Adeus Serra do Cervo!

Você que lê este blog já me viu desistir de escrever nele uma outra vez, mas pelo motivo de não encontrar uma história que valesse a pena. Depois voltei atrás por saudades de falar de terra, de bichos e de meu estado de espírito nas serras. Bem, agora é definitivo! Não voltarei mais a este espaço para descrever minha lida pelas serras do Cervo, simplesmente porque não mais estarei por lá. Se vier a escrever sobre minha longa jornada por cada recanto daquele refúgio o será em outro blog, mas para dizer das saudades, reminiscências e imagens indeléveis desta vivência. Este blog será como uma árvore esquecida na retina do viajante em um trem que dispara pelo campo. Ou como mais uma lápide no grande cemitério da web. Grato àqueles que me brindaram com sua leitura. Antes de fechar de vez este espaço farei uma última blogagem, em respeito aos que me seguem. Manterei, limitadamente, o blog http://levileonel.blogspot.com

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bom ano novo!

Último dia do ano! A chuva arrefeceu...
A fazer, nada de especial. Acordamos cedo, uma vez que ontem dormimos cedo. Café da manhã usual; alguns exercícios físicos; Vania começou a preparar uma petição inicial com pedidos de ressarcimento por dano moral a sua cliente.
Eu e Kelly Lulu Star fomos correr lá em baixo na rodovia, como de costume. Na ida passamos por uns casais de bugios com seus filhotes enroscados no peito, nas costas e nos galhos das árvores. Fico em silêncio, enquanto eles reclamam muito, talvez dos latidos de Kelly. Ato contínuo, se escondem como manda o figurino dos macacos. Fazia tempo que não via bugios tão próximos da estrada e das casas! Talvez o feriado e a região em silêncio ajude a explicar o fato. Além de um bananal bastante fértil, é claro!
Mais algumas passadas e uma dupla de pica-paus de cabeça alaranjada, parecidos com o chen-chen, porém menores, comem formiga-da-umbaúba. É uma batida ritmada e seca no tronco da Umbaúba, talvez para eriçar os ânimos da pequena formiga, considerada uma das mais violentas e venenosas da mata atlântica. Já fui pego por uma dúzia delas! Como se diz por aqui, meu couro ardeu por horas, inchado e dolorido. É um perfeito consórcio entre a Umbaúba e a formiga, que protege a planta e mora em seu interior sem destruí-la; é maravilhoso!
Continuamos a corrida... Passei por um caramujo que desliza silenciosamente pela brita do asfalto. Pego-o para evitar que termine como um outro que há dias vira esmagado pelos pneus de algum carro. Me chama atenção que, em quinze anos somente tenha visto estes dois caramujos dos grandes (em geral os que vivem na serra tem pouco mais de um centímetro de diâmetro – sua casca – e três centímetros o corpo vivo). Este, pelo contrário, a parte viva tem 20 centímetros! E sua casca enche minhas mãos em concha!
Tomei a decisão de deixá-lo em em lugar estratégico para depois da corrida levá-lo para minha casa e deixá-lo bem seguro perto das minas de água.
Continuamos...
Passei por sobre uma cobra verde morta no asfalto e pensei que fiz bem em livrar o caramujo deste destino. Olhei-a penalizado. Chegara a adultice, com pelo menos quarenta centímetros de cabeça a cauda; cabeça inocente, sem aquelas formas das temíveis jararaca e cascavel. Resolvera se aventurar do outro lado da rodovia! Talvez tenha feito isso por toda uma vida antes desta manhã fatídica.
Subimos a serra até próximo do bar do Ademir, alguns quilômetros depois e serra acima... Voltamos correndo devagar para eu achar o caramujo. Peguei-o na mão e o virei de “pernas” para o ar facilitando seu transporte. Encolheu suas antenas e o farto “bigode”, limbentos. Ao subir por um atalho que ladeia o cafezal fui seguido por umas gralhas de rabo branco desconfiadas que fossemos mexer com seus filhotes escondidos nas amoreiras.
Chegamos, mostrei para Vania meu achado, interrompendo sua petição, e fui deixar o caramujo em lugar seguro. Antes disso, Gabi, Rabicho e Soneca foram verificar de que se tratava; cheiraram longamente o bicho e desistiram de considera-lo uma caça. Assisti tudo um pouco tenso, mas como Kelly não tinha tido nenhum interesse, presumi que assim seria com os outros. Mas Gabi ainda é uma filhote e bem poderia se empolgar.
Quando disse a Vania que descreveria a manhã deste último dia, como um dia comum, por aqui, fiquei com a sensação de que poderia ser considerado não tão comum assim. Mas é a pura verdade! Essas coisas acontecem por aqui e não são extraordinárias.
Espero que o ano de 2010 continue assim: comum, sem grandes surpresas; Vania com muitas petições e eu podendo correr serra acima na manhã de cada dia que se apresentar.
Para os que me lêem um grande e extraordinariamente bom ano novo!


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

As chuvas de Natal e os novos ventos da serra!

Chove! Como sempre choveu por aqui nos dias próximos do Natal! Época boa para descanso, terapia do sono e retiro do azáfama das cidades, seja São Paulo ou Pouso Alegre. E para ouvir o som do vento! Pois é! Dias atrás me dei conta de que estava ouvindo um susurro diferente vindo do cimo da serra. Era coisa nova! Nada de abelhas fazendo enxameação ou algum avião distante com seu ronco surdo. Tratava-se do som das árvores da serra! Foi emocionante, tocante mesmo. Para um desavisado isso parece meio sem cabimento, mas deixe-me explicar.
Há anos espero por esse acontecimento, coisa que ocorre apenas e tão somente se as árvores tem um tamanho adequado - grande o suficiente para ter copas folhosas e de bom diâmetro, além de canelas compridas sustentando suas saias verdes. Quando aqui desembarcamos, em 1993, podia se ver, de longe o tapete aveludado das pastagens; bonito, mas desértico. Apenas alqueires de capim para o gado pastando silentes e calmos. Nestes anos a vida floresceu por aqui. Plantamos milhares de árvores e deixamos alqueires de mata nativa e ciliar, bem como plantamos fruteiras por todo o terreno - para nós e os bichos que a cada dia migram para cá.
Agora, depois de uma espera longa e ansiosa, já podemos ouvir o roçar poderoso do vento nas longas pernas das árvores! Só os deuses podem saber com que intenções! Suponho que boas, mas posso mesmo garantir que de minha parte a coisa vai bem.
O Natal se foi, a chuva deu uma pausa e agora é continuar a obra da natureza, melhor dito, deixarmos que ela erga mais e mais suas grandes guardiãs verdes ao sopro do vento.
Aos amigos daqui e de lá, muitas paisagens bonitas! Encher os olhos do belo é o que desejo a todos!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Elmo e as Armas de Joaquim Tobias!

Sexta pegamos o carro e fomos a Espírito Santo do Dourado, onze quilômetros distante de casa. Uma viagem curta e rápida por estradas poeticamente sinuosas, belas como uma pintura de Duchamp. Anoitecia. Os paralelepípedos da cidadezinha já se umedeciam de calmo sereno. As cores tendiam ao pastel. Estávamos em silêncio; sem saber exatamente o que se passava conosco. Que sentimentos tínhamos, vagando por nossos espíritos?

Chegamos em uma esquina; estacionamos perto de uma casa azul. Quatro ou cinco homens sentados na calçada, em frente a casa, nos olharam longamente, a mim e Vania, enquanto nos dirigíamos até lá. Olhavam sem ansiedade ou constrangimento; sabiam porque estávamos lá. Não havia mistério, talvez alguma dor em certo canto de nossos rostos, uma certa rigidez nas faces, mas nada muito vincado. Nos olhos certo aquecimento do espírito, nos gestos um comedimento que eu já experimentara três ou quatro vezes na vida. Tinha a ver – eu o sabia muito bem – com os ritos da morte. Daqueles homens conhecíamos o João. A fala calma, e de certo modo espremida, sai do peito de Vania: O Zé ligou falando do seu Joaquim; que caíra nas pedras...

O João: Não, Vania, foi entre o primeiro e o segundo portão lá da casa de vocês.

O outro: Falei para o Zé que não podia ficar daquele jeito, que a vida é assim mesmo, que tem que erguer a cabeça, que...

O João: Ele teve dores há uma semana, mas não quis ao médico...

Vania: Eram amiguinhos, dividiam tudo entre si, eram sócios em tudo que trabalhavam,  todas as rocinhas, do milho do feijão...

O outro: Eram...

João: Eram mesmo...

Eu: Tenho pena do Zé, que ficará sozinho...

Vania: Como deve ser difícil para o Zé, vê-lo ali naquela situação...

João: Encontrei ele lá no Ademir, cabeça baixa chorando, andando devagar...

O outro: Falei para o Zé que não podia ficar daquele jeito, que a vida é assim mesmo, que tem que erguer a cabeça, que...

Vania: O que será de seu cão e seus gatos e galinhas e vaquinhas e cavalinho...
Entramos na casa, sorumbáticos, silenciosos. Olhamos seu rosto sereno, quase tão sereno quanto quando andava lá em nosso bosque trabalhando sua roça de milho em sociedade com o Zé; Joaquim estava de camisa nova, uma daquelas que jamais usou no dia a dia; o caixão não lhe caía bem, não sei porque. Digo: Prefiro ficar com a imagem dele na serra. Vania desvia duas lágrimas com as costas das mãos.
Embaixo do caixão, colocados lado a lado, seu chapéu de palha amassado, suas botinas rijas e desgastadas e uma sacola com pertences. Penso - é incorrigível em mim - que faltava sua enxada amolada e um machado; tal como se enterravam os guerreiros em certas culturas, com seus pertences de combate. Do Joaquim vi seu elmo usado contra o sol, as botinas que lhes protegeram os pés da rudeza do chão. Mentalmente coloquei ali sua enxada e machado - as armas de um quixote lutador contra ervas daninhas e na faina de corrigir o chão para ali enfiar sementes. Também como Dom Quixote, Joaquim lutava contra alguns mal-feitos e desrazões - só não sei quais.
Adeus Joaquim Tobias! É melancólico que seus pés nunca mais amassem os torrões carpidos nas bordas da serra do Cervo!

domingo, 15 de novembro de 2009

O diário de Roquentin e o boato de si mesmo!

“É isso que tem que ser evitado; é preciso não colocar estranheza onde não existe nada. Creio que é este o perigo. Quando se faz um diário: exagera-se tudo, vive-se à espreita, deforma-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, de um momento para outro – e precisamente em relação a esta caixa ou a qualquer outro objeto – experimentar novamente a impressão de anteontem. Tenho que estar sempre preparado; do contrário, ela mais uma vez me escaparia. [...] Naturalmente, já não posso escrever nada de preciso sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou muto distanciado delas; só posso dizer que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que se chama comumente um acontecimento. Sábado, os meninos brincavam com pedras, fazendo-as ricochetear, e quis imitá-los e jogar uma no mar. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui embora. Eu devia ter um ar perdido, provavelmente, já que os meninos riram quando lhes dei as costas”. (Roquentin, escrevendo seu diário, em A Náusea).

