Tenho falado de chuva por aqui, algumas vezes este ano, de modo repetitivo até. Mas justifico dizendo que desde criança, ou melhor, para não exagerar, desde menino, isto é, ao redor de oito anos, curto uma paixão desmedida por estes úmidos pontos que enfeitam o mundo. Já corri riscos consideráveis na chuva, como, por exemplo, aos vinte e seis anos, quando caí num bueiro, cujas águas sujas e enfurecidas teimavam em me sugar para as profundezas do chão, o que consegui evitar com o custo de muita pele rasgada nas pernas, peitos e braços. Estava sozinho, fazendo minha corrida de toda tarde, lá pelos lados da Penha, Zona Leste de São Paulo. Tudo porque queria fazer meu treino para a São Silvestre na subida da Rua Gabriela Mistral, que tinha a inclinação da Consolação e quase seu tamanho. Naquela época a gente subia, já no final da corrida, a Consolação e não a Brigadeiro, como se consagrou atualmente. Saudosismo meu, mas gostava mais; achava mais glamurosa.
Bem, como já se sabe, se estou vivo aqui, acabei saindo da boca de lobo pelas próprias forças. Mas não aprendi nada com o acidente. Continuei correndo na chuva como se nada tivesse acontecido. Por fim, jamais passei outro apuro como aquele. Fora as bolhas d'água nos pés numa maratona no Rio, embaixo de chuva. Não sei por que, mas o atrito de sapatos de corrida na pele enrugada pela umidade se torna um suplício. Ali aprendi a passar vaselina nos pés e dedos e a andar com uma pequena porção num plástico que guardava amarrado à cintura. Nunca precisei parar para besuntar de novo os pés, mas jamais me arrisquei a passar pelo flagelo do Rio, mantendo comigo a pequena porção daquele líquido pastoso e salvador.
Bem, agora corro nas curvas maravilhosas da Serra do Cervo e, creio, acidentes como tais, ficam minimizados. A grande quantidade de água que despenca do firmamento já encharcou a terra e estamos nos aproximando de seu pico máximo, onde o Rio do Cervo poderá, como em fins de 1999 e começo de 2000, avançar sobre sua calha e até mesmo por sobre a ponte do Cervo. Naquele verão ficamos isolados por dias, com sua ponte interditada por abalos nas pernas. Neste verão de 2010 estamos fazendo compras sempre pensando que poderemos ficar presos do lado de cá do rio. Na verdade, acho isso romântico e nem me passa pela cabeça prescindir dessa fantasia na vida que levo por aqui. No entanto, talvez pela idade, minha paixão pela chuva ficou mais contemplativa; já não saio tanto por aí, correndo embaixo dela, como se estivesse num rito iniciático.
Nas vezes em que passar da contemplação para um corpo a corpo com ela, prestarei atenção redobrada para não ser pego por uma tromba d'água lá no vale e encerrar a carreira de pedestrianista apaixonado por correr na chuva. Pretendo correr muita serra acima e abaixo antes de sucumbir a ela... ou à chuva que rola nela! Neste corpo a corpo, quando ela está zangada, sabe deus por quê, quase sempre levamos a pior!
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domingo, 2 de janeiro de 2011
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Celulares e rabanetes!
Há boas razões para que eu invista em minha horta, no pomar e nos cuidados à volta da casa. Cuidar do entorno da singela casa é a forma mais imediata de celebrar a vida junto às árvores, às nascentes e ao chão. Dormir no silêncio denso da serra, não se trata de largar-se numa noite sem sons; pelo contrário, é um silêncio cheio, variado, repleto de pequenos sons. São conversas as mais diferentes entre si: o pipiado de alguns pássaros noturnos, particularmente a coruja e o curiango; os grilos e lufar de mariposas; e um sem-fim de folhas roçando em folhas.
A horta e o pomar, sem dúvida, representam uma fonte de sabores que misturam nutrição com poesia - cores com formatos os mais inusitados, porque orgânicas, sem os brilhantes tons artificiais das hortaliças e frutas mantidas a agrotóxicos.
