Gigante eternamente semi-adormecida à noite, semi-acordada durante o dia, por suas artérias correm veículos metálicos que carregam microrganismos grudados em volantes, tentando dar conta da própria vida ocupando-se das dos outros. Que fazer se esta é a condição do citadino? Bem, não tenho resposta! De minha parte vou me deslocando, vagarosa e decididamente, para uma vida fora deste centro, cujas inervações alcançam até Espírito Santo do Dourado. É dificil e complicado para quem viveu por trinta anos em SP - mas não impraticável - viver de/numa cidade pequena. Mas, se minhas pretensões forem outras que as do sujeito de mercado usual... quem sabe? Já estamos, V. e eu, nesse longo processo e até agora - seis anos depois - nada nos indica que não seja uma alternativa muito crível, exequível... digna. Não que não seja digno viver em SP, mas que custa-se acreditar que a dignidade não será soterrada pelo mau estado simbólico-histórico da cidadania paulistana, isso custa! Não falo, certamente, de certos nichos politizados, abastados ou de resistência civil/simbólica/política. Estes últimos me agradam profundamente, mas não me seduzem o suficiente para que eu queira, por exemplo, descansar, dormir ou me divertir em São Paulo. Qualquer dia volto a falar deles...
Daqui a pouco embarco para o Cervo.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Quarta gelada!
Daqui a instantes atenderei meus últimos pacientes; já marca no termômetro do metrô Ana Rosa 12 graus e são 18:40; imagino que descerá ainda mais... Em São Paulo se dorme melhor no frio ou com chuva. Até os cães se calam enrolados sobre si mesmos, quero dizer, ensimesmados. Hoje pensei melhor como quero começar meu trabalho de vivências cujo nome será Experiências de Si, envolvendo minha bagagem de conhecimento como professor de arte medicinal indiana que retrabalhei como o nome TS, as artes marciais chinesas, o cura-sui grego e estudos como psicólogo, terapeuta corporal e mestre em Análise do Discurso. Esta semana publicarei em meu site www.levileonel.com.br e disponibilizarei para sites de clínicas escolas. Parece que estou pronto para retomar o trabalho que parei ao ir para o sul...
terça-feira, 2 de junho de 2009
Culinária ou gastronomia?
31/05/2009
Domingo grisalho, não de velho, mas de falta de luz. Manhã perfeita para plantar o restante da horta, não sem antes tomar o café da manhã – pão integral, queijo das redondezas e suco de laranjas com vários sabores do pomar e fazermos ginástica numa “academia” improvisada num dos quartos da casa. Levamos para lá pequenos halteres de um quilo, além de anilhas e barras mais pesadas para exercitar o tronco, uma dedaleira para fortalecer os punhos, um aparelho que imita remo e outro que imita subir escadas (como se não subíssemos inúmeras vezes a serra em diversas direções! – resquícios de um tempo em que vivemos em SP). Depois de nos alongarmos, a corrida a pé. De alguns dias para cá V. está correndo junto comigo e surpreendendo pelo quanto progride de um dia para o outro. No sopé da serra encontramos macacos dos grandes (sei lá a espécie! Bugio não descem até aquelas alturas, ficam no topo); depois uma dezena de canários da terra! Na volta demos de cara com o Rabicho, que não se deixou prender no canil, escondido no cafezal. Veio rabeando como se não nos visse por dias. Digredi! Volto à horta! Plantamos com muito cuidado algumas dezenas de mudas muito frágeis de catalonhas, beterrabas, um pé de manjericão, uma sálvia, um alecrim, um orégano, um poejo, jilós, brócolis, couve-flor, repolho, aipo. Isso tudo para complementar a outra horta que há três dias, fora plantada por V., enquanto eu estava em SP – pimentas cambuci e biquinho, salsa, coentro, cebolinha, alface, rúcula, almeirão, espinafre e uma erva japonesa presenteada há anos por Vilma, que resistiu a nossa ausência. Foi remudada com louvores!Depois, V. preparou arroz integral com quiabos e queijos derretidos, para serem servidos com uma farofa de amendoins, torrados, triturados e temperados com páprica, curry e açafrão; cozinhou feijão azuki e refogou a couve, que cortei milimetricamente formando fios finos e longos, profundamente verdes. O azeite e um dente de alho deram-lhe o toque da deusa. Os tomates foram temperados com azeite e ervas frescas. Enquanto isso, eu assava no fogão a lenha do Gravetos – o local em que ele está – várias coxas e sobrecoxas de frango; guardados no congelador e reaquecidos serão consumidos pelo correr dos dias! Desde adolescente leio notícias de Findhorn, na Escócia, lugar em que as pessoas criaram uma comunidade naturalista que conversa com as plantas, fazem-nas ouvir música clássica etc, para que suas especiarias sejam grandes, saudáveis e mais vivas que as demais. Sempre invejei suas histórias de couves enormes e sem pragas! Bem, não creio que nossas couves, brócolis e manjericões tenham qualquer gosto musical clássico ou compreendam português, ou um dialeto qualquer; mas tenho certeza que compreendem a linguagem do trabalho cioso, da preparação da terra, dos balaios de folhas velhas e já podres colhidas por V. embaixo das jabuticabeiras e abacateiros – matéria orgânica explodindo de microorganismos loucos para passar vida adiante. Sem essa matéria borbulhante de vida nem Beethoven ou Mozart, mesmo Vila-Lobos, ou minha mais sedutora conversa ou ardente ladainha poderia erguer um centímetro sequer do caule de um alecrim de horta. Não invejo mais John Seymour e seu livro que por inúmeras vezes li sonhando um dia viver do chão!Agora, vamos fazer um passeio a pé, até a raiz da serra, como diz o Eulálio, no “Leite Derramado”, na casa de nossos amigos fraternos, Amanda e Zé, para postarmos essas impressões do dia; serão dois quilômetros e meio de uma bucólica estrada serpenteante, como manda o figurino das estradas de serras, bordada por pinheiros e batida por lufadas de vento frio. PS.: Acabou chovendo fora de época e hora. Tenho que postar amanhã segunda01/06/2009. Segunda – A lan de Silvianópolis estava fechada; nada estranho para uma cidadezinha de poucos habitantes e numa tarde de segunda! Amanhã em SP, no consultório, faço a postagem. Já era previsto problemas deste tipo...