Estou com Roquentin. Ao escrever diários deformamos a verdade, mas não mentimos; fabricamos a verdade, a partir desse não-acontecimento – esse cotidiano insosso, sem consistência e sem beleza especial; o fazemos se tornar bordado, retinente, luzidio. Não é que inventamos uma verdade; é que omitimos o geral em prol do detalhe; colocamos uma lente nele e o expomos aos olhos, enquadrado e emoldurado. Carregamos nas tintas aquilo que parece apenas entrevisto, difuso, mal delineado. Fazemos um conto da realidade; uma ficção com a vida. O diário não torna a realidade, por isso, artificial, mas sim, um boato de nossa própria vida. E onde há fumaça, há fogo, dizem. Assim, da fumaça da realidade que é o diário, podemos entrever algum fogo de acontecimento, de realidade – algo que talvez valha a pena contar para algum “querido diário”. Nossas vidas são tão desinteressantes, tão comezinhas, que um diário pode salvá-la da mediocridade; basta reinventá-la, sem mentir, imitando, talvez um humorista que diz: "Eu aumento, mas não invento!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A pastoral do poder e o poder pastoral!

Lula e sua pastoral do poder; o poder do condutor de almas; do discurso de eterno comício. Lula faz desbragadamente, de cara lavada, indefenso, aquilo que "nunca antes na história desse país" os políticos fizeram com tanta desfaçatez: ele se mantém no poder pela propaganda, pelo comício por vinte e quatro horas de todos os dias de seu mandato. Nada que seus rivais políticos não sonhassem fazer, sendo impedidos pela população, por meio de um sufrágio não tão exitoso e pela incompetência de não ter vergonha de fazer que cada obra (desde um degrau em uma estação de trem até uma obraPAC), se tornassem palanques, púlpitos ou tribunais. Sim, porque se trata de propaganda sempre, salvar a população sempre e de polícia política sempre. É, como diz Foucault, uma pastoral do poder. Lula reune as faculdades do poder pastor: Trata questões de governo de modo pessoal, pretende conduzir os espíritos e salvar a brasilidade. 
Eu, que sou ateu, espero que um deus qualquer me livre desse poder pastoral!
Sobre o rei que reina mas não governa: http://levileonel.blogspot.com/
  

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As vielas de Pouso Alegre!

Pouso Alegre é daquelas cidades que já cresceram o suficiente para ter nostalgia de suas ruas estreitas. Algumas já viraram - como manda o figurino das cidades cujas populações inflacionaram - calçadões com certo lirismo descansado, um eterno bucolismo de sábado a tarde. Ela já lembra uma São Paulo em miniatura; com pouco esforço encontramos um correlato da Vinte e Cinco de Março, do Largo da Concórdia ou da Rua Santa Efigênia. Contudo, apesar de encontrar uma São Paulo minimalista em certos aspectos, Pouso Alegre se define pelas consideráveis diferenças e não pelas semelhanças com São Paulo. A primeira, fundamental, essencial, é que está em Minas, é constituída predominantemente de mineiros e está numa distância salutar de São Paulo, distância importante, pois aquela tem a capacidade de contagiar, como se fosse uma aura calórica, seu entorno por dezenas de quilômetros. Seus vapores, para o bem e para o mal, alcançam além de seu perímetro urbano, metropolitano e mesmo as cidades da Grande São Paulo, indo tocar, com sua membrana agitada, palpitante, apressada, até cidades vizinhas. Em nossa direção, contando apenas a Fernão Dias, chega a tatear Atibaia e Bragança! Hoje, ao acordar, lá na Serra do Cervo e vir para PA pude avaliar melhor, para meu proveito e responsabilidade, as venturas e desventuras de trabalhar em SP. O lado afortunado: desfruto de uma situação muito confortável de poder degustar várias artes, inclusive a de trabalhar. O lado desafortunado: parece óbvio, dispensando comentários...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Letras engarrafadas nas avenidas da memória!

Faz tempo que não blogo! Dias fáceis, mas cheios de surpresas; muitas e múltiplas atividades, pequenas viagens a cidades pequenas no entorno de Pouso Alegre para fazer diagnósticos psicológicos, textos variados (que vão daquela pesquisa sobre o teatro de PA, a outro sobre o sentido de margens em uma cidade), ler Agamben (Estado de exceção), Lacan (O sinthoma), F. Jullien (Tratado da eficácia), manuais de psiquiatria e de testes psicológicos. É uma massa de letras umas atrás das outras...! Mas até que fazem sentido! É isso! Agora é ir para o Corê, em São Paulo, e realizar uma vivência com elementos da cosmogonia indiana, psicanálise, cura sui e cha'n tao. Mais releitura!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Luzes de minha infância, papai noel e pirilampos!

Sou daqueles para quem árvores de natal jamais significaram mais que desperdício. Não me orgulho disso, pois parece que os que se dedicam a essa atividade pueril são mais felizes do que eu! É uma felicidade sem consistência, quase idiota, mas que coisa tocante! Olhinhos de adultos e olhões de crianças fitando fascinadas aquelas árvores piscando... e piscando... e piscando... E aquelas avós, e avôs, e pais, e mães dizendo: “Qual o problema de uma fantasiasinha assim inocente; quem não acreditou nisso um dia; porque fazer as crianças enfrentarem a dura realidade sem papais-noéis, e fadas, e gnomos antes do tempo; depois, como vão se encantar com a vida etc etc?” E eu, esperando que minha mãe não me desminta, afirmo que jamais acreditei no noel. E tenho quase certeza de que sou bem perto de normal! Bem, em certa idade, que não posso precisar, talvez tenha ficado um pouco triunfante, estranhado e frustrado, quando puxei a barba do noel e havia o rosto de minha mãe por trás dela. Mas e daí? Pode ser a prova de que nunca engoli aquela história de “ho-ho-ho” meio desafinado! Por via das dúvidas não direi que postei esta semana! Vai que ela tem a prova irrefutável de que algum dia levei a sério essa bobagem adulta! Mas porque falava disso mesmo...? Ah! Lembrei!
Dias atrás falei que esperava os pirilampos voltarem e agora lá estão eles! Passeiam pela serra escura, acendendo e apagando suas luzinhas, tal como pequenas lâmpadas numa árvore de natal gigante, mas com o dom suplementar de irem e virem, incansavelmente, por toda a noite, cessando com o anunciar do dia. Alguns vagalumes mais afoitos, num esforço inominável, acendem aqui perto, atravessam as copas dos pinheiros e fenecem depois do angico e da árvore de azeitona-do-Ceilão. Imagino o gozo de poder fazer luz própria, uma proeza que religiosos daqui e de acolá sonham: iluminar-se, tornar-se luz. Um dia, na Índia, em Kajuraho, ouvi um religioso dizendo: “I am the sea, I am the sun”. E repetia essa ladainha mântrica por horas. Mas, coitado, por mais que se esforçasse e fosse honesto nos propósitos, não brilhava nem a metade de um vagalume!
Vagando com seus lumes, pequenas lamparinas riscando o quadro negro da noite, escrevem a vida nos morros; daqui alguns dias somem e vão dormitar em alguns nichos do mundo, criar suas crias, e estas tomarão seu lugares e outros olhos olharão seus piscares, pois, tal como vagalumes, o lume de meus olhos não estarão aqui para mirá-los.

Vagalumes!

Ontem choveu daquela maneira densa, calma e pesada, que as chuvas de primavera e verão às vezes podem chover. Ao passar pela entrada do sítio o cheiro de grama molhada me encheu os pulmões e fiquei ali, por alguns segundos, encharcado, pensando nas milhares de pequenas tocas de bichinhos, insetos e outros maiores, tenteando a chuva e esperando a estiagem para fazer suas refeições. Pensei que aquela noite, a tomar pelas noites de sábado e domingo, com os primeiros pirilampos a foguetearem pela serra, que seria a festa que já presenciara em outras primaveras. Mas, com a chuva, acho que adiaram o espetáculo para outro dia mais propício. Aguardarei ansioso... Espero que coincida com minha volta de São Paulo! (escrito em 28/09).

sábado, 19 de setembro de 2009

Os apuros de Vania, a Via Láctea e os vagalumes de amanhã!



(Escrito na noite de 17/09/09) Depois do usual período em São Paulo trabalhando em psicanálise, estou de volta à Serra do Cervo; Vania me aguardava na rodoviária com seus refrescantes olhos verdes, bochechas rosadas e sorriso pleno. Ela diz que está em “apurinhos” (adoro quando diz que está em apurinhos); quando diz assim, significa que não tem domínio dos procedimentos de uma tarefa qualquer que esteja realizando no momento. Mistura um pouco de “arte” no sentido infantil do termo, uma pitada de dificuldades não muito bem explicáveis, um naco de “mico” etc. Aí, depois de falar “apurinho” ri como uma menina pega “de jeito”! Me contou seus apuros e rimos juntos por alguns instantes. Já em casa demos uma pequena volta com nossos amiguinhos ávidos de contato com os humanos que tanto conhecem. Nestas alturas, o céu estrelado já mostra o esfumado da Via Láctea, formando seu caminho sempiterno (pelo menos em comparação a estes fugazes viventes que a espreitam daqui da serra). O céu está mais escuro que o usual e isso ressalta o colar de estrelas no pescoço da abóboda celeste, competindo em número, brilho e mistério com as lâmpadas lá do vale do Cervo. Neste momento, escrevendo minhas impressões, sinto o cansaço chegando como um fantasma amigo me hipnotizando, me convencendo à escuridão da consciência. Não acho ruim de jeito nenhum e até penso com encanto a idéia de desaparecer do mundo por algumas horas, sabendo que lá fora as estrelas, os grilos, as corujas, os curiangos e uma multidão de outros seres vivos começam seu “dia” num azáfama variado e num afã muito conhecido deles. Até amanhã às seis! Descanso agora para amanhã chegar cedo ao Teatro Municipal para sua filmagem e entrevistas que dirigirei com vistas ao projeto da UNIVÁS. Depois virá uma reunião no Depto de Psicologia da universidade, umas anotações no museu e outras na Secretaria de Cultura (todas com o objetivo de estofar minhas idéias no projeto "Discurso, Memória e Processos Identitários do Sujeito Pousoalegrense"). 
Fotos: Chegando em Esp. Sto. do Dourado e Vania na Frente do Faculdade de Direito do Sul de Minas para um curso de Direito do Trabalho)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bolinhas de gude, jabuticabas e o nada!