Tudo isso junto, certamente justifica viver à margem dos limites territoriais da cidade; uma vida sem os sobressaltos dos muros e cercas elétricas - e não estou falando de São Paulo e outras cidades. Nas pequenas também nasceram cercas elétricas qual cipó agressivo contra as quais não há manejo, defesa ou capina. As casas das cidades mineiras pouco a pouco vão se enfeiando com essas muralhas de segregação. Sei que sou um sonhador, mas não estou sozinho nisso - Lenon que me perdoe a má tradução. Pelo menos Vania e alguns vizinhos que jamais estiveram pelos mundos que estivemos, formam um conluio contra esses sintomas sociais que misturam os mais estranhos sintomas da psicanálise: esquizofrenia, perversão e outras figuras freudianas.
Creio que o que vivo não pode ser chamado a compor uma recomendação de como se deve viver. Mas, razoavelmente livre dessas amarras (pois livre nem o santo shivaista que vive nos montes que circundam o Everest de fato está), vou fazendo alguma força contra essa sanha destruidora. Pequena, na verdade ínfima, resistência aos chamados vazios das formas de vida ultramoderna. Para isso, me regozijo, e nisso Vania chega a ser mais gritante que eu, com os rabanetes que se apressaram em inchar com seu picante suco; com as folhas robustas das couves manteigas; com os macios caquis vermelhos - como se isso fosse o suprassumo do viver.
Ok, já sou acusado de alienação, de conservadorismo, de comodismo mesmo. Não me importo. Não saberia viver doutro modo, e não respeito o modo de viver da maioria ofuscada pelos dispositivos modernos, sem ao menos precisar deles. Argumentei com um colega de viagem a São Paulo, que a necessidade me faria mudar de celular. Por enquanto, não sabia de nenhuma necessidade nova que me fizesse mudar de aparelho. Mas o espertinho me disse: E quem está falando de necessidade? Estou falando de ostentar, de não ficar para trás, de seduzir os olhares!
Preciso aprender novos termos para conversar com os usuários de celular, computador, Ipad, Ipod e outros, pois eles não se interessam por rabanetes orgânicos, sustentabilidade ambiental ou reciclagem. Estou me sentindo um pouco fora de moda, apesar destes serem os assuntos mais atuais no mundo!
A horta e o pomar, sem dúvida, representam uma fonte de sabores que misturam nutrição com poesia - cores com formatos os mais inusitados, porque orgânicas, sem os brilhantes tons artificiais das hortaliças e frutas mantidas a agrotóxicos.
Tudo isso junto, certamente justifica viver à margem dos limites territoriais da cidade; uma vida sem os sobressaltos dos muros e cercas elétricas - e não estou falando de São Paulo e outras cidades. Nas pequenas também nasceram cercas elétricas qual cipó agressivo contra as quais não há manejo, defesa ou capina. As casas das cidades mineiras pouco a pouco vão se enfeiando com essas muralhas de segregação. Sei que sou um sonhador, mas não estou sozinho nisso - Lenon que me perdoe a má tradução. Pelo menos Vania e alguns vizinhos que jamais estiveram pelos mundos que estivemos, formam um conluio contra esses sintomas sociais que misturam os mais estranhos sintomas da psicanálise: esquizofrenia, perversão e outras figuras freudianas.
Creio que o que vivo não pode ser chamado a compor uma recomendação de como se deve viver. Mas, razoavelmente livre dessas amarras (pois livre nem o santo shivaista que vive nos montes que circundam o Everest de fato está), vou fazendo alguma força contra essa sanha destruidora. Pequena, na verdade ínfima, resistência aos chamados vazios das formas de vida ultramoderna. Para isso, me regozijo, e nisso Vania chega a ser mais gritante que eu, com os rabanetes que se apressaram em inchar com seu picante suco; com as folhas robustas das couves manteigas; com os macios caquis vermelhos - como se isso fosse o suprassumo do viver.
Ok, já sou acusado de alienação, de conservadorismo, de comodismo mesmo. Não me importo. Não saberia viver doutro modo, e não respeito o modo de viver da maioria ofuscada pelos dispositivos modernos, sem ao menos precisar deles. Argumentei com um colega de viagem a São Paulo, que a necessidade me faria mudar de celular. Por enquanto, não sabia de nenhuma necessidade nova que me fizesse mudar de aparelho. Mas o espertinho me disse: E quem está falando de necessidade? Estou falando de ostentar, de não ficar para trás, de seduzir os olhares!