Nada de extraordinário...
Me preparo para trabalhar em SP; amanheceu com temperatura de 3 graus; manhã frígida, porém, sem vento na serra, o que ajuda muito. Enquanto V. passa a roçadeira em volta da casa, cuido de alguns detalhes da minha estada semanal por lá – notebook, pendrives, agendas, endereços onde deverei ir para resolver assuntos profissionais, palestra, atendimentos psicológicos etc. Chegarei lá por volta das dezesseis e trabalharei até as vinte e duas. Nada de extraordinário...
sábado, 30 de maio de 2009
Felicidade honesta!
“Felicidade honesta” é o que minha paciente acreditava ter conseguido ao final da análise de sua existência. Por minha vez acredito poder falar de alegria honesta – estes contentamentos que de quando em vez rutilam na clareira de nosso existir. Um deles bem pode ser o que Vania sentiu ao surpreender uma lebre silvestre andando pela estradinha de terra, ladeada de lichias, bouganvilles, eucaliptos e o milharal – que vai de nossa morada ao local em que realizarei as “Experiências de Ser”. Quase posso ver aquele serzinho solitário, andando desconfiado, estalando os cotovelos das patas traseiras ao andar; a cada pulinho um balanço mais ou menos desarvorado das longas orelhas cinzas; e, finalmente, assustado, batendo as patas traseiras no chão e desaparecendo no milharal em zigue-zague – que por sinal, é seu restaurante de forças diárias. Esse pequeno vivente, ocupado com sua tarefa de viver, sob o sol frio do outono só pode, ao olhar do humano que o vê, representar uma pitada de contentamento existencial – mais uma dose de combustão afetiva no correr de mais uns dias na serra.
Quase acabei “Leite Derramado”! Chico usa uma técnica já bem conhecida de sobrepor memória, por conseguinte, tempo, e consegue nos carregar até quase o final, é o momento em que estou, interessado na vida do Eulálio, sujeito já centenário, cuja memória falha constantemente em nos apresentar sua vida. O tempo – memória – é a substância que o estilo de um romancista modela e nos apresenta. No “Leite Derramado” o efeito é pungente, comovente, mas frustrante – talvez seja o objetivo de Chico. Frustrante, porque não podemos nos fiar em nada, não podemos acreditar no romance... Talvez o livro de Chico Buarque não seja um romance! Uma saga familiar é um épico e não um romance.
Quase acabei “Leite Derramado”! Chico usa uma técnica já bem conhecida de sobrepor memória, por conseguinte, tempo, e consegue nos carregar até quase o final, é o momento em que estou, interessado na vida do Eulálio, sujeito já centenário, cuja memória falha constantemente em nos apresentar sua vida. O tempo – memória – é a substância que o estilo de um romancista modela e nos apresenta. No “Leite Derramado” o efeito é pungente, comovente, mas frustrante – talvez seja o objetivo de Chico. Frustrante, porque não podemos nos fiar em nada, não podemos acreditar no romance... Talvez o livro de Chico Buarque não seja um romance! Uma saga familiar é um épico e não um romance.
Ode ao Rio do Cervo!
ODE AO CERVO
Escrito em 18/01/2005 para a extinta ONG “KUMARI”,
que tinha se imposto como missão, entre muitas outras,
cuidar dos ribeiros e rios de Espírito Santo do Dourado.
As forças ideológicas da cidade não acolheram-na.
que tinha se imposto como missão, entre muitas outras,
cuidar dos ribeiros e rios de Espírito Santo do Dourado.
As forças ideológicas da cidade não acolheram-na.
Da crista da serra pode-se divisar o Rio do Cervo gingando sobre o próprio dorso, na intenção de sobrepujar os obstáculos que o terreno lhe impõe. Para adivinhar-lhe o leito basta seguir com os olhos umas escassas árvores que o ladeiam, como se fossem sentinelas mais que ciosas de seu dever. Tais poucas árvores vão fraquejando em sua missão de evitar a morte do rio por asfixia, fazendo força hercúlea para sombrear alguns ralos metros de margem. É quase certeza que o Cervo não se dá conta de que seu maior obstáculo, a maior de todas as provas por que vem passando, está também às suas margens – a presença de homens de bem que nada mais desejam além de um bem viver. Pessoas que estão na lida por seu quinhão de alegria e de pão; pessoas que se esfalfam de sol a sol buscando ganhar a vida e sair-se bem com a criação dos filhos. Por isso, conquistam palmo a palmo a terra no entorno do rio, até que possam levar seu gado a beber de suas águas ou plantam em todo espaço possível. Talvez o Rio do Cervo compreenda e justifique a atitude do morador ribeirinho em seu dever de dar sustento à família, mesmo que isso signifique abrir chagas em seu dorso, inflamar seu entorno, desfazer seu leito. E de longe se tem uma vista privilegiada da tragédia anunciada. O Cervo está a céu aberto, intoxicado pelos dejetos de gados e trabalhadores, com problemas de circulação de seu precioso líquido, e sem poder reclamar, tenta dar conta de sua natureza – arejar a terra, escoar o fluído que desce dos montes, reciclar a vida.