Nas jabuticabeiras, aqui no Cervo, os frutos redondos como bolinhas de gude, as burquinhas de minha infância, negras e brilhantes, já aparecem aqui e ali. Ao olhá-las, brilhando ao sol, imediatamente me remeto aos sete ou oito anos, lá no Jardim Adriane, quando ia buscar algumas delas, às beiras de um regato caudaloso e limpo. A jabuticaba foi daquelas frutas, entre cinco ou seis das que mais gostava. Facilmente competia com as mangas, mexericas, amoras, gabirobas e abacates. Hoje meu paladar se expandiu; gosto de calaburas, nêsperas, quiwis, pinhas, anonas, cambucis, pitangas, cerejas, figos, cabeludinhas, caquis, jambolão, pêssegos, tamarindos, maracujás, jaracatiás, acerolas, goiabas, cajus, lichias, feijoas e outras menos comuns. Não por acaso plantei-as todas em meu pomar para que possa por todo o ano variar os sabores de sucos, doces, geléias e a fruta natural, comida nas sombras de suas copas.
Bem, como ia dizendo, as jabuticabas com seu brilhante negrume me lembram as bolas de gude, e, como sempre acontecia entre os molequinhos desta idade, algumas, por um mistério qualquer, tornavam-se mais cobiçadas que outras. Guardava-as todas em um vidro de meio quilo, cujo conteúdo havia sido comido, só para apreciar longamente, às vezes por mais de hora, sua rutilância ao sol ou com o brilho das lamparinas escuras de querosene e suas chamas, de amarelo amortecido. Mas as que mais me chamavam a atenção eram duas bolinhas pretas, com um brilho profundo, enfeitiçante, parecendo me atrair para dentro de seu nada interior. Estranhamente eu me afundava naquele mundo pequeno e misterioso e me deixava estar. Era como se estivesse dentro da tenda cônica de índios americanos que vira em uma revista de bang-bang; lá dentro era tudo conforto e segurança. Em minha imaginação defendia a tenda dos bandidos vestidos de farda que a atacavam; eu vencia sempre, porque meus revolveres tinham muitas e muitas balas! Os deles apenas seis! Era uma vitória desproporcional! Aí eu saia galopando pela imensa pradaria que ia da mangueira até a porta de casa e tudo acabava com um banho morno de canequinha e queda livre na cama de palha de milho. O barulho da palha sob meu pequeno corpo ia diminuindo até que a bruma espessa do sono chegava sorrateira tentando me domar os pensamentos. Em geral, antes de cair no abismo órfico, pensava no nada dentro das bolas vítreas e sua negridão, dava uma olhada se tudo corria bem com o Daniel e depois ia perdendo contato com os sons vindos da cozinha, onde o pai, a mãe e a vó Pina falavam cada vez mais longe, até que pareciam falar lá embaixo do abacateiro. Depois era o nada, a escuridão reparadora. O molequinho tinha que descansar para jogar burquinha com o Zé Manquitola, espiar timidamente a menina da casa da esquina, comer gabirobas e jabuticabas, nadar no rio e, de quebra, ir à escola, ver os dentes brancos e os olhos verdes de dona Lurdes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Fim de inverno no asfalto!

Sinto uma mistura viscosa de sono e calor, preguiça e cansaço, nesta transição de estação. É até gostoso! Pena que não possa deitar aqui embaixo desta mini-sibipiruna ou acolá, sob a marquise daquela loja e me deixar amortecer por esse calor esquisito, meio frio, meio quente. Suor sem consistência, como se predizendo um frio fino estrepando a pele, daqui algumas horas, já no escuro das calçadas. Sem estrelas para ver, frio eriçando pelos, exaustão do dia, me dirijo para um certo endereço... espero que o cachorro do vizinho me dê a chance de recuperar as forças para a quinta de manhã! A alternativa será ler "Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua" ou "Estado de Exceção"!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Os senadores, juri popular e Vó Pina!

Para dizer a verdade Vó Pina me pressiona demais para escrever suas memórias, planos e idéias! Tenho preguiça (mas também falta tempo; estou até as orelhas de textos, pesquisas etc), estou com sono, trabalhei dois dias e meio sem tempo para respirar e ela lá: "fala do Sarney! Fala do Lula! Fala daquele dia que eu encontrei o Mercadante fazendo compras na...!" Se eu der ouvidos a ela estou frito! Acho que Vó Pina está meio apressada por causa da idade. Não se é centenária assim sem consequências, não é?
Ultimamente, insiste que eu inicie uma campanha para levar os corruptos do senado a juri popular, deixando-os expostos à justiça "de fato política, da pólis", longe do escudo protetor do estado e mesmo do direito! Ela andou lendo algum livro anarquista, embolorado, secreto, daquela biblioteca do porão de sua velha casa! Só pode ser!
Mas que seria uma experiência inesquecível ver um Sarney tendo que prestar contas frente a um juri popular, seria! Pelos deuses, até eu estou sendo afetado pela insânia que subjaz àqueles cabelos alvísimos...! Preciso ir para a serra, senão ela me coopta para sua causa!

Vó Pina e os assentos azuis (ou cinzas?)!

Vou tentar reproduzir a Vó Pina: "É esquisito, mas nos vagões do metrô, e desconfio que nos ônibus também, existem assentos com cor cinza ou azul. Dizem que é para os velhinhos sentarem! É o fim do mundo! Como sempre, a discriminação - velhinhos tem seu lugar destinado, e não espalhados pelo mundo que é aonde vivem. Mais absurdo ainda é ouvir uma voz eletrônica dizendo: 'Obrigado por respeitar o assento preferencial!' Imagine que eu tenho alguém agradecendo por mim a alguém que me "cedeu" seu lugar nos bancos! E isso já se naturalizou. Ninguém precisa ceder lugar se os bancos diferenciados já estão com sua cota de cambitos. Aí, aqueles jovenzinhos com MP-alguma-coisa nas orelhas, ou fascinado por um celular raio colorido-não-sei-o-quê, nem olham prá gente. Mas não serei parcial... todos, de qualquer idade, fazem cara de paisagem e continuam em seus, como sempre digo, 'imundos íntimos'. Problema do velhinho que não chegou antes e sentou no seu lugar! Este é mais um item no qual regredimos nas últimas décadas: cadê aquele sentimento bom de fazer um carinho, ou no mínimo um pouco de piedade pelo peso do fardo de carregar um corpo septuagenário e não raro octogenário. Cuidado urbanos! Os cidadãos de São Paulo envelhecem drasticamente e loguinho será você reclamando! Aproveito para anunciar que vou criar um movimento contra os bancos preferenciais. De hoje em diante sou monotônica. Só vejo uma cor: a cor da inclusão, da urbe. E isso é só a ponta do iceberg. Levarei um susto monumental (eu gosto de 'monumental'), quando um jovem me ceder seu banco apenas porque é urbano! Mas farei cara de quem viu a coisa mais natural do mundo e só farei um gesto delicado de cabeça, agradecendo. Afinal, é sempre com esforço que fazemos algum carinho àqueles que não frequentam nossa sala e cozinha, não é, bisneto?" E eu: "É sim, Vó Pina!" Pensando se entro na campanha dela para abolir-se os indefectíveis assentos azuis (cinzas?). Aí tive uma iluminação.., uma fulguração.., como dizia Sartre. Vamos pintar todos os assentos de azul (cinza?)!!!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Jararacas e a resenha!

Sexta e sábado fiquei envolvido com eventos na Câmara Municipal de PA, sobre Legislação e Ética em Comunicação; também um evento no CRPMG também em PA, sobre políticas públicas, o SUAS, e Mídia e Psicologia.
Ontem, domingo, foi um dia dividido em duas partes bem distintas. De manhã limpamos e roçamos uma capoeira que estava nos incomodando por ser moradia de uma jararaca muito grande; esperamos dissuadi-la de ficar por ali e ir morar em outras paragens. Em geral isso adianta. Contudo, levando-se em conta as diferenças de linguagem, achamos por bem usar um pouco de força, retirando a segurança dela e expondo-a aos possíveis ataques de dois casais de siriemas que passeiam diuturnamente pelas redondezas. O número de cobras aumentou muito porque nas vizinhanças, somos os únicos a ter uma reserva de matas, bem como não criamos gado, galinhas etc. A migração de bichos peçonhentos é lógica - ali se sentem bem protegidos e próximo de ratos e outros pequenos animais. É o paraíso de cascavéis e jararacas! Pensamos em criar galinhas d'Angola, para esse controle ser mais efetivo, mas nos detivemos num problema inusitado: como convencer os cães a adotarem os novos moradores! Enquanto não solucionamos o dilema, contamos com a diligente caçada das siriemas!
Em seguida ensacamos dezenas de cachos de nêsperas, antes que fiquem "de vez", porque aí serão devoradas pelas tirivas, papagaios, sanhaços, sabiás e outros... Fomos interrompidos por uma chuva densa e fria que nos impôs ficar recolhidos. Passamos a tarde e parte da noite lendo. Vania se informando em Direito Processual Civil e eu relendo "A cidade antiga" para uma resenha que publicarei na revista "RUA!" (UNICAMP)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A noite que chega e o ipê amarelo!






















Depois de uma semana de cuidados com textos para a apresentação da obra “O Discurso Encarnado”, que terminou no sábado, lá pelo fim do dia, acordei num domingo de sol brilhante, mas eu exausto. Passei o dia fazendo com vagar algumas atividades fundamentais para que garantamos nossas iguarias e doces para o verão. Ensaquei nêsperas para evitar que sejam devoradas pelos pássaros (continuo a saga contra estes famintos!), pois o truque de deixar as mais altas para que eles não nos subtraiam das mais baixas, simplesmente foi um fiasco! Eles não seguem critérios que eu possa reconhecer e fazem questão de ignorar qualquer regra que tento estabelecer com eles, democraticamente: por exemplo, eu dizendo e eles obedecendo. Ficam lá no alto rindo com suas peninhas coloridas pensando que eu acho alguma graça! Dei o troco! Quero ver algum desses bichos penugentos comendo de minhas preciosas nêsperas! Ensaquei um quinto de uma das seis nespereiras que possuímos. Quero vê-los comer todo o resto e ficarem gordos e sem forças para carregar o peso pelo ar! Serão vítimas fáceis do gato do "seo" Antonio.
Mais tarde Vania e eu colhemos bananas variadas (Nanica, Santomé, Prata, Maçã, Ouro), as ensacamos (dessa vez para que amadureçam mais rapidamente, enganando o clima frio) e já destinamos uma parte das mais maduras aos pássaros que ficam com cara de pidonchos (eu sei, eu sei, isso é paradoxal, mas, como disse Winnicott, em algum lugar, é daqueles paradoxos que não precisam ser explicados, colhemos bananas para aqueles mesmos comilões a quem negamos as nêsperas – da parte baixa das árvores, diga-se!). Em seguida fomos ao pomar principal e continuamos com a poda de formação e de correção das árvores: macieiras, anoneiras, amoreiras, acerolas, feijoas, laranjeiras). Isso, como fica expresso nas fotos, até o cair da tarde – no inverno a tarde despenca e a noite nos pega de surpresa. Ficamos um pouco frustrados com a velocidade do dia. Isso tem uma explicação a mais: além de eu estar mais envolvido com a universidade, Vania inaugurou seu escritório de advocacia lá na frente do conservatório musical, e agora quase tudo que ela poderia fazer durante a semana ficou para o sábado e o domingo. Com isso, teremos que inventar uma nova distribuição dos afazeres domésticos e dos afazeres rurais. Ainda bem que adiantamos muitíssimo o trabalho a fazer na primavera e verão; estamos bem adiantados e podemos encontrar esse novo ritmo com tranquilidade. Nas fotos: pomar, a alegria dos cachorros quando digo que vamos para casa, equilibrando em cima de uma macieira, uma horta orgânica e natural...
PS.: Postarei breve a apresentação d'O discurso Encarnado que fiz no III ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E II ENCONTRO INTERNACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS - Universidade do Vale do Sapucai, no blog http://www.levileonel.blogspot.com/

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A “neve” da jabuticabeira, as abelhas e o homem da roça!