Preciso aprender novos termos para conversar com os usuários de celular, computador, Ipad, Ipod e outros, pois eles não se interessam por rabanetes orgânicos, sustentabilidade ambiental ou reciclagem. Estou me sentindo um pouco fora de moda, apesar destes serem os assuntos mais atuais no mundo!
terça-feira, 1 de junho de 2010
Inverno em São Paulo e na Serra do Cervo!
Há pouco mais de um ano inaugurei os dois blogs que venho mantendo até agora. Me lembro que em junho passado, dia 2, durante a madrugada, fizera o frio mais intenso de todo o outono - 3 graus. E tudo indica que entre hoje e amanhã, ou depois de amanhã, repetir-se-á uma daquelas madrugadas geladas; hoje, quando saí de lá para vir para São Paulo, o frio era de 6/7 graus. Depois da manhã, feriado; e aí estarei usufruindo do frio da serra, como todos os seres vivos daquelas paragens. São Paulo também está fria - todo mundo agarrado a seus cachecóis, blusas e sobretudos, como se se agarrassem a algo vivo. Esquentando-se consigo próprio, fazendo calor com os próprios corpos. Se por um lado as pessoas colorem a cabeça e os pescoços, por outro, os casacos definitivamente escurecem. Trata-se de manter quente a própria carne a toda custa. Por enquanto, ninguém me fala das saudades do sol ardente e dos dias abafados de verão. Talvez estivéssemos todos precisando de novos climas, nem que seja por alguns dias. Se fôssemos como uvas, ipês, kiwis e árvores caducas, sazonais, gostaríamos da sensação de renovação que a primavera nos daria depois dessa "queimada" de inverno, com folhas caindo e galhos secos apontados para o firmamento.
Bem, não somos árvores caducas... ficamos com a pele caquilhada, cai-se-nos alguns cabelos, ficamos tiritando, mas no geral, nada muda! O frio vem e vai. E nós continuamos nossa faina sem grandes atropelos, a não ser por um certo peso a mais, vindo das grossas fazendas que nos cobrem, impedindo-nos de medir o peso na farmácia para saber se o regime de verão já foi para o brejo com os chocolates, capuccinos e outros mimos que nos damos no inverno.
Bem, não somos árvores caducas... ficamos com a pele caquilhada, cai-se-nos alguns cabelos, ficamos tiritando, mas no geral, nada muda! O frio vem e vai. E nós continuamos nossa faina sem grandes atropelos, a não ser por um certo peso a mais, vindo das grossas fazendas que nos cobrem, impedindo-nos de medir o peso na farmácia para saber se o regime de verão já foi para o brejo com os chocolates, capuccinos e outros mimos que nos damos no inverno.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Tarde de sol na Serra do Cervo!
Sombras encompridadas, recurvas sobre as colinas lá embaixo. Culturas formando um xadrez multicor se espalham pelos quilômetros e quilômetros onde nossa vista alcança, em certos pontos contida pela serra vizinha de Santa Rita do Sapucaí. Pelos lados de Congonhal o sol ainda brilha e o céu é uma explosão fulgurante. Pouso Alegre, da qual posso somente adivinhar sua silhueta, está coberta por nuvens negras, mas duvido que chova. Os Fernandes, à esquerda, já somem na sombra de nossa serra. O Rio do Cervo desliza calmo, apesar de um pouco estropiado pela ganância dos homens...
Estava com saudades de um dia inteiro de sol franco e aberto! Agora é dormir uma noite boa de sono restaurador e me guardar para ir a São Paulo gastar energias pelas marginais e afins!
Estava com saudades de um dia inteiro de sol franco e aberto! Agora é dormir uma noite boa de sono restaurador e me guardar para ir a São Paulo gastar energias pelas marginais e afins!
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Experiência, maravilhar-se, viver!
"Todo discurso sobre a experiência deve partir atualmente da constatação de que ela não é mais algo que ainda nos seja dado fazer. Pois, assim como foi privado da sua biografia, o homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência: aliás, a incapacidade de fazer e transmitir experiências talvez seja um dos poucos dados certos de que disponha de si mesmo". Esta "destruição" da experiência, segundo Agamben, pode ser o resultado da banalização da vivência cotidiana onde o cidadão volta "para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos - divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes - entretanto nenhum deles se tornou experiência".