Em outros tempos o Cervo conseguiu dar conta de si e dos que se alimentavam dele. Ainda se ouve falar dos dias em que famílias inteiras podiam variar fartamente seu cardápio, pescando às suas margens. O Cervo já foi orgulhoso dessa proeza, apesar de suas singelas proporções; grande o suficiente para impor pontes, pequeno o bastante para despertar poesia. Mas, hoje em dia, cruzamos suas águas, sobre a Ponte do Cervo, teimando, insensíveis à sua dor, em não lançar um olhar, ainda que de esgueira, para suas águas enfraquecidas. Quem sabe porque achemos que é obrigação do pequeno Cervo sobreviver, sem ajuda, sem um olhar de piedade. Um olhar de poesia já seria alguma coisa, afinal de contas os poetas têm o poder de dizer os sentimentos de um rio. E os rios agradecem. Não nos enganemos com o que vemos. O Cervo é um ser vivo como qualquer outro, e como qualquer ser vivo acaba doente se não for amado, cuidado, estimulado. Se o Cervo pudesse olhar para seu futuro, na perspectiva atual, poderia divisar sua sina: um rio morto, putrefato, como seus parentes que tiveram o azar de banhar cidades. O Rio do Cervo já foi um jovem rio, seminal, em sua juventude florida, encapelado por morros cobertos por árvores nativas. Suas margens em áureos tempos já foi visitada por animais que hoje são conhecidos apenas em fotos, filmes ou de ouvir dizer – um sinal inequívoco de seu adoecimento.
Eis que o Cervo nasce nos contrafortes das serras de Ourofino e serpenteia sobre si mesmo lambiscando Senador José Bento onde recebe duro golpe da sorte, enquanto banha a cidade; depois adentra Borda da Mata, Congonhal, onde recebe mais um ferimento; serpenteia por Espírito Santo do Dourado, Pouso Alegre, Silvianópolis, e em seguida abraça o também desafortunado amigo Sapucaí e desaparecem nas águas de Furnas. Nessas suas andanças, nessas idas e vindas, o Cervo vai encontrando aquelas boas pessoas, valentes lutadoras, ajuizadas, cuidando da vida... Aquelas mesmas que são seus algozes, arrancando sua pele, deixando-o ao relento, empobrecido, desalmado, triste. Aquelas mesmas, que ao matarem o rio empobrecem a humanidade, entristecem o mundo, azaram os próprios filhos e netos, legando-lhes uma terra exaurida, um Rio do Cervo cuja fealdade envergonha a espécie humana. Mas, mesmo agonista, o Cervo tem dois sentimentos: perdoa-lhes a insanidade, por que eles não sabem o que fazem; e sorri amargo, conformado, porque ele é só mais um rio no sul das Gerais, sem contar os incontáveis olhos d’águas nascendo débeis e descarnado pelas serras em meio a desertas pastagens, escorregando desmilingüidos pela encostas de montes áridos, evaporando-se ao sol. Em reação se encolhem, escondendo-se dentro da terra, só para desacordarem – alguns para sempre; outros esperando que alguma dessas boas almas se lembrem de onde tiramos a vida, o sustento, a beleza, a poesia. Assim, vão perdendo potência até se tornarem um fio quase invisível de vida. E os homens, aqueles mesmos bons homens, tiram o chapéu, coçam a cabeça, intrigados, e honestamente se perguntam o que fez com que morressem ou batessem em retirada.
Algumas pessoas despertadas dessa dormência por organizações protetoras da natureza e ambientalistas devotados à causa do homem ecológico, vislumbram o que está ocorrendo. Então surgem amigos do rio e olhos d’água, das árvores e ar, dos bichos e pessoas; começam a fornecer sombra aos ribeiros plantando singelos arboredos, afastando as plantações de suas margens, cultivando com o cuidado de fazer curvas de nível, reduzindo ou eliminando o uso de venenos, plantando frutíferas para seduzir bichos do chão e do céu. Outros são amigos das serras, morros e encostas, retirando de suas cristas o gado e deixando crescer a sagrada cobertura arbórea. Outros ainda conversam com adultos e crianças, na esperança de despertarem-lhes o amor à natureza, como uma semente de árvore plantada no coração.