Chegou a hora do florescimento das jabuticabeiras! O que se vê nas fotos não são flocos de neve e sim suas flores coladas aos galhos, aos milhares. O pistilos brancos, brilhantes, com gotículas minúsculas, doces e cheirosas,atraem as abelhas que zumbem intermitentemente até a colméia que instalamos acima do pomar. Há algumas abelhas que não reconhecemos – as nossas são pequenas, agressivas e bastante trabalhadoras. Junto delas estão algumas gigantes (quase o dobro delas!) outras medianas e dóceis, seis ou sete variedades de marimbondos, jatai, mirins, mandaçaias e irapuás. Há ainda, formigas variadas (entre elas a mais interessada é a formiga-doceira) e, por fim, uma série de pássaros que se alimentam de suas flores (talvez de insetos que ficam nelas), especialmente o tico-tico. Não é privilégio das jabuticabeiras, mas, sem dúvida elas são as mais visitadas do pomar em número e variedade de bichos e insetos, empatando com as pitangueiras, em termos de visitantes. Porém as jabuticabeiras dão flores duas ou três vezes ao ano o que é um verdadeiro milagre na cadeia alimentar.
Não devo esquecer de dizer que elas dão flores mais de uma vez ao ano, porque Vania cuida de regá-las a vontade por todo o outono e inverno; sem isso e nada do que relato aqui aconteceria nesta proporção. Também temos 3 jabuticabeiras-do-mato, mas estas foram visitadas por pombas-do-ar que amam suas flores ainda no início de seu crescimento e o resultado foi trágico! Nenhuma ou muito pouca jabuticaba se salvará! Como disse, em outra ocasião, viver nos bosques requer vigilância, trabalho exaustivo, algumas frustrações, e eventualmente, alguma tragédia. Contudo, no geral, a vida corre solta e a exaustão é compensada com um festival de cores, sabores, aromas, sono reparador, corpo fortalecido pelo farto exercício, pensamentos focados e o sentimento de que se está mais próximo da uma vida de fato viva. Mas é para poucos! A exigência das estações, do crescimento das colheitas, do esforço diário realmente assusta a maioria.
Quando vejo o trabalho duro do homem do campo – eu não vivo do campo e sim no campo – vejo a injustiça cometida contra toda uma população que se esfalfa, à beira do desmaio, para que seus produtos sejam explorados por atravessadores e regateados pelos consumidores. Deveriam todos passar alguns dias tentando retirar alimento do chão para dar o merecido valor ao trabalho do sujeito da roça, muito particularmente aqueles que fazem a agricultura familiar e tentam escoar sua pequena produção nos centros urbanos. Vejo-os à beira da miséria trabalhando todos os dias de sua vida, da infância à velhice e mal conseguem a camisa que vão suar, as botinas que vão desgastar, sendo degradados a viver de aposentadoria do Estado, como sua última e única renda. Não sei que solução poderia haver para tal descalabro, mas sei muito bem – por viver entre eles, participando de uma associação de agricultura orgânica – que trabalham o mesmo tanto que o sujeito das grandes cidades, com as mesmas necessidades e os mesmos sonhos! Qual a diferença entre o sujeito do campo e o da cidade, para que haja tal discrepância de distribuição da renda? Talvez o primeiro item de uma agenda de cuidados com a situação, seja acabar com os atravessadores. Que vão plantar batatas, no asfalto, com enxadão de borracha no décimo terceiro inferno de Dante, eternamente, para pagar pelos males que causaram ao povo do campo! Acho que Dante deve excetuar as classes C e D das urbes, que também têm seus corpos, mentes e tempo da vida usados para enriquecimento imoral de uns quantos... Sobre o inferno leia em: http://www.levileonel.blogspot.com/


Furiosa como a água!


As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As mulheres, as minas e as caixas d'água!

As águas que usamos para beber e no regamento geral da horta e flores, vêm de dois olhos d'água com mais ou menos 1100 metros de altitude. Nascem por debaixo de rochas gigantescas acima de nossa morada e descem por um vão na costa da serra como se fosse as curvas para dentro num corpo feminino. Aliás são vãos que formam regos delicados ladeados por colinas, como aquelas da mulher. Por isso acredito sempre estar me relacionando com o feminino quando arremedo por aqueles fundos buscando reunir a água que nos alimentará a todos. Os pequenos veios líquidos, delicados, são facilmente captados e, na sua docilidade, se deixam dirigir serra abaixo até caixas estrategicamente colocadas para distribuição pelo terreno. Mas, uma vez ali reunidos alguns milhares de litros de água, a realidade muda drasticamente. A domesticação do fluido se torna problemática, exigindo horas de engenharia aplicando um conhecimento puramente intuitivo, experimental. Arrocho algumas abraçadeiras de metal aqui e ali tentando que o líquido se mantenha onde quero que fique; aqueço as mangueiras de plástico em água quente para que, ao expandir, aceitem que se sejam empurradas com facilidade por sobre emendas que darão em aspersores sobre as plantas. Quando resfriam, as mangueiras se apertam, intimamente, e eu as uno com mais uma abraçadeira para que o serviço dure por alguns anos. Quando as caixas d'água enchem, meu orgulho de ter domado as centenas de libras de pressão que elas fazem contra o encanamento água vai por água abaixo. Lá está um pingo líquido aqui, ali e acolá, se imiscuindo por entre as abraçadeiras e mangueiras fortemente arrochadas. Limpo as mãos barrentas e enxugo o suor do rosto um pouco frustrado e penso: “Quem mandou se meter com esta mulher, suas dobras e seus fluidos?” Ela está devolvendo em fúria a domesticação impingida àquele dócil filete de água que descia sem esforço ou impedimento, tagarelando pelas pedras e árvores até desaguar no Cervo.

O Taj Mahal e os mourões do Cervo!

Sem nível ou prumo consegui “plantar” nove mourões de cimento para apoiar nossa pequena produção de framboesas! Me senti um cro-magnon olhando de longe os mourões tentando ver sua retidão em direção aos céus, lembrando que a terra por aqui é inclinada, irregular e muito ingrata quando se trata de fazer engenharia sem instrumentos. Fiquei pensando em como sou analfabeto em arquitetura, se levarmos em conta quando foi erigido o Parthenon, as pirâmides egípcias, o Taj Mahal... Me acalmei pensando que não tinha pela frente mais que umas pequenas estruturas para fincar no solo, e esticar uns fios de arame para que a framboesa brinque de escala-los e, equilibrada, verta umas flores brancas e brilhantes, com pontos rosas no centro, que depois chamam uns pequenos pomos rubros que disputaremos a tapas com uns pássaros minúsculos, amarelos, que não sabem até hoje quem manda naquelas paragens. Na maior parte dos combates acabamos por ser derrotados. Ao acordarmos vamos correndo para lá só para constatar que já furaram nossas frutinhas com seus pequenos bicos vorazes... Daí que resolvi me render aos fatos. Vamos triplicar o número de framboesas! Assim enchemos o bucho de cada um daqueles monstrinhos com doce polpa vermelha e fazemos com que eles, empanturrados, vão dormir num galhinho de árvore qualquer e nos dêem a vez. Bem, foi assim que pensei, enquanto olhava aqueles nove obeliscos, nem tão retos assim, mas dignos de soerguerem os doces frutos da framboesa, como pedras preciosas incrustadas em um berço espinhento (pensam que é fácil se alimentar delas?!). Elas só se entregam com muita luta; tal como as rosas, podem ser apreciadas depois de algumas espetadas. Com certeza é muito mais fácil para o passarinho!

sábado, 1 de agosto de 2009

O pomar e as chuvas de inverno!

Esses dias tenho feito menos trabalhos rurais que intelectuais. Isso se explica pelo excesso de textos e a aproximação do momento em que tenho que entregar minha pesquisa e fazer meus cursos, mas, sobretudo, pelo fato de que os afazeres no pomar, horta e arredores já tomaram um rumo suficientemente auto-alimentador que já podemos, Vania e eu, nos darmos ao luxo de dirigir horas para outros afazeres. Assim, tenho me dedicado a um projeto de videoclube para o Conselho de Psicologia, a reativar a Associação de Psicólogos de Pouso Alegre, a articular os colegas para atos políticos junto aos órgãos competentes e a melhorar minha visibilidade profissional na cidade. Vania estreita laços com a AAEcominas e advocacia.
Não significa que não tenhamos que usar nosso tempo, com administração e comedimento para nossa vida de moradores nos bosques. Além disso, surgem certas acontescências muito próprias da vida no campo. Como exemplo, as chuvas que não eram previstas para a época, nos farão ter que repassar a roçadeira bem antes do previsto, por volta de fim de setembro. A previsão era para novembro, com as primeiras chuvas fortes. Enfim, ficamos com o dobro do trabalho para o período. Também teremos que fazer certos concertos de telhado só depois de uma estiagem de duas semanas (se ela vier); e fazer em agosto, quando faríamos em setembro.

Ps.: Relendo "A Náusea" no http://www.levileonel.blogspot.com

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Inverno chuvoso em São Paulo!