É nisso que venho tentando meter a colher já há três décadas, quando insto as pessoas, por meio de técnicas de si advindas do Samkhya, do Zen, do Tao e das artes existenciais de cada uma destas experimentações do mundo. Portanto, se por um lado acho que Agamben cada vez mais tem razão (ele escreveu isso em 1977/8), esclareço que essa foi, e é, a batalha de muitos sistemas filosóficos indianos e orientais para que se mantenha íntegra a capacidade para fazer experiência. Centro a atenção nas práticas chamadas 'sadhana', que surgiram no período matriarcal, pré-védico e algumas técnicas aprendidas nas artes marciais chinesas, as quais ensinei entre o fim dos anos 70 e fim dos 90.
O homem de que trata o autor é o homem ocidental, e isso nos autoriza, embora não se resolva nisso, a dizer que não é a mesma realidade naquelas sociedades. Não quer dizer que não sejam atacados, neste século, pela mesma 'doença'; a globalização tem tentáculos infernais e de alcance inimaginável! Mas podemos propor, com uma margem de segurança, que seus modos de realizar sua subjetividade ainda inclui a "experiência" e é isso que venho descortinando, embora com as limitações de ser um ocidental, solapado pelo mesmo fenômeno.
O autor rebusca, de modo primoroso, a perda da autoridade advinda da experiência, uma vez que a verdadeira autoridade prescinde da indústria do comportamento ou dos manuais de auto-ajuda. Na verdade, os manuais e as técnicas de aprendizado, por mais bem intencionados que se coloquem, só fazem destruir a "experiência". No ato mesmo de treinar um comportamento, ou ensinar uma verdade, ou propor um sistema de pensamento positivo, acabam por retirar o sujeito desta incerteza criativa que é o cimento para a experiência; é o fim deste "jogado no mundo" sartriano, onde o homem pode, pelo gratuito da vida compor-se como "clareira" vivencial - experiência, pois.
Na penúltima postagem do blog http://levileonel.blogspot.com, dia 18 de fevereiro, perguntei, junto com Mathieu, personagem sartriano, como fazer para que minha vida não malogre, ou que faça algum sentido, ou que seja uma vida que faça mais que um breve alarido sobre o mundo. Creio que um bom começo é resgatar, mesmo que sem sendas demarcadas, demarcações que impossibilitam a vivência de uma "experiência". A natureza mesma desse fenômeno é a de que desdiz a aprendizagem, por isso não se dá na presença da simples técnica, embora sem a técnica jamais se dê, paradoxalmente. Uma vez Sartre propôs o termo fulguração para esse sentimento de ser clareira no mundo, ou do mundo; talvez eu devesse seguir minha investigação por aí... pela fulguração do homem como instante vivencial sem eira nem beira, e por isso mesmo, especialmente significativo...
Sobre as vivências que dirijo em SP: http://levileonel.blogspot.com
terça-feira, 7 de julho de 2009
Ônibus e leitura combinam!
As desvantagens de não vir de carro a SP são várias; mas as vantagens são consideráveis! Por exemplo, posso refletir longamente sobre o dia anterior, particularmente o final da tarde de segunda e a noite. Como exemplo, pensei longamente sobre uma reunião da AAEcoMinas, associação que reúne produtores rurais de agricultura familiar e concede um selo do IBD como garantia da procedência e idoneidade dos produtos oferecidos. São ecologicamente produzidos, manuseados, com sementes e processamento que minimizam o desgaste da natureza - e até em certos casos a recuperam, como é o nosso caso no Sítio Serra do Cervo. Juntos, Vania e eu, fizemos um balanço das necessidades de se ter o selo de orgânicos e também o quanto teremos que esperar para essa validação. Pareceu uma boa decisão!