São tantas as missões dentro da grande missão de conscientizar a população para a vida ecológica, que há espaço para se organizar muitos mais movimentos ambientalistas dentro da escola, no lar, nos clubes, nas associações de bairro e principalmente que cada pessoa se veja como uma célula benfeitora do ambiente. A missão dessas instituições, ainda que localmente fundamentadas, se fará sentir em todo o planeta, especialmente nos próximos sombrios anos para o ambiente mundial. É de se esperar que elas não esmoreçam; é de se esperar que pessoas citadinas, alhures, por motivos da vida, mas tocadas pelas necessidades dessas organizações, disponibilizem proventos e materiais variados para que tais projetos floresçam e dêem frutos dos quais a humanidade possa fruir. Homens e mulheres que vivem dessa paixão pela natureza – uns a campo e outros nas cidades – podem formar um solo rico onde todos podem se nutrir. Aí, então, do calor dessa ação conjuminada, vicejarão ricas florestas, rios vivos e pessoas melhores. E nos orgulharemos uma vez mais de cantar...
Nossos bosques têm mais vida, nossa vida em teu seio, mais amores...!
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Na saída do metrô!
A mulher, mais de setenta anos, vestida como se fosse ao chá das cinco de uma família inglesa, olha para a outra - mesma idade, negra, vestida de tecidos ricos - e diz: " O que precisamos é que volte a ditadura! Naquela época eu andava sem medo pelas ruas de São Paulo. Nove de Julho, Paulista, centro da cidade...! Hoje é essa esbórnia, políticos corruptos, molequinhos me puxando pela saia para pedir dinheiro!
Não são cinco da tarde. Na verdade são sete e trinta da manhã, na saída do metrô. Elas deixam a escada rolante, eu também. Esqueço o assunto, pois tenho que atender meus pacientes em 20 minutos... Ditadura... Medo de pivetes... É isso... Preciso ir!
Não são cinco da tarde. Na verdade são sete e trinta da manhã, na saída do metrô. Elas deixam a escada rolante, eu também. Esqueço o assunto, pois tenho que atender meus pacientes em 20 minutos... Ditadura... Medo de pivetes... É isso... Preciso ir!
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Trabalhando dois dias em São Paulo!
Ser psicanalista em São Paulo é a melhor experiência que eu poderia ter da vida megacitadina e, creio, um modo bastante bom de poder tentar entender as novas angústias do cidadão de Pouso Alegre-MG. O cidadão de PA já sente a atmosfera de uma vida em que os espaços são exíguos, os sonhos extensos, as fantasias fragmentárias, as vicissitudes múltiplas...
terça-feira, 26 de maio de 2009
O pomar e o deus dos cítricos!
Os últimos dias têm sido de trabalho no limite de nossas forças. A rotina é levantar cedo, café reforçado, passar a roçadeira em brachiária de um metro de altura, deixando os assa-peixes e alecrins do mato para roçar na foice. Vania junta o capim em volta das fruteiras com uma enxada grande e limpa um círculo à volta delas. Isso se faz lentamente, por mais de um hectare de pomar. Suor em bicas; braços doloridos; punhos dormentes; satisfação plena! Os quatro do apocalipse, nossos amiguinhos, sempre juntos.
Uma macieira, três pés de limão siciliano, três pés de limões do mato, vários pés de laranja, não resistiram ao ataque de brocas. Ficam lá com seus braços secos, esgalhados, desfolhados, pedindo a clemência dos céus... mas nada irá acontecer. Suas preces não surtirão efeito. Nenhum deus dos cítricos intervirá, pois as brocas também são filhas de deus. Resta-lhes o milagre de um humano, por interesse bastante datado e situado, julgar que um deles dele sobreviver... Então, com o heroísmo daqueles que sabem que a vida quer viver, mas que precisam decidir quem sobreviverá, ciosamente matamos as brocas. Ou salvamos as laranjeiras, o que dá no mesmo.
Daqui trinta dias podaremos as uvas, macieiras, pereiras, figos, caquizeiros, quiwizeiros e outros. Hoje à noite, em São Paulo, dormindo ao som do murmúrio das ruas e apartamentos, terei saudade do silêncio e do corpo quente de V. neste outono frio do Cervo... V. para não arriscar a vida (há ainda muita jararaca e cascavel no pomar) roçando sozinha, cuidará de consertos gerais por perto da morada...
Uma macieira, três pés de limão siciliano, três pés de limões do mato, vários pés de laranja, não resistiram ao ataque de brocas. Ficam lá com seus braços secos, esgalhados, desfolhados, pedindo a clemência dos céus... mas nada irá acontecer. Suas preces não surtirão efeito. Nenhum deus dos cítricos intervirá, pois as brocas também são filhas de deus. Resta-lhes o milagre de um humano, por interesse bastante datado e situado, julgar que um deles dele sobreviver... Então, com o heroísmo daqueles que sabem que a vida quer viver, mas que precisam decidir quem sobreviverá, ciosamente matamos as brocas. Ou salvamos as laranjeiras, o que dá no mesmo.
Daqui trinta dias podaremos as uvas, macieiras, pereiras, figos, caquizeiros, quiwizeiros e outros. Hoje à noite, em São Paulo, dormindo ao som do murmúrio das ruas e apartamentos, terei saudade do silêncio e do corpo quente de V. neste outono frio do Cervo... V. para não arriscar a vida (há ainda muita jararaca e cascavel no pomar) roçando sozinha, cuidará de consertos gerais por perto da morada...
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Outono e tanto!
