmo espaço que nós.
Assim, a dois, fica mais fácil exercer a loucura de viver da morte. Que não se
assustem, bichos e gente, se um dia desses nos virem nus com uma destas
máscaras de gaze jainistas, andando em câmera lenta, pelos bosques da serra do
Cervo, com os olhos semicerrados, para não ferir algum ser voador, ao piscar.
Não adianta nos internar que somos incorrigíveis!!