Também gravo ou escrevo um ou outro pensamento sobre textos, sessões de terapia, cuidados com o sítio, a quem devo ligar, mensagens a algumas pessoas que o solicitam etc. Sem esquecer, é claro, que são pelo menos duas horas de leitura sem interrupções (a viagem acontece em três horas de rodoviária a rodoviária). Ao chegar em SP, tinha lido a primeira parte de Privação e delinquência, de D. W. Winnicott, sobre as motivações inconscientes da violência, do roubo e outras atitudes anti-sociais. São leituras que já fiz em 1995, num curso de psicologia e, depois, durante uma longa supervisão de Rahel Boraks. Agora que estou para realizar um curso sobre as tendências anti-sociais, me vi na obrigação de rever cada um dos pontos onde o autor finca sua teoria. A obrigação se revelou, mais uma vez, uma grata satisfação! Resumo, até o final de semana, suas principais elocubrações no blog http://www.levileonel.blogspot.com/ conforme combinado com quem tem interesse em acompanhar minha leitura.
Hoje, ante-véspera de feriado em São Paulo, me fez chegar um pouco antes para compensar as horas da quinta que não trabalharei.
Também gravo ou escrevo um ou outro pensamento sobre textos, sessões de terapia, cuidados com o sítio, a quem devo ligar, mensagens a algumas pessoas que o solicitam etc. Sem esquecer, é claro, que são pelo menos duas horas de leitura sem interrupções (a viagem acontece em três horas de rodoviária a rodoviária). Ao chegar em SP, tinha lido a primeira parte de Privação e delinquência, de D. W. Winnicott, sobre as motivações inconscientes da violência, do roubo e outras atitudes anti-sociais. São leituras que já fiz em 1995, num curso de psicologia e, depois, durante uma longa supervisão de Rahel Boraks. Agora que estou para realizar um curso sobre as tendências anti-sociais, me vi na obrigação de rever cada um dos pontos onde o autor finca sua teoria. A obrigação se revelou, mais uma vez, uma grata satisfação! Resumo, até o final de semana, suas principais elocubrações no blog http://www.levileonel.blogspot.com/ conforme combinado com quem tem interesse em acompanhar minha leitura.
Hoje, ante-véspera de feriado em São Paulo, me fez chegar um pouco antes para compensar as horas da quinta que não trabalharei.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Indo e vindo!

Aí estou eu, hoje, 23 de junho, na entrada da rodoviária de PA, esperando meu ônibus de cada semana! O alarido comum a estas situações, com todos falando suas aventuras e desventuras ao mesmo tempo, já se foi... hoje cheguei mais tarde e posso ter a rodoviária neste clima agradável de um ou outro som distintos entre si. No fundo uma tevê, com aqueles taxistas de sempre; já velhos conhecidos com seus modos previsíveis, olhando com olho comprido seu possível cliente. Então Vamos!
Dia comum, se não fosse o ballet no Teatro de PA!
No sábado, depois de nossos trabalhos usuais, no pomar principalmente, nossos amigos Amanda e Zé Maria nos visitaram trazendo uma antena de celular que poderá melhorar nosso sinal. Não sei se poderemos usá-la para internet, mas é o que perguntarei hoje em PA. Presenteamo-los com um generoso saco de laranjas, mexericas, bananas e anonas... Não puderam aceitar o convite para ir ao teatro assistir o espetáculo “Ballet Luiz Henrique Dança Grandes Compositores”.
A “Ária” de Richard Vagner e Luiz Henrique e Kerly Nami no elenco, abrem o espetáculo! Local: Teatro Municipal de Pouso Alegre. Dia 20 de junho. No programa veríamos ainda danças com as músicas de Camille Dalmais, Antonio Vivaldi, Sergey Rachmaninov, Adolphe Adam, Cesare Pugini, Tom Zé, Caetano Veloso; para bordar o espetáculo com um humor fino, bem costurado, pontual, no tempo tempo certo, lá estavam o ator Luiz Fernando – que nos apresentou a impagável “Irmã Selma” e noutro quadro o “Alberto” (marido da gozadíssima “Giuvanelle”, encarnada por Charles Pierre). Foi uma noite emocionante. Particularmente quando Luiz Henrique apresenta as pequenas bailarinas de seu projeto de dança e um pequeno bailarino, cuja graça encantou todo mundo!