Chega a ser poético! O frio combinado com chuva dá um ar londrino a São Paulo. Bem, isso tudo olhando pela janela de meu consultório, esperando pelo início do dia de trabalho! Esperem prá ver, quando tiver que entrar e sair em metrô, ir almoçar, ou cumprir uma saga em bancos, pagando contas que brotam feito gotas de vapor nos vidros dos ônibus cheios. Mas, enquanto o encanto não se desfaz, deixe-me curtir o dedilhar dos grossos pingos d'água na janela, o sussurro molhado dos pneus de carros na rua em frente e o trotar de sapatos na calçada. A chuva, aqui em São Paulo, lá em Apucarana - a quarenta anos e tralalá, ou na Serra do Cervo, sempre me pôs lírico e, claro, no mais das vezes, encharcado. Enquanto ela não tem o poder de me irritar, fico aqui grudado na janela, as gotas do outro lado me olhando indiferentes, por mais alguns minutos...

sábado, 25 de julho de 2009

O Teatro Municipal de Pouso Alegre e o pousoalegrense!

Passei a sexta, de cabo a rabo, envolvido com a pesquisa que trata dos processos identitários do sujeito pousoalegrense com seu teatro municipal. Terminei um esboço mais completo já tarde da noite. Por isso Vania foi a PA sozinha para cuidar de problemas corriqueiros de nossa moradia - Cemig, AAEcominas etc. Hoje, sábado, depois de uma reunião com psicólogos do sul de Minas, para assuntos ligados a nossa representividade junto a sindicatos, nas políticas públicas e piso salarial para a categoria, continuo a trabalhar os textos do dia de ontem. Para ler uns fragmentos do raciocínio: http://www.levileonel.blogspot.com

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Bíos e Zoé!

Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós queremos dizer com a palavra vida. Continue a ler em http://www.levileonel.blogspot.com

terça-feira, 21 de julho de 2009

Em São Paulo cada um para seu norte!

Ao chegar em SP tinha conhecido o Fernando, boa conversa, muitos assuntos e aquela sensação indescritível de que uma vida passou por mim e que não sabia ao certo de que/quem se tratava. Nada muito diferente da vida que levamos juntos aos que amamos mais de perto; achamos que conhecemos, compreendemos e o que sobra é a certeza de que nos falta ou não. De resto os conhecemos tão pouco quanto esse parceiro de poltrona por três horas de viagem. Medimos nossas relações, em termos de importância, pelo tamanho do vazio que nos apodera com a distância e o tempo. É diretamente proporcional à angina pectoris que nos sufoca, nos coloca tesos e nos curva a existência. De resto é o silêncio, a massa, o mesmo, e a sensação de alívio por ter passado pela história de alguém sem feri-lo ou sem cravar-lhe as unhas da saudade sem responsabilidade - aquela que não temos quando não amamos bem de perto, quase dentro da pele do outro... Ao desembarcarmos, ele foi para o Tucuruvi e eu para Ana Rosa - sem faltar a respiração pelo amigo que se vai!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Monte Santo de Minas!

Sexta-feira, 17, na parte da manhã fiz trabalhos domésticos e de pomar – poda de caquizeiros e pés de figo. Devido ao clima surpreendentemente úmido deste inverno, eles começaram a brotar antes do tempo; então tive que correr. O pessoal lá da AAEcominas acha que isso já é resultado do sobreaquecimento do planeta!
À tarde, após o almoço, fui ao Museu pesquisar jornais da cidade entre 1967 e 72, onde haviam notícias do dia em que Pouso Alegre se revoltou com o projeto de venda do teatro municipal para um banco. Isso provavelmente fará parte de minha pesquisa sobre aquele patrimônio histórico.
Sábado, foi um dia mergulhado em livros os mais diversos, buscando o melhor jeito de apresentar a importância do teatro para a identidade do sujeito pousoalegrense. De oito da manhã até 22 horas, interrompido apenas pelo almoço frugal e algum alongamento para relaxar as costas e os olhos. De princípio me sinto andando com o texto... mas, não dá para dizer que ele dá conta do projeto. Falta ainda um bom caminho!
Anteontem, domingo, decidimos vir a Monte Santo de Minas para fazer pagamentos de algumas contas relacionadas com o sítio de Dona Vilma e fazer a manutenção geral, usando roçadeira, capina e podas necessárias para que o lugar fique apresentável, já que queremos vendê-lo o mais cedo possível (publiquei fotos do Sítio do Mandú recentemente). É um pequena viagem de 250 quilômetros, e mais algumas horas de trabalho até ontem, por volta das duas da tarde. Depois, foi só voltar, ansiosos por ter deixado nossa trupe de cachorros sozinhos, o que não é hábito. O Chefinho cuidou de tudo na nossa ausência, e que Gabi aguentou bem a ansiedade de ficar longe de nossa proteção! Resumindo, cuidamos do sítio Estância Olhos D'Água que reformamos para venda. Belíssimo, bem localizado no sudoeste de Minas, água pura e abundante, lago de peixes, mata ciliar etc. Terra natal de Vania, lugar que um dia já esteve sob as águas de algum mar ou oceano, a julgar pela geologia característica.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vó Pina e o assento cinza (azul?)!

Vou tentar reproduzir a Vó Pina: "É esquisito, mas nos vagões do metrô, e desconfio que nos ônibus também, existem assentos com cor cinza ou azul. Dizem que é para os velhinhos sentarem! É o fim do mundo! Como sempre, a discriminação - velhinhos tem seu lugar destinado, e não espalhados pelo mundo que é aonde vivem. Mais absurdo ainda é ouvir uma voz eletrônica dizendo: 'Obrigado por respeitar o assento preferencial!' Imagine que eu tenho alguém agradecendo por mim a alguém que me "cedeu" seu lugar nos bancos! E isso já se naturalizou. Ninguém precisa ceder lugar se os bancos diferenciados já estão com sua cota de cambitos. Aí, aqueles jovenzinhos com MP-alguma-coisa nas orelhas, ou fascinado por um celular raio colorido-não-sei-o-quê, nem olham prá gente. Mas não serei parcial... todos, de qualquer idade, fazem cara de paisagem e continuam em seus, como sempre digo, 'imundos íntimos'. Problema do velhinho que não chegou antes e sentou no seu lugar! Este é mais um item no qual regredimos nas últimas décadas: cadê aquele sentimento bom de fazer um carinho, ou no mínimo um pouco de piedade pelo peso do fardo de carregar um corpo septuagenário e não raro octogenário. Cuidado urbanos! Os cidadãos de São Paulo envelhecem drasticamente e loguinho será você reclamando! Aproveito para anunciar que vou criar um movimento contra os bancos preferenciais. De hoje em diante sou monotônica. Só vejo uma cor: a cor da inclusão, da urbe. E isso é só a ponta do iceberg. Levarei um susto monumental (eu gosto de 'monumental'), quando um jovem me ceder seu banco apenas porque é urbano! Mas farei cara de quem viu a coisa mais natural do mundo e só farei um gesto delicado de cabeça, agradecendo. Afinal, é sempre com esforço que fazemos algum carinho àqueles que não frequentam nossa sala e cozinha, não é, bisneto?"
E eu: "É sim, Vó Pina!" Pensando se entro na campanha dela para abolir-se os indefectíveis assentos azuis (cinzas?). Aí tive uma iluminação.., uma fulguração.., como dizia Sartre. Vamos pintar todos os assentos de azul (cinza?)!!!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Casacos e andrajos!

Hoje amanheceu garoando e o frio tomou conta devagarinho. No metrô a densidade humana por metro quadrado havia aumentado devido aos agasalhos acolchoados e malhas grossas sobre camisas e camisetas. Gorros, bonés e cachecóis coloridos fizeram a festa dos olhares, assim como o andar característico dos dias gelados voltou - um certo encurvamento do último terço da espinha, a cabeça meio pendida para os pés, o olhar esbarrando no cenho e o pescoço afundado nas roupas. É um modo bastante esclarecedor de como vai o frio - quanto mais curvado para frente, quanto mais um ombro chega perto do outro na forma de um arco, sufocando as carnes do peito, mais frio está. As mãos enterradas nos bolsos, e vale qualquer bolso - das calças, do casaco, ou mesmo em um ninho improvisado com as mãos enfiadas nas dobras da malha. Elas ficam lá tentando angariar calor da pele, feito pássaros encorujados se esfregando para sobreviver ao sopro do vento. A garoa molha uma cabeça incauta, uma mão que insiste em manter-se ao relento; mas umedece mesmo os ossos de uns homens e mulheres em andrajos, deitados em trapos, embaixo da marquise do bradesco, junto a dois cães tiritando...

terça-feira, 14 de julho de 2009

As costas da serpente e o ventre do ônibus!


Manhã gelada na serra! Daqui de cima posso ver a calha do rio do Cervo sob uma massa compacta de vapor, agora que o Sol já aquece a geada. A estrada que vai a Espírito Santo do Dourado, como uma cobra grande e cinza, com uma faixa amarela no dorso, se esconde nessa brancura de doer os olhos, como se fosse seu ninho de algodão. O que fará lá embaixo, cinco quilômetros depois, no bairro do Cervo e suas poucas casas aglomeradas em torno do bar do Marquinho e da igrejinha? Os moradores, nesse momento envoltos na cerração, bem no meio do ninho dela. Dez para a sete, o dia começando, e o ônibus já desceu a encosta, como um bichinho marrom e branco, deslizando pelas costas da serpente, levando trabalhadores cujos empregos se distribuem pela cidade. Depois vai desovando gente desde o São Geraldo até o ponto final. Mais tarde, entre onze e quarenta e meio dia, serei eu um dos últimos a ser vertido do ventre do ônibus no átrio da rodoviária; lá comprarei a passagem a São Paulo e no meio da tarde estarei sentado em minha poltrona permitindo que a primeira história de vida verta do ventre de alguém, com suas contrações e relaxamentos, pedindo que acolha seus restos e com eles possamos vislumbrar uma nova vida...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Inverno úmido e quente! Que surpresa!