Estou em PA, logo cedo. Aproveito para blogar! Vejo que nem sempre conseguirei postar - quero dizer diariamente - assim, terei que fazer um esquema outro onde possa blogar, digamos, dia sim dia não... Está claro que os problemas para levar internet até o topo da serra se estenderá por tempo que não sei calcular. Ao descer a serra me deparei com o rio do Cervo coberto por espessa cerração, produto do ataque de um sol brilhante à camada de ar frio deste outono (5 graus). Carros rolando devagar, luzes acessas, todo cuidado, com as pessoas dos sítios e chácaras no entorno da estradinha que vai até PA.
Mais tarde falarei com Tonin do Teatro e Suely do Museu - isso tem a ver com o artigo que escrevo sobre os processos identitários do sujeito pouso alegrense e sua relação com o teatro municipal - numa pesquisa para a Universidade do Vale do Sapucaí. Conto outro dia! Acho que postarei esta parte de minha vida nos bosques (reflexões mais centradas em minhas leituras) dentro deste blog - http://levileonel.blogspot.com e as reflexões em geral, centradas no EXISTIR fora do centro urbano no http://www.avidanaserradocervo.blogspot.com
Vamos ver o que se pode fazer.
Mais tarde falarei com Tonin do Teatro e Suely do Museu - isso tem a ver com o artigo que escrevo sobre os processos identitários do sujeito pouso alegrense e sua relação com o teatro municipal - numa pesquisa para a Universidade do Vale do Sapucaí. Conto outro dia! Acho que postarei esta parte de minha vida nos bosques (reflexões mais centradas em minhas leituras) dentro deste blog - http://levileonel.blogspot.com e as reflexões em geral, centradas no EXISTIR fora do centro urbano no http://www.avidanaserradocervo.blogspot.com
Vamos ver o que se pode fazer.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
De Volta à Serra do Cervo!
Enfim, depois de problemas comuns a viagens de última hora e com o analfabetismo em blogs, conseguimos terminar nossa curta viagem e postar hoje no blog. V. e eu fizemos um novo itinerário pelas serras de Minas até Monte Santo; antes íamos até Alfenas, passando por Silvianópolis, Poço Fundo, Machado, desviávamos em direção oeste passando por Muzambinho, Guaxupé e chegávamos ao sítio do Mandú antes de entrarmos na cidade.
Desta vez decidimos, a conselho de Zé Maria e Amanda, ir em direção a Poços de Caldas, passando por Congonhal, Caldas e (depois) Divinolandia, São José do Rio Pardo, Mococa, já em terreno paulista, e depois a Monte Santo. A viagem foi um passeio fantástico, mas em termos de eficiência, tempo gasto, quilometragem não foi vantajoso... É um daqueles itinerários de turismo dos gratificantes!! Serras muito altas e deslumbrantes, rios cristalinos...
Enfim, voltamos com saudades do "chefinho", depois de trinta e seis horas fora de nossos bosques! Ele nos recebeu com seu séquito de subalternos com a alegria contagiante de sempre!
Desta vez decidimos, a conselho de Zé Maria e Amanda, ir em direção a Poços de Caldas, passando por Congonhal, Caldas e (depois) Divinolandia, São José do Rio Pardo, Mococa, já em terreno paulista, e depois a Monte Santo. A viagem foi um passeio fantástico, mas em termos de eficiência, tempo gasto, quilometragem não foi vantajoso... É um daqueles itinerários de turismo dos gratificantes!! Serras muito altas e deslumbrantes, rios cristalinos...
Enfim, voltamos com saudades do "chefinho", depois de trinta e seis horas fora de nossos bosques! Ele nos recebeu com seu séquito de subalternos com a alegria contagiante de sempre!
sábado, 16 de maio de 2009
A VIDA NOS BOSQUES
Walden
Numa manhã nevoenta e fria da primavera de 1845, na encosta do bosque de pinheiros que ladeava o lago Walden, em Concord, Massachusetts, nos EUA, Thoreau iniciou a aventura que iria marcar gerações e gerações, por mais de século e meio, ecoando até nossos dias. Munido de um machado e ferramentas emprestadas construiu sua casa em uma colina de face para o lago cujas águas se mantinham congeladas por grande parte da estação. Testemunha silenciosa do surgimento da modesta moradia na encosta de uma sua colina, o bosque recuperava-se da letargia de inverno sob o som seco das marteladas que juntavam caibros, vigas e tábuas que dariam acolhida ao novo morador. Nas margens do lago o inusitado ermitão pretendia “viver em profundidade e sugar toda a medula da vida” num modo de subsistência, contemplação e vida no seio da natureza. Representante vívido de um movimento filosófico cuja proposta essencial tratava da simplicidade voluntária, da desobediência civil e da resistência pacífica, motores intelectuais que inspiraram Gandhi1 e os hippies, Thoreau era um homem que acreditava que os monoteísmos promovem um corte do homem com a natureza, levando-o a destruir seu lar, por causa de promessas paradisíacas e redenção de pecados, entre os quais o desrespeito à natureza. Homem de formação clássica, tendo exercido o magistério, seguiu carreira de escritor e conferencista, sempre ocupado em delatar o vazio da vida nas sociedades dominadas pelas religiões e pelo belicismo, particularmente a americana. O “rebelde de Concord”, escreveu Walden, ou a vida nos bosques como um inventário dessa experiência, bem como um libelo contra o consumismo – crítica que torna-se cada vez mais atual. Como um profeta inspirado pela deusa natureza, centrou sua atenção em listar as necessidades básicas do homem, demonstrando que o mercado (na época ele falava em civilização) as distorce e inventa outras supérfluas que levam o sujeito a uma liturgia do consumo, perversa e auto-replicante. Sua obra se tornou a cartilha, ainda atual, de uma labuta contra o excesso de bens que empobrecem o homem e enfraquecem seu caráter.