No sábado, depois de nossos trabalhos usuais, no pomar principalmente, nossos amigos Amanda e Zé Maria nos visitaram trazendo uma antena de celular que poderá melhorar nosso sinal. Não sei se poderemos usá-la para internet, mas é o que perguntarei hoje em PA. Presenteamo-los com um generoso saco de laranjas, mexericas, bananas e anonas... Não puderam aceitar o convite para ir ao teatro assistir o espetáculo “Ballet Luiz Henrique Dança Grandes Compositores”.
A “Ária” de Richard Vagner e Luiz Henrique e Kerly Nami no elenco, abrem o espetáculo! Local: Teatro Municipal de Pouso Alegre. Dia 20 de junho. No programa veríamos ainda danças com as músicas de Camille Dalmais, Antonio Vivaldi, Sergey Rachmaninov, Adolphe Adam, Cesare Pugini, Tom Zé, Caetano Veloso; para bordar o espetáculo com um humor fino, bem costurado, pontual, no tempo tempo certo, lá estavam o ator Luiz Fernando – que nos apresentou a impagável “Irmã Selma” e noutro quadro o “Alberto” (marido da gozadíssima “Giuvanelle”, encarnada por Charles Pierre). Foi uma noite emocionante. Particularmente quando Luiz Henrique apresenta as pequenas bailarinas de seu projeto de dança e um pequeno bailarino, cuja graça encantou todo mundo!
Há anos V. e eu conhecemos Luiz quando fomos aprender danças de salão, quando sua academia se localizava no P.A. Shopping; aprendemos os rudimentos de várias danças e V. fez ballet com ele; mas em certo momento tivemos que ir, de mudança, a SC, interrompendo os treinos. Agora estamos voltando e para reinaugurar nossas relações, quisemos que fosse de modo marcante. Não deu outra! Ao sairmos do teatro encontramos um Luiz untado pelas palmas e elogios! Seu semblante era dos que acabara ali um longo processo de criação, edificação, adaptação e apoteose do trabalho de dançar. Todo seu trabalho e de uma equipe de colaboradores e bailarinos atingira seu clímax! Agora é esperar sua nova aparição pública! Depois quero falar de seu projeto de dança para crianças...
Domingo, um dia normal ou extraordinário?!
Uma coisa que muda muito no mundo rural é a relação com o tempo; quero dizer, o tempo que se conta em dias da semana e o imaginário que fazemos deles. Por exemplo, no domingo levantamos mais cedo que o usual, demos de comer aos nossos amigos peludos e fomos cuidar das uvas japonesas, caçar formigas saúvas e em seguida, com a roçadeira eu, e V. na enxada, fomos roçar e limpar o pomar no setor das laranjeiras. Isso até metade da tarde, quando almoçamos, descansamos e assistimos o jogo do Brasil contra a Itália. Depois lemos...
Pensando melhor, vejo que nossos vizinhos, lá do pé da serra, Zé Luiz e família, Ademir e família, Antônio e família, têm sim um sentido de sábado a tarde e domingo, que não parece com o nosso. Eu diria que eles descansam nestas horas; seus dias são organizados de modo que no fim de semana nada fazem, como se tivessem cumprido suas tarefas. Não é o nosso caso; nossas tarefas não se especializam em dias ou horários. Eles encerram o trabalho às 16:00h; nós só ao escurecer. Eles começam antes de clarear; nós já com o dia começado. Parece que nossas vidas anteriores de gente que viveu em São Paulo por décadas, desconstruiu o imaginário da roça, para o bem e para o mal, suponho, embora a parte má ainda não conheci! Não temos obrigações marcadas, mas temos as responsabilidades sazonais, quero dizer, se não limparmos, por exemplo, o pomar até a chegada das águas, teremos falta de frutas. Bem, não sei como enunciar, mas de fato, nossa semana não é a mesma de alguém da cidade, mas também não funciona como funciona para o homem do campo!
Uma coisa que muda muito no mundo rural é a relação com o tempo; quero dizer, o tempo que se conta em dias da semana e o imaginário que fazemos deles. Por exemplo, no domingo levantamos mais cedo que o usual, demos de comer aos nossos amigos peludos e fomos cuidar das uvas japonesas, caçar formigas saúvas e em seguida, com a roçadeira eu, e V. na enxada, fomos roçar e limpar o pomar no setor das laranjeiras. Isso até metade da tarde, quando almoçamos, descansamos e assistimos o jogo do Brasil contra a Itália. Depois lemos...