Sábado, comecei o dia mais tarde, aqueci o corpo, me alonguei e ergui pesos para começar a correr... Para ir até a estrada lá embaixo, prefiro tomar uma atalho por dentro da propriedade, rente a cerca que faz divisa com “Seu” Antônio, nosso vizinho ao sul, cuja casa se pode ver lá de cima, por entre a cerca viva de Sansão-do-Campo que nos separa e que plantamos para evitar o uso de mourões e cercas – no projeto de simplicidade, sustentabilidade e ecologia. Isso evitará por três décadas, ou mais, o uso de arames, madeira e mão de obra. É uma cerca eficientíssima contra a força do gado. Enquanto vou descendo presto bastante atenção no meu pequeno talhão de café plantado na encosta da serra, ao lado de outro talhão de banana prata. O café vai bem, mas poderia ir melhor não fosse o péssimo clima para colheita e secagem; como dizem os vizinhos, o clima ficou louco; estamos no primeiro terço de julho e a seca não aconteceu. Assim, também, o feijão plantado no meio do cafezal que não pode ser colhido e secado. São aquelas ironias da vida campesina. As chuvas não deixam vir a seca e isso é muito bom para uma série gigantesca de plantas e para o gado que fica no pasto com capim verde por mais tempo, gerando peso e o peso dando lucro ao criador. Enquanto isso as maritacas, os jacus e outros animais que apreciam o café maduro, quando está no ponto de rubi, ou como é mais comum dizer, café em ponto de cereja, têm mais tempo para mastigar seus grãos. Os prejuízos são incalculáveis! Com estes pensamentos corri o percurso costumeiro, com Kely Lulu Star, e voltamos pelo meio da cafezal para inspecionar as palmeiras reais que plantei para proteger o café do vento forte e, de sobra, produzir nosso próprio palmito. O sucesso, pelo menos quanto ao vento foi total! Hoje já estão com três a cinco metros de altura! Quanto a colher o palmito foi um fracasso; ficamos com dó de cortar as palmeiras e lá ficarão. Prometemos para nós mesmos que elas servirão de mães para dar sementes que serão plantadas em local apropriado e aí, então, colheremos seu palmito. Aproveitei o resto da manhã para aparar grama e capim à volta da casa, entre trinta e quarenta metros de raio. Almoçamos o melhor macarrão estilo Vania e depois leitura e escrita até acharmos a hora certa para sonhar.

Domingo, depois da corrida, plantamos dois pés de jabuticabas, colhi uma jaca (nas fotos), um cacho de banana ouro, terminei a arrumação hidráulica da horta, transpus cavalinhas de um lugar inóspito para a horta; Vania podou uma buganvile que nos impedia de passar em direção ao pomar, carpiu o entorno das roseiras, cuidou de dar formato aos canteiros. Depois afiei as foices, enxadas e facões que serão usados na roçada da semana. Pus a arder a lenha do fogão e com a trempe quente coloquei a assar cinco jogos de coxa e sobrecoxa de frango. Trata-se de colocar algumas peças de tijolo que criam um vão de um palmo acima da trempe aquecida pelas achas. É uma maneira improvisada de assar sem ser direto no calor da brasa; o calor, deste modo, se distribui uniformemente e a carne termina de assar simultaneamente. Fazemos isso um ou dois finais de semana por mês, comendo um jogo cada um no almoço de sábado ou domingo e depois guardamos na geladeira os outros. Nos dois ou três dias seguintes aquecemos um jogo cada e só cuidamos do acompanhamento a base de caldos de legumes, saladas com itens diversos – todos da horta - e arroz integral, sementes de linhaça, especiarias etc. Não devo esquecer os dois coffee-breaks que se tornaram a especialidade da casa, ou de Vania, o que dá na mesmo: no meio da manhã ela prepara um creme a base de suco de laranja pera, bahia, nativa ou tipo pingo de mel, com duas ameixas, linhaça; o segundo, no meio da tarde, com suco de laranjas de vários sabores com mexericas variadas e algo para comer. Ao anoitecer, quase sempre, faço um café com queijos, goiabada cascão e biscoitos. Mais tarde comemos um mini-lanche com chás aromáticos. De fato só fazemos uma refeição, o almoço, ao estilo mediterrâneo, quase sempre acompanhado de uma pequenina dose de bebida alcoólica de boa procedência, vinho preferencialmente. Mas pode ser cachaça, conhaque etc.Bem, terminamos o dia lendo e escrevendo...




Hoje de manhã, sob sol frio e céu de azul claro (azul-bebê?), temperatura ainda aos cinco graus (depois de geada forte em certas partes da serra), fui correr com Kelly Lulu. Nariz ardendo, mãos e pés duros de frio, subi e desci a serra lentamente, para não forçar os pulmões. Depois me adapatei à temperatura - o corpo aqueceu, as luvas foram dispensadas e os pés relaxaram. Ao voltar, mais trabalho braçal; com a roçadeira aparei toda agrama da entrada da propriedade junto a estrada que dá para o Catiguá enquanto Vania rastelava e juntava tudo na beira da estrada. Almocei e aqui estou eu na lan, depois de ir ao museu. V. não pode vir comigo... Daqui vou à companhia de ballet do Luiz Henrique (veja postagem sobre o Teatro). Também farei as compras semanais... Antes de ir para casa passarei na Universidade para assuntos da pesquisa. É isso!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Abelha e o Dentista!

Anteontem, 8 de julho, feriado só em São Paulo saí mais cedo e cheguei ao anoitecer em PA. Já relatei aqui o ritual do Rabicho, pois foi o que logo vi no estacionamento da rodoviária. Vania e seus olhos verde-broto-de-mato-novo me recebeu com seu sorriso acolhedor. Recolhemos o Rabicho e fomos ao Baronesa para comprar algo especial para o fim de semana. Dormimos tarde por causa da excitação de nos revermos depois de algum tempo longe um do outro... Ontem, 9, me dediquei a roçar com Zé Ovídio, um talhão que lhe emprestei para plantar milho e feijão. Um hectare e meio de assapeixes e alecrins do mato que foi pastagem de abelhas tipo apis mellifera scutellata (abelhas africanas), mas que controlaremos e levaremos, no início das águas, para mais longe, para podermos manejar as européias e indígenas, bem como manejar o solo, em novas culturas e pomar. Depois do almoço rearrumei alguns itens domésticos, principalmente uma antena improvisada e eficiente para o rádio e tevê. Sem parabólica, esperando um solução tripla – telefonia, internet e tevê – para um local inóspito em termos de sinais de antenas, pelo menos por hora, vamos assistindo quatro ou cinco canais abertos. A tardezinha, leituras variadas: Continuei Winnicott, em seu artigo “As Raízes da Agressão” (Privação e Delinquência); Lacan (Parte do Seminário 23 – Capítulo A escrita do ego); A cidade antiga de Fustel de Coulanges (pensando em Eni Orlandi quando esta pensa a cidade por meio do discurso); Cidade dos sentidos, de E. Orlandi (pensando a questão do teatro de PA e sua arquitetura como memória histórica). Para ler por prazer, não apenas por compromisso: Situações I de Sartre.

Hoje, em PA, comecei pelo dentista, e todo aquele confortável sentimento de que estou cuidando da saúde e o desconforto de picadas para anestesia, forçamento da boca para que satisfaça as necessidades dos procedimentos etc etc. Felizmente o primeiro é bem mais duradouro do que o segundo! Depois, uma série de problemas a resolver: internet que funcione na serra; algumas emendas com rosca de três quartos para mangueiras de irrigação da horta; encomendar mudas de uvas e jaracatiás; gasolina para a roçadeira; cortar cabelo; biblioteca da Universidade do Vale do Sapucaí; Museu Municipal, Conselho de Psicologia, Atendimentos... Depois, numa lan house, verifiquei e-mails, orkut e coloquei algumas frases que me interessaram na leitura da semana, no blog http://www.levileonel.blogspot.com/

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ônibus e leitura combinam!

As desvantagens de não vir de carro a SP são várias; mas as vantagens são consideráveis! Por exemplo, posso refletir longamente sobre o dia anterior, particularmente o final da tarde de segunda e a noite. Como exemplo, pensei longamente sobre uma reunião da AAEcoMinas, associação que reúne produtores rurais de agricultura familiar e concede um selo do IBD como garantia da procedência e idoneidade dos produtos oferecidos. São ecologicamente produzidos, manuseados, com sementes e processamento que minimizam o desgaste da natureza - e até em certos casos a recuperam, como é o nosso caso no Sítio Serra do Cervo. Juntos, Vania e eu, fizemos um balanço das necessidades de se ter o selo de orgânicos e também o quanto teremos que esperar para essa validação. Pareceu uma boa decisão!
Também gravo ou escrevo um ou outro pensamento sobre textos, sessões de terapia, cuidados com o sítio, a quem devo ligar, mensagens a algumas pessoas que o solicitam etc. Sem esquecer, é claro, que são pelo menos duas horas de leitura sem interrupções (a viagem acontece em três horas de rodoviária a rodoviária). Ao chegar em SP, tinha lido a primeira parte de Privação e delinquência, de D. W. Winnicott, sobre as motivações inconscientes da violência, do roubo e outras atitudes anti-sociais. São leituras que já fiz em 1995, num curso de psicologia e, depois, durante uma longa supervisão de Rahel Boraks. Agora que estou para realizar um curso sobre as tendências anti-sociais, me vi na obrigação de rever cada um dos pontos onde o autor finca sua teoria. A obrigação se revelou, mais uma vez, uma grata satisfação! Resumo, até o final de semana, suas principais elocubrações no blog http://www.levileonel.blogspot.com/ conforme combinado com quem tem interesse em acompanhar minha leitura.
Hoje, ante-véspera de feriado em São Paulo, me fez chegar um pouco antes para compensar as horas da quinta que não trabalharei.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

AAEcoMinas e o Recanto das Orquídeas!

Ontem, domingo, pela manhã lemos – V. continuou o Tratado de ateologia e eu dividi entre textos para minha pesquisa sobre o teatro de PA, um resumo da dissertação para o III Encontro de Estudos da Linguagem, algo de Winnicott, sobre a tendência anti-social; para me distrair li alguns capítulos do livro Vida e criação de abelhas indígenas sem ferrão (Paulo Nogueira-Neto), pois tenho uma criação de jataís e gostaria de reproduzi-las sem as agredir. A tarde fomos ao restaurante Recanto das Orquídeas, nas cercanias de Pouso Alegre, cujos donos, Dito e Lia, foram apresentados a Vania em uma reunião da AAEcoMinas, associação que visa criar condições para que algumas propriedades rurais familiares se certifiquem como produtores de alimentos ecologicamente corretos. O restaurante se localiza ao lado de sua horta orgânica, espalhado pelo quintal de sua ecológica propriedade. Foi, como se diz, uma viagem! O Dito, presidente da associação, homem daqueles localizados no chão do mundo, vive da terra e tem aquela simplicidade que conheci na meninice, olhando para os pais e tios, roceiros e trabalhadores no café do norte do Paraná. Enquanto almoçava conheci seus filhos e ouvi um tanto de seus sonhos de anos, tentando criar uma associação que agora está no rumo final para a certificação. Senti seu orgulho de fazer parte de algo tão dignificante. Como não conhecia Lia fui até a cozinha para ser apresentado a ela, a cozinheira – cálida e aconchegante, sorriso pleno.
Para finalizar o domingo, li um pouco mais de “Vida e Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão” e V. foi controlar formigas saúva e quenquen, um combate diário e paciencioso, pois vencê-las jamais. Estamos providenciando gergelim para espantá-las; segundo algumas pesquisas elas odeiam o fungo que produzem. Estamos pagando para ver...