Walden Two
A experiência de Henry David Thoreau tocou vivamente uma outra pessoa, dessa vez um psicólogo americano, que escreveu uma utopia educacional chamada Walden II2, usando sua teoria psicológica behaviorista para construir uma comunidade com alguns dos princípios escritos por Thoreau. Se na primeira obra foi descrita a experiência solitária de um romântico transcendentalista, junto à natureza, a segunda obra se tratava de uma ficção onde Burrhus Frederick Skinner propõe um modo de vida com os mesmos propósitos, sem palavras de ordem religiosas, para uma nova sociedade. Em Thoreau temos o homem solitário, heróico, apegado à verdade como guia da consciência moral; em Skinner, a sociedade comunal em que cada indivíduo vive uma partilha das experiências pessoais, no intento de engrandecer-se individualmente e como ser social. O princípio geral está na crítica à insânia da vida metropolitana e a eleição corajosa de uma vida simples, sem o consumo aleatório e sem a tensão da megacidade.
Serra do Cervo – Sul de Minas – Walden três?
Em meados de 1984, trabalhando para a Global Editora como desenhista e capista de livros, tive que ler algo da obra de Thoreau3, recém traduzida, para criar sua capa, o logotipo da coleção Armazém do Tempo e a arte final, escolhendo as fontes que mais se adequariam à atmosfera da obra. Tudo que fiz foi aprovado, menos a ilustração de capa, o que foi uma sorte! Na intenção de propor uma outra ilustração me vi na contingência de lê-la por inteiro. Fiquei vivamente tocado pelo que li; encontrei-me retratado lá, pelo menos em algumas convicções. O que ia “ouvindo” do autor me era estranhamente familiar – desde minhas experiências como escoteiro pela orla silvestre do norte do Paraná, aprendendo meios de sobrevivência em ambiente selvagem, até a experiência de maneabilidade física por meio de extenuantes exercícios de combate na Serra do Mar, como soldado do regimento de cavalaria mecanizada de São Paulo. A idéia se resumia, como combatente, em conseguir sobreviver o melhor possível em condições precárias de terreno e de condições climáticas; como escoteiro, a idéia era viver de modo consideravelmente confortável no meio silvestre, transformando as precariedades do lugar em uma moradia. Mas o gosto inicial pelos bosques vinha de uma infância entre matas, rios e lagos, nos arredores de Apucarana e dos passeios com a “madrinha” Pina4 até as terras dos meus tios-avós em Pirapó. Filho e neto de mineiros, fortuitamente nascido paranaense, assim que pude, mais exatamente em 1994, adquiri uma extensão da Serra do Cervo, para lá instalar um centro existencial5, onde pudesse viver segundo as premissas de Thoreau, bem como fazer funcionar um centro de difusão de intervenções psicológicas, acessível ao interessado em geral. Os bosques da Serra do Cervo são a invenção de duas pessoas, como foi o Ashram; Vania e eu. Para isso, unimos três paixões que tornaram nosso walden habitável: o amor de esposos, o respeito à natureza e a paixão pelo trabalho existencial com nossos alunos, pacientes e clientes. Neste blog trataremos do cotidiano que borda nossa existência nos Bosques da Serra do Cervo.
16/05/09 - A serra do Cervo amanheceu brilhante, lambida pelos primeiros raios de sol, cálidos e insistentes; logo aqueceu ao ponto de tornar-se coberta de espessa neblina, que se estendeu até o meio da manhã. Levantei cedo e depois de um suco de laranja, fiz os alongamentos usuais, desci pela orla do cafezal coberto de grãos rubiáceos e tomei a estrada que vai até o alto da serra. Costumo correr primeiro subindo-a para que possa ter forças para descer, quando o peso do corpo ajuda a “rolar” de volta. Na ida passei por uma cascavel morta; sua travessia do asfalto terminou tragicamente. Isso me remeteu à lembrança do encontro que tivemos a três dias com uma jararaca tomando sol sobre a brachiária exatamente onde Vania ia roçar. Era a maior entre todas as que vimos até hoje; fora a adrenalina de assusta-la de volta para sua toca, nosso humor de sempre nos fez chama-la de “a mãe de todas”. Com estes pensamentos voltei para casa. Ao chegar, dois jacus, que migraram para aqui depois de nossa chegada e da plantação de pomares e árvores, desceram no abacateiro a quatro metros da porta de casa. Foi tocante ver que aquele casal estava investigando um bom local para sua morada perto das frutas que destinamos a eles. “Que façam um ninho bem perto de nós”, pensei. Preparei a roçadeira e subimos o pomar que se espalha numa encosta não muito, mas suficientemente íngreme, para tirar o fôlego, tal como fora correr serra acima. Ao roçar, fomos juntando o capim no entorno das fruteiras – começando pelas mexeriqueiras e laranjeiras. Talvez ainda hoje voltemos a roçar e cheguemos até o jamelão e os abacateiros... Trabalho pesado; suor a ensopar a roupa; mas resultado muito prazeroso... As laranjas amadurecem e está na hora dos cuidados de inverno para que dêem frutos pelo inverno e parte do verão.