Pensando melhor, vejo que nossos vizinhos, lá do pé da serra, Zé Luiz e família, Ademir e família, Antônio e família, têm sim um sentido de sábado a tarde e domingo, que não parece com o nosso. Eu diria que eles descansam nestas horas; seus dias são organizados de modo que no fim de semana nada fazem, como se tivessem cumprido suas tarefas. Não é o nosso caso; nossas tarefas não se especializam em dias ou horários. Eles encerram o trabalho às 16:00h; nós só ao escurecer. Eles começam antes de clarear; nós já com o dia começado. Parece que nossas vidas anteriores de gente que viveu em São Paulo por décadas, desconstruiu o imaginário da roça, para o bem e para o mal, suponho, embora a parte má ainda não conheci! Não temos obrigações marcadas, mas temos as responsabilidades sazonais, quero dizer, se não limparmos, por exemplo, o pomar até a chegada das águas, teremos falta de frutas. Bem, não sei como enunciar, mas de fato, nossa semana não é a mesma de alguém da cidade, mas também não funciona como funciona para o homem do campo!
Em tempo:
Emocionada com o espetáculo de ballet do nosso amigo Luiz, Vania pediu que eu colocasse nos blogs a poesia que fiz para finalizar a fita de vídeo e o espetáculo teatral “Nájua e os elementos da natureza” que patrocinamos e produzimos com a mitológica coreógrafa e bailarina. Isso foi nos tempos em que criáramos o “Ashram-Centro de Estudos da Medicina, Arte e Filosofia da Índia antiga” (1990-2000) e resolvemos homenageá-la. Então, aí está...
Na semana que vem coloco um pedaço do espetáculo aqui.Mãe Natureza - III
Há muito tempo,
na madrugada desta era,
a Senhora dos Elementos empunhou
a sagrada espada da virtude
e dançou sobre as areias da Mãe Terra.
Bebeu das nascentes míticas
da Deusa Montanha
deixou seu âmago ser lavado
pelo fluido telúrico
do ventre da rocha.
Forjou o áurico peito
em chamas ardentes
e neste fogo alquimizou
suas paixões mais recônditas,
Deixou-se transportar
para etéreos rincões do elemento ar,
pairou por sobre todas as criaturas,
alentou todos seus conheceres.
E por fim descansou entre os homens
embalando-os ao som da música
de seu sagrado corpo,
Instalou-se no mais íntimo de cada ser.
e pelos eons vai
apaixonando amantes,
inspirando poetas,
extasiando filósofos,
ou simplesmente
soprando alento em cada ser.
na madrugada desta era,
a Senhora dos Elementos empunhou
a sagrada espada da virtude
e dançou sobre as areias da Mãe Terra.
Bebeu das nascentes míticas
da Deusa Montanha
deixou seu âmago ser lavado
pelo fluido telúrico
do ventre da rocha.
Forjou o áurico peito
em chamas ardentes
e neste fogo alquimizou
suas paixões mais recônditas,
Deixou-se transportar
para etéreos rincões do elemento ar,
pairou por sobre todas as criaturas,
alentou todos seus conheceres.
E por fim descansou entre os homens
embalando-os ao som da música
de seu sagrado corpo,
Instalou-se no mais íntimo de cada ser.
e pelos eons vai
apaixonando amantes,
inspirando poetas,
extasiando filósofos,
ou simplesmente
soprando alento em cada ser.
Poesia realizada para verbalizar a arte de
dançar da grande bailarina Nájua.
1998
dançar da grande bailarina Nájua.
1998
terça-feira, 2 de junho de 2009
Culinária ou gastronomia?