Hoje podei as videiras de mesa, Itália rosa e branca, Moscatel e outras, Retirei do chão mourões já apodrecidos, aplanei o chão e retirei, a base de enxadão, tocos de assapeixes, que roçamos a foice no começo do ano, no final das águas. Exaustos, almoçamos e fomos a PA para uma reunião da AAEcoMinas, à biblioteca da UNIVÁS e ao supermercado para comprar as provisões da semana.

sábado, 4 de julho de 2009

O Rabicho e a dissertação!

Ontem e hoje passei escrevendo um resumo de minha tese para o III Encontro de Estudos da Linguagem da UNIVÁS, a acontecer em 14 e 15 de agosto. Então tudo que vi da serra foi através de uma janela que emoldura lindas paisagens no horizonte. Por exemplo uma serra denteada na direção dos Fernandes. É show e peço bis toda hora...! Isso vai acabar me atrasando!

Anteontem, quinta, saí de São Paulo com o tempo mudando; uma cálida manhã passou a uma tarde fria e úmida; ao chegar em Espírito Santo do Dourado a temperatura estava ainda mais baixa! Já sei que sempre se conta menos quatro graus que São Paulo, mas desta vez o contraste passou dos dez. Ao chegar em PA, como de costume, fui até o estacionamento da rodoviária, por volta das vinte e duas horas, e lá encontro Vania com o Rabicho, o único dos cães que se atreve a entrar no carro. Na verdade, ele sente grande prazer nisso! Já conhece todas as palmeiras, postes, lixeiras e alambrados disponíveis para uma mijadinha de demarcação de seu território. V. fica ali, pacienciosamente esperando que ele entre no carro (eu idem), para que voltemos todos para casa. Mas o cãozinho tem todo um ritual que inclui ir e vir, girar sobre os calcanhares e erguer uma perna na ida e depois a outra na volta. Uma gotícula de líquido molha um capim mais saliente, depois uma casca rústica de uma árvore.

Como o Rabicho é dirigido principalmente pelo nariz, ao chegar perto do carro o chamo e ele vai na direção das mais diversas pessoas, olhando atentamente no rosto, pra identificar o amigo que tanto adora. Às vezes quase me ofendo com sua incapacidade para me identificar de longe! Não raro, com aquela carinha boba, aquele nariz preto e fino, fica olhando uma mulher tentando ver se não sou eu. Nem mesmo meu sexo ele sabe! Me justifico, já que com ele este argumento seria inútil, que os seres humanos mudam tanto de uma hora para outra, usando roupa, óculos, penduricalhos nas orelhas, cobertura na cabeça, que só resta-lhe confiar em algum traço do nariz, um naco da boca, uns fios de barba e cabelo, um jeito de andar, para se convencer de que conhece quem lhe chama. Então o perdôo por quase nunca saber quem sou eu no meio de outras pessoas. Quando ele se convence de que eu sou eu mesmo, aí é uma festa! Abana o rabo... não, chicoteia o rabo com tal vigor que o corpo todo é usado nesse movimento! Depois se distrai mais um pouco com os postes e flores.

Me esqueci do tempo! Enfim, acho que falava do tempo porque neste momento chove forte e é algo que jamais aconteceu em julho desde que aqui chegamos, quinze anos atrás. É aconchegante, mas um pouco estranho. V. também acha, mas não perdeu tempo e plantou alguns caroços, já brotados, de abacate, nos limites da propriedade, mais precisamente nas terras do vizinho sul, que, aconselhado por nós, deixou uma pequena reserva à volta de suas nascentes. É justamente nesta reserva que V. colocou as sementes em berço esplêndido “para tratar dos bichos que são tímidos demais para virem comer perto de casa!” A chuva aguou o suficiente para os próximos dez dias... (Na foto, a esquerda, nosso heroizinho preto com Vania fazendo suas inspeções diárias no corpinho de Gabi; atrás, partes do Soneca Golden Boss)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Deus x EUA!

Não sou torcedor de um time do coração, como se diz, mas daqueles que só vêem jogos da seleção! Portanto, sou dos que torcem uma ou outra vez, frente a tela de tevê, e isso “coincide” com jogos de copas mundiais ou, como nesse caso, grandes jogos internacionais. Isso produz desvantagens óbvias nas conversas com meus amigos, tal como a da tarde de domingo, em casa de Zé Maria, onde nada sabia sobre seus times de origem, onde jogam, na Europa, no Barein, etc etc. Não tenho hábito de acompanhar time do estado ou da cidade onde moro, mas prometi a mim mesmo que vou fazer progressos nesse sentido, começando por assistir jogos do time de Pouso Alegre! Espero ficar tão ansioso quanto nas partidas da seleção. Brincadeira! Nada pode produzir o efeito futebol em mim, exceto os canarinhos (fora de moda dizer canarinho? Agora já escrevi!).
Mas tem algo que me incomoda profundamente, cada vez mais se repetindo, nestas tentativas de me divertir com o time brasileiro. É que não mais tenho certeza de que estou torcendo por um time de futebol, ou por uma seita cristã em cruzada contra outras seitas cristãs. Desta feita, quando um tal de Lucio marcou seu gol eu não soube se devia admirar sua arte, seu talento no esporte, ou devia desconsiderar o show de controle, a técnica admirável, a precisão absurda, o senso de oportunidade, e cair de joelhos pelo talento de um certo Cristo ou Deus que dirigiram sua cabeça para o feito. Fiquei sem saber se os americanos tiveram menos fé em Deus e por isso foram castigados pela insolência perdendo a partida, no último dia do certame (xi! Isso também está fora de moda; é do tempo do Silvio Luiz!). Ou talvez não soubessem que Deus estava do lado dos brasileiros e seu único destino era o fracasso. Quase me senti ofendido por não me avisarem que competição se tratava. Fiquei longamente em silêncio, olhando aquela manifestação midiática, de uma convicção íntima imposta ao mundo todo; mesmo quem não é cristão ou é ateu, teve que engolir aquela grosseria se quisesse se divertir com sua seleção. Como os não-cristãos ou os cristãos de outras seitas, poderão assistir um jogo laico, pela bandeira do país, e demonstrar seu apreço pelos seus heróis? Afinal, eu assisti uma partida de futebol entre duas seleções de países diferentes se digladiando desportivamente ou dois partidos religiosos provando sua fé à base de chutes na rede do time ímpio? É, no mínimo uma competição de mau gosto, desrespeitosa e deselegante. Gostaria de ser poupado do engôdo de estar torcendo por uma cruzada cristã ao invés de me emocionar com a competição esportiva entre dois times. Me sinto ridículo no final do jogo, sem saber qual era o fim do jogo; qual era o gozo a que devia meu alívio final; a quem deveria brindar?
Fico me perguntando se aquelas camisas com palavras de ordem apareceriam se o time brasileiro tivesse perdido. Um tal de Kaká não agradeceria a Deus por ter perdido a partida? Teria o topete de não mostrar a camisa escrita, desobedecendo seu Deus, achando que o resultado não seria digno de ser inscrito no corpo. Vou dizer! Não sei de que matéria é feita essa turma dos escritos religiosos no corpo; desconfio que desrespeito e deselegância para com o país, trocando uma competição por outra – a esportiva pela religiosa. Bem, como sou torcedor de copa, só daqui doze meses terei que passar por essa bizarrice para ver um bom espetáculo de futebol. Até lá terei esquecido, creio. Neste quesito os americanos deram um show de respeito esportivo! Nenhuma inscrição, que eu tenha visto, que enganasse o telespectador (se bem que perderam, nunca saberemos que inscrições escondiam na manga!).
Ah! Antes de encerrar... Claro que os kakás, lucios, robinhos e outros tem o direito de agradecer a um deus etc, mas eles devem admitir que fica muito difícil imaginar o outro time agradecendo a Deus por ter perdido. Quem perde faz o que com essa informação: “Graças a Deus vencemos!” Devo entender que graças a Deus o outro perdeu? Pelo ridículo da situação preferiria que os jogadores agradecessem em suas igrejas. No campo, só homenagens a sua nação. Por favor, dediquem suas vitórias à nós os brasileiros! O deus de vocês não representa toda a diversidade de crenças do Brasil.

domingo, 28 de junho de 2009

O dia em que Gabi chegou em nossas vidas!