Para descansar do trabalho na terra e dos afazeres domésticos, leremos. Acabei de ler o Tratado de ateologia, algumas críticas literárias de Sartre, um capítulo sobre memória e história, da Onice; Ontem iniciei o Tratado da eficácia; conversei com Onice sobre meu texto, que tem o Teatro Municipal de Pouso Alegre como corpus. Vania acabou de ler Leite derramado e vai começar o Tratado de ateologia.
Amanhã, domingo, viajaremos a Monte Santo de Minas para buscar nossas roupas, ferramentas de lavoura etc. que ficaram no sítio acabamos de reformar para vender. Serão 230 quilômetros de ida. Deixaremos o Soneca Golden Boss, o Rabicho Bicho, a Kely Lulú e a Gabi Blue cuidando dos bosques até depois de amanhã.
1 Uma obra que pode falar da saga gandhiana seria
2 Walden II, uma sociedade do futuro (E.P.U. 1978). Li o livro na primavera de 1979; Skinner o publicou em 1948.
3 Walden, ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau. A versão que fiz a arte gráfica foi da 1ª edição, de 1984, Editora Global.
4 Era minha avó materna, Josefina Colauto, depois da Luz, que queria ser chamada por “madrinha”, para não parecer, segundo me lembro, mais idosa do que era de fato. Espero não estar manchando sua memória, contando esta intimidade.
5 Esse centro vivencial é a versão rural do Ashram – Centro de Estudos da Medicina, Arte e Filosofia da Índia Antiga, que funcionou em São Paulo entre os anos de 1990 e 2002. Hoje, aqueles estudos se ampliaram com a aplicação do conhecimento cura sui dos filósofos gregos e das técnicas de si indianas, trabalho que acabei publicando em livro (Energia vital, Ed. Roka, 1999).
Numa manhã nevoenta e fria da primavera de 1845, na encosta do bosque de pinheiros que ladeava o lago Walden, em Concord, Massachusetts, nos EUA, Thoreau iniciou a aventura que iria marcar gerações e gerações, por mais de século e meio, ecoando até nossos dias. Munido de um machado e ferramentas emprestadas construiu sua casa em uma colina de face para o lago cujas águas se mantinham congeladas por grande parte da estação. Testemunha silenciosa do surgimento da modesta moradia na encosta de uma sua colina, o bosque recuperava-se da letargia de inverno sob o som seco das marteladas que juntavam caibros, vigas e tábuas que dariam acolhida ao novo morador. Nas margens do lago o inusitado ermitão pretendia “viver em profundidade e sugar toda a medula da vida” num modo de subsistência, contemplação e vida no seio da natureza. Representante vívido de um movimento filosófico cuja proposta essencial tratava da simplicidade voluntária, da desobediência civil e da resistência pacífica, motores intelectuais que inspiraram Gandhi1 e os hippies, Thoreau era um homem que acreditava que os monoteísmos promovem um corte do homem com a natureza, levando-o a destruir seu lar, por causa de promessas paradisíacas e redenção de pecados, entre os quais o desrespeito à natureza. Homem de formação clássica, tendo exercido o magistério, seguiu carreira de escritor e conferencista, sempre ocupado em delatar o vazio da vida nas sociedades dominadas pelas religiões e pelo belicismo, particularmente a americana. O “rebelde de Concord”, escreveu Walden, ou a vida nos bosques como um inventário dessa experiência, bem como um libelo contra o consumismo – crítica que torna-se cada vez mais atual. Como um profeta inspirado pela deusa natureza, centrou sua atenção em listar as necessidades básicas do homem, demonstrando que o mercado (na época ele falava em civilização) as distorce e inventa outras supérfluas que levam o sujeito a uma liturgia do consumo, perversa e auto-replicante. Sua obra se tornou a cartilha, ainda atual, de uma labuta contra o excesso de bens que empobrecem o homem e enfraquecem seu caráter.
Walden Two
A experiência de Henry David Thoreau tocou vivamente uma outra pessoa, dessa vez um psicólogo americano, que escreveu uma utopia educacional chamada Walden II2, usando sua teoria psicológica behaviorista para construir uma comunidade com alguns dos princípios escritos por Thoreau. Se na primeira obra foi descrita a experiência solitária de um romântico transcendentalista, junto à natureza, a segunda obra se tratava de uma ficção onde Burrhus Frederick Skinner propõe um modo de vida com os mesmos propósitos, sem palavras de ordem religiosas, para uma nova sociedade. Em Thoreau temos o homem solitário, heróico, apegado à verdade como guia da consciência moral; em Skinner, a sociedade comunal em que cada indivíduo vive uma partilha das experiências pessoais, no intento de engrandecer-se individualmente e como ser social. O princípio geral está na crítica à insânia da vida metropolitana e a eleição corajosa de uma vida simples, sem o consumo aleatório e sem a tensão da megacidade.
Serra do Cervo – Sul de Minas – Walden três?