31/05/2009
Domingo grisalho, não de velho, mas de falta de luz. Manhã perfeita para plantar o restante da horta, não sem antes tomar o café da manhã – pão integral, queijo das redondezas e suco de laranjas com vários sabores do pomar e fazermos ginástica numa “academia” improvisada num dos quartos da casa. Levamos para lá pequenos halteres de um quilo, além de anilhas e barras mais pesadas para exercitar o tronco, uma dedaleira para fortalecer os punhos, um aparelho que imita remo e outro que imita subir escadas (como se não subíssemos inúmeras vezes a serra em diversas direções! – resquícios de um tempo em que vivemos em SP). Depois de nos alongarmos, a corrida a pé. De alguns dias para cá V. está correndo junto comigo e surpreendendo pelo quanto progride de um dia para o outro. No sopé da serra encontramos macacos dos grandes (sei lá a espécie! Bugio não descem até aquelas alturas, ficam no topo); depois uma dezena de canários da terra! Na volta demos de cara com o Rabicho, que não se deixou prender no canil, escondido no cafezal. Veio rabeando como se não nos visse por dias. Digredi! Volto à horta! Plantamos com muito cuidado algumas dezenas de mudas muito frágeis de catalonhas, beterrabas, um pé de manjericão, uma sálvia, um alecrim, um orégano, um poejo, jilós, brócolis, couve-flor, repolho, aipo. Isso tudo para complementar a outra horta que há três dias, fora plantada por V., enquanto eu estava em SP – pimentas cambuci e biquinho, salsa, coentro, cebolinha, alface, rúcula, almeirão, espinafre e uma erva japonesa presenteada há anos por Vilma, que resistiu a nossa ausência. Foi remudada com louvores!Depois, V. preparou arroz integral com quiabos e queijos derretidos, para serem servidos com uma farofa de amendoins, torrados, triturados e temperados com páprica, curry e açafrão; cozinhou feijão azuki e refogou a couve, que cortei milimetricamente formando fios finos e longos, profundamente verdes. O azeite e um dente de alho deram-lhe o toque da deusa. Os tomates foram temperados com azeite e ervas frescas. Enquanto isso, eu assava no fogão a lenha do Gravetos – o local em que ele está – várias coxas e sobrecoxas de frango; guardados no congelador e reaquecidos serão consumidos pelo correr dos dias! Desde adolescente leio notícias de Findhorn, na Escócia, lugar em que as pessoas criaram uma comunidade naturalista que conversa com as plantas, fazem-nas ouvir música clássica etc, para que suas especiarias sejam grandes, saudáveis e mais vivas que as demais. Sempre invejei suas histórias de couves enormes e sem pragas! Bem, não creio que nossas couves, brócolis e manjericões tenham qualquer gosto musical clássico ou compreendam português, ou um dialeto qualquer; mas tenho certeza que compreendem a linguagem do trabalho cioso, da preparação da terra, dos balaios de folhas velhas e já podres colhidas por V. embaixo das jabuticabeiras e abacateiros – matéria orgânica explodindo de microorganismos loucos para passar vida adiante. Sem essa matéria borbulhante de vida nem Beethoven ou Mozart, mesmo Vila-Lobos, ou minha mais sedutora conversa ou ardente ladainha poderia erguer um centímetro sequer do caule de um alecrim de horta. Não invejo mais John Seymour e seu livro que por inúmeras vezes li sonhando um dia viver do chão!Agora, vamos fazer um passeio a pé, até a raiz da serra, como diz o Eulálio, no “Leite Derramado”, na casa de nossos amigos fraternos, Amanda e Zé, para postarmos essas impressões do dia; serão dois quilômetros e meio de uma bucólica estrada serpenteante, como manda o figurino das estradas de serras, bordada por pinheiros e batida por lufadas de vento frio. PS.: Acabou chovendo fora de época e hora. Tenho que postar amanhã segunda01/06/2009. Segunda – A lan de Silvianópolis estava fechada; nada estranho para uma cidadezinha de poucos habitantes e numa tarde de segunda! Amanhã em SP, no consultório, faço a postagem. Já era previsto problemas deste tipo...
Nada de extraordinário...
Me preparo para trabalhar em SP; amanheceu com temperatura de 3 graus; manhã frígida, porém, sem vento na serra, o que ajuda muito. Enquanto V. passa a roçadeira em volta da casa, cuido de alguns detalhes da minha estada semanal por lá – notebook, pendrives, agendas, endereços onde deverei ir para resolver assuntos profissionais, palestra, atendimentos psicológicos etc. Chegarei lá por volta das dezesseis e trabalharei até as vinte e duas. Nada de extraordinário...
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