Primeira foto a chuva que se aproximava; segunda Gabi, no dia em que chegou em casa; e as seguintes Gabi hoje.
A tarde de chuva de ontem convidava a algumas horas de leitura; foi o que fizemos. Eu, às voltas com a pesquisa sobre o teatro de Pouso Alegre, lendo sobre Memória (Memória da Língua de Maria Onice Payer), só sendo interrompido pelo prazer de ouvir ao longe o ribombar dos trovões que deslizavam pelas serras do outro lado do vale do Cervo. Ao longe a claridade azul-chumbo das nuvens se confundia com o mesmo azul-chumbo das colinas que nos separam de Santa Rita do Sapucaí. A chuva pesada e reta, sem um toque sequer de vento, molha com sua frialdade todas as milhares de árvores que plantamos no dorso da serra, para que servisse de moradia decente para nós e eventuais animais selvagens. Também para nossos amiguinhos caninos – Rabicho-bicho-nice, Soneca golden boss (o chefinho), a Kelly-lulu-star (estrela que se faz fotografar em todas as ocasiões) e a nova moradora da serra, Gabi-blue (o blue vem dos olhos azuis de uma amiga querida de V). Ficaram a tarde toda em seu confortável canil. Só para constar: canil aberto, sem restrições; apenas nosso comando firme e tranquilo – “todo mundo para casa”. E só. Inclusive Gabi, que sai com suas orelhas desalinhadas, uma para o centro, outra para a lateral, a língua molhada pendente para o outro e vai pelo trilho marcado na grama pelas patinhas macias de todos.
Há mês e pouco, já o disse aqui, V. e eu, num domingo de manhã, fomos fazer uma visita ao Zé Luiz e Vanderléia, no sopé da serra. Ao voltarmos catei alguns lixos entre latas de cerveja, sacos e garrafas plásticas, que “enfeitavam” a estrada que liga E. S. do Dourado ao Cervo e me dirigi para uma lixeira que nós mesmos colocamos ao chegar na região, quinze anos atrás. Trata-se de um latão de duzentos litros, preso a uma viga enterrada no solo, que fica bem na esquina formada pela estrada asfaltada e a estradinha de terra que vai dar em nossa propriedade. Ainda reclamava da insanidade das pessoas que sujam sua própria casa, rabugento por alguém fazer do mundo um grande aterro sanitário a céu aberto, quando ouvi um grito de Vania, já meu conhecido. É um daqueles sons que, no modo dela dizer, saem de seu corpo sem nenhum aviso – uma mistura de espanto, surpresa, prazer, dúvida; às vezes mais um que outro. Olhei e a vi com um cachorrinho nas mãos, de cores e aspecto que bem podia ser confundido, a certa distância, com um ouriço, um gambá, uma raposa, um gato; mas não, se tratava de um cãozinho; um filhotinho mortalmente assustado. Certamente lá estava quando descemos a serra, mas sua localização, bem atrás do latão de lixo, entremeio ao capim da mesma cor de sua pelagem, bem como sua obstinação em não se mexer, fez com que não o víssemos.
Por alguns segundos V. aninhou o bichinho no colo, pois estava frio e sua malha lhe pareceu quente e acolhedora. Imediatamente, sem refletir, decidimos que ele iria conosco. Mas havia um problema a enfrentar com delicadeza. Ele estava definido a esperar ali por seus antigos donos. Por uma lógica muito própria sabia que devia ficar ali por que fora naquele lugar que tivera a última visão de seus donos amados. V. chamou-o com sua mais doce voz, para que pudesse dar-se a desistir daquela espera infrutífera. E ele ali parado, tentando se esconder mais ainda. Tentou uma segunda vez levando-o mais alguns passos estrada acima; mesmo resultado. O filhotinho voltava amedrontado para seu nicho improvisado, deitando-se exatamente onde o deixaram na noite anterior. Víamos seu desespero, a fome na barriga encurvada, aquele nariz comprido e olhos meigos e entristecidos, olhando para nós e dizendo: “Não, não devo, ainda há esperança!”. Mas não havia... Quem o deixou fez uma delicada coleira de capim e uma pequena corda, também de capim, que fora presa por uma pedra. O intuito era óbvio; não deixar que fosse atropelado até que uma gente qualquer por ali passasse e o resgatasse. Fora o último ato de amor de seus donos. E o cãozinho ali, obstinado em esperar, com seu nariz longo e triste; as últimas esperanças por se esvair. Cedemos as evidências – o cãozinho não iria conosco espontaneamente; peguei-o no colo e descobri, erguendo seu corpinho peludo com delicadeza, que era “ela”. Ele era ela e nos pareceu mais aflitivo ainda que uma cachorrinha passasse por drama tão radical. Talvez por acharmos, com ou sem razão, que as fêmeas são mais apegadas ainda que os machos ao seu território, à casa, sabe-se lá. Depois de algum tempo, coração apertado, sem sucesso com nossos incentivos, com meus melhores gestos, retirei-lhe devagar a coleira improvisada – o último carinho, a última onda de cheiros de seu dono. Mijou de medo, olhando para o latão de lixo e o matinho tão seguro, embora pouco promissor. Acho que me odiou, naquele momento. Eu era a pior coisa que podia lhe acontecer... Resolutamente, ainda que pesando seu desespero, decidimos ir embora, e ela encolhendo as orelhas, revoluteando em meu colo, tímida, triste, triste, sabendo que não podia sair dali... Se esforça por descer e voltar ao matinho que era sua referência de vida. E eu, vem com a gente, que temos comidinha!, passando muito devagar as mãos sobre sua lanugem para não assusta-la ainda mais. Disse, filhotinho, você deve preparar-se para uma nova vida, por que a que teve até agora nunca mais viverá. Mais para mim mesmo do que para ela. Sabia que não alcançava nada do que dizia. Sabia que fora amada, cuidada, mas agora chegara a hora de tomar outros destinos. Esperei, naquele momento, que pudéssemos dar uma vida que fosse condizente com ela. Talvez a Serra do Cervo viesse a se tornar um lugar onde pudesse edificar seu corpinho e desvelar todos seus potenciais...
No mesmo instante, antecipando todas as horas de preocupações, cuidados e prazeres, que a filhotinha nos daria, Vania inspecionou-lhe as orelhas e pelagem e chegou a conclusão de que não havia doenças, pulgas ou sujeiras. Seus antigos donos banharam-na, pentearam-na e a alimentaram, como um meio de garantir que alguém se seduzisse por ela!
De jeito nenhum aprovamos que se soltem filhotinhos, nas estradas e ruas de cidades; até mesmo achamos que se deve punir a irresponsabilidade dessa prática-crime, prevista na lei. Achamos, por uma lógica nossa, que os mesmos que jogam lixo na rua emporcalhando o mundo, são os que descuidam dos bichos que dizem amar. Pode não ser uma lógica rigorosa, mas, futuramente, ao contar a saga do Rabicho e do Soneca, espero demonstrar uma das maneiras mais comuns de como isso se dá.

Bem, e foi assim que começou nossa história com Gabi, de Gabiroba, não de Gabriela, por favor!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Grapefruit! (toranja ou pomelo) E a goiabeira!









Manhã de sexta, 26. Hoje fotografamos o setor das laranjeiras, enquanto cuidávamos de deter as brocas, pela segunda vez desde que começamos a limpeza do pomar. Se não me engano, sob o título “O pomar” descrevi esse nosso afã. Descrevi os braços descarnados, sem cobertura de pele viva, num clamor aos deuses dos cítricos, que ficou sem resposta. Os dedos compridos e tristonhos da laranja grapefruit, lá encima, parecem invejar a amiga logo atrás com grandes frutas ovaladas, de um verde amarelado e cheiro amargo. Se pudessem restituir-lhe o viço certamente ficaria ali parada, movimentada apenas pelos ares e ventos e brisas da serra, exibindo nas pontas de seus dedos uma fruta mais pesada que a outra, para inveja das macieiras, pereiras e marmeleiros que se apressariam em mostrar suas qualidades. Agora, sua amiga grapefruit viverá sozinha, sem poder competir pelos bicos e garras de pássaros, ou pelas abelhas, arapuás e marimbondos pousando em suas grandes flores jasminadas... A não ser que algum humano intervenha e, disfarçado de deus das laranjeiras lhe dê uma companhia! Isso é bem possível. Aí, neste momento mágico, os dedos, mãos, braços, troncos, da malfadada amiga servirão de energia para a nova moradora da serra. Talvez esse humano, tomado pelo delírio da vida, plante as escondidas, a noite talvez, para que de manhã ela leve um susto com a chegada da nova amiga. Ah! Bom! Isso já é demais. Como disse Sartre em algum lugar, entre nós e a natureza não há comunicação. Aliás, ele era urbano até os ossos, não ia tolerar essa conversa sobre bosque, serra, árvore clamando etc! Grapefruit, só no uísque! diria. Minha admiração por ele o perdoaria, certamente. De qualquer modo, essa fruta da Malásia, tanto a de caldo branco, quanto a de caldo roxo, é comestível e sua polpa dulçamara pode ser usada na preparação de um delicioso refrigerante e as cascas servem para doces em calda ou secos. Seu uso medicinal mais acentuado é contra os problemas urinários. De início, antes de qualquer coisa, o que gosto mesmo é do cheiro exuberante das pétalas jasminadas de suas grandes flores. Eu, Vania, as abelhas e concorrentes...

Um melhor destino para a goiabeira!
Enquanto eu estava em São Paulo, Vania cuidou de melhorar a vida de algumas árvores. Das cabeludinhas, amoreiras, anoneiras, tamarindeiros e, claro, de uma goiabeira em particular, que estava condenada a morrer, por ataque das brocas. No ano passado, enquanto estávamos em SC ela deitou-se de lado para descansar da anemia que a acometeu. Por um desses combates entre espécies, as brocas foram derrotadas e bateram em retirada em direção aos limoeiros e laranjeiras. A goiabeira com parte de suas raízes ainda vivas, vinha conseguindo, verdade que a duras penas, brotar umas folhinhas bem verdes, aqui e ali, em seus galhos de mármore róseo. Essa teimosia foi recompensada com a serra de seus galhos já mortos, limpeza do chão e a chega de material orgânico em suas raízes, escondendo-as dentro do chão. “Isso vai virar doce, suco de goiaba e creme para acompanhar os assados no fogão a lenha!” comentou V. apontando para um filhote de goiaba já deslizando pelo vão de um dos brotos. Acho que sua premonição tem toda a chance de acontecer!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Surfando uma onda de ombros!

Fora do metrô e já me deparo com uma parede humana! Centenas de pessoas apinhadas antes das escadas no Jabaquara, descendo lentamente, como se estivessem acompanhando um morto. Isso me lembra as procissões de féretros em Apucarana, eu ainda menino, olhando de soslaio, de canto de olho, o caixão de algum vizinho que desaparecera, sem mais o quê. Podia me aproximar o suficiente para ver algum canto de rosto macerado, mortalmente pálido... E aquele povo andando devagar atrás do morto... E isso me lembra a vó Pina bem acomodada em seu caixão no centro da sala de tia Isaura, e eu mal acomodado na existência, achando que depois não viria mais nada de bom! E não é que veio! E isso me lembra... esquece! Volto ao metrô.

Olho para frente e vejo uma onda de massas arredondadas, formando ombros, encimadas por globos cranianos com uma profusão de cabelos alinhados, desalinhados, crespos, lisos, ondulados. Aquela movimentação para-lá-para-cá, compassada, de acordo com um passo ladeando para a esquerda, de acordo com outro para direita, formando uma onda, mais ou menos organizada. Do alto dos meus cento e sessenta e três centímetros, fora sapatos, posso ver umas caixas cranianas privilegiadas que flutuam a cerca de trinta centímetros da massa, surfando uma onda de cabeças e ombros que deslizam para lá, deslizam para cá, todo mundo tentando ver o que acontece. Algumas bem humoradas cabeças sacam seus celulares e brotam braços que se erguem acima das cabeças flutuantes, até mesmo daqueles que surfam nossas cabeças rentes a seus sovacos, e clicam. Talvez esperem mostrar para sobrinhos, filhos, netos como foi o dia. Um certo clicador me pareceu tentar uma foto artística; outro, uma foto para o patrão!

Uma voz masculina, compassada, clara, timbre audível, estilhaça o relativo silêncio: O SERVIÇO ENTRE LIBERDADE E SÉ FOI NORMALIZADO! AGRADECEMOS SUA COMPREENSÃO! Ninguém parecia ter ouvido! Nenhuma reação. Apenas um sujeito, destes cujo mau-humor é sempre uma lufada de ar fresco: OBRIGADO SENHOR! FICO MUITO TOCADO POR SUA CONSIDERAÇÃO! (olhando o relógio e meneando a cabeça).

A onda continua, as cabeças bem localizadas surfando as nossas. De repente uma cabeça que repousa em uns ombros de metro e meio tenta furar a onda! Um daqueles ombros gigantes, com cabeças grandes, volta-se lentamente, fixa os olhos castanhos nos olhos do pequeno ser lá embaixo, manda-lhe um raio de fúria contida e esfacela as pretensões do baixinho. Tudo volta a normalidade. A onda continuou sem surpresas e passou pelas catracas deslizando para baixo da terra...