Em meados de 1984, trabalhando para a Global Editora como desenhista e capista de livros, tive que ler algo da obra de Thoreau3, recém traduzida, para criar sua capa, o logotipo da coleção Armazém do Tempo e a arte final, escolhendo as fontes que mais se adequariam à atmosfera da obra. Tudo que fiz foi aprovado, menos a ilustração de capa, o que foi uma sorte! Na intenção de propor uma outra ilustração me vi na contingência de lê-la por inteiro. Fiquei vivamente tocado pelo que li; encontrei-me retratado lá, pelo menos em algumas convicções. O que ia “ouvindo” do autor me era estranhamente familiar – desde minhas experiências como escoteiro pela orla silvestre do norte do Paraná, aprendendo meios de sobrevivência em ambiente selvagem, até a experiência de maneabilidade física por meio de extenuantes exercícios de combate na Serra do Mar, como soldado do regimento de cavalaria mecanizada de São Paulo. A idéia se resumia, como combatente, em conseguir sobreviver o melhor possível em condições precárias de terreno e de condições climáticas; como escoteiro, a idéia era viver de modo consideravelmente confortável no meio silvestre, transformando as precariedades do lugar em uma moradia. Mas o gosto inicial pelos bosques vinha de uma infância entre matas, rios e lagos, nos arredores de Apucarana e dos passeios com a “madrinha” Pina4 até as terras dos meus tios-avós em Pirapó. Filho e neto de mineiros, fortuitamente nascido paranaense, assim que pude, mais exatamente em 1994, adquiri uma extensão da Serra do Cervo, para lá instalar um centro existencial5, onde pudesse viver segundo as premissas de Thoreau, bem como fazer funcionar um centro de difusão de intervenções psicológicas, acessível ao interessado em geral. Os bosques da Serra do Cervo são a invenção de duas pessoas, como foi o Ashram; Vania e eu. Para isso, unimos três paixões que tornaram nosso walden habitável: o amor de esposos, o respeito à natureza e a paixão pelo trabalho existencial com nossos alunos, pacientes e clientes. Neste blog trataremos do cotidiano que borda nossa existência nos Bosques da Serra do Cervo.
16/05/09 - A serra do Cervo amanheceu brilhante, lambida pelos primeiros raios de sol, cálidos e insistentes; logo aqueceu ao ponto de tornar-se coberta de espessa neblina, que se estendeu até o meio da manhã. Levantei cedo e depois de um suco de laranja, fiz os alongamentos usuais, desci pela orla do cafezal coberto de grãos rubiáceos e tomei a estrada que vai até o alto da serra. Costumo correr primeiro subindo-a para que possa ter forças para descer, quando o peso do corpo ajuda a “rolar” de volta. Na ida passei por uma cascavel morta; sua travessia do asfalto terminou tragicamente. Isso me remeteu à lembrança do encontro que tivemos a três dias com uma jararaca tomando sol sobre a brachiária exatamente onde Vania ia roçar. Era a maior entre todas as que vimos até hoje; fora a adrenalina de assusta-la de volta para sua toca, nosso humor de sempre nos fez chama-la de “a mãe de todas”. Com estes pensamentos voltei para casa. Ao chegar, dois jacus, que migraram para aqui depois de nossa chegada e da plantação de pomares e árvores, desceram no abacateiro a quatro metros da porta de casa. Foi tocante ver que aquele casal estava investigando um bom local para sua morada perto das frutas que destinamos a eles. “Que façam um ninho bem perto de nós”, pensei. Preparei a roçadeira e subimos o pomar que se espalha numa encosta não muito, mas suficientemente íngreme, para tirar o fôlego, tal como fora correr serra acima. Ao roçar, fomos juntando o capim no entorno das fruteiras – começando pelas mexeriqueiras e laranjeiras. Talvez ainda hoje voltemos a roçar e cheguemos até o jamelão e os abacateiros... Trabalho pesado; suor a ensopar a roupa; mas resultado muito prazeroso... As laranjas amadurecem e está na hora dos cuidados de inverno para que dêem frutos pelo inverno e parte do verão.
Para descansar do trabalho na terra e dos afazeres domésticos, leremos. Acabei de ler o Tratado de ateologia, algumas críticas literárias de Sartre, um capítulo sobre memória e história, da Onice; Ontem iniciei o Tratado da eficácia; conversei com Onice sobre meu texto, que tem o Teatro Municipal de Pouso Alegre como corpus. Vania acabou de ler Leite derramado e vai começar o Tratado de ateologia.
Amanhã, domingo, viajaremos a Monte Santo de Minas para buscar nossas roupas, ferramentas de lavoura etc. que ficaram no sítio acabamos de reformar para vender. Serão 230 quilômetros de ida. Deixaremos o Soneca Golden Boss, o Rabicho Bicho, a Kely Lulú e a Gabi Blue cuidando dos bosques até depois de amanhã.
1 Uma obra que pode falar da saga gandhiana seria
2 Walden II, uma sociedade do futuro (E.P.U. 1978). Li o livro na primavera de 1979; Skinner o publicou em 1948.
3 Walden, ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau. A versão que fiz a arte gráfica foi da 1ª edição, de 1984, Editora Global.
4 Era minha avó materna, Josefina Colauto, depois da Luz, que queria ser chamada por “madrinha”, para não parecer, segundo me lembro, mais idosa do que era de fato. Espero não estar manchando sua memória, contando esta intimidade.
5 Esse centro vivencial é a versão rural do Ashram – Centro de Estudos da Medicina, Arte e Filosofia da Índia Antiga, que funcionou em São Paulo entre os anos de 1990 e 2002. Hoje, aqueles estudos se ampliaram com a aplicação do conhecimento cura sui dos filósofos gregos e das técnicas de si indianas, trabalho que acabei publicando em livro (Energia vital, Ed. Roka, 1999).
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